Após a defesa, o abraço de Rose Ferreira (banca examinadora), Joelma Baldez, João Victor e Cledilson Rocha (autores), Ed Wilson Araújo (orientador) e Saylon Sousa (banca examinadora)
Obteve nota 9,0 o TCC dos alunos do Curso de Rádio e TV da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Cledilson Silva Rocha, João Victor Macedo Sousa e Joelma Santos Baldez, intitulado “Um oásis no meio do caminho: documentário radiofônico sobre o bairro João Paulo.” (veja no final os links para ouvir)
A pesquisa tomou como objeto de estudo um dos territórios mais tradicionais de São Luís, o bairro João Paulo, no passado denominado “Prado”.
Na modalidade projeto experimental, a pesquisa apresentou a fundamentação teórica e um produto – documentário radiofônico em quatro episódios – abordando o processo de formação histórica, econômica, religiosa, as vivências comunitárias, os espaços de formação política e cultural do bairro.
O trabalho foi orientado pelo professor Ed Wilson Araújo e teve a banca examinadora formada pela professora Rose Ferreira e o docente Saylon Sousa.
A peça documental sistematizou informações bibliográficas e depoimentos de várias personagens marcantes na história do bairro, a exemplo dos fazedores de cultura, empreendedores, lideranças comunitárias, educadores, guardiãs das memórias integrantes de espaços de resistência como o Centro de Cultura Negra, a Feira do João Paulo, a Escola de Samba Mangueira e a tradicional Festa de São Marçal (encontro de grupos de bumba-meu-boi de matraca no encerramento do período junino)
O TCC também propôs as formas de inserção do documentário em emissoras públicas, incluindo as rádios comunitárias, como forma de atender às exigências da modalidade projeto experimental, visando dar visibilidade à peça prática da pesquisa.
Ouça abaixo os quatro episódios (pela ordem: 1, 2, 3 e 4)
Jornalistas e historiadores lidam com insumos comuns: os fatos, as informações, os relatos e as interpretações.
Essa matéria prima, trabalhada, elabora os registros que ao longo do tempo viram referência para o conhecimento da realidade.
Se um estudante do Ensino Médio que se prepara para o Enem acessar hoje a maioria dos sites de notícias e postagens (até de respeitadas pessoas públicas nas redes sociais!), vai se deparar com a celebração de uma personagem – José Sarney – associada à redemocratização do Brasil.
A personagem também é retratada como uma referência de virada histórica vinculada aos princípios republicanos e às boas práticas da política.
É quase uma unanimidade, construída com imprecisões históricas, boa vontade, elogios e bajulações descaradas.
Faz sentido dizer que o então vice-presidente José Sarney, em 1985, foi sim o condutor do processo de transição da ditadura para a democracia, no contexto do Colégio Eleitoral, em circunstâncias muito especiais após a morte do presidente Tancredo Neves.
Naquela época, meados dos anos 1980, o Brasil estava dividido em dois campos políticos: o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), reunindo a heterogeneidade das forças progressistas em prol da abertura política; e a Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido criado pela ditadura militar para abrigar as velhas elites do Brasil escravocrata e corrupto.
O MDB defendia eleições diretas para presidente, um grande movimento popular denominado “Diretas Já!”.
A Arena, obviamente, era contra as eleições diretas.
E onde José Sarney fez carreira na política? Na Arena, reduto de tudo que não prestava do regime militar.
Como já dito, ele chegou à Presidência da República de forma atípica. Era vice-presidente na chapa de Tancredo Neves, que morreu antes de assumir o mandato.
José Sarney tomou posse em 1985 e conduziu a transição democrática.
Não há como negar esse fato consumado nos autos da burocracia do Congresso Nacional.
Mas, uma coisa é esse registro. Outra coisa é anistiar José Sarney das suas vinculações históricas com o campo conservador e a extrema direita remanescente de 20 anos da ditadura militar que ele ajudou a manter.
Isso também está nos autos.
Reitero: não há como negar que houve a transição de um regime de exceção (ditadura) para a retomada do Estado Democrático de Direito. É um fato incontestável, com um detalhe: naquele Colégio Eleitoral de 1985, a chapa Tancredo Neves/José Sarney foi batizada de Nova República, nome pomposo para rebatizar a velha burguesia no poder.
José Sarney costuma dizer que não teve inimigos. É verdade sim! Ele teve amigos, correligionários, parceiros e aliados, todos afinados à multiplicação das injustiças, das desigualdades e da miséria.
Entre os amigos constam alguns que merecem destaque, como registra o importante texto da Agência Tambor:
“O general Leônidas Pires Gonçalves foi Ministro do Exército no governo de José Sarney, entre 1985 e 1990.
Antes disso, entre 1974 e 1977, Leônidas dirigiu o Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), no Rio de Janeiro.
Foram agentes desse mesmo DOI-CODI do Rio de Janeiro que, em 1971, sequestraram, torturaram, mataram e deram sumiço ao corpo do engenheiro civil Rubens Paiva, cujo drama foi exposto no filme Ainda Estou Aqui, recentemente premiado no Oscar.
[…]
Ocupando o cargo de Ministro do Exército no governo de José Sarney, em 1985, o general Leônidas divulgou uma nota pública em defesa de Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Coronel do Exército, Ustra atuou no DOI-CODI de São Paulo e, a partir de 1985, passou a ocupar cargo no governo de José Sarney, inicialmente como adido militar na embaixada do Uruguai. Lá, foi reconhecido e denunciado como torturador.”
Cabe mencionar também outro relevante amigo de José Sarney: o oligarca da Bahia Antônio Carlos Magalhães (ACM), que foi Ministro das Comunicações e conduziu a chamada farra das concessões de canais de rádio e televisão para os amigos dos amigos do presidente no Congresso Nacional.
