“Rumbora Marocar” promove educação política e checagem de informações nas eleições de São Luís

Criada pelo coletivo Re(o)cupa – atuante desde 2016 em São Luís, com foco na democratização da arte, cultura e educação através de novas perspectivas coletivas -, a campanha “Rumbora Marocar” fará sua estreia nas Eleições Municipais de São Luís em 2020, como um projeto de educação política popular e de verificação de conteúdo.

“Rumbora Marocar” terá uma plataforma digital oficial, que funcionará como ferramenta democrática indispensável e atuará na formação política dos cidadãos, na medida em que coloca o debate de projetos políticos e sociais e apresenta a possibilidade de importantes mudanças neste período, além de contribuir na ampliação de conhecimento aos ludovicenses sobre o processo eleitoral.

O site oficial da campanha estreia dia 20 de setembro e será disponibilizada inicialmente por um ano, podendo ser utilizada para mais ações sobre o âmbito político institucional da ilha. Acesse em: www.rumboramarocar.com.br.

A campanha será realizada de setembro a dezembro de 2020, com foco em promover o debate sobre o conteúdo produzido entre os eleitores do município de São Luís (todo e qualquer cidadão a partir dos 16 anos).

Para Deuza Brabo, uma das organizadoras da campanha, entre os propósitos da “Rumbora Marocar” está o de ofertar mecanismos para que a população detenha conhecimentos e exerça a cidadania através do voto com maior consciência nas eleições municipais de São Luís. “Com o Rumbora [Marocar], queremos a criação e a disseminação de conteúdos informativos e educacionais, sempre com uma linguagem clara e de fácil entendimento. Estamos comprometidos em realizar este projeto trabalhando com a realidade dos fatos e distante de interesses particulares e partidários. Nossa missão é propiciar um melhor entendimento tanto da política institucional quanto da política local”, afirmou.

Ao todo, serão 75 dias de informações sobre a conjuntura política ludovicense, seu embate e análise de seus discursos e diálogos, buscando levar coerência e transparência para a população. “Através de lives, matérias especiais e inéditas e uma forte campanha nas redes sociais, seguiremos, por quatro meses, instigando o debate sobre temas em discussão na cidade a fim de incentivar a população a participar ativamente, criando espaços de diálogo com os principais usuários das cidades”, pontuou Kadu Vassoler, também organizador da plataforma, que ressalta ainda a realização de cinco programas interativos (lives/ao vivo) com convidados especialistas para debater sobre temas da cidade. 

Com dois eixos de atuação, “Rumbora Marocar” atuará da seguinte forma: no Eixo 1, intitulado “Rumbora”, irá disseminar conteúdo de forma acessível e com linguagem popular sobre os cargos em disputa nas eleições municipais, fornecendo conteúdo relativo aos cargos de prefeito, vice-prefeito e vereador, elucidando sobre as competências atinentes aos respectivos cargos, com produção de matérias jornalísticas a respeito da conjuntura política de São Luís, contexto histórico e atualidades e disponibilização de materiais gráficos como cartilhas e materiais em audiovisuais dos bastidores, objetivando ensinar o passo-a-passo sobre o modo como é feito a checagem de notícias; já no eixo 2, chamado “Marocar”, o objetivo será averiguar notícias, declarações e materiais publicados pelos candidatos a prefeito durante o período da Campanha Eleitoral, como uma forma de qualificar o debate público por meio da apuração jornalística, checagem do grau de autenticidade das informações, além de identificar incoerências a partir da análise aos planos de governo e das competências atribuídas ao cargo, com análise dos Planos de Governo apresentados pelos candidatos à Prefeitura de São Luís que tenham sido devidamente registrados junto ao TRE, realização do perfil do candidato (histórico político) e verificação quanto a autenticidade das informações propagadas pelos candidatos ao cargo de prefeito em São Luís, durante a campanha política.

Eleições em São Luís

A história de São Luís é marcada pela presença de uma oligarquia que se mantém com a utilização patrimonialista da máquina pública e impede a inserção de novos grupos na disputa eleitoral e ameaçam o Estado Democrático de Direito. Dados do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão (TRE-MA) revelam que, dentre os 31 vereadores eleitos em 2016, 25% deles somam mais de 100 anos ocupando cadeira na câmara de vereadores do município de São Luís.

