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Prisões de banqueiro e funkeiro refletem o Brasil racista

O banqueiro Daniel Vorcaro é um bandido de pele clara e paletó lustrado. Ele é líder de uma organização criminosa ramificada dentro e fora da estrutura do Estado, que deu prejuízos gigantescos ao sistema financeiro e aos fundos de pensão de servidores públicos estaduais em várias regiões do Brasil.

A prisão de Vorcaro, um bandido perigoso, foi suave, conduzida com carinho pelos políciais federais, com direito aos enquadramentos sofisticados nas imagens.

O MC Poze do Rodo, também criminoso, foi alvo da polícia de forma cinematográfica, algemado, com alta exposição e repetição de imagens em que os policiais põem a mão na nuca do preso e o conduzem de forma hostil.

As diferenças são explícitas e fáceis de analisar. O banqueiro bandido de pele clara é muito bem tratado no ato da prisão, discretamente.

O funkeiro é exposto em cenas de espetáculo, como se fosse um “bicho” perigoso que precisa ser preso com um plus de violência nos gestos, na forma de ser conduzido e na fabricação das imagens para o julgamento do público.

Tem ou não tem racismo nessas prisões?

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Zappear ou concentrar?

Entre vantagens e desvantagens, a oferta de conhecimento na rede mundial de computadores estimula diversas formas de consumo para quem busca informações.

A navegação na web é mais intensa para a chamada “Geração Z”, formada por pessoas nascidas nos anos 1990 e embaladas no ambiente das novas tecnologias e dispositivos eletrônicos disseminados com o surgimento da internet.

“Geração Z” deriva de “zappear”, o hábito de navegar com rapidez e alternar os mecanismos de busca, desenvolvendo múltiplas habilidades na rolagem das plataformas para acessar vídeos, sites, podcasts e textos.

A vantagem de “zappear” é a multiplicidade da oferta de conteúdo e a facilidade para encontrar respostas para quase tudo, no universo sem fim de fontes.

Por outro lado, a desvantagem é a falta de foco e concentração, diante de tantas oportunidades, cada vez mais fascinantes e sedutoras, sempre oferecendo motivações para a navegação.

Nesse contexto, é necessário trabalhar com equilíbrio no processo de busca de informações e saber o limite ideal entre “zappear” e concentrar.

Afinal, foco é tudo nesse mundo de tantas dispersões.

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Consulta pública amplia a luta pela Resex Tauá-Mirim

Nessa sexta-feira (17 de abril) será realizada a consulta pública para a criação da Resex Tauá-Mirim, um momento considerado decisivo em um processo que se arrasta há mais de duas décadas e envolve cerca de 2.200 famílias de 12 comunidades da zona rural de São Luís. A Consulta Pública é um momento em que a população pode participar, tirar dúvidas e contribuir com esse processo histórico. A atividade acontece a partir das 9h da manhã no Cine Teatro, Viriato Correa, no IFMA, Monte Castelo

A proposta da Reserva Extrativista busca garantir o uso sustentável dos recursos naturais, assegurando direitos às populações tradicionais que vivem da relação direta com os manguezais, rios e florestas da região. É uma área estratégica tanto do ponto de vista social quanto ambiental. A consulta pública é uma etapa obrigatória para a criação da Resex e representa uma oportunidade concreta de participação popular no processo, permitindo que moradores, organizações e a sociedade em geral contribuam com a decisão.

Liderança comunitária da região, Beto do Taim reforça que a criação da reserva vai além da regularização do território e representa um novo modelo de planejamento espacial do município de São Luís. “A criação da Resex é um passo importante para o planejamento de continuidade do uso equilibrado dos recursos naturais, tanto aquáticos quanto florestais. Aquela região, como já foi dito e está registrado em vários estudos, ainda tem um lençol freático mais saudável, sendo uma reserva de água significativa para a vida de São Luís”, explicou.

