Padre com três mandatos de prefeito vai governar Alcântara, cidade espacial no Maranhão

Ed Wilson Araújo, jornalista e professor da UFMA

(parte dessa reportagem foi publicada no Uol)

Aos 78 anos de idade, o padre William Guimarães da Silva conquistou um feito inédito na historiografia política do Maranhão – ganhou a quarta eleição para prefeito, em três cidades diferentes. Teve dois mandatos no município de Guimarães e um em Santa Helena. Em 2020 ganhou a disputa em Alcântara, vencendo o atual prefeito Anderson Wilker (PCdoB), candidato à reeleição.

(A imagem aérea destacada foi capturada nesse site)

Existem dois tipos de foguetes em Alcântara: os espaciais e rojões de artifício. Estes começaram a troar no final da manhã de sexta-feira (18), quando o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) analisava o recurso do prefeito William Guimaraes da Silva (PL), eleito com 7.874 votos (60,29%). O julgamento na Corte Eleitoral era aguardado com expectativa do outro lado da baía de São Marcos, onde transitam os barcos que fazem a travessia São Luís – Alcântara. Ato contínuo à decisão do TRE, no sol a pino de meio dia, quando a terceira cidade mais antiga do Maranhão, fundada em 1648, silenciava para a sesta, o foguetório comemorava a diplomação.

Padre Wiliam agradece a Deus pela diplomação

Aos 78 anos de idade, o presbítero é um caso raro na política. Ele foi prefeito em mais duas cidades maranhenses: teve um mandato em Santa Helena (1989-1992) e dois seguidos em Guimarães (2005-2012).

Em setembro de 2020, quando registrou a candidatura em Alcântara, foi impugnado pela coligação adversária. A denúncia, acatada pelo Ministério Público Eleitoral (MPE), configurava o impedimento por improbidade administrativa. “No caso dos autos, o impugnado, no exercício do mandato de Prefeito Municipal de Guimarães/MA, teve suas contas – relativas a verbas do Convênio n.º 419/2007 (Siafi 611045), firmado em 31/12/2007 com o referido Município, advindas da FUNASA – julgadas irregulares pelo Tribunal de Contas da União, em decisão definitiva, com trânsito em julgado no dia 24 de julho de 2020”, asseverou o MPE. A verba de R$ 130.790,00 (cento e trinta mil, setecentos e noventa reais) deveria ter sido aplicada na realização de um evento cultural na cidade.

A impugnação foi contestada e ele disputou a eleição, após decisão favorável do juiz titular da 52ª Zona de Alcântara, Rodrigo Otávio Terças Santos.

Vitorioso nas urnas, o padre foi obstruído em uma decisão TRE-MA. Por 6 votos a 0, os desembargadores declararam a candidatura indeferida, mas o mesmo tribunal reverteu a decisão uma semana depois, assegurando o deferimento, motivo do foguetório em Alcântara.

Nas duas cidades onde foi pároco e gestor, William Silva teve fama de pragmático, sempre aberto ao diálogo com distintas agremiações políticas. “Não sou propagandista das correntes partidárias. Eu recorro a quem pode me ajudar, tanto que eu não fico preso a um deputado estadual ou federal. Eu fico mais como amigo daquele agente político. Hoje, por exemplo, eu posso falar com o governador Flávio Dino (PCdoB) sem problemas”, traduziu.

Sua vitória eleitoral em Alcântara reuniu correligionários de vários naipes na coligação “Rumo a novas conquistas”: PL, PROS, Avante e o PT. O vice, Nivaldo Araújo, chegou a disputar a prefeitura em 2016 pelo PSOL, mas mudou para o PROS. Entre os apoiadores constam o ex-prefeito Domingos Arakem (PT) e o deputado federal Josimar de Maranhãozinho (PL), alvo de uma operação da Polícia Federal que investiga o desvio de emendas parlamentares. “Nós somos correligionários. Eu sou filiado há seis anos no Partido Liberal. Ele [Josimar de Maranhãozinho] veio aqui no dia da convenção, fez um discurso, o povo acreditou no que ele falou e vem desde 2013 acreditando nas minhas palavras e me deu 60% de aprovação”, justificou.

Herança e quilombolas

Na troca de comando em Alcântara o religioso católico vai receber a faixa de prefeito do comunista Anderson Wilker, candidato à reeleição com 4.372 votos (33,48%). Quando tomar posse em 1º de janeiro de 2021 o padre terá problemas de toda ordem. Alcântara não tem matadouro público, rodoviária nem aeroporto. O hospital passou por obras recentemente e foi entregue sem condições ideais de funcionamento. Faltam médicos especializados, sala de cirurgia adequada, maternidade e leito de UTI.

Pelos dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES) do Governo do Maranhão, Alcântara teve 202 casos confirmados de covid19 e oito óbitos computados até 28 de dezembro de 2020.

Segundo William Silva, a cidade tem seis ambulâncias para transportar os doentes às cidades mais próximas. Além disso, o abastecimento de água potável, as condições precárias das estradas rurais, o transporte marítimo para São Luís, a iluminação e limpeza públicas, os equipamentos de segurança, a infraestrutura para o turismo e a Previdência Municipal são listados pelo prefeito diplomado como prioridades nos 100 primeiros dias de gestão.

