Copo vazio

Texto do jornalista Benedito Lemos Junior

O ano é de 1974, Gilberto Passos Gil Moreira, ou simplesmente Gilberto Gil, após um jantar, olha para um copo vazio logo ali, após alguns tragos de vinho e eis que brota um de seus belos rebentos, “Copo Vazio”: um poema, uma canção, uma melodia que “embala”, até os dias de hoje, gerações para “lembrar que o ar sombrio de um rosto está cheio de um ar vazio daquilo que no ar do copo ocupa um lugar”.

E, assim, “Copo Vazio” virou uma marca de uma geração, que sempre aos finais de semana e em encontros marcados ou casuais, não podia deixar faltar a lembrança, reviver e celebrar que “o ar no copo ocupa o lugar do vinho, que o vinho busca ocupar o lugar da dor, que a dor ocupa metade da verdade, a verdadeira natureza interior”.

Éramos uma geração de utopias, sonhos, conflitos, intensas paixões, mas também com seus dilemas, seus conflitos, suas metades; “uma metade cheia, uma metade vazia; uma metade tristeza, uma metade alegria, a magia da verdade inteira, todo poderoso amor”.

E, assim, sempre íamos seguindo a vida andando com fé, esperança em dias melhores para todos, carregando em nossas costas a vontade de mudar o mundo, conquistar a “paz” e sermos livres de todos os preconceitos ou ideias pré-concebidas.

E, essa era nossa fé, “num pedaço de pão, na maré, na lâmina de um punhal, na luz e na escuridão”, como dizia Gilberto Gil: “Que a fé não costuma faiá na manhã ou no anoitecer, ou no calor do verão”.

Mas, nem sempre era tão fácil, eram muitas as dificuldades, as lutas diárias, as batalhas que davam vontade de fugir para “outro lugar comum, o outro lugar qualquer, onde haja só meu corpo nu junto ao seu corpo nu”.

A vida foi e vai se transformando como uma antena parabólica camará de Gil que, muitos antes de muitos, já dizia “quando dava, quando muito, ali defronte, o horizonte acabava. Hoje lá trás dos montes, den de casa”, podemos girar, o mundo, num mundo que as voltas dão.

Voltas que dão e retornam ou permanecem no mesmo lugar: a violência, seja ela física ou psicológica, e o desrespeito contra a mulher continuam assustadores e o machismo fazendo eco em nossa sociedade cada vez mais hipócrita, que vai jogando para debaixo do tapete a sujeira da intolerância, da violência e da podridão.

Mas, algum dia há “vingar” o Super-Homem de Gil e nós os homens, em especial, possamos entender que a “minha porção mulher, que até então se resguardara, é porção melhor que trago em mim agora, é que me faz viver”, como sempre ouvia em tom suave da minha mãe em “uma oração singela de respeito e amor” e por você e “sempre por ela ser”.

Extra, extra, extra vendendo sonhos e ilusões, como faziam os jornaleiros, gritando manchetes sensacionalistas, que “rachem os muros da prisão, pois resta uma ilusão, abra-se cadabra, a prisão” e todos nós “pelo nosso amor em Cristo ou Oxalá”, vamos cair na Gandaya “sobre a chuva que cai e ver o sol aparecer”.

Imagem destacada / Gilberto Gil (capturada nesse site)

Alguém que não seja eu

Eloy Melonio*

Não preciso da mesma vibe poética de Erasmo Carlos em “Mesmo Que Seja Eu” para construir esta crônica. Mas vou aproveitar um pouco da “filosofia” com que ele teceu sua belíssima canção.

Tudo isso para falar do “outro”, essa personagem da vida real, tão popular e tão desgastado.

Sabe-se que a maior criação divina foi o homem, e a mais monumental invenção do homem foi o outro. E com ele, a mentira. Tão oportuna que foi logo usada para que seu inventor, passando-se por inocente, imputasse o pecado original à mulher, que, por sua vez, pôs a culpa na serpente. E o mundo idealizado por Deus agora era outro.

