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Bomba! Striptease no Bloco da Imprensa

Vou ser breve, como deve ser a notícia na era digital. Nem tão longa para poupar o tempo da audiência e nem curta a ponto de perder as informações essenciais.

Em tamanho, assim segue o Bloco da Imprensa. Nem vazio, nem lotado. Está na medida ideal para dar aquele orgasmo carnavalesco que nós amamos.

Depois que saiu da Praça dos Catraieiros e ocupou o Largo de Santo Antônio, ficou ainda mais aconchegante, sendo uma das gostosas opções do Carnaval do Maranhão, no Centro Histórico de São Luís.

Um salve aos mestres de cerimônia Célio Sérgio, Joel Jacinto e Paulo Washington, entusiastas da folia momesca do povo da Comunicação, em todas as dimensões de possibilidades prováveis e impossíveis, se me permitem as absurdidades do texto carnavalesco.

Independentemente de quaisquer divergências editoriais, questiúnculas ideólogicas, prosopopéias, adversidades, concordâncias e outros quetais, o importante é o encontro das pessoas, entre elas veteranos como José Raimundo Rodrigues e Cinaldo Oliveira.

Que bom vê-los com saúde em mais um Carnaval!

E por falar em antiguidades, o registro justo é a homenagem do Bloco da Imprensa de 2026 aos 100 anos de O Imparcial. Viva!

Nesse fluxo de gerações, é bacana ver a performance revival do programa Zoom Zoom Noturno, apresentado por Luís Fernando, que marcou época na cobertura de casas de eventos da periferia, contrapondo o colunismo social da elite.

O Zoom Zoom do Bloco da Imprensa é uma sacada criativa da relações públicas Priscila Costa e das jornalistas Valquíria Santana e Juliana Mendes.

Quando junta Carnaval com o povo da Comunicação, nostalgia vira escracho. Devidamente paramentadas em fantasia de grupo, as “fernandas” (reverência a Luís Fernando) idealizaram o genérico do Zoom Zoom depois de pesquisarem bastante para fazer uma réplica à altura do programa.

Quem viu o Zoom Zoom na TV e depois na internet vai entender o título desse texto.

A performance lembrou os bons tempos do Comunicarte, a Mostra de Arte do Curso de Comunicação da UFMA, que gerou um monte de coisas e gentes boas dentro e fora do campus do Bacanga, nos anos 1980, marcados por irreverência e subversão.

Ao longo do tempo, o Bloco da Imprensa atrai pessoas de outras gerações e profissões, como a jovem e fiel pesquisadora Licia da Hora, amiga das antigas de vários jornalistas.

Quem quiser sentir a energia dos tambores do Maranhão, ouvir os enredos atuais e antigos das nossas escolas de samba, emocionar-se com a batucada raiz dos blocos alternativos e tradicionais, encontrar as amizades em um lugar tranquilo, intimista e afetuoso, já sabe onde ir.

Tinha tanta coisa pra parlar, quando estava fazendo esse textão, que não podia esquecer de dizer: o Bloco da Imprensa é uma das melhores opções momescas da ilha.

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#feira!

Olha o sangue! Diz o bordão dos estivadores, carregando nas costas enormes quartos de gado para os açougues.

Carne viva, bichos mortos, gente em movimento.

Eu sou filho de um feirante, Raimundo Nonato Araújo, o popular “Cabeça Branca”, que criou um feixo e um carrada de gente trabalhando em uma pequena quitanda na Feira do João Paulo – a barraca “Olhe Aqui”.

Sempre que entro em um mercado popular, lembro do meu pai e dos ensinamentos da feira para toda a vida.

Feira é ágora, espaço das discussões sobre a cidade, lugar de encontro e conversação, fluxo dos corpos, palavra falada sobre a vida pública e privada, debate em torno dos preços das mercadorias, pechinchas, perdas e ganhos de uns e outros.

