Mais que uma janela

Eloy Melonio*

Quantas histórias guarda uma janela?

Difícil imaginar! Pois sempre tivemos forte afeição por essa moldura na parede das nossas casas.

Quem já não ouviu sobre a janela de onde D. Pedro I anunciou que ficaria no Brasil, ou sobre a janela do Palácio Apostólico, em Roma, de onde o papa fala para milhares de fiéis? Na ficção, as crianças viajam na história da janela da torre onde Rapunzel ficou aprisionada por uma bruxa vingativa.

Mas da janela amarelo-dourada da foto que ilustra esta narrativa não se sabe muita coisa. Felizmente não é a sua história o que nos importa. É algo mais original, mais arrebatador.

Vou tentar, breve e sucintamente, reconstruir a história da janela. E vou começar pelo começo. Porque nem todo começo é o que parece ser. Assim como a lua não é a mesma em cada noite, em cada fase ou a cada olhar.

Mas essa história começa mesmo onde, ou quando?

Não sei direito. Alguém, algum dia, em algum lugar, teve a iluminada ideia de deixar um buraquinho na parede de sua moradia para a entrada de ar e claridade. E não é que todos na redondeza logo estavam olhando o horizonte por um buraquinho igual a esse!

Séculos e séculos se passaram, e a ideiazinha fajuta ainda se mantinha em voga ― aberta ou fechada. E, aos poucos, as coisas foram se abrindo a novos ares. Desde a antiguidade, a arquitetura, talvez a mais exuberante das artes, se ocupou da organização e do adorno dos espaços. E as janelas sempre tiveram destaque em suas obras.

Além do vento e da claridade, viram que, para sobreviver, o buraquinho tinha de ter mil e uma utilidades. Numa delas, talvez a mais comum, a pessoa ficava “ali” horas a fio só para ver o que estava acontecendo lá fora, como porteiro de condomínio. Dizem por aí que foi dessa mania que surgiram as fofoqueiras de plantão. E por que também não as “fake news”?

Bentinho e Capitu, protagonistas de “Dom Casmurro”, romance de Machado de Assis, por exemplo, passavam suas noites à sua janela da Glória, bairro onde moravam, no Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX, “mirando o mar e o céu, a sombra das montanhas e dos navios ou a gente que passava na praia”.

Na poesia, Drummond exalta o amor metendo-o por uma janela: “O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar” (O mundo é grande, in “Amar se Aprende Amando”). Eu também inventei de fazer versos para a janela: “E não demorou muito,/ estávamos, eu e ela,/ casados, olhando o mundo/ da mesma janela” (A janela de minha casa, p. 158, Dentro de Mim).

Sem perda de tempo, vamos falar da nossa protagonista. Não antes de eu lhe contar que, recém-casado, morava numa porta-e-janela, típica casinha de aluguel na periferia das cidades. Antes disso, na pré-adolescência, via filmes e shows através da janela do único vizinho que tinha aparelho de televisão. Foi nesse período que, entre tantas janelas, vi como a vida se refaz todos os dias no puxar e no empurrar de ferrolhos e trincos. E nesse abre-e-fecha, as casas se enchem de sol, ar fresco e de alegria. E se esquecem do mundo lá fora.

Abrindo as cortinas do palco da vida real, vemos como a nossa janela se mostra ao mundo. Sempre saudando o dia e a poesia. E o palco não poderia ter melhor cenário: o segundo andar de um casarão colonial na Rua Henrique Leal, no centro histórico de nossa cidade, por onde, diariamente, passam dezenas de turistas.

Se ― por alguns minutos ― parar para admirá-la, você perceberá a evolução estética do buraquinho de que falei no início desta crônica. E certamente vai se deslumbrar com a beleza e a magia dessa janela de forma e cor ricamente tecidas, que encanta as manhãs e tardes da Ilha do Amor.

Misturados aos turistas e transeuntes, estão os bem-te-vis, os beija-flores, as borboletas ― todos encantados com sua elegância, que, em dias de sol, parece querer compor uma sinfonia de tom amarelado.

Enquanto escrevo, imagino-me nesse cenário, olhando para a janela e ouvindo de seus admiradores ao meu redor os mais lindos comentários: “Que linda, toda florida!”, “Uma janela cheia de vida!”, “E toda hora tem passarinhos!”, “Tem também as essenciais abelhas, as etéreas borboletas, os besourinhos a fainar!”.

De repente, alguém exclama: Essa janela é um texto! Olho para trás. Era o Ed, um jornalista e escritor amigo meu.

E, enfim, chego a imaginar que a nossa janelinha está sempre sorrindo porque talvez queira acalentar no peito os nossos olhares. E quem sabe contar-nos as suas histórias!

