Quando a morte e o fanatismo religioso chegaram em São Luís: a gripe espanhola, por Josué Montello

A primeira promessa de que São Luís ia virar Paris veio com a iluminação elétrica em substituição aos antigos lampiões de gás. Era um deslumbre generalizado ver a cidade clareada pela nova tecnologia – o povo na rua como se estivesse vendo o homem pisar na lua.

Modernidade. Essa alegria foi interrompida pouco tempo após a inauguração da “eletricidade”, quando chegaram os registros de que a gripe espanhola começava a somar óbitos mundo afora. Havia uma contagem regressiva para a “sinistra” adentrar ao Maranhão.

No livro “Os degraus do paraíso”, Josué Montello conta….  

“Depois, como se a nova luz da noite as atraísse, começaram a chegar as más notícias do Norte, do Centro e do Sul. A morte andava lá fora matando às cegas. Um arrepio de frio, febre alta, delírio, e o que até há pouco não era nada passou a ser o desespero e a sepultura. Dezenas, centenas de casos, destruindo famílias inteiras de um dia para outro, no Rio de Janeiro. Ninguém tinha sossego. E era mais quem perguntava: quando a morte chegaria em São Luís? Toda gente se entreolhava, apegando-se aos seus santos. E as lâmpadas elétricas, nos negros postes de iluminação urbana, tinham um ar de espanto – que amedrontava.”

“Até que uma noite, no começo de outubro, a morte entrou de manso pelas ruas tortas que se esgueiram para o mar, escondida no corpo de um marujo de olhos em brasa e andar gingado. Dias depois a cidade lhe sentiu a presença sinistra, nos primeiros esquifes roxos que saíram das casas do meretrício para o Cemitério, à noite, sem acompanhamento, sob o olhar das lívidas lâmpadas elétricas.”

Uma das capas da obra de Montello

Depois, revela Montello, partiram outros corpos de vários lugares da cidade, até mesmo dos sobrados da rua Grande e rua da Paz. A cidade ficara deserta. Em meio ao pânico, pedradas certeiras estilhaçavam as lâmpadas nas ruas, talvez como ato de revolta diante da tragédia coletiva simultânea ao milagre da luz. Seria a energia elétrica uma espécie de maldição?

“Os degraus do paraíso” tem a forte presença da personagem Mariana, dotada de uma fé obsessiva, a ponto de apostar as suas forças na formação do filho Teobaldo em padre.

Todos os propósitos da sua vida eram dedicados ao ordenamento do filho, considerado por ela ungido à missão sacerdotal.

Eis que, apesar de todo o seu fervor católico, Mariana perdeu o rebento mais querido e prometido ao sacerdócio, atropelado por um dos poucos veículos que transitava por São Luís no início do século 20. A morte de Teobaldo provocou uma depressão violenta em Mariana, piorada após o contágio da gripe espanhola.

Trancada no sobrado localizado na esquina das ruas do Sol e da Cruz, no Centro Histórico de São Luís, mortificada com perda do filho e ameaçada pela gripe espanhola, Mariana começou a ser tratada por uma enfermeira evangélica, em visitas diárias.

Aos poucos, o fervor católico de Mariana ganhou outros tons de fé, passando ela a questionar os cânones da sua religião original. Parte dessa virada decorria de uma interpretação da personagem sobre a perda do filho, prometido para ser padre.

Os questionamentos sobre o catolicismo, estimulados pela enfermeira evangélica, cresciam à medida que Mariana conseguia progressos no tratamento da gripe espanhola, principalmente devido ao isolamento social.

Nesse ínterim da narrativa de Josué Montello, outros fatos correm no romance, sempre marcado pela cidade vazia, macabra, em quarentena e silêncio, rompidos apenas pelos cortejos fúnebres das novas vítimas da gripe e pelas pedradas nas lâmpadas.

A tensão da obra fica por conta da conversão radical de Mariana à religião evangélica, elevada a tal ponto de fanatismo que renega a filha Cristina, irmã de Teobaldo, admitida no convento para ser freira.