Feira é a grande espiral de papos acerca da vida comum, plenário informal das pautas importantes e dos relaxos, futricas e pilhérias.

É o lugar de gritar para vender e de fuxicar sobre a vida do vizinho, das amizades e das “autoridades” institucionais, do futebol, novela e eleições.

É o palco da política informal, dos debates sobre os fatos do cotidiano, de assuntos relevantes e desprezíveis.

É o rádio ao vivo e em cores. É a roda viva da palavra pulsando nas bocas e gargantas exaltadas para gritar os bordões das mercadorias.

Feira é ambiente para sentir muitas emoções, com as narinas arreganhadas, percebendo o cheiro das ervas, temperos, vísceras, carnes e peixes, fumos diversos, charutos e cachaça.

E os odores de todas as coisas fétidas também.

Feira é Grécia e Roma, bela e fera, terrritório de gente bacana e ruim, além do bem e do mal, porque “nada de humano me é estranho”, como diria o dramaturgo romano Plúbio Terêncio.

Feira é gente, coisas, animais, bichos, peixes e mariscos, secos e molhados, mercadorias, dinheiro indo e vindo, travessia, propaganda e publicidade, tecnologias sociais, bites, capitalismo, tipos, estilos, sabores, muitas cores e mais blá blá blá.

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Lixo nos grandes eventos é caso de saúde pública

Chega! Não se pode mais naturalizar as imagens de sujeira nas festas de grande porte. Os megaeventos precisam construir soluções para atenuar os efeitos do descarte de latas, pets e garrafas de vidro no asfalto e na areia da praia.

Os espaços de entretenimento não podem ser transformados em lixões a céu aberto, que, embora temporários, serão despejados no único aterro sanitário do Maranhão, o Titara, localizado em Rosário.

Ainda há tempo de conter uma catástrofe maior em São Luís, já castigada pelo ar poluído e quase todas as praias contaminadas por esgoto sem tratamento.

Estamos diante de casos graves de degradação ambiental que afetam a coletividade. Isso é sim caso de saúde pública!

É o momento de construir uma força tarefa envolvendo Governo do Estado, Prefeitura de São Luís, iniciativa privada e organizações não governamentais para atenuar o impacto do lixo nos corredores de folias.

Cabe uma especial atenção às associações e cooperativas de materiais recicláveis como protagonistas do manejo dos resíduos gerados nas festas. Os catadores e as catadoras são trabalhadores estratégicos para criar uma cultura de aproveitamento, geração de renda e também sensibilizar os foliões para curtir as festas com alguma percepção ambiental.

É necessário que os governos estadual e municipal elaborem campanhas educativas e propaganda intensa nos meios de comunicação para orientar os foliões sobre o descarte adequado em equipamentos previamente destinados para recolher os resíduos.

A gigantesca massa de lixo recolhida a cada show vai gerar impactos diretos e indiretos na população, seja a médio ou longo prazos.

É fundamental, portanto, pensar agora em alternativas de manejo para os resíduos sólidos.

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Imperialismo: os EUA da “boa vizinhança”

No decorrer dos 1930 – 40, os Estados Unidos (EUA) inauguram mais um capítulo na sua estratégia imperialista. Surge a “Política da Boa Vizinhança”, na gestão do presidente Franklin Delano Roosevelt.

A estratégia consistia em trocar a violência do “grande porrete” (big stick), símbolo da doutrina América para os americanos, pelo soft power (força leve), uma espécie de faz de conta que os EUA eram amigos da América Latina.

Cinema, música, desenhos animados e revistas em quadrinhos produzidos em Hollywood e na Disney invadiam as nossas vidas para criar o conceito dos EUA como nação amiga, colaborativa e solidária.

O filme “Saludos Amigos” (“Alô, amigos”) é uma das principais referências da Política da Boa Vizinhança.

Criado por Walt Disney, o filme protagoniza no Brasil o encontro entre as personagens Pato Donald e Zé Carioca.

