Nos tempos do cine Monte Castelo

Nas comemorações do Dia do Cinema o filósofo Marco Rodrigues rememora os laços lúdicos e estéticos com a Sétima Arte em um dos espaços de entretenimento mais populares de São Luís – o cine Monte Castelo

Texto e foto interna: filósofo Marco Rodrigues

Texto e foto interna: filósofo Marco Rodrigues

Nessa imagem, o saudoso Cine Monte Castelo, praticamente em ruínas. Nele, tive minha primeira experiência com a sétima arte. Na ocasião, estreava “Robocop: o policial do futuro”, em 1987. Foi a minha tia Carminha, já falecida, quem me levara. Ali, longas filas se formavam, representando uma confluência plural, que se expressa agora em minhas memórias, num vislumbre de uma rica espiritualidade cultural romântica do que era o bairro do Monte Castelo naqueles tempos.

Diversos eram os frequentadores, destacando-se estudantes do SENAI e da Escola Técnica (hoje IFMA), que muitas aulas mataram, quiçá com alguma razão, para namorar na maior parte das vezes. Em frente, a banca de revistas do Reginaldo, onde iniciei minhas primeiras experiências literárias, por meio de HQ’s, gibis e livros que eram divididos em coleções.

Em ruínas, antigo cinema é só lembrança

Reginaldo hoje tem uma banca em frente à UNDB. Ao lado, a épica quitanda do Seu Melo… Preciso confessar: eu e outros meninos usávamos moedas já fora de circulação para comprar bombom, pois Seu Melo não enxergava bem. Foi a minha primeira e única participação no crime, formação de quadrilha em travessuras infantis.

A Pizzaria Popeye, quase uma extensão do cinema, era o point da galera antes ou após as sessões. Vendedores ambulantes, carrinhos de churros e pipoca disputavam espaço meio a praça, próximo ao Trailer de Lanches e da parada de ônibus. Nas imediações, que se estende ao longo da avenida Getúlio Vargas, inúmeros bangalôs belíssimos havia, hoje completamente descaracterizados pela anti-poética do empreendedorismo, um atentado à história da arquitetura de São Luís.

Um dos mais belos era um bem de esquina em frente ao IFMA, onde morava o Coronel Belchot, que parecia ter saído de dentro dos livros de literatura fantástica. Vale lembrar ainda, da frequentadíssima birosca, além das principais farmácias, a de Seu Edson e da Dona Cleide,  traços da área de saúde que se somavam à atmosfera vivaz do bairro…

Toda essa memória foi graças ao cinema, o que explica, fundamentalmente, a importância da arte em nossas existenciais, pois, como assevera Ferreira Gullar, “a arte existe porque a vida não basta”.

Foto destacada capturada neste site / Ônibus estacionado na parada em frente ao cine Monte Castelo

Memórias de São Luís pelas imagens dos irmãos Teixeira é tema de álbum lançado por historiadores

Com centenas de downloads feitos apenas nos primeiros dias de lançamento na plataforma Amazon, a obra “Álbum recordação do Maranhão: a Typogravura Teixeira e os primórdios da fotografia impressa no Brasil”, lançada pelo historiador da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Manoel Barros, em parceria com o professor José Oliveira da Silva Filho, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA) aborda o pioneirismo dos irmãos Teixeira no processo de impressão da imagem em periódicos no Brasil.

Com este recorte, a publicação apresenta ao leitor registros da cidade de São Luís no início do século XX, focando na apresentação da trajetória dos irmãos Teixeira, apontando, também, o circuito social da fotografia na capital maranhense.

O livro traz uma edição fac-símile do álbum original, produzido em 1908, com 24 imagens em alta resolução, coloridas – todas disponibilizadas por meio do processo fotomecânico chamado fototipia.

Álbum tem registros memoráveis de São Luís

“Esta publicação é, além de uma homenagem aos irmãos Teixeira, uma reapresentação deles que foram precursores em sua época, ao proporem técnicas nunca vistas no país até então, como a impressão de imagens fotográficas em periódicos”, pontuou o historiador Manoel Barros.

O tema integrou o trabalho de pesquisa do também historiador José Oliveira da Silva Filho. “Os Irmãos Teixeira, assim como o período em que atuaram, esteve no recorte da minha tese de doutorado. Meu trabalho, alinhada ao conhecimento e à pesquisa do professor Manoel Barros, propiciou este momento único em revisitar este legado tão importante para a comunicação e a história nacional”, acrescentou José Oliveira.

O “Álbum recordação do Maranhão: a Typogravura Teixeira e os Primórdios da fotografia impressa no Brasil” está disponível na plataforma Amazon – para adquirir, acesse: https://amzn.to/2MhMp6F.

Irmãos Teixeira

Sócios e comerciantes que gerenciavam a firma Gaspar Teixeira & Irmãos Sucs., os irmãos Pinto Teixeira atuaram no final do século XIX e início do XX.