De pecado em pecado, chegamos à tenebrosa era das fake news. E nesse vil universo não há quem se intitule dono da mentira, uma pobrezinha órfã de pai e mãe. O fato nu e cru é que ela é sempre uma invenção do outro. E, nessa condição, a coitada vai passando, inescrupulosamente, de mão em mão.

Para os amigos do outro, muitas vezes, o prêmio é o castigo. Um exemplo disso é a tal delação premiada, quando um entrega o outro, que entrega o outro… Daí vem a desconfiança de que o outro nunca pode ser alguém de mãos limpas. Nem mesmo Pilatos, que parece ter se livrado da pecha de delator.

No caso dos filhos do presidente (01, 02 e 03), quando não se sabe quem disse o quê, alguém interfere para nos confundir ainda mais: Não foi esse; foi o outro.

Já na Palestina do primeiro século, João (que batizou Jesus) — antevendo a mazela das fake news — precisava certificar-se de que Jesus não era um falso Cristo. E enviou-lhe emissários a perguntar: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?”(Mt 11:3).

Para existir, o outro precisa de alguém. Mesmo assim, um sempre desconfia do outro. Porque o outro não é uma pessoa com quem a gente possa se abrir, haja vista que a amigos outros ele também sorri.

Dizem até que o outro nunca é amigo. Porque um amigo é nominável, visível, confiável. E esse é apenas um vulto rodando por aí. Se, por acaso, dele receber “o pão que o diabo amassou”, não tenha dúvida de que com essa maldição não deve ficar, exceto se não houver outro a quem passar.

O outro é um ser que pensa conhecer-se a si mesmo, imaginando-se único e independente. Pode, inclusive, ser “você”, quando se olha numa foto e não se agrada do que vê. Ou quando, num sofisticado evento social, desconfiado, olha para o outro, que olha para o outro... Nada de errado, pois nessas reuniões até as madames soltam “pum”. E esses gases se esvoaçam no ar, e logo todos os outros se esquecem do incidente.

Numa relação extraconjugal, a astúcia de um é querer que o outro seja sempre o outro, porque assim jamais passará de um simples affair.

Na novela “O outro” (Rede Globo, 1987), Francisco Cuoco vivia dois personagens que eram sósias, sem que um conhecesse o outro. Nesse caso, dois que pareciam um. Ao contrário, Ferreira Gullar fala de dois em um: “Uma parte de mim/ é todo mundo;/ outra parte é ninguém”.

Num poema do meu próximo livro (Travessia), ouso afirmar uma verdade inconteste: Nosso mundo somos nós: eu, você, os outros.

Entre uma coisa e outra, viu o Criador que sua obra-prima não podia ficar só, e tratou imediatamente de esculpir outra. Desde então, outro não se faz senão de outro já existente. E que este ou aquele pode, a qualquer instante, envolver-se em encrenca.

Preferencialmente com alguém que não seja eu.

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*Eloy Melonio é professor, escritor, poeta e compositor.

Imagem destacada capturada nesse site

Live celebra pioneirismo da Rádio Club de Pernambuco no Brasil

O GT História da Mídia Sonora realiza dia 19 de agosto (quarta-feira), com início às 18 horas, a live Passado, presente e futuro do Rádio no Brasil. O encontro virtual vai marcar a Carta de Natal que reconhece o pioneirismo da Rádio Club de Pernambuco quando, em 6 de abril de 1919, fez a primeira transmissão sonora à distância – de um ponto de transmissão para vários pontos.

O encontro virtual terá como convidados os pesquisadores Pedro Vaz Filho (UAM), Luiz Maranhão Filho (UFPE), Luiz Artur Ferraretto (UFRGS) e Marcelo Kischinhevsky (UFRJ), que serão mediados pela coordenadora e vice-coordenador do grupo, respectivamente, Izani Mustafá (UFMA-Imperatriz) e Luciano Klöckner. A Carta de Natal foi assinada no XII Encontro Nacional da História da Mídia, realizado em Natal (RN), em 20 de junho de 2019.   