O episódio foi um dos grandes escândalos de patrimonialismo e clientelismo do Brasil, usando as concessões públicas para beneficiar grupos privados de comunicação, criando o chamado “coronelismo eletrônico”.
Foram distribuídas 1.091 concessões para emissoras de rádio e TV, parte delas servindo como moeda de troca aos parlamentares que votaram a favor do mandato de cinco anos de presidente para José Sarney.
Inimigo mesmo ele só teve um: o povo. Basta olhar o Maranhão, um pequeno recorte do Brasil, onde a pobreza e a miséria seguem firmes.
Em tempos de desinformação, cabe ao Jornalismo e à História fazerem os devidos registros ajustados aos fatos, nas suas conjunturas, sem perder de vista a estrutura do Brasil colonial e escravocrata.
Diante do crescimento vertiginoso da extrema direita em escala mundial, muitos fazem parte da legião da boa vontade que coloca José Sarney entre os grandes democratas brasileiros.
Por causa de um “inimigo maior”, o bolsonarismo, o campo progressista vai ajustando a narrativa e os arranjos da política para inserir o último coronel do Brasil na galeria da democracia.
São tempos difíceis, mas, em síntese, tem um José Sarney falseado e o verdadeiro. Este último foi amigo do general Leônidas Pires Gonçalves e do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Vou ficando por aqui ajustando um bordão apropriado para nosso tempo.
Sem anistia para os golpistas.
E sem anistia da História para os parceiros, amigos e correligionários dos golpistas de sempre.
Imagem destacada: José Sarney e o general Leônidas Pires Gonçalves: amigos da ditadura militar. Fonte: Agência Tambor
(2ª reportagem especial da série sobre os sebos de São Luís)
Todas as imagens foram cedidas pelo perfil @sebodoarteiro
Ele já foi seminarista, bancário, comerciário das Casas Pernambucanas, vendedor de cachorro quente na praça Deodoro, sindicalista, empresário e sebista. De todas essas profissões, o livro sempre esteve presente na vida de José Arteiro Cordeiro Muniz, um dos mais antigos sebistas de São Luís.
Não há um consenso sobre os usos da expressão sebo. Ela pode servir para designar algo surrado, usado. A pessoa desse ramo de atividade é também designada como alfarrabista ou vendedor de obras antigas. No geral, sebo é o lugar de venda, compra ou troca livros, discos, revistas e filmes usados e faz referência a algo ensebado ou velho de tanto uso e manipulação ao longo do tempo. (leia aqui a reportagem sobre o “sebo promíscuo” Chico Discos)
O Sebo do Arteiro, hoje localizado na rua do Sol, 441B, no Centro Histórico, agrega livraria e também um restaurante self service, mas tudo começou no povoado Centro do Meio, em Pio XII, município da Região Central do Maranhão.
Juventude na fachada do atual endereço, na rua do Sol, Centro Histórico
Parte do gosto pela leitura veio pela influência do seu pai, um cearense ligado às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica que gostava de livros e o pequeno Arteiro se interessava pelas histórias de cavalaria. Quando frequentou o seminário católico, em Bacabal, teve acesso à biblioteca dos padres. “Foi lá que encontrei a primeira edição do livro ‘A terra é nossa?’, onde havia uma entrevista com Manoel da Conceição, uma lenda da luta camponesa do Maranhão”, pontuou Muniz.
As leituras na biblioteca do convento e da prefeitura tonificaram a sua vida em uma cidade pequena, depois turbinada quando mudou para São Luís.
Clientela de esquerda
Morando na capital, suas experiências como livreiro “ambulante” começaram na década de 1990, quando fornecia livros e revistas para professores universitários, estudantes e militantes da esquerda e nos eventos do campo progressista. Certa vez, os sindicalistas Washington Oliveira e Cândida da Costa deram a sugestão para eu fornecer livros e fui tomando gosto”, lembrou.
Entre tantas atividades, foi vendedor de loja de roupas e se envolveu na construção do Sindicato dos Comerciários, uma entidade forte nos anos 1990 em São Luís. Já filiado ao PT, ele começou a vender botons e a badalada da revista Teoria & Debate, além de obras das editoras Perseu Abramo, Contraponto e Xamã.
Arteiro, antes do sebo, foi “banqueiro” na UFMA
Da venda ambulante passou a um ponto fixo, em uma antiga banca do cantor e compositor Josias Sobrinho, localizada no Centro de Ciências Sociais (CCSo), o Castelão, do campus do Bacanga, na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), onde o seu irmão, Armando Muniz, também implantou a livraria “Prazer de Ler”, até hoje na ativa, no Centro de Ciências Humanas (CCH).
Na banca da UFMA ele ampliou o número de editoras e começou a atender pedidos sob encomenda dos clientes universitários. “A diferença entre ser funcionário de um banco e de uma loja de confecções é que nesses lugares você tem clientes e no ramo de livro faço amigos”, detalhou.
Livraria Atenas
O aprendizado como empresário ocorreu na criação da Livraria Atenas, quando passou a trabalhar com cerca de 100 editoras, em um prédio alugado, na esquina da rua do Sol com São João. O negócio expandiu até a implantação de uma filial em Imperatriz, que na época despontava como pólo universitário e tinha a motivação do escritor e proprietário da Editora Ética Adalberto Franklin.
Cliente fiel na Livraria Atenas
Mas, a crise econômica de 2008 e um imbróglio com um imóvel no Centro Histórico abalaram as finanças e a Livraria Atenas quebrou, deixando boas memórias.
