Por que tem de ser assim?

Eloy Melonio*

“Ver e não crer” está para São Tomé assim como “concordar e não fazer” está para um monte de brasileiros. Se é mesmo assim, adivinhe então o que a moça da limpeza de uma farmácia fez com um saco de lixo, depois de varrer a área externa da loja?

Essa pergunta já é uma boa pista sobre o tema desta crônica. Então, vamos lá. Lixo e luxo, atitude responsável, rachadinha, mulheres no mercado de trabalho?

Antes, algumas ponderações. A primeira é que o mundo parece estar mesmo de cabeça para baixo. Pelo menos é o que se percebe quando se vê e se ouve o que as pessoas estão falando e fazendo por aí. Nas redes sociais, muita gente opinando sobre tudo, e se mostrando por inteiro. Se o falatório é geral, o que dizer do fazetório?

E, assim, vamos direto ao que interessa. Nessa intenção, aproveito para repetir o que um amigo recentemente me confidenciou: Estou me esforçando muito mas muito mesmo! para fazer as coisas da forma mais ética possível.

Aí perguntei a mim mesmo: Tá ouvindo isso?

Sabe aquela pergunta que não quer calar? Pois é, essa máxima não envelhece e se torna, nestes dias de fake news, ainda mais jovem e atual. E a pergunta, carregada de indignação, é: Por que tem de ser assim?

Uma campanha da Rede Globo, estrelada por Mateus Solano, mostra uma situação-problema e o que é esperado de cada um de nós em relação a ela. Em seguida, o astro global, para vergonha nacional, constata: “Todo mundo concorda, mas nem todo mundo faz”. E conclui com uma afirmação que faz muita gente boa tremer na base: “Quem concorda faz”.

Certo dia, enquanto pensava na vida, William Bonner (JN, 19-8-2019), depois de dar algumas notícias sobre a “loucura humana”, soltou esta: “Às vezes a gente tem a sensação de que o mundo anda para trás”. Peguei minha caneta e anotei. Não muito longe dos estúdios Globo (Rio de Janeiro), meu amigo e escritor Jáder Cavalcante, na apresentação de seu “Decadência Humana” (EDUFMA, 2019), revela a razão da temática do livro: meu total desapontamento com a sociedade que me rodeia e nos seres que a habitam.

Neste ponto, peço ao amigo leitor que feche os olhos por um minuto e “se imagine” nas duas situações que vou apresentar, e faça a si mesmo a minha pergunta, tentando respondê-la.

Uma senhora levando o filho para a escola, em seu Renault Fluence, dirige com uma ou com as duas mãos? Segura o celular com a mão direita ou a esquerda? Seu filhinho de nove anos está na poltrona do passageiro ou no banco de trás?

O dono do Honda Civic, estacionando na vaga preferencial de “gestante” na frente de uma loja de brinquedos, é uma mulher com uma “barrigona” ou um homem jovem, barbudo e sarado?

Pode parecer exagero, mas presenciei cada uma dessas cenas. Considerando tudo o que disse antes, você deve ter acertado todas as perguntas. E poderia também enumerar outras mais. Se afiar a memória, vai se lembrar de um sem-número de situações semelhantes. Ou ver, se sair por aí observando as pessoas e seus comportamentos.

Dizem que esse é o nosso “jeitinho” de fazer e/ou resolver as coisas. Que é cultural, que tá na nossa veia. Excetuando o amigo de que falei antes, acho que somos todos um pouquinho assim. E eu já vou avisando, antes de ser julgado, que também não sou tão “certinho” como pode parecer. Mas, repito, estou tentando seguir o exemplo do meu amigo.

Falando da minha “seara”, muita gente acha que nós, poetas, somos pessoas da mais nobre estirpe. Mas que nada! Somos pessoas comuns, parecidos com o João e a Maria. E, com relação a essa questão, algumas vezes eu ouço o conselho da saudosa Cássia Eller, e também “peço a Deus um pouco de malandragem”. No bom sentido, se é que isso existe.

Se sairmos dos espaços públicos e adentrarmos os escritórios e gabinetes do mundo político-corporativo, aí mesmo é que a pobrezinha da pergunta vai ter de trabalhar.