Para Karoline Ramos, que fecha o tripé de criação da campanha ao lado de Kadu e Deuza, evidenciar estes dados sedimenta a importância de se implementar iniciativas que fomentem a participação popular nas eleições municipais de São Luís como uma estratégia combativa à manutenção da estrutura posta perpassando a garantir a práxis concreta, em que o exercício do educar-se politicamente deve ser prioridade.

“É preciso combater a veiculação de informações falaciosas em torno das campanhas eleitorais dos candidatos a prefeito e fornecer conteúdos informativos de fácil entendimento pela população como um caminho a ser percorrido dentro de uma estratégia combativa aos modelos postos. E é por isso que a ‘Rumbora Marocar’ se faz extremamente importante e necessária”, explanou.

Para mais informações sobre a campanha “Rumbora Marocar”, via e-mail reocupa@gmail.com e/ou (98) 99968-2033 (Assessoria de Comunicação).

Idiocracia: um filme do futuro para pensar o presente

A convite do Programa de Educação Tutorial (PET) de Biblioteconomia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), coordenado pela professora Maria da Glória Serra Pinto de Alencar, participei do projeto “Cinedebate PET Biblio” junto com os alunos e o jornalista e filósofo Paulo Iannone, assessor de comunicação do Sindicato dos Metroviários de São Paulo.

Após assistirmos ao filme “Idiocracia”, dialogamos sobre o tema “Mídia, poder e crise social: o discurso da imbecilidade na sociedade contemporânea”.

Veja ao fim da postagem como baixar para assistir.

O filme, de 2005, é ambientado no ano de 2505, protagonizado por um militar e uma prostituta selecionados para fazer parte de um experimento militar secreto que os coloca em hibernação.

A dupla é congelada para acordar no futuro, mas o projeto caiu no esquecimento e os dois caixotes congelados ressurgem 500 anos depois, num mundo embrutecido, controlado por um ex-ator pornô e halterofilista eleito presidente.

Idolatrado pela massa entorpecida por consumismo e alienante programação dos meios de comunicação, o presidente comanda todos os tipos de aberração junto ao seu secretariado corrupto, comparsa dos poderes judiciário e legislativo transformados em aberrações, além do gigantesco aparato policial repressivo.

O presidente bélico de Idolatria

As deploráveis aparições públicas do presidente e as sessões de bizarrice no parlamento só não são piores que as cenas ocorridas em uma arena de “reabilitação”, onde as pessoas sentenciadas à morte, sem provas, são executadas em rituais de sadismo coletivo nas arquibancadas.

O filme serve de inspiração para refletir sobre os fatos reais que vivenciamos hoje no Brasil, nos Estados Unidos e mundo afora, onde cresce a onda obscurantista.

Várias cenas de “Idiocracia” já são percebidas atualmente. A negação da Ciência e do Jornalismo, dois campos de produção do conhecimento fundamentais do processo civilizatório, é sinal de uma caminhada de retrocesso à barbárie.

Quando acordam na América do futuro, o militar e a prostituta veem o caos: montanhas de lixo compõem o relevo das cidades, a língua foi trocada por gírias, as agressões físicas e verbais tomam o lugar do argumento, o ódio às mulheres e aos homossexuais é uma regra e a idolatria pelo presidente pornô está elevada à máxima potência.

O nível de obscurantismo chegou ao cúmulo de abolir o uso da água e introduzir em seu lugar um líquido verde produzido pela empresa “Brawndo”, controladora de quase tudo no planeta.

Assim, a água passou a ser considerada imprópria para beber, tomar banho e regar as plantações, sendo usada apenas nos aparelhos sanitários.

Todo o filme está pautado na reprodução das pessoas idiotas em larga escala como única forma de sobrevivência no mundo caótico.

Em meio à massa idiota, o militar acaba sendo o sujeito mais inteligente do planeta, sendo convocado pelo presidente pornô a resolver os problemas da humanidade, com um cargo no alto escalão do governo.

Seu principal desafio é convencer o país de que a água deve ser usada nas plantações…

Num mundo apocalíptico, pautado na negação da razão, onde o telejornal é um espetáculo burlesco apresentado por um casal de bombados, em que tudo se converte em mercadoria controlada por uma só empresa, as pessoas são transformadas em animais bovinos tangidos por consumo de propaganda grotesca, batata frita e pornografia. Há, no filme, um impressionante culto à masturbação….