Enquanto o Pato Donald é símbolo da prosperidade e competência para multiplicar a sua fortuna, Zé Carioca é brasileiro malandro, beirando a vagabundagem, estereótipo da população subdesenvolvida.

Mas, apesar das diferenças, eles são amigos, seguindo o enredo diplomático da Política da Boa Vizinhança.

“Alô, amigos” incorpora também a estrela Carmen Miranda, cantora brasileira que foi cooptada pela indústria cultural estadunidense e transformada na musa da Política da Boa Vizinhança.

A música “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, marca do filme, emoldura as cenas do Brasil bonito, pacífico, ordeiro, receptivo, e, de certa forma, aberto à submissão imperialista.

Acesse o link e leia o artigo completo.

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Oscar Wilde: a “fotografia” deformada quando não havia Inteligência Artificial

“O retrato de Dorian Gray”, único romance do escritor irlandês Oscar Wilde, é uma criação literária fantástica. Publicada em 1890-1891, a obra toda é composta em torno de uma pintura em culto ao belo Dorian Gray, jovem de formosura extraordinária eternizado no quadro de autoria do artista Basil Hallward.

Dorian, desejoso da juventude eterna, faz um pacto para que ele permaneça mancebo e belo, enquanto a sua imagem na pintura, aos poucos, envelhece, deformada em rugas, sulcos, manchas e outras marcas da degeneração ao longo do tempo.

A genialidade do autor, Oscar Wilde, ao desfigurar a imagem, ressignifica o sentido da imutabilidade da pintura, um objeto analógico carcomido por várias deformações.

Era este o protocolo do pacto, no qual Dorian permaneceria eternamente formoso, contrastando o envelhecimento da pintura e a eterna juventude do retratado.

Assim, ao longo da trama, a imagem vai absorvendo os atos pecaminosos do retratado, enquanto ele goza do viço da beleza.

Gozo esse atormentado por vários episódios trágicos. Um deles, a morte súbita da sua grande paixão, uma atriz de teatro suburbano, prometida em casamento.

A obra é atravessada por diálogos extraordinariamente construídos em uma ousada crítica à aristocracia da sociedade britânica na Era Vitoriana.

O recurso da ironia refinada marca o estilo da escrita, ferina e saborosa, exaltando a hipocrisia, o cinismo, a ambição, a indiferença e outros tantos valores morais decadentes dos ingleses podres de ricos.

A estética que marca o texto em melopeias e a fanopeias é bem perceptível na tradução de José Eduardo Ribeiro Moretzsohn.

O enredo segue com várias peripécias, aumentando ao extremo a tensão entre Dorian Gray e a sua pintura em monstruosa deformação.

Vou ficar por aqui para não dar spoiler sobre o desfecho da obra…

Já no mundo real, o autor, Oscar Wilde, também teve uma vida atribulada, que se complicou após ser denunciado, processado r condenado à prisão com trabalhos forçados por ter um relacionamento homossexual.

A sua maior condenação, no entanto, foi o ostracismo. Ao fim da vida, pobre e solitário, morreu em um hotel de quinta categoria, em Paris, aos 46 anos de idade.

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O “grande porrete” dos EUA: América para os americanos

Após o “Destino Manifesto”, a dominação imperialista dos EUA implantou a campanha “América para os americanos” ou “Doutrina Monroe”, vigorando a partir do mandato do presidente James Monroe (1817 a 1825).

O objetivo era criar uma espécie de “reserva de mercado” para que os EUA tivessem exclusividade nas intervenções em toda a América, deixando a Europa fora do processo de dominação nessa parte do mundo. Por isso a denominação “América para os americanos”.

Para ficar ainda pior, a Doutrina Monroe teve uma ‘emenda’ denominada “Corolário Roosevelt”, em alusão ao presidente Theodore Roosevelt (1901 a 1909), justificando o uso da força para os EUA cometerem todos os tipos de atrocidades na já propalada “América para os americanos”.