 Serviço

Live: Passado, presente e futuro do Rádio no Brasil

Dia: 19 de agosto de 2020 (quarta-feira)

Início: às 18 horas

Convidados: Pedro Vaz Filho (UAM), Luiz Maranhão Filho (UFPE), Luiz Artur Ferraretto (UFRGS) e Marcelo Kischinhevsky (UFRJ)

Mediadores: Izani Mustafá (UFMA) e Luciano Klöckner

Plataforma: Google meet

Transmissão pelo canal YouTube: Jornal Alcar – https://bit.ly/3fqQ11B

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A UFMA na Praia Grande

Já imaginou vários cursos da Universidade Federal do Maranhão instalados nos casarões e prédios do Centro Histórico de São Luís, com a Reitoria localizada no Convento das Mercês?

E se ao longo das ruas tortas e estreitas houvesse equipamentos de ensino, pesquisa e extensão, conectando o passado e o futuro através da Ciência, em prol do desenvolvimento do Maranhão?

Caberiam ainda cafés, livrarias, sebos, salas de cinema, novas quitandas, moradias estudantis e laboratórios para exercitar a criatividade e o pensamento em um dos lugares mais belos da cidade.

A inspiração dos três parágrafos acima está em uma das notas do escritor Josué Montello, no Diário da Tarde, escrita em 29 de janeiro de 1967, quando ele relata a cerimônia do nascedouro da Fundação Universidade do Maranhão; futuramente, UFMA.

Montello foi um dos reitores da primeira instituição de ensino superior do nosso estado e sonhava criar uma cidade universitária no Centro Histórico de São Luís.

Ouça aqui a nota de 1967, na voz do poeta Paulo dos Santos Furtado, que gentilmente nos cedeu essa interpretação, entre tantas outras leituras deliciosas, quando encara com elegância a figura do narrador.

Em sua vasta obra literária, Josué Montello tem no romance mais visibilidade; porém, os seus “Diário da manhã”, “Diário da tarde”, “Diário do entardecer”, “Diário da noite iluminada”, “Diário das minhas vigílias” e “Diário da madrugada”,  que aparentemente são anotações sobre fatos pitorescos, revelam temas de forte valor histórico.

Na referida nota, o autor faz alusão ao desejo de transformar a Praia Grande, dotada de esplendoroso conjunto arquitetônico, em um grande centro cultural, lembrando o Maranhão de outrora.

O detalhe do excerto está no arremate, quando fica claro que, no calor de São Luís, não cabem as capas dos estudantes de Coimbra. Era só o romancista conversando com a sua imaginação.

Imagem destacada / Centro Histórico de São Luís visto do mar / Foto: Marizélia Ribeiro

Tribunal julga jornalista Fred Melo Paiva por tuíte que associou Zezé Perrella ao ‘helicoca’

Fonte: Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)

A Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais julga, a partir das 14h desta quarta-feira (5/8), a apelação do jornalista Fred Melo Paiva da sentença em primeira instância em que foi condenado a pagar indenização de R$ 15 mil ao ex-senador Zezé Perrella. O advogado Humberto Lucchesi de Carvalho, que representa Fred Melo Paiva, disse confiar que a sentença será revertida, por se tratar de um caso de censura à liberdade expressão de um cidadão.

A Ação Ordinária de Indenização movida por Zezé Perrella foi motivada por um tuíte de Fred Melo Paiva publicado no momento em que o então senador se levantou para votar na sessão do Senado que aprovou o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em agosto de 2016.

“Lá vai o Perrella, sem um votinho, mas com 450 quilos de pasta base”, escreveu o jornalista na sua conta no Twitter.

Jornalista Fred Melo Paiva foi condenado
a indenizar o ex-senador Zezé Perrella, num caso de censura à liberdade expressão

A postagem se referia ao fato de Perrella ter assumido o mandato sem ter recebido um voto, por ser suplente do ex-senador Itamar Franco, que faleceu em 2011, e ao fato de um helicóptero de propriedade particular do senador ter sido apreendido pela Polícia Federal quando transportava quase meia tonelada de cocaína, em 2013.

“O que Fred Melo Paiva fez foi rememorar um fato social verdadeiro da vida brasileira envolvendo um senador da República, fato que ficou registrado na história. Fez um comentário, amparado no seu direito de opinar, não fez nenhum juízo de valor, não cometeu nenhum crime. Tanto não cometeu crime que o ex-senador não entrou com ação criminal contra ele”, analisou Humberto Lucchesi, mestre em direito administrativo pela UFMG.