A expectativa é que a consulta pública fortaleça o reconhecimento da importância da reserva e avance na consolidação de políticas públicas voltadas à justiça socioambiental, proteção da biodiversidade e sustentabilidade da Ilha de São Luís. A participação popular é considerada essencial neste momento, reafirmando que a criação da Resex Tauá-Mirim é, sobretudo, uma construção coletiva em defesa do território, da natureza e do futuro da cidade.

De acordo com o pesquisador, professor e um dos coordenadores e fundadores do Grupo de Estudo Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente (GEDMMA), da UFMA, Horácio Antunes, ainda há pouco conhecimento sobre a realidade dessas comunidades dentro da capital maranhense. “Muito pouca gente sabe, mas São Luís ainda tem uma expressiva zona rural, ainda tem comunidades que vivem de uma relação profunda com a natureza e a manutenção disso é super importante para essas comunidades, para o meio ambiente e para a cidade de São Luís como um todo”, destacou.

O quê: Consulta Pública para criação da Resex Tauá-Mirim

Quando: 17 de abril

Hora: 9h

Local: Cine Teatro, Viriato Correa, no IFMA, Monte Castelo

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Prêmio Sebrae de Jornalismo 2026 abre inscrições

Jornalistas e estudantes podem inscrever trabalhos que retratem inovação, inclusão produtiva e desenvolvimento com foco nos pequenos negócios

Estão abertas as inscrições para o Prêmio Sebrae de Jornalismo (PSJ), que chega à sua 13ª edição valorizando produções que destacam o papel do empreendedorismo e dos pequenos negócios no desenvolvimento econômico e social. A premiação reconhece conteúdos que abordam temas como inovação, transformação digital, inclusão produtiva, sustentabilidade e empreendedorismo feminino.

Até o dia 8 de junho, profissionais e estudantes poderão inscrever seus trabalhos pelo site www.premiosebraejornalismo.com.br, onde também estão disponíveis o cronograma e o regulamento da 13ª edição. Cada participante pode submeter até três conteúdos, sem limite de inscrições por veículo ou instituição de ensino.

Os vencedores ou vencedoras serão premiados em dinheiro e equipamentos eletrônicos. Veja aqui mais detalhes e o regulamento completo

  • São quatro categorias principais para profissionais de imprensa: TextoÁudioVídeo e Fotojornalismo.
  • Há uma categoria especial para estudantes: Jornalismo Universitário.
  • Período de veiculação das matérias que podem concorrer: 9 de junho de 2025 a 7 de junho de 2026.
  • Etapas: a primeira, em nível estadual, classificará os concorrentes para a etapa regional, que definirá os finalistas da etapa nacional.

O tema principal do prêmio é o empreendedorismo com foco nos pequenos negócios. Veja alguns subtemas interessantes que você pode abordar:

  • Bioeconomia, Negócios Verdes e Sustentabilidade;
  • Acesso a Crédito e Gestão Financeira;
  • Produtividade e Competitividade;
  • Inclusão Produtiva e Desenvolvimento Territorial;
  • Transformação Digital;
  • Empreendedorismo Feminino;
  • Políticas Públicas e Legislação;
  • Inovação e Startups;
  • Empreendedorismo Social;
  • Educação Empreendedora.
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Derrota de Orbán abala articulação global da extrema direita em meio à guerra no Irã

Focus Brasil – A derrota de Viktor Orbán nas eleições parlamentares da Hungria, em 12 de abril de 2026, encerra um ciclo de 16 anos de poder e atinge diretamente um dos principais polos de articulação da extrema direita global.

O resultado ocorre em meio à escalada da guerra no Irã, que já pressiona o preço da energia, afeta economias e passa a ser mobilizada como instrumento político em disputas eleitorais.

O partido de oposição Tisza, liderado por Péter Magyar, conquistou maioria qualificada no Parlamento, com participação recorde do eleitorado.

Ainda na noite da eleição, Orbán reconheceu a derrota e parabenizou o adversário, classificando o resultado como “claro”. O gesto contrasta com episódios recentes envolvendo Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil, que questionaram ou rejeitaram resultados eleitorais.