As intervenções políticas, econômicas e militares dos EUA receberam a pomposa denominação de “Big Stick” ou “Grande Porrete”, autorizando a violência.

Segundo a Doutrina Monroe, a América Latina e o Caribe eram considerados “quintal” dos EUA.

Acesse aqui artigo completo

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É Lisboa que parece com São Luís?

Agenda Maranhão – Esta escadaria, com azulejos na parede, integra o ambiente interno de um casarão localizado na Travessa Marcelino Almeida (Rua da Alfândega), 180-A, na Praia Grande, em São Luís, capital do Maranhão.

A fotografia, de janeiro de 2025, de autoria de José Reinaldo Martins, mostra azulejaria antiga sendo usada em um ambiente interno.

Povos árabes, os portugueses, entre outros, aplicavam azulejos somente em ambientes internos, como os silhares – que eram recobrimentos de meia parede em locais do imóvel onde havia maior circulação de pessoas ou possibilidade de sujar com mais facilidade. Espaços como paredes das escadarias, cozinhas e pátios.

Paulo César Alves de Carvalho (imagem abaixo), professor do curso de Artes da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em seus trabalhos acadêmicos, levanta a suspeita de ter sido no Brasil Colonial que os chamados azulejos de tapete ou padrão começaram a ser usados no revestimento de fachadas dos imóveis, com possibilidade de ter começado em São Luís ou em Salvador.

Isso para manter as paredes conservadas por mais tempo, resguardando os imóveis da ação das chuvas e para amenizar o calor.

Com o terremoto que atingiu Lisboa, na segunda metade do século XVIII, o Marquês de Pombal (1699-1782) proíbe a produção de painéis figurativos e incentiva a produção de azulejos do tipo tapete e padrão.

Em Portugal, o revestimento de fachadas com azulejos só teve início na segunda metade do século XIX, bem depois dos casarões azulejados de São Luís terem começado a serem erguidos.

A hipótese de Paulo César é de que a aplicação de azulejos de tapete e padrão no revestimento de fachadas de imóveis seja uma invenção que surgiu no Brasil Colonial e, mais tarde, passou a ser usado também em Portugal.

A ideia revisa olhares como a propalada semelhança de São Luís com Lisboa, proposta costumeiramente por turistas e suas imagens fotográficas, abrindo à possibilidade de Lisboa ter traços parecidos com os de São Luís.

É evidente que há semelhanças entre trechos de São Luís e Lisboa por causa, entre outros elementos, dos casarões azulejados. Mas a proposição colocada por Paulo César cogita quem inspirou quem.

Metrópole e as colônias

É certo que Portugal, a partir em sua ode por mares e terras da América do Sul, África, Ásia e Oceania – uma das mais ousadas empreendida pelo homem em todos os tempos – determinou estruturas sociais e econômicas em suas colônias. Mas, as colônias portuguesas, também, influenciaram a metrópole.

Trajetória dos azulejos

A trajetória dos azulejos, desde a sua origem entre povos árabes até a sua fixação nas fachadas dos prédios coloniais de São Luís pelas mãos dos afrodescendentes, abre um leque de controvérsias e inserções.

Historiadores, artistas, geógrafos, jornalistas, arquitetos, entre outros, estão colocando outras argamassas nesta história.

Foi um longo caminho, com “fraturas históricas” que, se desvendadas, podem revelar possibilidades diversas, não só em termos de novas utilidades, mas de como esses artefatos interviram nas relações sociais dos maranhenses desde o século XVIII.

Origem dos azulejos

Muitas tipologias de padrões de azulejos que chegaram a São Luís, majoritariamente, eram fabricadas em Portugal, mas um número menor veio, também, de outros países europeus, como Inglaterra e Holanda.