Foram donos dos Armazéns Teixeira (loja de departamento), oferecendo serviços de Alfaiataria e Tipografia, por exemplo.

Manoel Barros

Formado pela Universidade Federal do Maranhão (1985), Manoel Barros tem especialização em Organização de Arquivos – VII pela Universidade de São Paulo (USP-1992) e mestrado em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE-2002).

Atualmente, é doutorando no programa de Pós-Graduação em História, da UFMA e pró-reitor de Assistência Estudantil da UFMA.

José Oliveira da Silva Filho

Doutor em história das sociedades Ibero e Americana pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul-PUCRS, José Oliveira é professor do IFMA, Mestre em História pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e especialista em História do Maranhão, pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). É também graduado em História pela UFMA.

Contato Para mais informações sobre a obra, pelo telefone (98) 99972-2185 (Manoel Barros) e (98) 98605-1402 (José Oliveira).

Memórias do Apeadouro: “sarrar” e cabeça de peixe

(Ed Wilson Araújo)

Dona Cocota e seu Raimundo (Mundico), vizinhos de muro com muro na rua Sousândrade, disputavam acirradamente o título de melhor triturador(a) de peixe do Apeadouro.

Ela está vivinha da silva para contar a história e ele, no céu, lugar de gente boa como era meu pai, o popular Cabeça Branca, conhecido na feira do João Paulo, onde foi quitandeiro por uns 40 anos ou mais.

Papai gostava especialmente de um peixe pequeno chamado bagrinho, cozido com caju azedo, que dava um sabor especial no caldo.

Ainda tenho na lembrança aquela montanha de carcaças de bagrinho em cima do prato, caindo pelas beiradas, depois de um banquete com as tradicionais chupadas na cabeça do bicho, arrematado com a famosa mistura do caldo com farinha.

É uma arte sugar as reentrâncias da parte superior do peixe, onde estão as gorduras derretidas mais saborosas. Chupador(a) de verdade se lambuza com método e perícia para devorar a iguaria com astúcia.

Cocota e Mundico tinham o costume de trocar um relaxo sempre que o pescado era o prato do dia: “eita, aí gosta de chupar uma cabeça de peixe”.

Não se sabe como, esta expressão, “chupar uma cabeça de peixe”, foi adaptada pela juventude do bairro.

Nos anos 1980 era tudo mais difícil. Para rolar uma transa não tinha as facilidades de hoje: motel, carro, dormir na casa do namorado ou namorada e tantas vantagens para ficar junto.

Ed Wilson e Solange Knapp (abraçados), o Bala, dona Cocota, Neilma e meu pai Raimundo (Mundico) ou Cabeça Branca

Geralmente, quando a turma do bairro via alguém arrumado e perfumado saindo fora do território, logo começavam as especulações, até que a pessoa declinava a frase desdenhando da molecagem – “vou ali chupar uma cabeça de peixe”.

Em tradução direta: o rapaz ia “namorar de porta” e o máximo desse ato era beijar.

Namorar de porta significava ir para a casa da menina, entrelaçar as mãos, conversar e sorver os lábios um do outro, sabendo que os pais ou irmãos da jovem poderiam surpreender o casal a qualquer momento.

Além desse namoro de porta, havia uma opção mais caliente: “sarrar”!

Esse ato libidinoso não combinava com namoro de porta, sob os auspícios dos pais. Sarro pra valer tinha de ser em lugar neutro: embaixo de árvores frondosas, encostados em um carro, nos arredores dos largos das igrejas, em alguma sombra onde tivesse uma calçada alta para encaixar os corpos em pé.

Sarrar é uma prévia elevada à terceira potência, uma esfregação sem fim de genitálias sob as roupas, mãos salientes deslizando por onde for possível e laços de língua em movimentos frenéticos.

Sarrar era um ato sexual sem penetração, porque todo o enlace era feito em pé e o casal se esfregava vestido.

Quando havia a evolução de “chupar a cabeça de peixe” para o sarro, era a glória entre a rapaziada!

Nesse tempo não tinha celular, telefone fixo era um luxo, carro em nosso bairro uma preciosidade e motel só no improviso da “Brisa”, uns quartinhos de aluguel, encravada entre o Alto Paraíso e o relógio do João Paulo, onde hoje tem a estátua de São Marçal.

Tinha gente no Apeadouro que caminhava quilômetros a pé para chupar uma cabeça de peixe em outros bairros distantes e só voltava tarde da noite, sem se preocupar com violência.

Saudades dessa cidade que se foi e dos bons tempos do Apeadouro.

Imagem destacada: turma do Apeadouro na porta da antiga quitanda do Bala. Na sequência da esquerda para a direita: Bala, Eduardo, Maria, Cocota, Neilma, Ernildo, Solange, dona Silvia, Apolo e Lady Laura. Ao fundo: Benigno, Gugu, Guimarães e Danilo.