A agência internacional de notícias Reuters destacou que a derrota “derruba um pilar da extrema direita europeia e provoca um exame mais minucioso das suas ligações com o movimento MAGA”, em referência à rede política construída em torno de Trump.

Guerra, energia e disputa política
A eleição húngara ocorre sob o impacto direto da guerra no Irã. O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial, elevou os preços da energia e ampliou a pressão sobre o custo de vida em diferentes países.

O relatório Global Risks 2026, do Fórum Econômico Mundial, aponta que conflitos armados entre Estados e desinformação estão entre os principais riscos globais, com potencial de desestabilizar economias e sistemas políticos. Na prática, esse cenário tem deslocado o debate eleitoral para temas como segurança energética, inflação e soberania.

Nesse contexto, o conflito deixa de ser apenas um evento geopolítico e passa a influenciar diretamente disputas internas. Nos Estados Unidos, Donald Trump tem incorporado a guerra ao discurso político, associando o tema à agenda eleitoral e à mobilização de sua base.

Steve Bannon, Flávio Bolsonaro, Orbán e Trump
Ao longo dos últimos anos, Orbán consolidou relações com lideranças da extrema direita internacional, especialmente Donald Trump e seu ex-estrategista Steve Bannon. Essa articulação não ficou apenas no plano simbólico.

Em 26 de outubro de 2018, Bannon declarou apoio público à candidatura presidencial de Jair Bolsonaro e afirmou esperar que sua vitória contribuísse para uma “maré populista global”. A partir daí, o bolsonarismo passou a operar como um dos polos latino-americanos dessa rede, em diálogo com o trumpismo e com governos como o de Orbán.

Na Hungria, esse alinhamento se manteve até a reta final do processo eleitoral. Em 8 de abril de 2026, o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, esteve em Budapeste em apoio a Orbán, gesto que foi interpretado como tentativa de reforçar a conexão direta entre o governo húngaro e o campo político ligado ao movimento MAGA.

A derrota de Orbán não encerra essa articulação, mas enfraquece um dos seus principais pontos de apoio em um momento de maior exposição e disputa.

O Brasil esteve integrado a essa rede nos últimos anos. Durante o governo Bolsonaro, a aproximação com Orbán e Trump foi explícita e se manifestou em diferentes níveis.

Entre 12 e 14 de fevereiro de 2024, Jair Bolsonaro permaneceu por dois dias na embaixada da Hungria em Brasília, poucos dias após ter o passaporte apreendido pela Polícia Federal. O episódio, revelado por imagens de segurança, evidenciou o grau de proximidade política com o governo húngaro.

Esse alinhamento também se expressa no discurso atual. Em março de 2026, durante a CPAC no Texas, Flávio Bolsonaro afirmou que o Brasil poderia ser “a solução da América para quebrar a dependência da China em minerais críticos”, defendendo maior integração estratégica com os Estados Unidos.

A fala recoloca o país dentro da lógica de articulação internacional da extrema direita, agora em um cenário de maior disputa geopolítica e econômica.

No cenário global, a guerra no Irã já produz efeitos econômicos nefastos. A alta do petróleo pressiona inflação e consumo em diferentes países, ampliando a instabilidade.

No Brasil, o impacto tem sido parcialmente contido por políticas adotadas pelo governo federal, especialmente na gestão dos preços dos combustíveis e na atuação da Petrobras. A estratégia tem buscado reduzir a transmissão imediata da volatilidade internacional para o mercado interno.

Esse contraste evidencia modelos distintos de resposta à crise e reforça o peso econômico da disputa política em curso.

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O futuro do rádio no podcast Espaço Público

“O rádio e as novas tecnologias” é o tema do podcast Espaço Público de terça-feira (14 de abril), às 20h, na rádio comunitária Bacanga FM.

Vamos receber o engenheiro eletricista e consultor em tecnologias de comunicação Fernando Cesar Moraes.

Espaço Público é uma produção da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraço) no Maranhão, transmitido pela rádio Bacanga FM, em parceria com a Agência Tambor e a Rede Abraço de emissoras FM e webradios.