A força de povos escravizados

No Maranhão, a fixação dos azulejos nas fachadas e ambientes internos ganharam cheiro do suor da força escravizada que ergueu os casarões.

Do mundo árabe a São Luís

O azulejo é uma invenção árabe que chegou a Portugal com a invasão da Península Ibérica, a partir de 711, quando tropas islâmicas do Norte de África ocuparam parte da Europa.

As primeiras importações para o Maranhão vieram de Portugal em 1778. Foi o tempo do Ciclo do Algodão, iniciado no Maranhão em meados do século XVIII, a partir da criação da Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão, em 1755, pelo Marquês de Pombal.

São Luís que, do século XVII até a primeira metade do XVIII, era apenas um pequeno núcleo urbano perdido nas encostas da entrada da Amazônia, passou a vivenciar grandes transformações com o comércio agroexportador, que teve no algodão seu principal produto.

Investigação do historiador Caio Prado Júnior (1907/1990) aponta que, no início do século XIX, existiam somente quatro núcleos urbanos no Brasil: Rio de Janeiro, Salvador, Recife e São Luís. Neste período, intensificou-se a chegada de povos africanos ao Maranhão, que já era morada de grupos de cristãos novos fugidos da Inquisição.

Azulejos em ambiente internos

Existiam várias formas de uso dos azulejos em ambientes internos. Em São Luís, os de tapete ou padrão foram usados nas fachadas externas e em alguns ambientes internos, como o recobrimento conhecido como silhares, que é uma meia parede revestida de azulejos.

Há exemplos dentro da Catedral da Sé e um, recentemente restaurado, na Igreja de Nossa do Rosário dos Pretos (Igreja de São Benedito), na Rua dos Egito. Há exemplos, também, na Igreja de Santana e na do Carmo, na cidade histórica de Alcântara (estado do Maranhão – Brasil).

Painéis figurativos

Outra forma da presença de azulejos internos em São Luís é a dos painéis figurativos.

São Luís abrigou, tardiamente, painéis figurativos como os hagiográficos, que são composições com cenas religiosas.

Um dos mais belos conjuntos com as estações da “Via Crucis” ficava na Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Mulatos, que foi demolida. Ficava onde está, hoje, o Edifício Caiçara, com lateral para a Rua Grande e de frente para uma pequena praça que ficava, mais ou menos, na esquina da Rua Grande com a Rua Cândido Ribeiro (Rua das Crioulas).

Com a demolição dessa igreja, um dos painéis que retrata a cena da descida da cruz, onde o Cristo morto é amparado no colo de sua mãe dolorosa. Esse painel foi reinstalado na sacristia da Igreja de Santana, onde se mantém até hoje.

No Palacete Gentil Braga (Rua Grande, esquina com a Rua do Passeio) existia um painel figurativo em forma de silhar ao estilo neoclássico (ou dona Maria I) com cenas conhecidas como chinesismo, mas que foi retirado e praticamente todo transportado para o Museu Chácara do Céu, no Rio de Janeiro. Uma parte desse painel está no acervo do Museu de Artes Visual do Maranhão.

Figuras de convite

Outra forma estrutural de aplicação interna, ou em pátios e jardins, são os conjuntos de azulejos chamados “figuras-de-convite’, que apresentam imagens, à escala natural, de figuras humanas, como as de soldados e de ‘damas de corte’.

Eram colocados nas entradas das casas e nas escadarias. Representavam um convite para os visitantes entrarem no imóvel. Tem alguns exemplos em exposição no Museu de Artes Visuais (Rua Portugal, na Praia Grande).

Alguns pesquisadores afirmam que vários painéis figurativos de São Luís foram perdidos e roubados por ‘colecionadores’ ou para servirem de decorações em residências mais modernas.

