Letícia Queiroz – Escola de Ativismo
Entre os dias 5 e 7 de maio, em São Luís, comunidades tradicionais se reuniram no Tribunal dos Povos do Maranhão para denunciar violações de direitos e os impactos da expansão do agronegócio sobre seus territórios. O julgamento simbólico colocou no banco dos réus o Estado, empresas e fazendeiros denunciados por crimes socioambientais, grilagem de terras, violência contra comunidades e outras violações em territórios maranhenses. Ao longo das audiências, cinco casos ou conjuntos de casos apresentados pelas comunidades atingidas foram analisados e julgados pelo tribunal popular, que terminou com sentenças simbólicas responsabilizando os culpados pelas graves violações denunciadas.
A iniciativa foi organizada por comunidades tradicionais, com apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT Maranhão), Movimento Quilombola do Maranhão (Moquibom) com o objetivo de denunciar crimes e violações que há décadas atingem povos e territórios tradicionais sem a devida investigação, responsabilização e punição dos envolvidos. A iniciativa reuniu cerca de 100 pessoas, incluindo lideranças quilombolas, quebradeiras de coco, lavradores e famílias camponesas que há décadas enfrentam grilagem, expulsões, desmatamento, perseguições, assassinatos e outras violações provocadas pelo avanço do agronegócio.
Os três dias de julgamento popular reuniram depoimentos e denúncias de cinco territórios afetados pelo avanço do agronegócio e por violações de direitos no Maranhão:
● Travessia do Mirador, no município de Mirador;
● Quilombo Santa Maria dos Moreiras e Quilombo São Benedito dos Colocados, no município de Codó;
● Quilombo Jacarezinho, no município de São João do Sóter;
● Território Campestre, no município de Timbiras, e as comunidades de quebradeiras de côco babaçu Vila São Pedro, Cajá e Centro dos Pretinhos, no município de Dom Pedro;
● Quilombo Tanque da Rodagem/São João, no município de Matões, e quilombos Cocalinho e Guerreiro, em Parnarama;
Cada caso expôs as situações de violência, violações de direitos e impactos provocados pelo avanço do agronegócio sobre o território. O caso da Travessia do Mirador, por exemplo, expôs a realidade enfrentada por comunidades tradicionais que vivem em um território ancestral localizado no Centro-Sul do Maranhão, na região do Cerrado da Amazônia Legal, abrangendo os municípios de Mirador, Fernando Falcão e Formosa da Serra Negra. O território abriga 79 comunidades e cerca de 300 famílias tradicionais que vivem na região desde o século XIX.
Os relatos apresentados denunciaram um cenário marcado pela grilagem de terras públicas, avanço das monoculturas de soja e cana-de-açúcar e pela pulverização sistemática de agrotóxicos sobre os territórios. Segundo as denúncias, as nascentes do rio Itapecuru recuaram cerca de 500 metros e os rios da região foram contaminados, afetando diretamente a vida das comunidades. Também foram denunciadas ações de violência estatal, incluindo abordagens consideradas truculentas por parte da Polícia Ambiental contra moradores do território.
Sentenças
Na sentença popular, o Estado foi responsabilizado tanto por ações quanto por omissões relacionadas às violações denunciadas. A Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Estado, por exemplo, foi responsabilizada por emitir licenças ambientais sem a devida consulta prévia, livre e informada, além de autorizações de pulverização aérea de agrotóxicos em zonas de amortecimento e limítrofes de unidades de conservação de proteção integral. O Instituto de Terras do Maranhão, o Iterma, e outros órgãos estaduais foram responsabilizados pela omissão no combate à “grilagem verde” pelo agronegócio ao não impedirem o registro de Cadastro Ambiental Rural sobrepostos ao Parque Estadual do Mirador.