Ele chamou atenção para o fato de que o ex-senador perdeu ação movida contra o Google na 16ª Vara Cível de Brasília e não recorreu. Na ação, Perrella pediu que o Google excluísse das suas buscas a vinculação e associação do seu nome às palavras cocaína e helicóptero. As notícias estão disponíveis na internet.

O eminente jurista Wálter Maierovitch, desembargador aposentado do TJSP e fundador do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone, publicou artigo na revista Carta Capital intitulado “De Escobar a Perrella”, uma referência ao famoso narcotraficante Pablo Escobar, e não foi processado pelo ex-senador.

O tradicional concurso de marchinhas de carnaval Mestre Jonas, em 2014, premiou, também sem implicações para nenhum dos participantes, uma música intitulada “Baile do Pó Royal”, que também faz referência ao episódio.

O próprio Zezé Perrella, em conversa telefônica com o senador Aécio Neves, gravada e divulgada à imprensa por autoridades, referiu-se a si mesmo sobre o assunto, dizendo, em tom de piada: “Não faço nada de errado, só trafico drogas”.

O advogado do senador na ação é o atual presidente do Cruzeiro Esporte Clube, Sérgio Santos Rodrigues.

Lucchesi ressalta ainda que sentença da Justiça Federal em Vitória no caso o “helicoca” determinou a perda da propriedade do referido helicóptero pelo ex-senador, por se tratar de veículo que fez tráfico internacional de entorpecentes. Ele lembra que o helicóptero não tinha licença da Agência Nacional de Aviação Civil para transportar mercadoria e que a aeronave foi abastecida com verba da Assembleia Legislativa de Minas Gerais pelo deputado estadual Gustavo Perrella, filho de Zezé.

“Todos esses fatos são públicos e notórios”, disse o advogado. “Por isso, a expectativa é que o Tribunal de Justiça seja sensível e reverta a sentença por julgá-la improcedente”, disse Lucchesi. “Este é um caso emblemático de liberdade de expressão e cidadania digital”, enfatizou o advogado.

“Península”, o Plano Diretor e a privatização de São Luís

Uma agente imobiliária com trânsito em várias capitais brasileiras passou boa temporada em São Luís e ficou assustada com duas coisas: o preço exorbitante dos apartamentos na área nobre da Ponta d’Areia e a invasão de caminhonetes de luxo na cidade.

Ela costumava indagar se São Luís é uma cidade histórica ou um garimpo, lugar de muito dinheiro onde os mineradores geralmente exibem sua pujança nas famosas “toyotas”.

No garimpo ou nas regiões do agronegócio o desfile de pick-ups é até normal, mas esse visual não parece adequado para uma cidade Patrimônio Cultural da Humanidade, com um Centro Histórico aprazível, de ruas estreitas e caminhonetes trepadas nas calçadas.

Espantada com a ostentação provinciana e o valor dos imóveis, ela chegou até a comparar os preços daqui com outras praças, dizendo que com R$ 1 milhão compra-se um bom apartamento em Goiânia sem esgoto transbordando nas ruas nem carro pipa na porta dos prédios.

Carros pipa são vistos com frequência abastecendo os prédios de luxo

Antes da invasão dos castelos luxuosos no lugar rebatizado equivocadamente como “península”, a Ponta d’Areia era habitada e frequentada pela elite de São Luís nas suas casas de veraneio, mas também havia gente das classes médias e populares morando no lugar. Alguns resistiram à avalanche dos condomínios e os mais pobres foram empurrados para a periferia.

Houve assim uma segregação, em vários sentidos, tornando essa parte “nobre” da Ponta d’Areia um lugar de distinção econômica e dos discursos próprios do racismo estrutural, a exemplo do ódio aos pobres declarado pelo deputado federal Edilázio Junior quando foi cogitada a construção de um porto nas proximidades dos condomínios para ligar São Luís à Baixada Maranhense.