A idiocracia tem como principais substâncias a negação do pensamento, a destruição dos preceitos civilizatórios, o desprezo pelos mínimos valores morais e a mutação da política em um bizarro espetáculo de violência e sensacionalismo.

O grande ativo da idiocracia é o indivíduo que não reflete sobre o que faz ou diz, apenas acredita nas suas convicções independentemente dos fatos e dos critérios de verdade. Ele também expressa desprezo pela dor da outra pessoa e usa sempre a violência física ou verbal no lugar da argumentação.

Expressões como “não sou coveiro”, “e daí?!” ou  “é apenas uma gripezinha” têm alguma semelhança com a ficção?

A idiocracia é o império da intolerância, traduzida na impossibilidade da convivência com o diferente; ou seja, a morte da política.

O filme é uma lente de aumento sobre o negativismo e o obscurantismo, que no Brasil já domina uma parte da população.

Na Grécia, idiota era a pessoa restrita ao ambiente da vida privada sem interesse nos assuntos da cidade e nas questões do Estado. Em outras palavras, não participava das decisões sobre a polis. Para os gregos, idiota era uma pessoa sem instrução e, nessa condição, considerado inferior.

Ainda não havia naquela época histórica a conotação pejorativa sobre a expressão idiota.

O problema, na contemporaneidade, é a ressignificação do conceito e a expressiva participação dessa forma de comportamento na vida pública.

A internet e os equipamentos de produção e distribuição de conteúdo proporcionaram as condições materiais e virtuais para a difusão da idiotia como fenômeno social.

O idiota não é mais o indivíduo grego ensimesmado na sua tarefa de prover a vida doméstica sem se importar com a coletividade. Nos tempos atuais o idiota participa ativamente da polis, vai às manifestações de rua, prega a destruição das instituições, despreza a Ciência, repudia o Jornalismo, idolatra o presidente bizarro, é agressivo, convicto da sua verdade e não admite o contraditório.

Enfim, os sinais do filme estão vivos em nosso cotidiano.

Tomara que a vida não imite a arte.

Como assistir ao filme Idiocracia

O único homem inteligente…

O filme não está disponível nas plataformas YouTube nem canais fechados de TV ou Netflix e assemelhados.

Para acessar o conteúdo é necessário, primeiro, baixar o programa Utorrent e em seguida fazer o download pelo link (https://ondebaixa.com/idiocracia-download-via-torrent/)

Alguém que não seja eu

Eloy Melonio*

Não preciso da mesma vibe poética de Erasmo Carlos em “Mesmo Que Seja Eu” para construir esta crônica. Mas vou aproveitar um pouco da “filosofia” com que ele teceu essa belíssima canção.

Tudo isso para falar do “outro”, essa personagem da vida real, tão popular e tão desgastado.

Sabe-se que a maior criação divina foi o homem, e a mais monumental invenção do homem foi o outro. E com ele, a mentira. Tão oportuna que foi logo usada para que seu inventor, passando-se por inocente, imputasse o pecado original à mulher, que, por sua vez, pôs a culpa na serpente. E o mundo idealizado por Deus agora era outro.

De pecado em pecado, chegamos à tenebrosa era das fake news. E nesse vil universo não há quem se intitule dono da mentira, uma pobrezinha órfã de pai e mãe. O fato nu e cru é que ela é sempre uma invenção do outro. E, nessa condição, a coitada vai passando, inescrupulosamente, de mão em mão.

Para os amigos do outro, muitas vezes, o prêmio é o castigo. Um exemplo disso é a tal delação premiada, quando um entrega o outro, que entrega o outro… Daí vem a desconfiança de que o outro nunca pode ser alguém de mãos limpas. Nem mesmo Pilatos, que parece ter se livrado da pecha de delator.

No caso dos filhos do presidente (01, 02 e 03), quando não se sabe quem disse o quê, alguém interfere para nos confundir ainda mais: Não foi esse; foi o outro.

Já na Palestina do primeiro século, João (que batizou Jesus) — antevendo a mazela das fake news — precisava certificar-se de que Jesus não era um falso Cristo. E enviou-lhe emissários a perguntar: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?”(Mt 11:3).