O programa tem apresentação dos professores Ed Wilson Araújo e Martonio Tavares e do radialista Luís Augusto Nascimento.

A operação é de Valmarley Pinto.

Acompanhe e participe pelo site https://www.radiobacangafm.com.br/ e nas nossas redes sociais.

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Um mestre maranhense no Brasil Imperial

Texto: Paulo Henrique Máximo Lacerda (Facebook: A História Esquecida), republicado pelo portal Agenda Maranhão

Nascido em Codó, no coração do Maranhão, em 1858, Hemetério José dos Santos (1858–1939) era filho do major Frederico dos Santos Marques Baptisei, dono da fazenda São Raymundo, e de Maria, sua escrava.

O pai – talvez movido por culpa, talvez por afeto – pagou os estudos do menino no Colégio da Imaculada Conceição, em São Luís. E foi ali que começou a saga de um dos mais brilhantes intelectuais afro-brasileiros do século XIX.

Aos 17 anos, Hemetério deixou o Maranhão rumo ao Rio de Janeiro, então capital do Império. Três anos depois, já era professor do prestigiado Colégio Pedro II — feito raro até mesmo entre brancos da elite.

Em 1889, Dom Pedro II o nomeou professor adjunto de Língua Portuguesa no Colégio Militar onde, mais tarde, conquistaria a cadeira vitalícia.

Entre uma aula e outra, cursou a Escola de Artilharia e Engenharia, alcançando a patente de major e, mais tarde, a de tenente-coronel honorário.

Hemetério dos Santos não era apenas um homem de farda e giz. Era, também, um pensador inquieto — gramático, filósofo, escritor.

Percorria escolas, auditórios e salões ministrando conferências sobre o ensino, defendendo com veemência o valor da educação e da cultura como instrumentos de emancipação.

Sílvio Romero, crítico temido e rigoroso, o colocou ombro a ombro com Olavo Bilac, Graça Aranha e os irmãos Aluísio e Artur Azevedo. E com razão: Hemetério dominava a palavra — escrita e falada — com o mesmo brilho com que, em sua juventude, desafiara o destino que o nascera desigual.

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Claudia Santiago recebe o prêmio Leolinda Daltro 2026

Site do NPC – Criado em 2003 pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio (Alerj), o Diploma Leolinda Daltro homenageia todo ano dez mulheres do estado do Rio. O reconhecimento é pelo protagonismo das premiadas na defesa dos direitos das mulheres e nas questões de gênero.

Para este ano de 2026, Claudia Santiago, criadora e coordenadora do NPC, foi escolhida como uma das homenageadas pelas deputadas que integram a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. A cerimônia de entrega do prêmio ocorreu no dia 23 de março, presidida pela deputada estadual Renata Souza, jornalista e ex-aluna do curso de comunicação popular do NPC. 

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Apruma repudia medida autoritária na UFMA

Nota da diretoria da Apruma em defesa da Democracia e da Autonomia universitária na UFMA

Fonte: Site da Apruma

A Apruma Seção Sindical do ANDES-SN tem um histórico de lutas em defesa da democracia e da autonomia universitária, sem nunca ter silenciado sobre quaisquer formas de autoritarismos e arbitrariedades dentro da universidade e fora dela. Recentemente, obtivemos uma grande vitória com o fim da lista tríplice para a escolha de reitores, o que significa ratificar e respeitar a vontade da maioria da comunidade universitária na escolha de seus dirigentes. Este êxito é resultado de uma luta de décadas do movimento sindical docente brasileiro, que tem no ANDES-SN e nas suas seções sindicais suas expressões máximas.

Nos últimos anos, a Universidade Federal do Maranhão e suas administrações superiores vêm se reproduzindo através de formas pouco republicanas, que nem sempre prezam por ações democráticas e transparentes. São relações de poder tantas vezes baseadas em práticas clientelistas e patrimonialistas, o que tem se revelado na maneira como se dão certas remoções docentes, com a ausência de normas, resoluções e critérios claros para mobilidade de professores entre coordenações, bem como a pouca transparência em relação à destinação de códigos de vagas, ou na imposição, mais recentemente de uma dita “modernização”, com o fim dos departamentos, o que na prática tem afetado negativamente a carga de trabalho docente, com mais burocracia por toda a UFMA.