Leia mais: Discurso do deputado Edilázio Junior transpira ódio aos pobres e baixadeiros

A fala do parlamentar inspirou falatórios e práticas semelhantes como este último da espetaria que mobilizou a cidade inteira.

Veja bem: não são apenas palavras soltas. É uma narrativa organizada contra os pobres e os diferentes.

O processo de isolamento social dos novos ricos de São Luís aos poucos retirou da “península” e adjacências vários equipamentos outrora compartilhados por outras classes sociais. Os clubes de reggae e espaços alternativos foram execrados: Coqueiro Bar, Toque de Amor, Bar do Barroso (depois Chama Maré), Trapiche e, mais perto da praça de Iemanjá, os famosos clubes Toca da Praia, Tropical Beach e Praia Reggae Clube.

Outro grande atentado cultural na “península” foi a destruição do Memorial Bandeira Tribuzi, em total desprezo pela pulsação literária da cidade, considerando que o poeta é o autor do hino “Louvação a São Luís”.

No lugar do acervo de Bandeira Tribuzzi foram instalados
o Centro de Atendimento ao Turista e uma igreja católica

Todos esses fatos não ocorrem isoladamente. Eles integram um ordenamento espacial da cidade feito à base da grilagem e da privatização dos espaços públicos, atropelando a legislação urbanística no geral.

Para além desses aspectos, há uma mentalidade que justifica as posturas de segregação e de ódio.

O reggae e a literatura, duas marcas simbólicas de São Luís, foram expulsas da “península” para dar lugar ao pagode do Tiaguinho. Detalhe: a “leblon” daqui não tem uma livraria, mas os carros pipa estão sempre abastecendo os prédios de luxo.

Leia mais: Condomínio da Península tem síndico bolsonarista e porteiro sem máscara

Até hoje pairam dúvidas sobre as causas do incêndio nas palafitas do Goiabal, onde moravam centenas de pobres, quando da construção do Anel Viário. Daí originou o primeiro grande adensamento populacional na área Itaqui-Bacanga, nos primórdios da formação do Anjo da Guarda.

Em resumo: São Luís foi erguida através de sucessivas pilhagens dos colonizadores e das elites que controlam a gestão da cidade, feita a ferro e fogo, à base de muita violência, atingindo principalmente a população pobre.

Nos últimos 30 anos o mesmo grupo político domina a Prefeitura e manobra o Plano Diretor para lotear a cidade e entregar as áreas privilegiadas às empreiteiras e ao setor industrial predatórios.

Algumas instâncias do poder público atuam como lobistas do mercado de terras não só nas áreas urbanas “nobres”. A zona rural de São Luís e vários territórios na região metropolitana da ilha vêm sendo cobiçados pela prática da grilagem.

A cidade, no geral, está privatizada, entregue aos empreendedores de vários naipes.

Já se passaram três décadas e a velha política segue mandando e desmandando na cidade, a ponto de tratar na surdina, sem ampla divulgação, um tema tão relevante como a revisão do Plano Diretor.

Parte da gestão funciona como lobista do capital interessado no mercado de terras de São Luís.

As invasões bárbaras na “península” são apenas detalhe de uma estrutura muito mais complexa que envolve a situação fundiária, o uso e a ocupação do espaço urbano e a utilização dos equipamentos coletivos de São Luís: os territórios, os recursos naturais, os serviços públicos e o ambiente na sua totalidade.

Em uma perspectiva civilizatória, não faz qualquer sentido transformar em condomínio fechado uma área pública que deve ser usufruída por todos os moradores da cidade, independente da classe social e da cor da pele.

No mais, o suposto argumento de que na “península” morariam os cidadãos de bem, pertencentes aos níveis mais altos da pirâmide social, carece de pesquisa comprobatória.

Recentemente uma operação policial alcançou o famoso médico Abdon Murad Junior, que estaria encabeçando outro tipo de pirâmide, a financeira, capturando o dinheiro dos outros para investir no mercado de capitais, segundo a investigação da Polícia Civil.

Como se vê, na “península” tem gente boa e gente investigada, alguns até envergonhando os vizinhos dos bairros pobres que vivem do salário e não enganam os amigos.