Já o caso do Quilombo Jacarezinho, um dos mais emblemáticos do Tribunal por ter culminado no assassinato da liderança quilombola Edvaldo Pereira Rocha, de 52 anos, em abril de 2022, a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão foi responsabilizada por, até hoje, não ter identificado o mandante do crime. O executor do assassinato chegou a ser preso, mas após ser posto em liberdade por uma medida cautelar, rompeu a tornozeleira eletrônica e fugiu, não tendo sido encontrado até o momento.
As denúncias de violência no caso do quilombo Jacarezinho, que ainda não tem sua titulação definitiva, apontam para uma pressão intensa de sojicultores na região para tomar o território ancestral por meio da grilagem de terras, pelo uso extensivo de agrotóxicos e ameaças às lideranças, como foi o caso de Edvaldo Pereira Rocha.
A Sema também foi responsabilizada nesse caso por desrespeitar a devida consulta livre, prévia e informada aos quilombolas nos processos de licenciamento de empreendimentos potencialmente danosos ao território. Em portaria recente, de 2025, a Sema introduziu alterações procedimentais que violam os padrões da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, OIT, que determina a consulta livre, prévia e informada. Algumas das alterações são a restrição da consulta à Área Diretamente Afetada (ADA) e a flexibilização do momento da consulta, que deixaria de ser prévia, levando à perda da autonomia comunitária diante da dimensão dos impactos e da decisão sobre aceitá-los ou não.
Pressão contra a omissão do Estado
Márcia Palhano, agente de base da CPT/MA, afirma que o Tribunal Popular nasce da necessidade das comunidades denunciarem os crimes cometidos contra seus territórios há décadas. “Estamos falando de crimes que já foram e continuam sendo denunciados constantemente ao estado. O Tribunal vem dar voz a essas comunidades para essas denúncias para que esses crimes sejam devidamente investigados e punidos, e que os órgãos competentes do estado do Maranhão se responsabilizem por essa realidade de violência que tem cada vez mais se intensificado nos territórios. Sobretudo onde as comunidades estão fazendo a resistência e a defesa dos seus territórios, a defesa dos seus modos de vida e das suas identidades”, disse.
Márcia afirma que o poder público deve tomar providências urgentes para a proteção dentro dos territórios. “Nós estamos falando da morosidade do estado do Maranhão em investigar e punir de forma devida e coerente a realidade da violência que as comunidades vivem no estado do Maranhão. Esses crimes precisam ser investigados, esses violadores precisam ser punidos e nós precisamos garantir que as comunidades possam permanecer nos seus territórios, que seus modos de vida sejam garantidos e que elas possam ter segurança alimentar”.
Dados do relatório Conflitos no Campo Brasil da CPT informam que em 2025 foram registradas 1.286 ocorrências de conflitos por terra no Brasil, sendo a maioria no estado do Maranhão, que segue liderando os casos de violência por terra (190 registros).
Povos quilombolas estão entre as principais vítimas da violência no campo em todo o Brasil. No Maranhão, denúncias de grilagem, ameaças, contaminação por agrotóxicos e demora na regularização dos territórios fazem parte da realidade enfrentada por muitas comunidades. Por isso, o Movimento Quilombola do Maranhão, o Moquibom, também integra a organização do Tribunal dos Povos do Maranhão.
Para Emília Costa, integrante do movimento, o tribunal representa um espaço de escuta, denúncia e fortalecimento das comunidades atingidas pela violência no Matopiba.“O tribunal popular é um espaço de denúncia para as comunidades que estão nesse corredor de violência do Matopiba há vários anos. E com o tribunal a gente pretende fortalecer os territórios, denunciar o Estado brasileiro e também responsabilizá-lo por não regularizar as áreas de assentamento, os territórios quilombolas, dos camponeses que estão aqui. Essa omissão tem gerado todo esse processo de violência”.
Proteção das lideranças ameaçadas
Entre as organizações parceiras da iniciativa está a Escola de Ativismo, que realizou, junto à CPT/MA e ao Moquibom, ações voltadas ao fortalecimento territorial das comunidades e à proteção das lideranças ameaçadas. As atividades tiveram como foco o cuidado, troca e construção coletiva de estratégias de proteção e autonomia das lideranças, fortalecendo a capacidade de organização, denúncia e resistência das comunidades tradicionais diante dos conflitos em seus territórios.