De empresário ele passou a empregado. Teve uma rápida passagem como funcionário de uma grande rede de livraria em um shopping de São Luís. Depois foi para Porto Velho, onde tentou montar um sebo. Não deu certo e voltou para a Ilha do Amor, onde montou um restaurante e agregou a sobra do acervo da antiga Livraria Atenas. Nesse ponto atual ele já está fixo há 15 anos, congregando sebo, livraria e restaurante.
Sebo na rua do Sol é também restaurante
Para Muniz, o comércio de livros, revistas e discos não é só um lugar onde as pessoas vão comprar ou vender artefatos analógicos e sim um espaço educativo e ponto de encontro de amigos, leitores e curiosos. Na perspectiva pedagógica, uma das iniciativas da Livraria Atenas foi a sessão de cinema que chegou a exibir o documentário “Democracia em vertigem”, sobre o golpe contra a então presidenta Dilma Roussef.
Livraria Atenas reunia amigos(as) leitoras em eventos e bate papo descontraído
Outra característica é a itinerância. O sebo, além do ponto fixo, participa de diversos eventos nos espaços da cidade, como as feiras de livros usados, exposições, eventos políticos e culturais. “Já estou me preparando para a 1ª Feira do Livro da Área Itaqui-Bacanga, de 8 a 10 de agosto, na praça do Anjo da Guarda”, anunciou.
Quanto ao público e repertório de obras, em síntese, é variado. Livros novos e usados de áreas diversas são sempre comprados e vendidos, além de discos de vinil, CDs, DVDs e revistas de quadrinhos (HQs). Em algumas ocasiões o acervo é revigorado com a aquisição de bibliotecas particulares de pessoas falecidas.
O poeta Celso Borges sempre presente nas itinerâncias dos sebos
Arteiro Muniz, o jornalista Zema Ribeiro e o professor sebista Natanael Máximo (Natan) em uma das feiras de sebistas de São Luís
Os preços variam. “Certa vez fiz uma queima de estoque vendendo livros por R$ 1,00 (um real). Foi sucesso total. “Tinha cliente que comprava 10 livros de 1 real e lá no acervo principal adquiria mais 100,00”, detalhou. Além das promoções, o empreendimento também faz doações para pessoas físicas e bibliotecas.
Valorização dos sebistas
Questionado sobre a viabilidade financeira do sebo, Arteiro Muniz afirmou que a sua gangorra empresarial, cheia de altos e baixos, é fruto de uma paixão por livros onde não cabe o planejamento empresarial rigoroso.
Ele reclama também do apoio do poder público. Experimentado no ramo livreiro, o sebista tem uma relação de amor e ódio com a Feira do Livro de São Luís (FeliS), o maior evento do ramo livreiro na capital.
O economista ludovicense Antonio Vieira mora na Espanha, mas sempre que vem ao Maranhão mata a saudade do Sebo do Arteiro
Sebo do Arteiro: o eterno retorno anunciado nas redes sociais
O ideal para a FeliS, pondera, seria uma relação mais participativa entre a organização, os livreiros e os sebistas e também uma dotação orçamentária exclusiva para o evento. A concepção da feira já vem pronta da administração municipal, sem diálogo prévio com as pessoas que vivem da atividade comercial do livro, aí somos obrigados a aceitar”, advertiu.
Ele avalia que a perseverança deu mais visibilidade aos sebistas nas duas últimas feiras, mas nada extraordinário, considerando quase duas décadas da FeliS.
Com a experiência de quem já esteve dos dois lados do balcão – empresário livreiro e sebista – Arteiro Muniz faz as contas e opta pelo sebo. O comércio do livro, controlado pelas grandes redes dos shoppings e as gigantes tipo Amazon, tornou inviável a sobrevivência das livrarias tradicionais e as outras de médio e pequeno porte, por isso os sebos são mais viáveis. “No sebo, o preço e a multiplicidade das opções de livros novos e usados, além das outras mercadorias, ajudam a manejar e dinamizar as vendas”, explicou.
Em São Luís, restam poucas livrarias e os sebos se multiplicam, tanto quanto as amizades e as novas gerações de leitores e leitoras, conectando pessoas, conhecimento e esperança.
Nesse mundo transtornado pelo negacionismo, o neto de Arteiro, Miguel Veras, cresce no encantado mundo de papel idealizado pelo avô.
O programa teve a participação especial do poeta Paulo Furtado, interpretando uma das mais belas crônicas do escritor Humberto de Campos, intitulada “Macacoeira”
Uma longa viagem pelas memórias e estórias contadas por moradores de várias gerações do povoado Cedro, localizado no município de Humberto de Campos, emocionou os ouvintes da rádio comunitária Mapari FM, no último sábado (17 de julho).
Ao longo do programa Mapari em Debate, apresentado pela professora Laury e Erick Viegas, com produção de Fernando Cesar Moraes, a emissora veiculou vários depoimentos de humbertuenses que falaram sobre as suas memórias da infância e da juventude, bem como das atualidades do Cedro.
Ouça o programa completo abaixo:
Programa Mapari em Debate finalizou com a crônica Macacoeira. Ouça no tempo 1:29:12 no audio
Os relatos mencionaram personagens antigas do povoado, algumas já falecidas, outras ainda vivas, relacionadas aos “velhos tempos”, quando aquelas terras eram acessadas apenas por embarcações.
Hoje em dia chega-se ao Cedro com facilidade em qualquer tipo de veículo.
No passado, quando não havia estrada, os cedrenses aventuravam-se nas lanchas que saíam de São José de Ribamar para os municípios de Humberto de Campos e Primeira Cruz, em viagens longas, atravessando três perigosas baías, com duração de até 10 horas cada viagem.