Embora narrado em uma São Luís do passado, “Os degraus do paraíso”, romance de Josué Montello, trata de temas atuais: isolamento social e fanatismo religioso. É uma boa leitura para esses tempos de solidão.

Vou ficar por aqui para não ser spoiller de livro de papel.

A Literatura e a ficção científica estão recheadas de estórias sobre colapsos da humanidade causados por doenças. O professor e filósofo Marco Rodrigues escreveu recentemente sobre o coronavírus e a obra “A peste”, de Albert Camus. Acesse o artigo aqui.

OBS: O sobrado de Mariana, cenário principal da obra de Montello, é hoje o atual prédio do Ipam (Instituto de Previdência e Assistência do Município), na rua do Sol, esquina com rua da Cruz.

Imagem destacada / rua do Sol, na antiga São Luís / capturada neste site

Natal da discórdia no Maranhão

São Luís às vezes tem traços de Macondo e Sucupira, juntas.

O Circo da Cidade virou borboleta, o Estádio Municipal Nhozinho Santos é um cemitério de dinheiro público, o acervo do Memorial Bandeira Tribuzi está amontoado lá pras bandas do Desterro; e os portais da cidade, aprovados em um rumoroso concurso, nunca saíram do papel. Para completar, a reportagem do jornalista Silvio Martins revelou mais um funeral do erário no coração do Centro Histórico – as reformas no prédio do BEM já consumiram R$ 30 milhões.

Nesse Natal, como será a chegada de Jesus para os índios do Maranhão? E a ceia dos moradores do Cajueiro? Qual presente receberão os quilombolas de Alcântara?

Que futuro terá nossa região metropolitana com a proposta da Prefeitura de São Luís para eliminar 41% da zona rural na revisão do Plano Diretor?

Vamos às respostas.

Há um consenso sobre o extermínio dos indígenas. Bolsonaro (a política de ódio) é o culpado-mor, mas a estrutura oligárquica do Maranhão, firme e forte em todos os governos, dita a ordem da violência no campo para dizimar os povos e as comunidades tradicionais.

Não há como negar a veia progressista do governador Flávio Dino (PCdoB) e o esforço da gestão para melhorar o panorama e os indicadores locais, mas a violência no campo tem a cota de participação da direita eternamente apaixonada pelo Palácio dos Leões.

Para o pensamento político do campo conservador pouco importa se os índios vão morrer de susto, bala ou vício.

Já na dimensão geopolítica, a força do capital internacional passa o trator no Cajueiro para atender à expansão portuária e industrial. Esta, por sua vez, precisa das alterações no Plano Diretor para tirar do meio do caminho a zona rural, como se as comunidades tradicionais estivessem impedindo o “desenvolvimento” do Maranhão.

O prefeito Edivaldo Holanda Junior (PDT), no segundo mandato, opera os interesses das empreiteiras e dos lobistas do mercado de terras para fazer de São Luís um gigantesco “grilo chique”. Não há qualquer diferença entre esse projeto e o de Eduardo Braide (Podemos), deputado federal e líder nas pesquisas de opinião para prefeito de São Luís, em 2020. Ambos são filhos da mesma árvore política.

Existe portanto uma opção clara pela continuidade da modernização conservadora. Assim, os quilombolas de Alcântara podem ter o mesmo destino dos moradores do Cajueiro: tropa de choque, balas de borracha e bombas de efeito moral.

Tudo isso ocorre no mês do Natal, em meio à polêmica sobre o Papai Noel no Centro Histórico de São Luís e críticas reais acerca das políticas culturais do Governo do Estado e da Prefeitura de São Luís.

O melhor de tudo é a divergência. Como é salutar ver opiniões conflitantes sobre o velho de barba branca e roupão vermelho que emociona os ricos da ceia farta e os pobres com as suas limitações.

Jesus Cristo, o homem histórico de carne e osso, combateu os poderosos e pregou justiça. Que ele renasça nos corações e nas nossas palavras neste Natal das discordâncias saudáveis.