Gracinha Donato, diretora da Escola de Ativismo, acompanhou o Tribunal Popular e presenciou a resistência das comunidades. “Somos sementes teimosas”, disse uma das lideranças presentes no Tribunal. A teimosia está em nós. Mesmo que tentem calar as comunidades, elas se erguem, desatam os nós da injustiça, da violência provocada pelas investidas do agronegócio, sobretudo quando se trata da região do Matopiba. Nos juntamos às vozes dos diversos territórios que lutam contra o ecogenocídio no estado do Maranhão, o estado que mais mata quilombolas no Brasil, com a força de toda a ancestralidade, para compartilhar as lutas cotidianas das comunidades tradicionais, quilombolas, camponeses e camponeses reunidos nestes dias de escuta durante o Tribunal dos Povos do MAR para reafirmar que todo o povo, as palmeiras, a floresta, os rios seguem firmes na defesa dos seus direitos, pelo seus territórios livres de cercas e amarras, seguem na resistência com seus tambores, vozes e saias coloridas, com seus pés de buriti e de mangaba, seus rezos e raízes”, afirmou Gracinha.
Mesmo sem integrar o sistema formal de justiça, o “Tribunal dos Povos do Maranhão contra o ecogenocídio do Matopiba: em defesa da vida e dos territórios” se consolidou como um importante espaço de escuta e denúncia das violências sofridas por povos e comunidades tradicionais. Construído coletivamente, o tribunal também reforça a luta por justiça, reparação e garantia do direito aos territórios ancestrais e à preservação da vida e da natureza.
Com o fim dos ritos do tribunal, o próximo passo é reunir todas as denúncias e sentenças sistematizadas e apresentá-las aos órgãos oficiais de justiça, como Ministérios Públicos, Defensorias Públicas, além de secretarias e outras pastas dos governos estadual e federal para levar adiante a responsabilização e punição dos responsáveis pelas violações. Estão previstas ainda ações de incidência nacional e internacional para evidenciar os crimes de ecogenocídio do Matopiba, impulsionados pela expansão da fronteira agrícola para abastecer o mercado internacional com commodities como soja, milho e minério de ferro.
Pesquisadores(as), DJs, artistas e público da cultura reggae participam nos dias 11 e 12 de maio da 3ª Semana Bob Marley, que será realizada em dois locais: segunda-feira, na Produtora Novo Quilombo, no bairro Liberdade; e terça-feira, no auditório do Centro Pedagógico Paulo Freire (campus do Bacanga – UFMA).
O evento é alusivo ao artista Bob Marley, falecido em 11 de maio de 1981. A organização é do Programa de Pós-Graduação em Estudos Africanos e Afrobrasileiros, da Liesafro UFMA e da Produtora Novo Quilombo.
As inscrições, com direito a certificado, podem ser feitas nesse link.
Embora São Luís seja denominada Jamaica Brasileira e Capital Nacional do Reggae, ainda não há uma política pública concreta de fomento à indústria criativa regueira.
Diante do contraste entre fazer o movimento reggae acontecer e a ausência de fomento do poder público, o evento vai debater o presente e o futuro do reggae nas suas diversas formas de expressão: música, indústria criativa, construção de identidades, negócio, entretenimento, fonte de trabalho e renda e produção de uma cultura de resistência.
Veja abaixo a programação:
Mesa 1 – Juventude e reggae na Jamaica Brasileira: ruptura geracional?
Debatedores: DJ e pesquisador Tarcísio Selekta; pesquisadora Karla Freire; artista Herbet Reis; professor e pesquisador Carlos Benedito; historiador Roberto Pereira.