Através da rádio Mapari FM muitas histórias e memórias conectaram os ouvintes e os participantes através do tempo com as lembranças de fatos históricos vivenciados nas dunas, lagoas e em toda a biodiversidade do Cedro.
O encerramento do programa teve a participação especial do poeta Paulo Furtado, interpretando uma das mais belas crônicas do escritor Humberto de Campos, intitulada “Macacoeira”.
Do ponto de vista histórico, Humberto de Campos e o vizinho município de Primeira Cruz, assim como Icatu, foram palco da disputa entre Portugal e França, no início do século XVII, quando as forças lusas comandadas por Jerônimo de Albuquerque e os franceses liderados Daniel de La Touche disputaram o controle do território brasileiro (veja abaixo).
Na Literatura, Humberto de Campos, a cidade, foi batizada em reverência ao seu mais ilustre escritor, autor de uma obra relevante.
Todo esse conjunto de qualidades precisa ser mais explorado pelos gestores da região, incentivando o turismo de lazer e cultural na perspectiva da economia criativa.
A rádio Mapari FM está fazendo um importante trabalho nesse sentido. Comunicação, cultura e educação precisam andar de mãos dadas e o programa Mapari em Debate já presta um relevante serviço à cidadania.
Imagem destacada / vista do porto de Humberto de Campos
Pouco tempo antes do estouro da pandemia covid19, em uma roda informal de conversa entre jornalistas e professores universitários, um atento observador da cena política local soltou esta frase emblemática: “quer saber como se movimentam os políticos do Maranhão(?), basta olhar as fotos no PH”.
A sentença foi dita no contexto das alianças e desavenças comuns à maioria dos partidos políticos turbinados pelo pragmatismo eleitoral, selando acordos e conchavos entre legendas supostamente divergentes.
O autor da “tese” remetia às páginas coloridas da maior expressão do colunismo social – Pergentino Holanda – cujas iniciais “PH” passaram a ser uma grife para designar “o poder” no Maranhão.
Embora aparentem intrigas nos palcos eleitorais, às vezes trocando acusações com adjetivos do futebol de várzea, as lideranças políticas tradicionais sempre aparecem sorridentes nos banquetes do PH, retratados nas páginas esparramadas em elogios mútuos traduzidos nas legendas das fotografias.
Os cientistas políticos deviam atentar para certos lances ainda presentes no caderno dominical mais glamuroso do jornal de José Sarney (O Estado do Maranhão), onde quase todos os gatos são pardos: políticos, empreiteiros, desembargadores, juízes, promotores, lobistas, socialites, profissionais liberais e negociantes em geral.
Para além disso, a coluna e o caderno especial do PH são recheados de textos literários valorosos e informações preciosas conectadas ao mundo real sobre os três poderes no Maranhão.
Já o povo, movido pelas paixões, nem sempre capta que as supostas disputas ferrenhas travadas no palco eleitoral dizem quase nada sobre divergências de fundo entre as elites que dominam os cofres no Maranhão em um frenético modelo clientelista desde os tempos de Benedito Leite.
Mas, algumas coisas mudam e outras desaparecem. O colunismo social, no formato impresso, está prestes a entrar para o obituário da comunicação. As versões digitais dos jornais não cumprem a mesma função mercadológica, política e estética do produto impresso para efeito do glamour.
Os famosos, nome novo para designar socialites ou emergentes, têm a sua própria coluna social (perfil) nas redes digitais. Um(a) influencer, sem derrubar um pé de eucalipto, vale mais que a tiragem de muitos jornais de papel somados.
Houve mudança não só na forma – do impresso para o digital – mas também no conteúdo e na visibilidade dos(as) atores(as).
Colunismo social era uma seção de jornal até então pertinente aos endinheirados e/ou vinculada aos círculos do poder formal. Com o advento das plataformas digitais, surgiram novas iniciativas com enfoques diferenciados remodelando o conceito de visibilidade na comunicação outrora associado apenas aos ricos.
No Maranhão cabe mencionar duas ações promissoras, não exatamente conexas à perspectiva de colunismo social como forma de glamourização do chamado poder oficial.
Refiro-me à ideia genérica de colunismo social para situar dois experimentos de Jornalismo fora da mídia de mercado, mas bem posicionadas no ambiente digital: o site Agenda Maranhão e a Agência Tambor.
Cada qual com a sua especificidade, eles põem para desfilar no palco do espaço público atores(as) sociais geralmente silenciados ou esquecidos no agendamento midiático.
Navegando no campo da comunicação alternativa, a Agência Tambor produz diariamente um jornal transmitido na web e protagonizado por fontes autorizadas geralmente excluídas dos critérios de noticiabilidade da maioria dos meios de comunicação.
Pelas redes sociais da Agência Tambor fluem a comunidade GLBTTI, quilombolas, quebradeiras de coco, indígenas, artistas e militantes dos movimentos sociais, gente das periferias, fazedores(as) de cultura, educadores(as), agitadores e agitadoras de muitas causas nobres, entre tantas outras personagens.
O “colunismo social” da mídia alternativa está materializado nos famosos cards que apresentam a fonte entrevistada do dia, fartamente distribuídos nas redes sociais. Quem não era visto nem lembrado nas grandes empresas de comunicação tem agora um tambor para tocar.
A panfletagem eletrônica dos cards da Agência Tambor, guardadas as devidas proporções, tem aproximações com um novo tipo de colunismo social, embora a força conceitual expressiva seja o Jornalismo.
Já no site Agenda Maranhão a personagem principal é o Centro Histórico de São Luís, dando visibilidade a um território da cidade com as suas personagens, arquitetura, fazeres e saberes. Trata-se de um site especializado em Jornalismo Cultural outrora marcante no impresso.