Outra coisa que nos inquieta e já nos manifestamos neste sentido, é a forma como se dão as eleições na UFMA, seja para coordenadores de curso, diretores de centro e para a reitoria, isto é, no formato remoto. Defendemos eleições no formato presencial, o que é bom para a democracia, já que garante o sigilo do voto e diminui as possibilidades dos assédios de cunho moral.

Diante do exposto, manifestamos nosso total desacordo com a forma de condução do processo eleitoral para as direções de Centro na UFMA, principalmente porque ele não obedece ao prazo estabelecido pelo próprio Estatuto da UFMA, as eleições eram para acontecer em janeiro de 2026. Quais as justificativas da administração superior para postergar o pleito das direções de centro atualmente?

Nos causa estranheza e espanto a publicação das portarias do último dia 8 de abril de 2026, reconduzindo os mesmos diretores e as mesmas diretoras de centro de toda a UFMA (em caráter pró-tempore), eleitos em janeiro de 2022, com exceção do Diretor do Centro de Ciências Humanas (CCH), Luciano da Silva Façanha. Embora reconheçamos que seja uma prerrogativa do reitor, o ato não deixa dúvidas: é explicitamente arbitrário, antidemocrático e político. A administração superior desrespeita e deslegitima todos e todas que votaram nele na última eleição e por isso nos solidarizamos com o professor e com a comunidade universitária do CCH neste momento.

Por fim, a Apruma reafirma seu compromisso inegociável com a democracia, a autonomia universitária, além da transparência e equidade não somente na condução de todos os processos eleitorais na UFMA, mas também em suas práticas cotidianas.

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Pedras, pedradas e a lua

Eloy Melonio *

“Olha a pedra de responsa aí, gente!”

Acredite se quiser: imaginei-me em plena Sapucaí ouvindo essa convocação. E logo pensei tratar-se de uma homenagem ao “reggae” do Maranhão [pronuncia-se /réguei/]. Um devaneio, obviamente. E mais: o puxador de samba diria “flor”, palavra que completa o nome de sua escola. Um alívio, pois nunca soube de alguém que beijasse pedras.

Aqui e ali, essa palavra (pedra) aparece do nada e cala o silêncio da galera. Em alguns casos, ela não é ela mesma, mas uma metáfora para “problema, obstáculo, situação indesejada”. Não sei se já era famosa antes do Drummond. Mas sei que ficava no meio do caminho só para ver os poetas passarem.

E aí lembrei-me dos atiradores de pedras do Novo Testamento, cujo alvo eram as mulheres adúlteras, apanhadas “no flagra”. Repreendidos, esses juízes sem toga ficaram sem palavras quando Jesus os interpelou: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra?” (João 8:7).

Outra pedra histórica aparece no confronto bíblico entre Davi e Golias. Certeira, ela entra com tudo no cenário da guerra entre hebreus e filisteus. Num típico milagre do Velho Testamento, essa pedra salva os judeus quando, atirada por Davi, atinge em cheio a cabeça do gigante Golias, muito temido na região.

Lembro-me nitidamente do filme “Davi e Golias” (1960), um épico italiano, estrelado por Orson Welles (Rei Saul) e Ivica Pajer (Davi). Mas os olhos da garotada brilhavam mesmo era com a figura do musculoso ator Primo Carnera, lendário pugilista italiano (1906-1967), no papel de Golias. Devia ter entre 11 e 12 anos quando assisti ao filme na prestigiada tela do Cine Éden, na Rua Grande, em São Luís, capital do Maranhão.

Parece que cada um de nós tem sua história com as pedras. Nestes tempos difíceis, as comunidades mais necessitadas usam-nas em suas manifestações de protesto. E elas só perdem para os pneus, que, geralmente “em chamas”, obstruem ruas, avenidas ou estradas. Os caminhoneiros geralmente reclamam: “Tinham muitas pedras no meio do caminho”.