Mediação: professor Rosenverck Estrela (UFMA)
Local: Produtora Novo Quilombo – Liberdade
Data: 11/05 (segunda-feira)
Horário: 19h
Mesa 2 – Estado, políticas públicas e o futuro do reggae em São Luís
Debatedores: DJ e pesquisador Otávio Rodrigues; artista e produtor Beto Ehong; pesquisadora Thalisse Ramos; DJ Natty Nayfson
Mediação: escritor Bruno Azevedo
Local: UFMA – Auditório Paulo Freire
Data: 12/05 (terça-feira)
Horário: 19h
Link para Inscrição: https://forms.gle/3pkfhz27fCYYUXg29
Uma das coisas mais asquerosas já produzidas pela extrema direita é um tipo de falso cristão que usa uma suposta religiosidade para mascarar gente ruim.
Os termos “cristão”, “evangélico” ou adjetivos similares encobrem ladrões e ladras de dinheiro público, falsários(as), pastores estupradores, bispas adúlteras, empresários(as) que burlam o fisco e os direitos trabalhistas, canalhas de todos os naipes etc etc etc.
Todas as vezes que uma aberração acontece, pode cravar que o(a) autor(a) veste camisa da seleção brasileira, ocupa a vaga de deficiente e grávida no estacionamento e escraviza empregados.
Eles não falham. A mais nova aberração atende pelo nome de Carolina Sthela Ferreira dos Santos, empresária “cristã”, que torturou e quase matou a sua empregada doméstica, grávida de cinco meses.
Trata-se de um tipo de animal humano desprezível em todos os sentidos. Mas, por incrível que pareça, é esse chorume de personalidade que ocupa as redes sociais para falar em honestidade e pregar justiça, em nome de Deus.
Hipocrisia é o mínimo que se pode dizer dessa escória. Em respeito ao leitor e à leitora, vou ficar por aqui.
A vida sofrida do escritor russo Maksim Górki, relatada no livro autobiográfico “Infância”, tem passagens encantadoras em meio a tanta pobreza e desesperança. No trecho abaixo, o escritor descreve um raro momento de beleza e descontração no ambiente de tanto sofrimento.
“Certa vez, num sábado, de manhã cedinho, fui à horta de Petrovna caçar piscos-chilreiros; fiquei muito tempo caçando, mas os orgulhosos passarinhos de peito vermelho não caíam na armadilha; provocando-me com a sua beleza, passeavam alegremente pela crosta de neve congelada e cor de prata, alçavam voo para os ramos dos arbustos, revestidos com o agasalho da geada, e ali se balançavam como flores vivas, desprendendo azuladas faíscas de neve. Era tão bonito que o fracasso da caçada não me irritava; eu não era um caçador muito apaixonado, o processo sempre me dava mais prazer do que o resultado; eu gostava de ver como os passarinhos viviam e de pensar sobre eles.
Era bom ficar sentado sozinho na margem do campo nevado, ouvindo como os pássaros chilreavam no silêncio cristalino do dia gélido, enquanto aos longe cantava e voava a sineta de uma troica de passagem, a tristonha cotovia do inverno russo…”
O pré-candidato ao Governo do Maranhão e ex-prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD), que ganhou duas eleições na capital e governou investido da “nova política”, ou seja, supostamente avesso ao velho estilo dos acordos eleitorais e repartição do poder, começa a mudar o curso e voltar ao seu habitat natural.
Afinal, não se pode esquecer que ele é filho de família tradicional da velha política e foi por meio dela que adquiriu os primeiros mandatos de deputado, chegando a ser até líder do governo comunista de Flávio Dino na Assembleia Legislativa.
Em pré-campanha para chegar ao Palácio dos Leões, o jovem Braide retoma as velhas práticas do tapinha nas costas com vereadores, prefeitos, ex-prefeitos e “lideranças” pelo Maranhão arcaico, formado por uma “classe política” interessada unicamente em se locupletar com o dinheiro público.
Assim, o novo Braide abraça a velha política que ele conhece muito bem, porque é fruto dela, feita de coronelismo, oligarquia, patrimonialismo, clientelismo e nepotismo.