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De fora para dentro

Eloy Melonio

Falar de um autor e de sua obra literária da arquibancada é o ofício do crítico. De dentro do campo, do prefaciador ou do resenhista. Deus me livre de tais tarefas! Não porque não as aprecie ou seja incapaz de  realizá-las. Simplesmente porque parecem-me coisa de profissional, e — sob alguns aspectos — um tanto difíceis. E mais: ter de ler um livro do qual você talvez não goste é carga pra jumento carregar.

Aviso-lhe, desde já, que esta crônica não é exatamente sobre “prefácio” ou algo que lembre uma resenha. Não e não. Mas preciso dessa referência para apresentar minha percepção de um certo livro. Para ser mais sincero, é uma confissão.

Para um prefácio, o autor geralmente busca alguém famoso. Nos meus livros de poemas (Dentro de Mim/2015 e Travessia/2021), peguei um caminho inverso: chamei gente do meu convívio, que lia e apreciava meus poemas. Para o primeiro, uma saudosa amiga, professora de literatura. Para o segundo, uma colega de trabalho, professora de inglês. As duas deram um show na passarela das palavras! Nota DEEEZ!

Fazer um prefácio pode até ser prazeroso se você está falando de um autor a quem você admira. Mas bom mesmo é quando você escreve sobre alguém com quem cresceu, sentou-se à mesma mesa no café da manhã, foi à escola, brincou disso e daquilo. Alguém de quem você possa dizer que “tudo era compartilhado entre nós numa cumplicidade adolescente, bonita e desinteressada, uma partilha pra lá de genuína”. Aí, sim, é outro texto!

Se tenho interesse num livro, começo pelo começo, que — para mim — é o prefácio. Com alguns, não passei daí, por uma ou outra razão. Com outros, nem cheguei a tanto. Muitos desses descansam sobre uma mesa e aguardam o meu olhar curioso e interessado.

Esta crônica nasceu de uma situação assim. Lendo, na segunda capa, a apresentação do livro MACABÉA DESVAIRADA, de Lúcia Santos, encantei-me com a leveza do texto, que trazia um pouco de sua história de vida e de sua veia artística. Falando sério: se o texto é bacana, a gente pula pra dentro do livro, não é verdade? Foi o que eu fiz.

Lucia Santos, autora de Macabéa Desvairada, inspirou a crônica de Eloy Melonio

Lançado em dezembro de 2024, somente agora, em novembro (2025), peguei-o como quem pega um touro pelo rabo. Aliás, um livro que tive a honra receber diretamente das mãos da autora, na noite de autógrafos. Mas não passou disso. Até que…

Em casa, sobre uma mesa, com dezenas de outros, ele era um desses que ficavam rezando para que eu o olhasse e o pegasse. E, principalmente, que eu me deixasse levar num mergulho ao mundo poético-ficcional de sua autora. Na relação leitor-livro, pode-se parafrasear Eclesiastes 3:1: “todo livro tem o seu dia e a sua hora. Dia de olhar e admirar; hora de abrir e ler”.

Finalmente, peguei-o com um olhar mais atento. Sim, já nos conhecíamos tão bem quanto aqueles vizinhos que mal se dão “bom dia”. Putz! Esse era o seu dia, e a sua sorte estava selada.

De saída, deslumbrei-me com sua capa que já tinha visto várias vezes antes (sobre a mesa). Virei-o para ver a segunda capa. E aí, um espanto — ou melhor, o encanto. Apenas um texto ocupava todo o espaço, supostamente o prefácio deslocado. Chequei o autor e comecei a ler. Estava ali meu “snorkel” para o mergulho inevitável. Em seguida, pulei para dentro de suas águas mágicas, de onde não saí até agora. Sobre a mesa da copa (onde deveria haver pratos e talheres), “ele” agora reina soberano sobre seus pares.

Tudo — tudo mesmo — nesse livro é exatamente o oposto de “desvairado”, palavra com que Lúcia Santos tenta pôr um pouco mais de desordem nas águas inquietas e provocantes da arte (coisa de artista de verdade). Emprestada do livro “A hora da estrela”, de Clarice Lispector, “Macabéa”, sim, é uma protagonista pobre e desvairada, como tanta gente por aí.