Imagem destacada / Vista aérea da Ponta d’Areia (capturada nesse site)

Vacina contra meningite começa a ser disponibilizada pelo SUS

Com 119.648 doses da vacina meningocócica destinadas ao Maranhão pelo Ministério da Saúde, o Governo do Estado iniciou a rotina imunizante contra a meningite. Fazem parte do público-alvo adolescentes com idade de 11 e 12 anos. A imunização contra os quatro subtipos da doença (A, C, W e Y) de forma conjugada é executada pela Secretaria de Estado da Saúde (SES) em parceria com os 217 municípios maranhenses. 

“Chamamos a atenção para os pais e responsáveis para que cumpram a rotina de vacinação conforme o calendário prescrito pelo Ministério da Saúde. A meningite é uma doença séria e que tem vacina, por isso podemos proteger nossos adolescentes seguindo conforme o que se tem sido orientado”, diz o secretário de Estado da Saúde, Carlos Lula. 

A vacina meningocócica ACWY (conjugada) está sendo disponibilizada de acordo com o Calendário Nacional de Vacinação, na rotina dos serviços de vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS). A dose da vacina meningocócica ACWY deverá ser administrada independentemente de o adolescente ter recebido anteriormente a vacina MenC (conjugada) ou dose de reforço. 

De acordo com a chefe do Departamento de Controle e das Doenças Imunopreveníveis da SES, Halice Figueiredo, o objetivo é alcançar cobertura vacinal maior ou igual a 80%. “Recomendamos reforçar a importância da manutenção de um esquema vacinal completo, seguindo o preconizado no calendário. O sucesso dessa estratégia depende do envolvimento e da participação de todos na tarefa, com a certeza de que esta é uma importante ação para proteger a população contra a doença”, explicou. 

Enquanto a vacina contra a meningite é distribuída de forma gratuita na rede SUS, na rede particular a dose pode chegar a custar entre 300 a 700 reais, variando de acordo com a idade da criança. Para se ter acesso à imunização, o adolescente deverá se dirigir à uma Unidade Básica de Saúde (UBS) acompanhado dos pais ou responsável legal, portando documento com foto, cartão do SUS e a caderneta de vacinação. 

Em São Luís, as unidades de referência para vacina são o Centro de Saúde Paulo Ramos, Centro de Saúde Bairro de Fátima, Unidade Médica Itaqui Bacanga, Maternidade de Alta Complexidade do Maranhão, Unidade Médica do Bequimão, Centro de Saúde Genésio Rêgo, Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) e o Centro de Especialidades Médicas da Cidade Operária. 

A doença

A meningite é uma infecção que acontece nas meninges do cérebro e que pode ser causada por vários fatores. Dentre os tipos, as meningites virais e as bacterianas são as mais comuns e também são aquelas que podem causar surtos e epidemias. Os principais sintomas são febre alta, dor de cabeça intensa, náuseas, vômitos, rigidez de nuca e, algumas vezes, manchas na pele (tipo picada de mosquito).

Fonte: Agência de Notícias / Governo do Maranhão

Imagem destacada: Imunização é executada pela Secretaria de Estado da Saúde em parceria com os municípios (Foto: Julyane Galvão)

As PMs maranhenses, o tik tok e os machistas que não se tocam!

Por Flávia Regina Melo e Emilio Azevedo

Fonte: Agência Tambor

No Maranhão de Maria Aragão e Maria Firmina dos Reis, homens de poder ainda usam “esporas” e “chicotes”, em pleno século XXI, para promover a violência. O caso que envolveu, no mês de julho, mulheres integrantes da Policia Militar do Estado, ameaçadas de punição pela postagem de um vídeo produzido por meio do aplicativo Tik Tok, oscila entre o ridículo e o mais abjeto machismo.

O grupo, formado por sete mulheres militares, publicou as imagens no Instagram, no dia 6 de abril, no auge da pandemia de Covid 19, em São Luís. Segundo apurou a Agência Tambor, o objetivo era “mostrar a dupla jornada das mulheres e o orgulho que elas têm da instituição onde trabalham”.Uma das fontes ouvidas afirma que a ideia foi “humanizar a atividade militar”, mostrando que “ela tem um caráter também feminino”, além da legenda estimulando as pessoas a ficarem em casa, devido à pandemia do COVID 19.