É nesse pântano que o polido candidato Eduardo Braide anda agora, abraçando políticos viciados em dinheiro público, que ele chama de “amigos”.
Como se tivesse calçado as sandálias da humildade, o ex-prefeito abraça, elogia e faz alianças com todo tipo de gente que sempre usou a política com o único objetivo de pilhar o erário, uma prática comum no velho Maranhão.
O pré-candidato sabe como se ganha eleição, usando os métodos tradicionais nos grotões de um dos estados mais miseráveis do Brasil.
Ele tem conhecimento teórico e prático sobre o mecanismo do voto no Maranhão profundo. Por isso, recorre aos velhos métodos.
Não se pode cair na inocência de dizer que Braide “caiu na real”, ao olharmos ele abraçando “lideranças” e prometendo mudanças no Maranhão feito de jovens políticos formados no vício do dinheiro público.
O pré-candidato ao Governo do Maranhão já conhece essa realidade há muito tempo.
Lá no fundo, Eduardo Braide é um político igual a qualquer outro. E nada mais!
A Casa de Nagô, fundada no século XVIII e tombada como patrimônio estadual, realiza em 2026 o tradicional Festejo do Divino Espírito Santo, reafirmando sua importância como referência do Tambor de Mina no Maranhão. Neste ano, a celebração incorpora a temática da justiça climática, conectando saberes ancestrais aos desafios contemporâneos.
Principal celebração da Casa, o festejo mobiliza a comunidade em diversas etapas rituais: abertura da tribuna, buscamento e levantamento do mastro com cortejo pelas ruas da Madre Deus, missa na Igreja de São Pantaleão, Dia da Festa Grande, derrubamento do mastro, ladainhas e roda de Tambor de Crioula para São Benedito.
Mais do que um evento religioso, a Festa do Divino atua diretamente no enfrentamento da insegurança alimentar e na ampliação do acesso à cultura, por meio da distribuição gratuita de alimentos e da ocupação cultural do território. A participação das crianças na formação do Império do Divino e o protagonismo das mestras caixeiras — guardiãs de saberes
transmitidos pela oralidade — reforçam a continuidade das tradições.
Em um contexto de emergência climática, o festejo também propõe reflexões sobre sustentabilidade ritual. Um dos símbolos centrais da celebração, o mastro, que antes era retirado diretamente da floresta, hoje precisa ser adquirido em madeireiras, evidenciando os impactos ambientais e as transformações nos modos de realização das práticas tradicionais.
Como ação formativa integrada, a programação inclui a roda de conversa “O mastro do Divino – Desmatamento, Racismo Ambiental e Tradições Afro-Religiosas”, que debate os impactos socioambientais nos territórios tradicionais, e a oficina “Sete Tipos de Ervas”, dedicada ao uso ritual, medicinal e ecológico das plantas sagradas. A atividade valoriza práticas ancestrais de cuidado com a natureza, reforçando a relação entre cultura e justiça climática.
Ao articular espiritualidade, cultura e consciência ambiental, a Festa do Divino da Casa de Nagô se consolida como um espaço de resistência, transmissão de saberes e fortalecimento comunitário, mantendo viva uma das mais importantes tradições do Maranhão.
Mais informações: https://www.instagram.com/nagonabioton/
O Grupo Angoleiros da Barra (Gaba Capoeira Angola), fundado em 8 de outubro de 2005, celebrou seu aniversário de 20 anos nos dias 1º e 2 de maio de 2026. O evento “20 anos do Gaba dentro dos 21” teve a participação de capoeiristas e grupos de várias partes do mundo.
A programação incluiu rodas e outras atividades de intercâmbio cultural. Os participantes fizeram uma visita à aldeia indígena Tenetehara da Cachoeira Grande e homenagearam Mestre Adão e Dona Maria pela preservação da “Punga” (manifestação de origem afro, semelhante ao Tambor de Crioula), que o casal vem realizando há mais de quatro décadas em Barra do Corda.