A cidade em revista nas fotos antigas da Agenda Maranhão
O teórico dos Estudos Culturais latino-americanos Martín-Barbero tem um ensinamento precioso sobre a relação entre a produção e o consumo de bens culturais que pode ser aplicado às duas experiências mencionadas: a fruição das audiências.
As entrevistas da Agência Tambor, feitas ao vivo, são posteriormente transformadas em podcast para ouvir a qualquer tempo, arquivadas em plataformas digitais. Esse sentido da memória está presente de outra forma no site Agenda Maranhão, em um percurso às vezes inverso, quando atualiza imagens antigas meticulosamente estudadas na perspectiva da História da Fotografia.
Assim são os arquivos. Servem para guardar e revelar, estando sempre vivos como pulsação de memória.
Os usos da tecnologia mobilizam sentidos e gerações distintas nas apropriações feitas por uma rádio web (Agência Tambor) e um site (Agenda Maranhão), este com expertise em imagens analógicas – fotos antigas – atualizadas no contemporâneo.
Através da memória, as publicações vão reconstituindo a cidade velha conectada às mudanças atuais do tecido urbano. Misto de Jornalismo e entretenimento, o site Agenda Maranhão conecta o seu público ao passado saudoso da São Luís que não existe mais, a não ser na lembrança atualizada pelas fotografias puxadas no tempo.
O Jornalismo Cultural do Agenda Maranhão abraça com sensibilidade as cenas da cidade: pessoas comuns, casarões, sobrados, ruas, becos, situações cotidianas, traços provincianos e universais do território Centro Histórico.
Pesquisa de imagens é um dos focos da Agenda Maranhão
Cada qual a seu modo, as duas experiências reúnem as suas audiências mobilizadas na prática cultural do consumo (Martín-Barbero). Na pegada política do tambor rufando a tônica é o conflito, sem perder a ternura das pautas afetivas. Agenda Maranhão, por sua vez, mexe com os sentidos do seu público envolvido nos detalhes preciosos das fotos garimpadas no passado.
Vale sempre lembrar aquela alegoria da fênix associada ao Jornalismo. Segundo a mitologia egípcia, era uma ave que durava muitos séculos e, queimada, renascia das próprias cinzas.
Como forma de conhecimento da realidade, o Jornalismo costura os acontecimentos na linha do tempo. O que é notícia hoje, amanhã é História; e os fatos históricos, atualizados, são notícias contemporâneas.
Agenda Maranhão e Agência Tambor são palcos eletrônicos onde as pessoas se encontram. Está em curso um novo tipo de glamour, protagonizado por gente pobre e cidade velha pautados por memória, História e política.
Em primeiro lugar, é preciso dizer: as obras do PAC Cidades Históricas melhoraram o visual deplorável da praça Deodoro e da rua Grande, da praça João Lisboa e do largo do Carmo. Objetivamente, são mudanças essenciais, necessárias e cobradas faz tempo.
No entanto, passíveis de observação e crítica no intuito de provocar reflexão sobre as alterações no espaço urbano, assunto de interesse coletivo.
A crítica incide sobre a forma e o conteúdo das intervenções, em sua maioria feitas sem a participação das pessoas direta ou indiretamente afetadas pelas obras: moradores, frequentadores, comerciantes etc.
Há pouco diálogo entre os executores das obras e a população. Tão grave quanto a verticalidade na execução dos projetos é a falta de informações sobre a utilização do dinheiro público nas construções.
Uma cidade sem participação e transparência, dois aspectos fundamentais da gestão púbica democrática, deixa muito a desejar.
Sem mediações, as obras são tocadas de cima para baixo, atropelando o direito do cidadão de opinar sobre as alterações nos territórios de uso comum.
Certas obras violam até os conceitos e marcas simbólicas da cidade, configurando uma renovação que apaga a memória e destitui a urbe das suas pulsações humanas constituídas pelos sedimentos da matéria política, histórica, econômica e cultural.
Tomamos como primeiro exemplo a gloriosa reforma do complexo das praças Deodoro-Pantheon. Ficou bonito, é lógico, mas ali não há qualquer vestígio de um marco histórico da cidade – a Greve da Meia Passagem.
Esferas de concreto na nova praça Deodoro
Se hoje os estudantes ainda usufruem daquela conquista de 1979, cujo palco principal foi a praça, a cidade perde uma referência histórica fundamental.
São tantas bolas de concreto e nenhuma placa sequer lembra o massacre contra os estudantes e a conquista da meia passagem com muita luta. É ou não uma forma de apagamento da memória da cidade?
Já na avenida Pedro II, a parte mais sofisticada do Centro Histórico, onde estão as sedes do Governo do Estado, da Prefeitura de São Luís, do Tribunal de Justiça e da Arquidiocese de São Luís, o animado Tambor de Crioula do Mestre Amaral foi execrado.
No local está inaugurada a praça em homenagem aos poetas, e o novo largo passa a ser um lugar primoroso para fotografar e usufruir do belo visual do rio Anil.
Mas, a retirada do tambor serve também para reflexão sobre o tipo de dispositivo cultural permitido e/ou deslocado no espaço urbano.
O abrigo da praça João Lisboa é outro equipamento sob ameaça, assim como as bancas de revista e os camelôs já empurrados da praça Deodoro para as transversais da rua Grande.
Em qualquer lugar do planeta, considerando a perspectiva das cidades históricas, o abrigo seria destruído e refeito em padrões modernos. Mesmo não sendo original da praça João Lisboa, ele merece requalificação, considerando os sentidos conotativo e denotativo do vocábulo “abrigo”, signo de acolhida, afeto, solidariedade, proteção e sociabilidade em geral.