Entenda o caso – Aos olhos do Comando Geral da Policia Militar do Maranhão, aparecerem de farda militar e, logo depois, com trajes civis, era motivo suficiente para apurar uma “eventual transgressão disciplinar” das policiais. Diante do ocorrido as policiais ingressaram com um pedido de liminar pra suspender a sindicância. O juiz Nelson Melo de Moraes Rego, da Auditoria Militar, determinou, no dia 8 de julho, a suspensão do processo.

Estranhamente, mesmo após a decisão judicial em favor das militares, o Comando Geral publicou, após a data de 8 de julho, no Boletim Reservado da Polícia Militar, uma resolução abrindo a tal sindicância para “apurar eventuais transgressão”. Mesmo reservado, o documento da PMMA pedindo apuração da conduta das sete militares foi “vazado” para vários setores da imprensa de São Luis. Escancarado, o boletim foi parar em blogs, com holofotes ao comandante-geral da Policia Militar do Maranhão, Pedro Ribeiro, que chegou a dar entrevista tratando do assunto que, por norma interna da PM, deveria ser reservado, além de já estar suspenso por decisão judicial.

A cafajestagem correu solta, com blogueiro chegando a falar em strip-tease ao tratar do assunto, já condenando as policiais em questão. O caso repercutiu até em veículos da imprensa nacional, gerando nota de apoio às militares por parte da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Maranhão (OAB/MA), por intermédio da Comissão de Segurança Pública e Cidadania, da Comissão da Mulher e da Advogada e da Comissão de Direito Militar, que se dispôs a prestar a necessária assistência jurídica a elas. Apesar disso, nem a Secretaria de Segurança do Estado e nem o Comando da PM se retrataram, para tentar reparar os transtornos e a exposição pública das sete militares. Com um mínimo de bom senso e civilidade é possível perceber qual a postura mais desavergonhada: a de exibir um documento reservado, condenar mulheres pelo uso de um simples aplicativo de redes sociais ou a de ter orgulho de uma farda compatível com a força da feminilidade?

Aos ‘dondocas’ de plantão: a Península da Ponta d’Areia não é condomínio fechado!

Por Walkir Marinho

Muito antes de qualquer processo de expansão imobiliária, a área litorânea de São Luís que antes era tratada carinhosamente por “Pontinha” da Ponta d’Areia e hoje é chamado de Península, já era visitada pelos apreciadores de um belo pôr do sol e pelos adeptos das “pedras de responsa” que frequentavam o Coqueiro Bar. Isso sem contar com os assíduos frequentadores do Iate Clube e do glamoroso Restaurante Tia Maria, com suas vistas privilegiadas para o mar e Centro Histórico da cidade.

Ainda bem antes do surgimento dessas dezenas de espigões verticais com seus 15 pavimentos, muitos deles, dotados de um apartamento por andar, e do próprio Espigão Costeiro, já existia ali, o Forte de Santo Antônio da Barra com sua capelinha. É bom dizer também que, em meados da década de 1980, foi instalado no local o Memorial Bandeira Tribuzzi, uma justa homenagem ao escritor e poeta autor da canção ‘Louvação a São Luís’.

Por outro lado, bem mais recente, nesta mesma região da capital maranhense, o Governo do Estado ensaiou instalar um terminal marítimo de passageiros e cargas para facilitar o serviço de travessia entre a Ilha de São Luís e as regiões da Baixada Maranhense e Litoral Norte. No entanto, após o repúdio de alguns moradores da Península, cujo eco adentrou pelos corredores palacianos, percebeu-se que o governo recuou e não falou mais do projeto. Talvez, pelo fato de o terminal portuário ter grande alcance popular e isso poderia causar efeito colateral, como tirar o sossego e prejudicar a elitização do local, além de “misturar gentes”. Esse assunto teve ampla repercussão nas redes sociais.