As rodas de Capoeira Angola tiveram a participação do Mestre Nelsinho, Mestre Assuélio e do Contra-Mestre Luciano, Grupo Laborarte, Mestre Luciano, Grupo Grãos, Professora Luana, Grupo Cortiço do Abelha, Professor Welton e Grupo Arte Capoeira.
Houve também momentos de estudos teóricos e práticos da Capoeira Angola, por meio de rodas de conversa e vivências de movimento, conduzidas pela Professora Luana Pereira.

Durante a visita à Cachoeira Grande, os capoeiristas tocaram, cantaram e jogaram em terras Guajajara, onde foram recebidos pela comunidade com cantorias e falas sobre a cultura indígena e puderam conhecer e desfrutar da arte do povo originário, por meio das pinturas corporais com grafismos tradicionais.


A roda de encerramento do evento, reunindo centenas de pessoas, aconteceu em frente à casa de Mestre Adão e Dona Maria, onde foi prestada uma homenagem ao casal e a todas as pessoas da comunidade que, há décadas, se dedicam à preservação da “Punga”.

O grupo de carimbó “Flor da Jitirana” também participou do evento. O auge da noite, porém, foi a apresentação da “Punga”, celebrada nas vozes contagiantes de Mestre Adão e Dona Maria.

O Gaba atualmente funciona na Escola Rei Artur, no bairro Incra, com treinos e rodas que acontecem aos sábados, das 16h às 18h, sob a coordenação do Contra-Mestre Irapuru, que atua há 27 anos na área em Barra do Corda. As aulas são abertas a toda a comunidade para pessoas a partir dos 6 anos de idade.
A escrita visceral de Maksim Górki
Acabei hoje a leitura de “Infância”, do escritor russo Maksim Górki, publicado entre 1913-1914.
A obra é um relato autobiográfico do autor, baseado nas suas memórias da infância pobre na Rússia dos czares autocráticos, com poderes divinos, enquanto a maioria da população vivia em meio à fome, desemprego e falta de perspectivas.
As tragédias constantes na infância do escritor atravessam as páginas do livro. No trecho copiado abaixo, ele narra uma passagem do estado de quase inanição do seu irmão recém-nascido (Kólia) e do quadro depressivo da sua mãe, prestes a morrer, castigada verbalmente pelo pai (avô de Górki) amargurado e carrancudo.
“Eu pegava o Kólia, ele gemia e se esticava na direção da mesa. A mãe se levantava, vinha ofegante ao meu encontro, estendia os braços secos e sem carnes, comprida, fina, que nem um pinheiro com os galhos quebrados.
Ela havia emudecido de todo, raramente dizia alguma palavra com a sua voz febril, passava o dia inteiro deitada em silêncio, num canto, para morrer. Que ela ia morrer, isso eu, afinal, senti e compreendi, e o avô, com demasiada frequência e de maneira importuna, falava sobre a morte, sobretudo à noite, quando o pátio ficava escuro e, através da janela, escorria quente, como uma pele de ovelha, um cheiro gordo de podridão.” (Górki, Maksim. Infância. São Paulo: Abril, 2010. p. 290)
A política é dinâmica e feita de contradições.
Em 2010, o PT Maranhão, no Encontro de Tática Eleitoral, decidiu que teria Flavio Dino (PCdoB) como candidato a governador.
A adversária, na época, era Roseana Sarney (PMDB), filha de José Sarney, a mais emblemática representante da estrutura oligárquica do Maranhão.
Embora os petistas maranhenses tenham votado e aprovado o apoio ao então comunista Flávio Dino, a cúpula nacional do PT decidiu anular a decisão pró-Dino e impôs o apoio do PT à candidatura oligarca de Roseana Sarney.
O argumento do comando nacional para fazer a intervenção era a prioridade da eleição de Dilma Roussef e o palanque estadual do PMDB com Roseana Sarney seria fundamental para alinhar os interesses nacionais aos locais.