Para existir, o outro precisa de alguém. Mesmo assim, um sempre desconfia do outro. Porque o outro não é uma pessoa com quem a gente possa se abrir, haja vista que a amigos outros ele também sorri.

Dizem até que o outro nunca é amigo. Porque o amigo é nominável, visível, confiável. E esse é apenas um vulto rodando por aí. Se, por acaso, dele receber “o pão que o diabo amassou”, não tenha dúvida de que com essa maldição não deve ficar, exceto se não houver outro a quem passar.

O outro é um ser que pensa conhecer-se a si mesmo, imaginando-se único e independente. Pode, inclusive, ser “você”, quando se olha numa foto e não se agrada do que vê. Ou quando, num sofisticado evento social, desconfiado, olha para o outro, que olha para o outro... Nada de errado, pois nessas reuniões até as madames soltam “pum”. E esses gases se esvoaçam no ar, e logo todos os outros se esquecem do incidente.

Numa relação extraconjugal, a astúcia de um é querer que o outro seja sempre o outro, porque assim jamais passará de um simples affair. E se você não sabe, o outro é aquele que chega quando o marido não está, e se apressa quando percebe que ele já vai chegar.

Na novela “O outro” (Rede Globo, 1987), Francisco Cuoco vivia dois personagens que eram sósias, sem que um conhecesse o outro. Nesse caso, dois que pareciam um. Ao contrário, Ferreira Gullar fala de “um” que são, possivelmente, dois: “Uma parte de mim/ é todo mundo;/ outra parte é ninguém”.

Num poema do meu próximo livro (Travessia), ouso afirmar uma verdade inconteste: Nosso mundo somos nós: eu, você, os outros.

Entre uma coisa e outra, viu o Criador que sua obra-prima não podia ficar só, e tratou imediatamente de esculpir outra. Desde então, outro não se faz senão de outro já existente. E que este ou aquele pode, a qualquer instante, envolver-se em encrenca.

Preferencialmente com alguém que não seja eu.

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*Eloy Melonio é professor, escritor, poeta e compositor.

Imagem destacada capturada nesse site

Turiaçu: 365, sim; 150, não!

Por Jadeilson Cruz, graduado em Filosofia e estudante de Jornalismo da UFMA

Hoje, 11 de julho de 2020, comemora-se o sesquicentenário da elevação da Vila de Turiaçu à categoria de cidade. Apesar de ser uma data emblemática, pois significa uma mudança significativa de patamar, não a considero a mais importante da história turiaçuense. Já que em conformidade com a Provisão Régia de 09 de abril de 1655, como consta na monografia do professor Robson Campos Martins, foi criada a Missão Jesuíta São Francisco Xavier, dando origem ao primeiro núcleo demográfico de Turiaçu. Desse modo, em 09 de abril do corrente ano era para se ter comemorado 365 anos de história e não 150 como muitos comemoram no dia de hoje. 

Turiaçu é gigante. E entre os grandes da história do Brasil e do Maranhão deve figurar. Comemorar o 11 de julho como a data mais importante é uma forma de ignorar os primórdios da história turiaçuense. Temos que dar o devido valor aos acontecimentos históricos e colocar Turiaçu em seu devido lugar. 

Não podemos nos esquecer de outras datas importantes da nossa história: como 25 de junho de 1833, criação da Vila de Turiaçu; 13 de fevereiro de 1834, instalação da Vila de Turiaçu; e 12 de junho de 1852, reincorporação de Turiaçu ao Maranhão. Além dessas já citadas, é fundamental que conheçamos não apenas outras datas importantes, mas também a História de Turiaçu mais profundamente. É necessário que nos empenhemos em compreender os fatores que determinaram as transformações ao longo do tempo e a atual configuração do nosso município. Temos que, como disse Heródoto, “Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”. Só o conhecimento do passado nos dará a real dimensão da nossa História.