Abrigo segue gerando polêmica. Imagem capturada em O Imparcial
Ocorre que em São Luís há um apego exagerado ao passado… um tal “reviver”. Aí, já que o abrigo não é “original”, passa a ser considerado um monstrengo e, por isso, deve ser demolido, quando deveria ser reconstruído em outros moldes, adaptado à realidade contemporânea sem qualquer prejuízo ao conjunto arquitetônico do entorno.
Salta aos olhos, ainda, a ferocidade dos inimigos do abrigo da João Lisboa que não se manifestam sobre a grilagem ampla, geral e irrestrita na cidade, patrocinada e organizada pelos endinheirados, que se apropriam dos terrenos à revelia das leis.
Queria ver, por exemplo, os iconoclastas do abrigo criticarem os latifundiários urbanos que se apossam de áreas valorizadas em São Luís para construir shoppings e galerias disfarçados de postos de gasolina. Esses sim, verdadeiros monstrengos, erguidos em qualquer lugar, sem respeito ao Impacto de Vizinhança, um dos dispositivos do Plano Diretor.
Por que os demolidores do abrigo não se manifestam sobre o posto de gasolina construído na margem da avenida Jerônimo de Albuquerque, em frente ao hospital São Domingos, colocando em risco centenas de pacientes e trabalhadores?!
Poderiam ainda aproveitar o ensejo para pedir a retirada do “prédio do BEM”, na rua do Egito, cujas obras estão marcadas por corrupção (leia aqui).
Está clara, portanto, uma certa discriminação ao escolher os adversários, na lógica de varrer do mapa alguns equipamentos não incorporados ao modo de ver aristocrático da elite escravocrata que dominou a cidade e ainda está presente hoje, em algumas cabeças.
Tal forma de pensar carrega o apego ao complexo de geriatria cultural que serve para justificar a dinamite no abrigo dos pobres, mas não vale para demolir a grilagem dos ricos em centenas de espaços privilegiados da cidade, feitos ilegalmente, com a leniência das autoridades.
A seletividade na ocupação do espaço urbano chegou ao antigo e famoso “Xirizal do Oscar Frota”, onde a dispersão das prostitutas no tradicional reduto das profissionais do sexo foi algo tão violento como derramar veneno para matar baratas.
Demolição do “Xirizal” dispersou as prostitutas. Foto: Biaman Prado
O massacre dos pobres, putas e negros, não necessariamente nessa ordem, está nas raízes mais profundas do processo de discriminação e violência marcantes na formação de São Luís. Afinal, toda a beleza e a imponência dos casarões do Centro Histórico foram erguidas pela mão de obra escrava, gerando uma população de pedreiros e ajudantes mutilados, fruto das mais desumanas condições de trabalho.
Mas, estamos em outros tempos, das velhas práticas. “Agora vai”, ou melhor, é “São Luís em obras”. Na véspera da eleição, outra intervenção há muito tempo cobrada alcança a antiga parada de ônibus do Anel Viário, as barracas e os botecos do entorno. Trata-se de uma intervenção necessária, visando organizar aquela bagunça generalizada.
Como não temos informação amplamente divulgada sobre o projeto, a obra e o investimento do dinheiro público, esperamos que os comerciantes informais sejam reassentados no seu local de origem ou em outro ambiente, de forma a garantir as suas condições e meios de sobrevivência.
Quanto à nova obra do Anel Viário, cabe uma anotação sobre um dos equipamentos mais importantes do Centro Histórico – o Aterro do Bacanga. Aos poucos aquele espaço vai sendo ocupado por vários puxadinhos e arranjos, sem observar um consistente projeto arquitetônico já tantas vezes comentado em nossos escritos (leia aqui e mais aqui)
Cabe reiterar a crítica sobre a forma e o conteúdo das obras. Em cima da eleição colocam os tratores no Anel Viário desprezando o ganho estético, social e ambiental de um projeto arquitetônico bem mais utilitário para a cidade.
De volta ao tema central, observando bem os exemplos de remoção ou tentativas de eliminar as bancas de revista, os camelôs, as barracas do Anel Viário, o tambor do Mestre Amaral, o abrigo da João Lisboa e as putas do Xirizal do Oscar Frota, podemos refletir juntos sobre um relativo processo de higienização social no coração da cidade.
Parece haver um conceito de isolamento e guetização dos equipamentos e das pessoas não representativas do sentimento saudosista da elite escravocrata que mandava na cidade e ainda hoje tem seu pensamento vivo e entranhado em vários poderes oficiais.
Quanto às bancas de revista e similares, vamos pensar juntos….
Perseguição às bancas de revista ocorre também na área nobre da cidade
São Luís, ainda agarrada ao equivocado epíteto de Atenas Brasileira, teve várias livrarias fechadas e está em curso uma verdadeira perseguição às bancas. Tais equipamentos não combinam mesmo com o visual “hipermoderno” da cidade “retrô” das avenidas e ruas remendadas por um asfalto do século 19 por onde trotam caminhonetes de luxo (leia aqui sobre livrarias fechadas).
Ademais, em meio a tanta celebração pela idoneidade literária da cidade, o Memorial Bandeira Tribuzzi foi desativado e não há notícia de onde foi parar o acervo do poeta autor do hino oficial de São Luís.
Assim, a cidade se movimenta com deslocamentos ou dispersões e reacomodações compulsórias. Os camelôs, por exemplo, vão se reagrupando de acordo com as novas regras de espacialização do comércio.
Geralmente, as obras fazem uma bela maquiagem na paisagem para ela ficar atrativa aos turistas e excluem as pessoas e equipamentos que vivem, sobrevivem, circulam e usufruem do espaço urbano.