* Eloy Melonio é professor, escritor, compositor e poeta.
Foto: Ed Wilson Araújo

Palavra da vez

* Eloy Melonio

Lockdown. É só o que se fala e se ouve aqui na Ilha do Amor.

Não bastasse a exagerada quantidade de anglicismos já integrados a nossa língua, parece que a imprensa e outros segmentos da atividade político-cultural têm um certo tesão por esses termos. O da moda na mídia é “lockdown”. Nas redes sociais, só se fala em “live”. No fitness (opa!), ― sei lá! ― um monte.

Um exemplo clássico dessa vocação é o da meninina perguntando à professora da 3ª série: “Tia, como se diz shopping em inglês?”

Antigamente nossas palavras originavam-se do latim, hoje uma língua morta. Culpa de D. João VI, que, em 1809, oficializou o ensino do inglês e do francês no Brasil, antecipando a decadência do latim e do grego, cujo declínio começou logo após a segunda Guerra Mundial (1939 a 1945). Cheguei a fazer um ano de francês no ginásio, em 1967, no meu sempre-lembrado Colégio Municipal Luís Viana. Ainda me lembro da professora, uma loira de “fechar a escola”, e do “Parlez-vous Français?” Depois disso, só inglês.

“Lock”, em inglês, significa “trancar com chave, isolar”. É usado em vários sentidos. Nessa fase da pandemia de Covid-19, por extensão (substantivado com o acréscimo do advérbio down), significa “proibição da livre circulação de pessoas”, sistema primeiramente adotado aqui em São Luís-MA, a partir de 5 de maio, depois de uma decisão do poder Judiciário, seguida de decreto do Governo do Estado.

Pois bem, agora lockdown é a bola da vez, popularizada pelo ex-ministro Mandetta em suas intensas “coletivas de imprensa”. É óbvio que ele aprendeu a palavra com o pessoal da OMS, pois o termo já estava sendo usado em boa parte do mundo. E aí, é lockdown pra lá, lockdown pra cá. Até os vigias de minha rua já pronunciam o “palavrão” com uma naturalidade de dar inveja. É que eles precisam de um documento para passar nas barreiras da polícia quando vão e voltam do trabalho.

De repente, lembrei-me que lockdown tá na cabeça e na memória afetiva de duas personalidades de nosso mundo político. A primeira, o atual presidente da República; a outra, o ex-presidente Lula. No caso do atual, quanto mais Mandetta dizia “Fica no palácio, Jair”, mais o presidente se misturava à sua galera. E quanto ao ex, por uma razão mais justificável. Ficou preso numa salinha de 15 metros quadrados, na sede da PF em Curitiba por 580 dias. Aí, sim, um verdadeiro lockdown.

Pegando “carona” nessa coincidência, imaginei uma conversa telefônica entre os dois:

― Alô! É o Bozonaro?

― Quem? Aqui é o Bolsonaro, presidente da República do Brasil.

― E aí, seu presidente? Aqui é o Lula. Também já fui presidente por duas vezes. Tá lembrado, num tá?

― OK. Fala aí. O que é que tu tá querendo? Um ministério?

― Não, de jeito nenhum. É que o povo quer saber como é que tá esse negócio do isolamento social?

― Que isolamento porra nenhuma! Agora mesmo eu tô saindo pra padaria pra comprar uns pãezinhos.

― Padaria?! Mas, presidente…

― Sou livre pra fazer o que eu quiser, ir aonde eu quiser, na hora que eu quiser. Isolamento é pra quem tá, ou devia tá na cadeia.

― Tá falando comigo? Veja bem, se eu tô solto é por causa de uma decisão judicial.

― Tá certo! Enquanto esses caras do STF tiverem uma caneta na mão e nenhum juízo na cabeça, vão soltar gente que devia ficar na cadeia a vida inteira.

― É, presidente, pimenta no “olho” dos outros é refresco. Só sei que tá todo mundo comentando essa sua mania de quebrar as regras. Já tão até falando em impeachment.

― Tu tá me achando com cara de Dilma Rousseff, rapá?

― Não, absolutamente. Mas o meu amigo Dr. Moro tem provas que podem complicar sua vida.

― Tudo fake news. Coisa de desocupado.

― Ouvi dizer que vai ter lockdown aqui em Brasília. É verdade?

― Lock o quê?

― Lockdown, aquilo que fizeram comigo lá em Curitiba.

― Vai te coçar, malandro. Aqui quem manda sou eu. Preciso desligar agora porque vou falar com o meu povo lá na frente do palácio. Não sou o Milton Nascimento, né?, mas gosto de ir aonde o povo está. Fui!

― (Falando sozinho) Nunca antes na história desse lockdown

Com ou sem isolamento social, nossa velha cidade continua linda! E, na mídia nacional! Tudo por causa desse tal de lockdown.

*Eloy Melonio é professor de inglês, compositor, escritor e poeta.