Nota do Editor: Texto atualizado às 20h38. Houve um equívoco ao associar o ex-prefeito de Santa Luzia do Tide, Antonio Braide, ao deputado federal Eduardo Braide.

Vem aí o festival BR135, edição 2019. Veja as novidades sobre shows e os eventos paralelos

Evento chega ao 8º ano de realização consolidado como um dos mais importantes festivais de música independente do país; na programação, destaques para Céu, DJ Dolores, Xênia França, Edgar, Potyguara Bardo e Attooxxa, além de outras atrações selecionadas em edital

O maior festival de música e mercado do Maranhão acontece dias 28, 29 e 30 de novembro. O BR135 volta a ocupar o centro histórico de São Luís, dessa vez abrindo os braços em um espaço maior, nas praças Maria Aragão e Gonçalves Dias. Com um poderoso painel de sonoridades nos palcos, atividades formativas, rodada de negócios e mercado de arte e gastronomia, o BR135 é um dos únicos festivais de música independente do país em que todas as atividades são gratuitas.

Sob o comando da dupla Criolina, formada por Alê Muniz e Luciana Simões, a festa reúne os artistas convidados Edgar, Xênia França, Potyguara Bardo, Attooxxa e Céu e os selecionados ENME Paixão, Preto Nando recebe Kaminski, Paulão, Vinaa recebe Cláudio Lima e Romero Ferro (PE), Orquestra Maranhense de Reggae com a presença de Dicy Rocha, Regiane Araújo e Otília Ribeiro, The Baggios (SE), Josyara (BA) e os DJs Dolores (PE), Juliana Alba (Itz) e Sue Krsteli.

O BR135 recebeu quase 600 inscritos de todos os cantos do país. Para formar um conjunto representativo da cena e ao mesmo templo contemplar os objetivos do festival – fomentar o mercado da música independente, promover o intercâmbio de experiências, colocar o Maranhão no mapa dos festivais e fortalecer as ações fora do eixo Rio-SP – a comissão chegou aos dez nomes divulgados.

“Neste ano a curadoria buscou contemplar a diversidade, dando visibilidade à música feita nas periferias, à música negra, nordestina, dando voz às mulheres, à cena LGBTQ. Estamos vivendo uma revolução que envolve gênero, etnia, geografia e a força da nossa música está na reunião de diversos atores”, afirma Luciana Simões. “Importante destacar que essa representatividade foi contemplada com base na qualidade musical e na capacidade de dialogar com o público do festival, que é exigente”, completa Alê Muniz.

No que já se tornou uma tradição do BR135, cada uma das noites do festival será aberta por uma atração da cultura popular do Maranhão. O Tambor de Crioula de Mestre Leonardo vai dar a largada na quinta-feira e nas noites seguintes apresentam-se o Boi da Liberdade e o Boi do Maracanã. “Temos muito orgulho das nossas tradições e neste momento elas são ainda mais necessários porque reúnem arte e fé, as verdadeiras armas de que precisamos para resistir”, afirma Alê Muniz.
 
O BR135 mantém suas ações de fomento ao mercado da música em dois eixos principais: o da Música, que reúne shows de bandas locais e nacionais que se destacam no cenário independente, e o eixo Formação, contemplado nas atividades do Conecta Música, com oficinas, painéis, roda de conversa e rodadas de negócios. As principais atividades serão realizadas no Casarão Tech (Rua da Estrela).

O Mercado BR135 – Arte + Gastronomia, que reúne pequenos negócios, como bikefood, comércio de camisetas, cervejas artesanais e produtos ligados ao mundo da arte, será montado na Praça Gonçalves Dias, onde também será realizada uma programação de música com DJs locais. O palco, no coreto, vai reunir 15 DJs do Movimento Cidade Alta durante os três dias do evento.
 