Atrevo-me a dizer que Lúcia Santos imaginou um livro com a sua “marca”, sem se preocupar com as vozes desvairadas dessa gente da arquibancada. E não fez mais do que preconiza Lya Luft: “A escrita é o território da minha liberdade”. Ou seja, seu projeto artístico tem a sua cara, a sua alma, o seu coração.

MACABÉA DESVAIRADA é “tudo e muito mais”. Colorido, engraçado, enigmático, surpreendente. De repente, você o abre numa página branca que só tem o desenho de uma boca humana. Ou duas outras páginas: a da direita, com dois versos no meio e dois coraçõezinhos pendurados; a da esquerda, o desenho de uma loira, com três versos flutuando no espaco vazio (“eu sou a falsa loura má/ A que toma/ e depois dá”).

Num rápido mergulho (para seguir a corrente poética do livro), veja a seguir algumas das minhas percepções. Primeira: tudo nele é arte; segunda: seis fontes diferentes vestem suas palavras; terceira: duas letras da palavra MACABÉA, no título, estão invertidas; quarta: no conteúdo: poemas de vários tipos, pensamentos e — pasme! — 11 letras de músicas (com ficha técnica e QR code para ouvi-las). Além de sacadas super geniais (“Se não sabe incendiar, não faça pose de Nero”). E, esquecendo essa coisa da ortodoxia, o prefácio chama a atenção para “seus chistes cheios de verve e ironia”. Em suma: 71 páginas com um desfile de palavras, melodias, cores, fotos e ilustrações espirituosas.

Um mergulho nas águas não tão calmas de MACABÉA DESVAIRADA é deleite, êxtase, surpresas. Imagine abri-lo numa tarde quente, “ao sol que arde em Itapoã!”. Sem exagero, dava até pra dizer que “o nirvana é aqui”.

Pois é, amigos, tinha tanta coisa pra falar que quase esquecia do principal. O texto da segunda capa, com jeito leve de prefácio, foi o que me jogou nas águas inexatas desse livro com alma de antologia. E me deixou com vontade de nadar, nadar, e gritar: Daqui não saio, daqui ninguém me tira.

E o autor dessa proeza textual (prefácio), com cara e jeito de garoto, não é o compositor e cantor maranhense Zeca Baleiro, irmão da Lúcia Santos. Não se assuste. Zeca Baleiro já foi colunista da revista ISTOÉ. Ele era um dos quatro que enfeitavam a última página da revista uma vez por semana. E eu, lá dentro, bulindo com as ideias.

E, finalmente, peço-lhe, aqui, autorização para repetir o voto de sucesso e energia vital que ilumina a conclusão do seu prefácio: “Saravá, Lúcia!”

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“Agro tech/pop/tudo”: propaganda ruralista contém ideologia em altas doses

Ed Wilson Araújo

As indústrias do veneno e dos transgênicos têm várias formas de elogiar seus estragos. Uma delas é a ostensiva propaganda do agronegócio no horário nobre da televisão.

Não se trata de um simples anúncio. A peça publicitária propagandeia uma fórmula de sucesso para um ramo da economia muito influente nas decisões políticas – o latifundiário contemporâneo, pop.

Observe as conexões. Uma rede multinacional de sementes transgênicas e adubo tem relações intrínsecas com as usinas de veneno usado largamente no Brasil.

A televisão entra no circuito para ativar uma forma de ver o mundo pela lógica do capital e do lucro sem limites. É ideológico mesmo!

No filme publicitário está contida a intenção de levar a audiência a crer no milagre da lavoura, como se ela fosse algo tão presente na vida que a gente se torne refém dela, cativo.