A higienização social segue o rito de apagamento das marcas simbólicas e da memória da cidade, que precisa ser limpa, aspirada e lubrificada socialmente, seguindo padrões de uma certa forma de pensar cheia de contradições.
Então, o saneamento é seletivo. Limpa-se o Centro Histórico para embelezar a vista dos turistas e moradores que não podem tomar banho nas praias impróprias contaminadas pelos esgotos.
No curso da higienização social não é apenas a “Península” (leia aqui) que pretende se isolar. As obras do Centro Histórico estão “limpando” a cidade, onde erguem-se várias ilhas.
E se no Centro Histórico, onde estão as cabeças mais iluminadas e puras, a cidade é discriminatória, imagine na zona rural, onde a proposta de revisão do Plano Diretor pode ter repercussões gravíssimas na sustentabilidade da ilha toda no curto prazo!
Lá na “roça”, onde o capital da especulação imobiliária é voraz na concentração do mercado de terras, os conflitos são resolvidos com mais violência, a ferro e fogo.
Por fim, como o título do artigo é uma pergunta, tenho questionamentos no lugar de teses prontas. E para fazer jus ao primeiro parágrafo, reitero: todas as edificações feitas recentemente são fundamentais para qualificar o Centro Histórico e honrar o título de São Luís Patrimônio Cultural da Humanidade.
Minha única certeza, em se tratando de higienização e saneamento, é que estamos na cidade toda brilhosa com novas obras, mas cercados pelo mar de coliformes fecais.
A cidade limpa, higienizada, contém o germe da sua própria sujeira.
Neste sábado, 22 de agosto, às 18h, estreia o programa “História Viva”, uma parceria entre a Anpuh (Associação Nacional de História, no Maranhão) e Agência Tambor.
O objetivo do programa é abordar os temas mais relevantes em História e Educação, conectados aos âmbitos da política, economia, sociedade e cultura.
A Anpuh-MA nesse programa será representada pelos(as) professores(as) Joelma Santos, Márcio Baima e o presidente da associação Victor Coelho.
Na edição de estreia, os apresentadores vão conversar sobre o ensino de História do Maranhão com a participação da professora Dayse Martins. Ela é historiadora, doutora em Políticas Públicas, doutoranda em História (UFMA) e especialista em Educação (Diren/IEMA).
A concepção do programa foi construída em diálogo com as equipes da Agência Tambor e da Anpuh-MA em reuniões virtuais e troca de ideias entre os realizadores, observando os aspectos técnicos e de conteúdo na elaboração do roteiro.
Para a Agência Tambor, a estreia de um novo programa com foco em História é fundamental diante do cenário de obscurantismo e negativismo que vem crescendo no Brasil. Assim, reafirmar o ensino de História em um programa de rádio é importante para o fortalecimento do campo científico, um dos principais alvos do ataque da onda conservadora.
Além do programa apresentado ao vivo, a memória de cada edição fica disponível em áudio, no formato de podcast, que pode ser ouvido a qualquer tempo, com a marca “HistoriaVivaCast”, armazenada no Spotify.
O GT História da Mídia Sonora realiza dia 19 de agosto (quarta-feira), com início às 18 horas, a live Passado, presente e futuro do Rádio no Brasil. O encontro virtual vai marcar a Carta de Natal que reconhece o pioneirismo da Rádio Club de Pernambuco quando, em 6 de abril de 1919, fez a primeira transmissão sonora à distância – de um ponto de transmissão para vários pontos.
O encontro virtual terá como convidados os pesquisadores Pedro Vaz Filho (UAM), Luiz Maranhão Filho (UFPE), Luiz Artur Ferraretto (UFRGS) e Marcelo Kischinhevsky (UFRJ), que serão mediados pela coordenadora e vice-coordenador do grupo, respectivamente, Izani Mustafá (UFMA-Imperatriz) e Luciano Klöckner. A Carta de Natal foi assinada no XII Encontro Nacional da História da Mídia, realizado em Natal (RN), em 20 de junho de 2019.
Serviço
Live: Passado, presente e futuro do Rádio no Brasil
Dia: 19 de agosto de 2020 (quarta-feira)
Início: às 18 horas
Convidados: Pedro Vaz Filho (UAM), Luiz Maranhão Filho (UFPE), Luiz Artur Ferraretto (UFRGS) e Marcelo Kischinhevsky (UFRJ)
Mediadores: Izani Mustafá (UFMA) e Luciano Klöckner
Por Jadeilson Cruz, graduado em Filosofia e estudante de Jornalismo da UFMA
Hoje, 11 de julho de 2020, comemora-se o sesquicentenário da elevação da Vila de Turiaçu à categoria de cidade. Apesar de ser uma data emblemática, pois significa uma mudança significativa de patamar, não a considero a mais importante da história turiaçuense. Já que em conformidade com a Provisão Régia de 09 de abril de 1655, como consta na monografia do professor Robson Campos Martins, foi criada a Missão Jesuíta São Francisco Xavier, dando origem ao primeiro núcleo demográfico de Turiaçu. Desse modo, em 09 de abril do corrente ano era para se ter comemorado 365 anos de história e não 150 como muitos comemoram no dia de hoje.
Turiaçu é gigante. E entre os grandes da história do Brasil e do Maranhão deve figurar. Comemorar o 11 de julho como a data mais importante é uma forma de ignorar os primórdios da história turiaçuense. Temos que dar o devido valor aos acontecimentos históricos e colocar Turiaçu em seu devido lugar.