Antiga igreja São Francisco Xavier, padroeiro de Turiaçu

As fontes sobre a História de Turiaçu são escassas, tornando-se assim praticamente incompreensíveis alguns fatos importantes da nossa história, como a configuração política em 1870, a partir de 11 de julho; a composição, organização e localização do Quilombo de Turiaçu, que teria sido o segundo maior do Brasil, ficando atrás apenas do de Palmares; dentre outros fatores que contribuiriam para melhor compreensão do que somos a partir do que fomos. O grande culpado por grande parte dessa escassez é o capitão Manuel Aurélio Nogueira, que em 1930, quando administrava o nosso município, mandou incinerar quase todo o arquivo municipal. Nesse sentido, é necessário um estudo historiográfico minucioso. Tanto os governantes como a população devem se empenhar e angariar fundos para financiar esse mergulho na história turiaçuense. 

Em relação a Turiaçu, eu tenho muitos sonhos. O principal deles é ver a sede do município transformada em uma cidade cultural. Quero andar pelas ruas e ver um teatro, um cinema, um museu e uma biblioteca imponentes. Também, casas de danças, de música e manifestações culturais sendo encenadas e cultivadas nas praças e nas ruas. Quero ter o prazer de assistir, ao lado dos meus conterrâneos, a grandes e maravilhosos espetáculos. Como poetizou Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. 

Turiaçu precisa respirar história, cultura, conhecimento, esporte e lazer. Não é aceitável que no nosso município não exista pelo menos um museu, como também monumentos em homenagem aos nossos heróis. Outro fato lamentável é a falta de locais apropriados para a prática de esportes e para a apreciação de eventos culturais, assim como a inexistência de áreas de lazer adequadas. E o mais inadmissível ainda é o menosprezo ao conhecimento, pois a maior prova disso é a degradação da Biblioteca Municipal. Conhecimento é prioridade, sempre deve estar em primeiro lugar. Um povo sem conhecimento, é um povo sem esperança, logo, sem futuro. O conhecimento é condição necessária para libertar a alma da tirania da ignorância. 

O 09 de abril deveria ser um dia de festa e de celebração da turiaçuensialidade. Nesse dia deveria haver eventos esportivos, culturais e educacionais. Em alguns momentos o 11 de julho já foi palco de eventos assim, porém precisamos de algo ainda mais grandioso. Esse dia seria ideal não apenas para festejarmos o nosso povo, mas também para conhecermos mais profundamente a nossa história. Como disse o professor Robson Campos Martins: “Um povo que perde as suas tradições, é um povo indigno de figurar na história”. 

Foto destacada / uma das ruas mais antigas da cidade / divulgação: acervo pessoal do professor Edmar Costa Filho

Bolsonaro é a última tentação de Sarney

Fora do controle do Palácio dos Leões, com a sua cota na bancada federal do Maranhão reduzida a pó e apenas um deputado familiar na Assembleia Legislativa, José Sarney tenta se encostar no presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), repetindo o mesmo movimento que marcou a sua vida inteira na política – controlar a província a partir dos poderes da República.

A lógica é a mesma, mas a força é outra, muito menor, sem o controle dos deputados e senadores do Maranhão e nem o trânsito de outrora no Congresso Nacional.

José Sarney é uma lenda, apenas, mas vai tentar de todas as formas se conectar à extrema direita para interditar, boicotar e até cassar o mandato do governador Flávio Dino (PCdoB).

Jair Bolsonaro bateu continência ao veterano coronel do Maranhão, mas não é certo que lhe dará ministérios e outros mimos para usufruir das benesses do Planalto.

Os tempos são outros e a fila andou. O baixo clero, emergente na Casa Grande, tem outros líderes.

Sarney é passado. Sem bancada federal, tem pouco valor no balcão de negócios de Brasília, onde vai seguir predominando a troca de votos por interesses e favores.

O coronel está ferido. Perdeu duas eleições para o Governo do Maranhão no primeiro turno, expondo sua filha mais querida, Roseana Sarney, a uma dor insuportável – ficar sem poder.

Resta ao coronel a máquina de jornalismo e propaganda para perseguir o governador Flávio Dino.

À imagem e semelhança de Bolsonaro, a única arma que pode colocar Sarney na batalha é a mentira contra Flávio Dino. Mas, hoje, quem acreditaria na farsa do tipo Reis Pacheco?!

Não há mais tanta munição na barricada de Sarney. E o adversário, Flávio Dino, controla os Leões.

Jesus, no deserto, passou por três tentações do demônio. Todas ilustradas nas paixões do egoísmo, sede de poder, ambição e vaidade. São paixões avassaladoras e tentadoras da política.