Da guerra e protestos para as festas: em São Luís, outras pedras fazem a cabeça de muita gente. Refiro-me ao “reggae”, esse ritmo tipicamente jamaicano, adotado por uma multidão de apaixonados. Lembra-se da “metáfora”? Pois é, no reggae, a “pedra” é uma música apaixonante, que toca fundo nos corações sensíveis. Um preceito tradicional diz: reggae sem pedras não é reggae de responsa. E, aqui, na Ilha do Amor não se pode imaginar um show ou baile sem as “pedradas” (músicas mais populares). Se tem reggae, os passos da dança individual ou casais dançando agarradinho chamam a atenção do público. E os “regueiros guerreiros” (Tribo de Jah) enfeitam a cidade com suas toucas, camisas e calças nas cores vermelha, verde e amarela.

A conexão viva entre o reggae e a capital maranhense é um caso de amor que começou por volta dos anos 1970. E o que já era realidade no coração do regueiro maranhense tornou-se patrimônio cultural. Como consequência, em 2023, São Luís passou a ser considerada a “capital brasileira do reggae”, conforme a lei 14.668, proposta pelo deputado Bira do Pindaré. E, hoje, é a única a abrigar um Museu do Reggae fora da Jamaica. Jimmy Cliff (1944-2025) e muitos cantores jamaicanos já se apresentaram por aqui, e o intercâmbio com a Jamaica é real e intenso.

Na capital do reggae, alguns cantores têm músicas de sucesso e fazem shows para grande público. Entre as bandas, a Tribo de Jah é a mais conhecida na ilha, no Brasil e em vários países. Recentemente, Célia Sampaio, a “dama do reggae”, participou do show da cantora Iza, no The Town, em São Paulo (set/2025). Um luxo para um ritmo que, por muito tempo, sobreviveu na periferia da cidade.

Entre os cantores, Gerude traduz essa cena com “Jamaica São Luís” (parceria com Ciba Carvalho): “O rei Bob Marley não disse/ Mas Jimmy Cliff, mas Jimmy Cliff/ Balançou a ilha e disse/ Gegê, a capital existe, a capital existe/ São Luís, a Ilha Jamaica/ oi oi oi oi/ Capital brasileira do reggae”.

Zeca Baleiro também faz sua incursão sonora pelas pedras da “Ilha do Amor”. “Pedra de Responsa”, em parceria com Chico César, é uma pedrada: “É pedra, é pedra, é pedra/ É pedra de responsa/ Mamãe, eu volto pra ilha/ Nem que seja montado na onça”.

Essas e outras músicas estão no repertório de Alcione e outros artistas famosos. E é nessa vibe que as pedras se esbaldam nos espaços públicos da Ilha-Jamaica. Porque o reggae é do povo, é das comunidades. Em cada “pedrada”, braços, pernas e quadris interagem em perfeita harmonia com esse ritmo contagiante.

E, para fechar esta crônica com “pedra de ouro”, destaco um homem que está à porta da Lua. De lá, ele nos envia uma mensagem que é uma “pedrada”: “We are all one people” (Somos todos um só povo). Victor Glover, 49 anos, primeiro astronauta negro a viajar além da órbita terrestre (missão Artemis II) pode até não curtir as pedras do reggae, mas sabe que precisamos valorizar a dança da vida, não necessariamente agarradinhos, mas olhando um para o outro com amor, respeito e dignidade.

Muita gente sonha com uma nova “pedra” que seja a voz de um tão esperado canto de paz, seguindo os exemplos de Jesus, do astronauta americano e da espontaneidade do reggae. E que as velhas pedras fiquem apenas nas letras frias da história da humanidade e nas metáforas dos nossos poetas.

Eloy Melonio é poeta, compositor e escritor

Imagem destacada / Radiola de reggae característica do Maranhão. Fonte: https://culturadobrasiloficial.com/reggae-no-maranhao