Não podemos nos esquecer de outras datas importantes da nossa história: como 25 de junho de 1833, criação da Vila de Turiaçu; 13 de fevereiro de 1834, instalação da Vila de Turiaçu; e 12 de junho de 1852, reincorporação de Turiaçu ao Maranhão. Além dessas já citadas, é fundamental que conheçamos não apenas outras datas importantes, mas também a História de Turiaçu mais profundamente. É necessário que nos empenhemos em compreender os fatores que determinaram as transformações ao longo do tempo e a atual configuração do nosso município. Temos que, como disse Heródoto, “Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”. Só o conhecimento do passado nos dará a real dimensão da nossa História.
Antiga igreja São Francisco Xavier, padroeiro de Turiaçu
As fontes sobre a História de Turiaçu são escassas, tornando-se assim praticamente incompreensíveis alguns fatos importantes da nossa história, como a configuração política em 1870, a partir de 11 de julho; a composição, organização e localização do Quilombo de Turiaçu, que teria sido o segundo maior do Brasil, ficando atrás apenas do de Palmares; dentre outros fatores que contribuiriam para melhor compreensão do que somos a partir do que fomos. O grande culpado por grande parte dessa escassez é o capitão Manuel Aurélio Nogueira, que em 1930, quando administrava o nosso município, mandou incinerar quase todo o arquivo municipal. Nesse sentido, é necessário um estudo historiográfico minucioso. Tanto os governantes como a população devem se empenhar e angariar fundos para financiar esse mergulho na história turiaçuense.
Em relação a Turiaçu, eu tenho muitos sonhos. O principal deles é ver a sede do município transformada em uma cidade cultural. Quero andar pelas ruas e ver um teatro, um cinema, um museu e uma biblioteca imponentes. Também, casas de danças, de música e manifestações culturais sendo encenadas e cultivadas nas praças e nas ruas. Quero ter o prazer de assistir, ao lado dos meus conterrâneos, a grandes e maravilhosos espetáculos. Como poetizou Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Turiaçu precisa respirar história, cultura, conhecimento, esporte e lazer. Não é aceitável que no nosso município não exista pelo menos um museu, como também monumentos em homenagem aos nossos heróis. Outro fato lamentável é a falta de locais apropriados para a prática de esportes e para a apreciação de eventos culturais, assim como a inexistência de áreas de lazer adequadas. E o mais inadmissível ainda é o menosprezo ao conhecimento, pois a maior prova disso é a degradação da Biblioteca Municipal. Conhecimento é prioridade, sempre deve estar em primeiro lugar. Um povo sem conhecimento, é um povo sem esperança, logo, sem futuro. O conhecimento é condição necessária para libertar a alma da tirania da ignorância.
O 09 de abril deveria ser um dia de festa e de celebração da turiaçuensialidade. Nesse dia deveria haver eventos esportivos, culturais e educacionais. Em alguns momentos o 11 de julho já foi palco de eventos assim, porém precisamos de algo ainda mais grandioso. Esse dia seria ideal não apenas para festejarmos o nosso povo, mas também para conhecermos mais profundamente a nossa história. Como disse o professor Robson Campos Martins: “Um povo que perde as suas tradições, é um povo indigno de figurar na história”.
Foto destacada / uma das ruas mais antigas da cidade / divulgação: acervo pessoal do professor Edmar Costa Filho
Romance histórico que atravessa quase um quarto de século, entre os anos de 1915 e 1939, e narra a vida e as peripécias de Lucas Baptista de Moura Facundo, que fugiu com a família, do Ceará para o Rio de Janeiro, durante a grande seca de 1915, em busca de uma vida melhor.
Um pouco mais tarde, ele vai estudar engenharia mecânica na Itália, iniciando ali o seu treinamento em artes marciais, ao mesmo tempo em que se envolve na luta antifascista.
De volta ao Brasil, se agrega aos movimentos pela democratização do país, combatendo a truculência da ditadura Vargas, e vive uma série de aventuras na trepidante capital da República durante a Belle Époque.
A história mostra um pouco do Brasil dos anos 20 e 30, reportando fatos históricos, como o Tenentismo, a Coluna Prestes, a Revolução de 30, a Intentona Comunista, o Estado Novo e a vida artística e cultural do Rio de Janeiro.
Mais tarde, Lucas volta à Europa, fixando-se em Madri, e ali se engaja na luta contra o fascismo, auxiliando o exército republicano durante a Guerra Civil Espanhola. Por fim, nosso herói se estabelece em Portugal, onde vai ajudar a polícia portuguesa a desvendar uma série de misteriosos e violentos assassinatos.
O autor
O maranhense Érico Renato Serra Cordeiro nasceu em São Luís, em 1968. Formado em Direito pela UFMA, desde 2004 exerce o cargo de Juiz do Trabalho. Atualmente, é Juiz Titular da Vara do Trabalho de Pinheiro–MA. É professor universitário, embora, por força das circunstâncias, esteja afastado das salas de aula. Apaixonado por música, literatura e cinema, acredita no poder transformador da arte e em sua capacidade de humanizar o sublime e de tornar sublime o humano. Espadas, armas de fogo e tiroteios? Só na ficção. Afinal, como nos versos de Paulo César Pinheiro, “Não sou do tempo das armas / Por isso ainda prefiro / Ouvir um verso de samba / Do que escutar som de tiro”.
Sobre a obra
“Um surto pandêmico mundial. Uma aparentemente irresistível ascensão do fascismo. 2020? Não! Estamos na alvorada do século XX e ele é assustadoramente parecido com os nossos dias” – Cláudia Torreão.
“É, antes de tudo, um romance visceral entrecortado por uma poesia com alma, pólvora e dentes” – Félix Alberto Lima.
“Uma aventura esplendorosa pela história política e cultural da primeira metade do século XX, guiada por um personagem cativante e por um escritor arguto e refinado” – Jarbas Couto Lima.