Bolsonaro é a última tentação de José Sarney, que busca a proteção do presidente eleito para perseguir e boicotar o Governo do Maranhão.

Vai conseguir?!

SILÊNCIO NA PODEROSA: a Difusora AM está muda(ndo)

Passei o dia juntando recortes para escrever esse artigo, concluído às 23h59min do domingo 16 de setembro de 2018, na virada do dia 17, quando a rádio Difusora AM saiu do ar, materializando a migração para a Nova FM 93.1 Mhz.

As últimas palavras na AM foram pronunciadas pelo radialista Jonas Mendes, que assumiu o microfone às 22h e conduziu a emissora até meia noite, quando os aparelhos foram desligados.

Ouça aqui os últimos minutos da transmissão

Esta emissora é a primeira de São Luís a fazer a migração. Foi inaugurada em 29 de outubro de 1955, de propriedade do fazendeiro Raimundo Bacelar. Passou 63 anos no ar, atravessando várias fases e mudanças na linha editorial.

Os pesquisadores no Maranhão têm um campo fértil para o trabalho de campo, e teórico, sobre o rádio. Daria para fazer um frondoso roçado. Falo especialmente do rádio AM, a nossa lavoura arcaica do mundo sonoro, pouco atrativa para os nativos digitais.

Como todas as AMs, a Difusora 680 Khz, codinome “a poderosa”, teve um papel importante na conexão entre os ouvintes de São Luís e dos municípios do continente, conectando os familiares dispersos na migração em busca de melhores condições de vida no fluxo de pessoas do interior para a capital. Programas como “Correio do Interior” e tantos outros sustentam este argumento.

A Difusora AM também notabilizou-se no cenário radiofônico maranhense em 1971, quando veiculou uma adaptação do programa “A guerra dos mundos”, de Orson Welles, originalmente veiculado nos Estados Unidos, em 1938, na CBS (Columbia Broadcasting System).

A transmissão local foi ao ar por dois motivos principais: o aniversário da Difusora AM e um teste informal para mensurar a força do rádio em São Luís, no início da década de 1970, quando a televisão começava a tomar a audiência do meio radiofônico em São Luís.

Entre 1997 e 2011, “a poderosa” foi arrendada e passou a transmitir a programação religiosa da Rede Aleluia, recolhendo neste período todos os formatos jornalísticos que sempre deram a tônica na grade, bem como a participação da audiência.

No futuro próximo os receptores de rádio virão sem a opção de AM

Passado tanto tempo, as AMs ainda cumprem papel fundamental na geopolítica do Maranhão, especialmente na programação jornalística, com a marca indelével dos ouvintes ativos. Esta recepção barulhenta, falante, crítica ou áulica, é parte importante na produção das emissoras.

O perfil da Nova FM 93.1 Mhz ainda é uma incógnita. O jornalismo, marca forte no rádio AM, vai “migrar” para o FM?? É uma pergunta de pesquisa. Por falar nisso, já está circulando o livro resultante do trabalho coletivo do Grupo de Pesquisa em Rádio e Mídia Sonora da Intercom. Com o título “Migração do rádio AM para o FM: avaliação de impacto e desafios frente à convergência tecnológica” (Editora Insular), a obra é coordenada pelas professoras Nair Prata (UFOP) e Nélia Del Bianco (UnB/UFG).

Toda mudança vem carregada de impacto. Muita gente lamenta a morte do AM, com saudosismo, tristeza e repúdio. O rádio, como tantos dispositivos tecnológicos, é sempre refeito e ultrapassado pelas novidades. Diversas vezes já decretaram a sua morte, mas ele resiste e se adapta aos ambientes de convergência cultural.

Na web, o rádio se reinventa com a mesma habilidade que saiu da condição de “vitrolão” nos momentos de crise, logo após a popularização da televisão.

Defensores da migração argumentam que essa mudança vai melhorar a qualidade do som (morre o chiado), abrirá mercado e competitividade no FM e tornará o rádio mais dinâmico, moderno e atraente.

Por outro lado, a migração vai deixar um vazio na audiência em lugares distantes, onde a FM não alcança (veja aqui).