Assim, ganharam Dilma Roussef e Roseana Sarney, esta reeleita no primeiro turno, com amplo apoio de Lula, mantendo a oligarquia no Maranhão, que já durava quase 50 anos.
Em 2014, Flavio Dino derrotou Edinho Lobão, do PMDB, candidato da oligarquia liderada por José Sarney, apoiado pelo Diretório Nacional do PT, que novamente impôs ao PT do Maranhão a aliança com o sistema oligárquico.
AGORA O COMANDO NACIONAL PETISTA É CONTRA A OLIGARQUIA
Os tempos mudaram e o discurso da Direção Nacional do PT é outro: decidiu não apoiar o candidato do MDB, Orleans Brandão, sobrinho do governador Carlos Brandão, alegando que é preciso combater a oligarquia no Maranhão.
ENTENDA O ENREDO
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, a mando do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, bateu o martelo sobre a posição do partido no Maranhão.
A decisão é por candidatura própria, encabeçada pelo atual vice-governador Felipe Camarão, que rompeu com o governador Carlos Brandão.
O rompimento ocorreu porque o governador não cumpriu o acordo firmado no passado recente, acertado com Flavio Dino, líder do grupo hegemônico no Maranhão desde 2015.
Carlos Brandão, vice-governador de Flávio Dino, assumiu o Palácio dos Leões mediante a promessa de transferir o governo para Felipe Camarão, mas não cumpriu o acerto, optando por colocar o seu sobrinho – Orleans Brandão (MDB) – como candidato.
O Maranhão inteiro sabe que a família de Carlos Brandão é um caso clássico da estrutura oligarca, mas ele foi mantido e elogiado entre companheiros e camaradas de 2014 até 2022, mediante a promessa de transferir o governo ao grupo do ex-governador Flavio Dino e ao petista Felipe Camarão em 2026.
Diante do desacerto, a família Brandão foi defenestrada e agora o camarada oligarca é só oligarca; e oligarquia, segundo o PT Nacional, não serve mais para o palanque de Lula no Maranhão.
O Brasil perdeu hoje um dos seus jornalistas mais importantes. Raimundo Rodrigues Pereira faleceu, no Rio de Janeiro, aos 85 anos.
Durante a ditadura militar, ele foi símbolo de referência e luta pela democracia.
Pereira atuou em duas frentes. Como protagonista da chamada imprensa alternativa, enfrentou a censura através de jornais que se recusavam a engolir o autoritarismo, entre eles Opinião e Movimento, e a revista Reportagem, que não eram apenas publicações, mas espaços de articulação e construção de resistência à ditadura.
A outra forma de atuação, dentro dos jornais, produzia o jornalismo investigativo e crítico, construindo um estilo de reportagem fundamental para enfrentar as atrocidades da ditadura.
Nas páginas de Opinião e Movimento, os textos de Raimundo Pereira mostravam o Brasil oprimido e massacrado pelo regime de exceção.
Ele criou também o dossiê “Retrato do Brasil”, com o objetivo de produzir reportagens em profundidade sobre a realidade desigual e injusta do país.
Na chamada grande imprensa, trabalhou nas revistas Realidade e Veja (antes da degeneração) e no jornal O Estado de São Paulo.
Seu texto investigativo, rigoroso e crítico, somado à sua militância em defesa da democracia, o ímpeto criativo e a construção de espaços coletivos de resistência à ditadura fazem de Raimundo Pereira uma referência contemporânea de ética jornalística.
O legado desse brasileiro é fundamental para ler o passado e renovar as forças para enfrentar o presente, ameaçado por novas tentativas de golpe e ataques da extrema direita às duas instituições fundamentais da democracia – o Jornalismo e a Ciência.
Ele foi, sobretudo, uma pessoa que traduziu bem uma das máximas do escritor Guimarães Rosa, na obra “Grande sertão, veredas”, ao cravar que a motivação da vida é coragem.