Agora, mais precisamente no último fim de semana, a Península da Ponta d’Areia voltou com toda força ao cenário das redes sociais, após uma noitada regada a esporte, pagode, farra, orgia e ‘otras cositas más’. Tudo por causa de uma área de faixa de areia denominada Posto A, onde foi instalado um “recinto fechado”. Uma espécie de cópia malfeita do que já existe na orla marítima do Rio de Janeiro.

Autoridades públicas, seguindo as normas e medidas de segurança sanitárias e ambientais, para evitar aglomerações, “lacraram” o espaço e isso virou motivo de amplo debate entre moradores da Península. Alguns chegaram a dizer, como verdadeiros “donos do pedaço”, que o tal ambiente é direcionado única e exclusivamente para habitantes desta área nobre. Como se essa região da capital de todos os maranhenses fosse reserva particular, de propriedade somente de alguns que moram nos arranha-céus revestidos de pastilhas coloridas e vidraças em fumê, porém, erguidos quase que, sem critério de saneamento básico.

Acontece que a Península da Ponta d’Areia, como qualquer outro aglomerado ou conglomerado urbano de São Luís, é área comum a todos. Independente de padrão social e poder aquisitivo. A Península da Ponta d’Areia não é um “condomínio fechado” e mesmo que fosse, todos têm o direito de ir e vir.

Imagem destacada: Vista aérea da Península da Ponta d’Areia e Espigão Costeiro (Foto: Reprodução)

Pesquisadores de História da mídia referendam 1919 como o início da radiodifusão no Brasil

Rádio Club de Pernambuco é considerada a pioneira

Em manifesto intitulado “Carta de Natal”, pesquisadores ligados ao Grupo Temático (GT) História da Mídia Sonora da Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia – Alcar – referendam que a radiodifusão brasileira teve seu advento com as transmissões pioneiras da Rádio Club de Pernambuco, a partir de 6 de abril de 1919.

A elaboração da Carta foi definida durante o XII Encontro Nacional da História da Mídia, promovido pela Alcar, em Natal, no Rio Grande do Norte, de 19 a 21 junho de 2019. Ocorreu na mesa de debates “100 anos da primeira transmissão radiofônica no Brasil”, que teve como palestrantes os pesquisadores Adriano Gomes (UFRN), Ciro Pedrosa (UFRN) e Luciano Victor Barros Maluly (ECA/USP), com a mediação de Hélcio Pacheco de Medeiros (UFRN).

Os palestrantes, juntamente com os pesquisadores que participaram do evento, também assinam o documento, recentemente finalizado e divulgado pela coordenação do GT História da Mídia Sonora da Alcar, composta pela coordenadora Izani Mustafá (UFMA-Imperatriz) e o vice-coordenador Luciano Klöckner (PUCRS).

CARTA DE NATAL

Os pesquisadores do Rádio brasileiro, reunidos no XII Encontro Nacional da História da Mídia, em Natal/RN, referendam o dia 6 de abril de 1919 como a data inicial da radiodifusão no País.

Avalizam essa decisão os dados apresentados há mais de três décadas pelo pesquisador Luiz Maranhão Filho (UFPE) e validados, mais recentemente, pelo pesquisador Pedro Serico Vaz (Anhembi Morumbi), sobre o pioneirismo da então Rádio Club de Pernambuco na transmissão sonora à distância – de um ponto de transmissão para vários pontos.

Os registros históricos que atestam as pesquisas estão disponíveis em jornais como a Imprensa Oficial e o Diário de Pernambuco, além de outras fontes fidedignas.

Natal, Rio Grande do Norte, 20 de junho de 2019.

Subscrevem essa carta:

– Pesquisadores do Grupo Temático História da Mídia Sonora da Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia – ALCAR

– Participantes da Mesa Temática “Os 100 anos da primeira transmissão radiofônica no Brasil”, doutores Adriano Lopes Gomes (UFRN), Luciano Victor Barros Maluly (USP) e Ciro José Peixoto Pedroza (UFRN), sob a mediação do doutor Helcio Pacheco de Medeiros (UFRN).

Fonte: Jornal da Alcar – Nº 73 (julho 2020)

Imagem: divulgação Rádio Club Pernambuco