Lugares distantes como a ilha de Lençóis, em Cururupu, só sintonizam emissoras AM do Maranhão e Pará

A migração é tudo ao mesmo instante porque o radio é um meio mutante, o próprio sentido da fênix, renascendo das suas matrizes culturais metamorfoseadas nos formatos industriais, como diria Martín-Barbero.

Este artigo não pode acabar sem tocar no assunto central: comunicação é poder! A rádio Difusora AM fazia parte do Sistema Difusora de Comunicação (SDC), formado também pela TV Difusora, rádio Difusora FM, portal idifusora.com, além de outros meios eletrônicos em diversas cidades maranhenses sob o domínio do senador e candidato à reeleição (2018) Edison Lobão (MDB), ex-ministro das Minas e Energia no governo Dilma Roussef (2011-1014) e ex-governador do Maranhão (1991-1994).

O SDC sempre funcionou como linha auxiliar do maior império midiático do Maranhão, o Sistema Mirante de Comunicação, controlado pela família do ex-presidente José Sarney.

Lobão & Sarney usaram as suas máquinas de jornalismo e propaganda como peças estratégicas no processo de construção hegemônica no Maranhão.

Após a vitória do governador Flávio Dino (PCdoB), derrotando Roseana Sarney (MDB) em 2014, o jornalismo da TV Difusora e da rádio Difusora FM mudaram suas linhas editoriais, aproximando-se das teses do Palácio dos Leões. A adesão seria fruto de um arrendamento pilotado pelo deputado federal e candidato a senador Weverton Rocha (PDT), aliado de Flávio Dino.

A Difusora AM ficou de fora do arrendamento e manteve uma linha editorial crítica ao governo, causando um estranhamento à audiência desavisada sobre a mobilidade da política no Maranhão, qual seja: no mesmo grupo de comunicação havia uma guerra declarada ao Palácio dos Leões na AM (em todos os programas jornalísticos). O mesmo não acontece na TV e na FM, onde o governo é bem tratado.

Outro dia, dando aula para estudantes da UFMA, refletia sobre o controle político nos meios de comunicação. O coronelismo eletrônico é tão violento no Brasil, em especial no Maranhão, que às vezes o público lê, assiste e ouve muitas narrativas em diversas plataformas jornalísticas, mas poucas se aproximam da verdade.

A Difusora AM está muda. No seu lugar surge a Nova FM, que soma outra emissora ao mesmo grupo político já detentor da Difusora FM.

A migração tem essas nuances. Serve também para concentrar poder. E os ouvintes, tão falantes no AM, terão voz na FM?

É o que se espera. Afinal, rádio sem ouvintes falantes é monotonia.

Vias de Fato: Qual o contraponto a Sarney no Maranhão? (parte 1)

A classe política maranhense iniciou o mês de junho discutindo pesquisas pré-eleitorais. No Brasil, elas costumam ser utilizadas como mais um instrumento para tentar manipular a opinião pública. E custam muito dinheiro, tornando-se um dos primeiros sinais da desigualdade econômica entre candidatos. Porém; como não são proibidas; temos que considerá-las.

A julgar pelos números recentemente divulgados poderemos ter, este ano, mais uma eleição bastante disputada para o governo do Maranhão.

Nos últimos vinte anos, entre 1994 e 2014, foram realizadas seis eleições gerais no Brasil. Em quatro delas, a eleição de governador foi decidida no Maranhão por um percentual muito apertado de votos, em torno de 1 a 2%. Esse aperto ocorreu em 1994, 2002, 2006 e 2010.

Isso pode se repetir esse ano? Pode, sim. É uma possibilidade.

Hoje só existe o atual governador Flavio Dino (PC do B) colocado claramente na disputa. Já é certo que ele vai concorrer à reeleição. E Dino vem sendo apontado por aliados como favorito absoluto, num ambiente de quase “já ganhou”. Mas ainda pairam várias dúvidas sobre quem serão seus adversários…

A possibilidade de um acirramento passa inicialmente pelas possíveis candidaturas do ex-candidato a prefeito de São Luís Eduardo Braide (PMN) e da ex-governadora Roseana (MDB). Eduardo Braide tem um potencial de crescimento eleitoral reconhecido por “gregos” e “troianos”, enquanto o que restou do grupo Sarney conhece muito bem o tabuleiro. Com essas outras duas candidaturas na disputa, a tendência é de um jogo acirrado. Essa análise tem sido senso comum.