A ideia de cativar o interlocutor visa reforçar nele algo que já era latente ou despertar no alienado alguma ideia, geralmente de prosperidade, sucesso, lucros, méritos, satisfação e…. nacionalismo. Aí está uma pista.

Com um forte apelo de amor à terra, culto ao campo, louvação do setor produtivo e tantos outros engenhos cinematográficos, o filme publicitário é uma elegia ao homem da terra abençoada.

É mais ou menos uma adaptação da carta de Pero Vaz de Caminha aos interesses do agronegócio. Nessa terra, se plantando, tudo dá!. Acréscimo: desde que o governo ajude.

E ajude mais que o trabalhador rural comum, expropriado e agora ameaçado até de morrer à míngua, sem amparo do Estado na velhice, como promete a reforma da Previdência.

Por outro lado, no agronegócio prepondera o empresário liberal que odeia o Estado, mas é useiro e vezeiro dos empréstimos dos bancos públicos para financiar a produção. Quando é para defender seus interesses privados usufruindo do erário, essa gente supostamente detesta benefícios oriundos da veia estatal.

A hipocrisia consiste em uma dualidade: só o investimento privado é capaz de salvar a humanidade, contanto que seja financiado pelo BNDES.

Embora seja um nacionalismo de fachada, o “agro é pop” chega ao imaginário do povo pela tela da TV. E a gente nem percebe direito o que se diz quase sem querer.

O agronegócio é a versão high tec das formas arcaicas do Brasil colonial naquilo que tem de essencial – concentrador de riquezas e destruidor do meio ambiente. Nos dias de hoje, essa indústria rural, de perfil excessivamente conservador, constituiu uma parte da base política do bolsonarismo.

As bandeiras do agronegócio, em nome do lucro a qualquer custo, são: destruição das leis ambientais, facilitação do veneno e um imperioso apelo à monocultura como fórmula de sucesso para manter o superávit da balança comercial.

Não é à toa que o governo Bolsonaro tem vigor nas bancadas do boi e da bala, setor onde as bandeiras como a liberação de compra e venda de armas prospera no Congresso Nacional.

Essa agenda em parte justifica a onda de ódio desencadeado no país contra o MST, agricultores familiares, quilombolas, indígenas, ambientalistas, povos e comunidades tradicionais, direitos humanos e afins.

No geral, este campo político passou a ser tratado como inimigo do Brasil porque prega a agricultura sustentável, a repartição das terras, o controle do veneno e a produção com limites à predação.

Trata-se de uma demonstração concreta de que divisão da terra, a cultura em pequena e média escalas, a agricultura familiar e a preservação das áreas ambientais, estas sim, são ações ativas e concretas de um sentido equilibrado de desenvolvimento.

O leitor com discernimento entende que esse artigo não é um ativismo. Países de inspiração socialista como a gigante China não cuidam do meio ambiente como deveriam. Assim, não se trata de uma oposição ao agronegócio por ser um empreendimento do capitalismo. E também estou longe de uma associação imediata à ideia de que o rural é atraso e a vida urbana, progresso. Faço essas observações para seguir adiante nos meus argumentos.

Assim, a primazia da monocultura para computar no superávit da balança comercial tem um custo algo para o Brasil. Basta ver o exemplo correlato da mineração. As tragédias provocadas pela Vale em Mariana e Brumadinho estão comprovando a necessidade urgente de limites à exploração dos recursos naturais.

Armas, veneno, mineração descontrolada e lucro a qualquer custo não têm outro nome – é a ideologia da reprodução do capital.

Em outras palavras, a celebração da violência em todos os sentidos.

Imagem capturada neste site

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Outra folia

O sucesso do Carnaval de São Luís, com destaque para o circuito Beira-Mar, derrubou uma falsa impressão de que só Roseana Sarney sabia fazer festa popular. Tá bonito ver o novo circuito dando um banho de folia no Maranhão do passado.

Foto / Jardel Scott / imagem aérea dos foliões no entorno da antiga estação da Rffsa