E, assim, meu amigo, infelizmente a moça da farmácia pode até concordar com o que Mateus Solano disse sobre “atitude irresponsável”, mas fez exatamente o contrário. Jogou o saco de lixo no meio da rua, a dois passos da lixeira que estava à margem de uma movimentada avenida de nossa cidade.

Verdade seja dita, “bons exemplos são raros”. Quando vi a cena, repeti silenciosamente a perguntinha do título: Por que tem de ser assim?

Tanto que, se você achar uma cueca cheia de dinheiro no banheiro do shopping, não tente devolvê-la ao dono. Ele não vai aparecer para recebê-la.

*Eloy Melonio é professor, escritor, poeta e compositor.

Uma (pequena) grande ação

Eloy Melonio

Professor, escritor, poeta e compositor

O que Zé Raimundo e Neil Armstrong têm em comum?

Quase todo mundo conhece a história de Neil Armstrong, famoso astronauta americano da Apollo 11 e o primeiro homem a pisar na Lua, em 20 de julho de 1969.

Mas a história de Zé Raimundo, um comerciante de bairro, com sua quitandinha de uma janela, protegida por grade, talvez apenas duas ou três pessoas a conheçam.

Para início de conversa, não foi fácil entender direito o que ele fazia. Cheguei a pensar em várias possibilidades. Como geralmente cruzamos um com o outro durante nossas caminhadas matinais, via-o ― geralmente acompanhado de sua esposa ― carregando sacos plásticos com alguma coisa pesada dentro. Até aí, nada de errado. Mas o fato inusitado é que, algumas vezes, parecia vê-lo agachado, como se estivesse pegando coisas do chão. Cheguei a imaginar que talvez fosse aquela débil mania de algumas pessoas idosas.

Quando me lembro disso, sinto um pouco de vergonha. A verdade é que nós geralmente não lemos direito o texto, ou lemos sem atentar ao contexto. E aí, o resultado da leitura é um desastre.

Certo dia, saí mais tarde para caminhar. E tive a sorte de não cruzar, mas andar paralelamente na mesma direção que ele; eu, de um lado da rua, e ele, na calçada da avenida. E por alguns minutos pude observá-lo mais atentamente. Aí sim, texto e contexto agora davam sentido à minha leitura.

Neil Armstrong tem uma biografia de dar inveja. Zé Raimundo, apenas um anônimo cidadão de bem. O primeiro já não está mais aqui; o segundo é apenas um entre nós.

Seja Neil ou Zé, o que importa é o que cada um pôde ou pode legar à humanidade, à sua cidade.

Palavras e atitudes nos inspiram a mudar o enredo de nossas vidas. Vindas de gente importante, ou de gente comum. Lições que temos a dar, lições que temos a aprender. Recentemente alguém me disse: “Tenho me esforçado para fazer as coisas da forma mais correta possível”. Ou seja: estacionar na vaga certa, não jogar lixo na rua, dar bom dia ao vizinho… Pensei comigo: Que lição! Preciso aprendê-la depressa!

Nosso velho mundo carece de boas lições. De gente que faz a diferença, que deixa exemplos. Gente como Chico Mendes, Zélia Arns, Marielle Franco. E tantos outros anônimos que andam por aí, como o cidadão que devolveu ao dono a carteira com dois mil reais que este deixara no banco da praça.

E quanto ao nosso personagem, o que faz de tão especial?

Nas manhãs ensolaradas de nossa estação seca, ele simplesmente enche garrafas pet (2l) com água e sai molhando plantinhas à margem da avenida. Algumas das quais ele mesmo plantou. Plantinhas que não são vistas pelos gestores públicos, pelos comerciantes da região, nem pelos transeuntes. E que um dia darão sombra e abrigo a quem passar por ali.

Não sei quantos passos Neil Armstrong deu na superfície da Lua. Só sei que, quase diariamente, Zé Raimundo dá mais de duzentos para cumprir a missão a que se propôs. E tudo isso sem “posts” nas redes sociais para impressionar os amigos. Um trabalho de formiguinha: constante, silencioso, resoluto.

Seu Zé Raimundo talvez nem saiba quem foi Neil Armstrong, mas imita direitinho seus passos aqui na Terra. E, orgulhoso, poderia dizer ao final de cada caminhada: “Uma pequena ação para mim, uma grande lição para meus concidadãos”.

Imagem: Eloy Melonio / Cajueiro plantado por Zé Raimundo, e do qual já comeu o fruto.