Para ampliar o acesso de pessoas com dificuldade de locomoção e necessidades especiais, o BR135 contará com um espaço próximo ao palco, para que possam aproveitar os shows em segurança, além de  banheiros adaptados, com acesso por rampa. Além disso, toda a programação terá interpretação simultânea em libras e as informações do evento na internet contam com dispositivo de audiodescrição.

Conecta música, mercado & literatura

Nesta edição do BR 135 o Conecta Música coloca na pauta, entre outros temas, tendências e futuro das mídias de música, cultura e comportamento na internet, internacionalização de carreiras, direitos autorais e tem um painel especial sobre o Circuito Nordeste – A Revolução. Entre as ações formativas, está confirmado um workshop de tradução em libras.

Outro tema que está na pauta do Conecta é a presença feminina na música, poder e maternidade. E quem vai falar sobre o assunto é a cantora Céu em um bate-papo na tarde de sábado.

Além das atividades de fomento ao mercado da música, com a presença de produtores e representantes de eventos, o Conecta Música deste ano contempla a literatura em três ações especiais: o lançamento da biografia de Raul Seixas, do jornalista Jotabê Medeiros, a edição do programa Palavra Acesa, da jornalista Andréa Oliveira, que vai receber a cantora Xenia França para falar sobre sua relação com os livros, e a Feira de Livros usados na Praça Gonçalves Dias.

A rodada de negócios, que abre a programação, está marcada para o dia 28, às 14h. Participam da atividade, entre outros, representantes dos festivais Do Sol (RN),  Festival de Inverno de Garanhuns (PE) e Radioca (BA), além da agência Brazilian Música e Artes (SP) e da produtora Uhuu Manegement (EUA).

Imagem destacada: The Baggios, de Sergipe, será uma das atrações no BR135. Foto: Felipe Diniz

Têka Arts promove desfile de moda com tema quilombola

Nessa sexta-feira (07/12),  às 20h30, a escadaria do Beco Catarina Mina será mais uma vez a passarela do desfile da estilista maranhense Têka Castellano – Têka Arts. O evento, que está em sua 16ª edição, já faz parte do calendário cultural de São Luís e reúne uma centena de pessoas todos os anos, entre amigos, admiradores e turistas.

Esse ano o tema é quilombo.

A marca Têka Arts teve início no ano de 1998, em Alcobaça-Bahia, local onde a proprietária abriu sua primeira loja. Em 2002 registrou sua empresa, atuando no mercado de moda alternativa no Maranhão há 17 anos, sempre lançando peças de roupas, bijuterias e acessórios com toque artístico-artesanal.

Em 2003 a loja passou a realizar o Desfile de Roupas Alternativas, em que apresenta cenicamente a coleção anual da estilista Têka Castellano, proprietária da loja e responsável por toda a criação e design da produção.

Localizada no Centro Histórico de São Luís, no Beco Catarina Mina – Praia Grande, a loja é frequentemente visitada por turistas, possui vários clientes de outras regiões do país e de outros países. Têka Artes já exportou peças para França, onde a estilista também realizou exposição, além de Porto Alegre, Florianópolis e Argentina.

As criações de Têka Arts permitem revisitar tendências e estilos, voltando-se para a produção de peças diferentes do circuito da moda tradicional.

As roupas alternativas, apresentadas pela estilista, baseiam-se na estética africana e indígena, inspirados na cultura popular maranhense, com suas festas e ritos. Nessa identificação, a artista utiliza-se de matéria prima pouco valorizada no circuito de moda tradicional: retalhos, chita, tecidos africanos, fibras, sementes, tecido cru e confecção artesanal, que marcam o estilo e a tendência da estilista Têka.

SERVIÇO

Desfile de Roupas Alternativas Têka Arts

Dia: 7 de dezembro (sexta-feira)

Hora: 20h30

Local: Beco Catarina Mina, 105

Reviver – Praia Grande São Luís do Maranhão

E-mail: teka-arts@hotmail.com

Telefones: (98) 3232-5834/ 98879-1078

Imagem: divulgação Têka Arts