Existe uma situação, no entanto, que já tomou conta da pré-campanha. A presença do nome do ex-senador José Sarney em vários discursos, dentro e fora do Maranhão. Esse é um fato que chama a atenção.

E o que representa José Sarney em 2018?

Aos 88 anos, sem mandato e correligionário de um presidente que está “nocauteado em pé”, ele não é exatamente alguém com um futuro político promissor. Muitos dos antigos servos se afastaram. Gastão Vieira, por exemplo, já é quase “mais um revolucionário” e Pedro Fernandes (PTB), o pai de Pedro Lucas, esnobou um cargo de Ministro de Estado. O que mudou? O que permanece exatamente igual?

O nome de Sarney aparece por conta da possível candidatura de Roseana ao governo. Mas isso, por si só, é justificativa para tanto falatório em torno dele? Vamos pensar juntos!

Há quem interessa hoje ter a figura do “Homem do Convento” no centro do debate? Esta eleição será plebiscitária? Um plebiscito em torno de Sarney faz algum sentido em 2018? Sim? Por quê? Em que termos? Uma candidatura de Roseana, hoje, nos remeteria a uma conjuntura parecida com a das décadas de 1990 e 2000? Quantos prefeitos apoiam Roseana, hoje? Quantos deputados? Empresários? Onde estão vários de seus ex-secretários? E por que o antes gigantesco grupo Sarney encolheu? Por que tantos que antes viviam caladinhos agora detonam com um Sarney ancião? Por que setores da imprensa nacional resolveram entrar nesse tema? Esse povo do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília descobriu que o Maranhão existe? Por quê? Onde está o interesse público nesse atual falatório? Vamos localizá-lo! Como se qualifica esse debate?

Nosso papel aqui é fazer essa provocação, com a autonomia e legitimidade de quem sempre fez e continuará fazendo oposição à estrutura oligárquica maranhense.

Ao longo de décadas, nesse mesmo Maranhão, normalmente não existe um debate entre os que efetivamente disputam o poder central. A verdadeira crítica não costuma ser praticada e quando é feita não é bem recebida, imperando a cultura do medo, vivida num ambiente historicamente autoritário. A sociedade – incluindo muitos “formadores de opinião” – depende muito do poder público, da dita “classe política”. E quando se aproximam as eleições, o debate segue ausente, sendo substituído por agressões entre governistas e dissidentes. Nesse processo a baixaria costuma ser regra, tornando-se crescente na medida em que se aproxima o dia da eleição. E o que deveria ser conteúdo político e informação é substituído por violência, mentira, calúnia e, mais recentemente, por um marketing eleitoral despolitizado, do tipo “propaganda de sabonete”.

E aí? No meio disso tudo, qual o contraponto a Sarney?

Sem dúvida, o ex-senador representou e ainda representa o que tem de pior na política. Mas hoje; já beirando os 90 anos e aposentado dos mandatos há quatros anos; como devemos tratá-lo?

Nós consideramos que o Coronel das Mercês precisa ser debatido a partir de seus métodos, ideias e práticas. Precisamos avaliar uma cultura política. Uma estrutura de poder.

No Maranhão existem vários (vários!) vereadores, deputados, prefeitos, juízes, desembargadores, senadores e governadores que seguem e praticam as mesmas ideias e métodos de Sarney. Olhem com atenção! O que muda é o alcance do poder de cada um.

Consideramos que essa é a avaliação e o debate a serem feitos, incluindo obviamente o mandato do atual governo Flávio Dino, eleito com um discurso baseado na palavra “mudança”.

Esse é o ponto central do debate na campanha eleitoral e pra depois dela. É saber qual agenda anti oligárquica. E se essa agenda está ou não está em curso no Maranhão. E quais são (ou seriam) os reflexos dela nas áreas social, política, cultural, econômica e ambiental.

O contraponto a oligarquia passa por esse debate.

Sarney já fez muito mal ao Maranhão, mas hoje, depois de tudo de ruim, seu nome não pode servir como uma cortina de fumaça para esconder a discussão em torno das verdadeiras questões que interessam o presente e o futuro do Estado.

Fonte: Jornal Vias de Fato