Centro Espacial de Alcântara, no Maranhão
Imagem: AEB/Divulgação

Como se não bastassem as tarefas enumeradas, ele terá de administrar uma eventual segunda onda de remoção dos quilombolas, arrolados no Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST) assinado entre o Brasil e os Estados Unidos, que prevê a expansão do complexo espacial em novas áreas do Território Quilombola de Alcântara. Em março de 2020, a Resolução nº 11, assinada pelo ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, general Augusto Heleno, ordenava a retirada de moradores da nova área pretendida pelo Comitê de Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro (CDPEB). A execução das mudanças não chegou a ser cumprida devido à reação de várias entidades de direitos humanos e parlamentares, que argumentaram, entre outros aspectos, o impacto da remoção sobre aproximadamente 300 famílias no início da pandemia covid19.

Praia no quilombo Mamuna é uma das áreas pretendidas
pela expansão da Base Espacial. Foto: Adilson Zavarize

“Estamos buscando entendimento com a Base Espacial para que não aconteça o que ocorreu há 35 anos. Na época prometeram uma remoção digna e até hoje nada vezes nada. Quanto aos que ainda permanecem nos povoados não remanejados nós queremos evitar o mínimo de choque e aplicar as condições dignas, porque ninguém vai ser remanejado à toa. Nós queremos a garantia de que a remoção aconteça em condições humanas e de desenvolvimento”, advertiu o futuro prefeito.

Expectativas, gerações e mulheres

Se na zona rural a vida é dura, na sede do município a pobreza salta aos olhos. Helena Cristina Martins, 41 anos, tem três filhos. Ela e o marido estão desempregados. “O município em geral está precisando de tudo, principalmente na saúde. Foi inaugurado o hospital, mas falta ainda muita coisa, entendeu? Eu gostaria que fosse feito um concurso público para ter oportunidade, mesmo que seja para gari. O que importa é ter um trabalho em meio a essa pandemia”, pontuou.

O orçamento geral do município em 2020 operou com receita de R$ 72.347.365,00 (Setenta e dois milhões, trezentos e quarenta e sete mil, trezentos e sessenta e cinco reais). De acordo com o Plano Plurianual (2018-2021), principal instrumento de planejamento governamental, a previsão de receita do Tesouro Municipal para o exercício financeiro de 2021 é de R$ 73.613.444,00 (Setenta e três milhões, seiscentos e treze mil, quatrocentos e quarenta e quatro reais).

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) estima a população de 2020 em 22.112 habitantes, distribuídos entre a sede e 204 povoados, dos quais cerca de 60 são comunidades quilombolas. Apenas 6,5% dos domicílios têm esgotamento sanitário adequado e a taxa de mortalidade infantil média na cidade é de 4.37 para 1.000 nascidos vivos.

Vinícius compara Alcântara a Ouro Preto
Foto: Ed Wilson Araújo

Enraizado em família tradicional de Alcântara, o cozinheiro Vinícius Menezes Maciel, 31 anos, vê no turismo o principal ativo da economia local. “Aqui tem o potencial de Olinda e Ouro Preto, só que a cidade está largada às traças”, resumiu. Apesar do pessimismo com as gestões anteriores, ele tem esperança na experiência administrativa do padre prefeito.

Proprietária de um pequeno restaurante na famosa “Ladeira do Jacaré”, um dos acessos ao porto principal de Alcântara, Maria do Rosário Pereira Vieira sonha com a cidade “limpa, bonita e bem organizada”, além de mais qualificação dos guias de turismo. A saúde também foi mencionada entre as suas preocupações. “Espero que mantenham o hospital inaugurado agora bem de médicos, enfermeiros, remédios e limpeza, porque isso é muito importante”, enfatizou.

Pescador e operário da construção civil, Kleber Ribeiro, 41 anos, trabalha atualmente como taxista. “Espero que o prefeito faça um bom mandato na saúde. A gente vai no hospital e não tem nada. Está construído, mas o telhado está horrível e o serviço foi mal feito”, apontou.

Maria Vieira quer a cidade limpa
Foto: Ed Wilson Araújo

Uma novidade nos próximos quatro anos é a representação feminina no parlamento de Alcântara. Das 11 cadeiras na Câmara Municipal, duas serão ocupadas por mulheres. Na legislatura anterior (2016-2020) todas as vagas foram preenchidas por homens. A vereadora eleita Maria do Nascimento França Pinho (“Menca” Pinho), 42 anos, obteve 337 votos (2,58%). Ela é originária do povoado Peru Velho e pautou a campanha no protagonismo feminino, inspirada na deputada federal Tabata Amaral (PDT). Pedagoga e estudante de Serviço Social, foca ainda na educação e computa na carreira sua experiência de gestora titular na Secretaria Municipal de Assistência Social de 2017 a abril de 2020.

Fé e política

William Silva nasceu em 21 de fevereiro de 1942, no povoado Santa Rita de Cardoso, em Guimarães, cidade onde viria a ser prefeito de 2005 a 2012. A sua relação com Alcântara remonta a 1962, quando aterrissou na cidade para ser professor, a convite de missionários canadenses. Naquela época ele já estudava em colégio católico e entrou para o seminário, obtendo a ordenação em 5 de janeiro de 1973.

Depois das passagens por Santa Helena e Guimarães, voltou ao pastoreio em terras alcantarenses, percorrendo a zona rural no trabalho das Santas Missões Populares e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Na sua formação em seminários de Fortaleza, Recife, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Roma, recebeu influência da Teologia da Libertação e chegou a ter palestras sobre espiritualidade com figuras emblemáticas da Igreja progressista, como Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Agnelo Rossi, além da convivência com os frades dominicanos.

A eleição de 2020 foi marcada também por um encontro de gerações. O vereador eleito Robson Corvelo, 39 anos, quando criança foi coroinha na igreja administrada pelo então pároco William Silva. Corelo obteve 353 votos (2,67%) e disputou na coligação de Anderson Wilker, atual prefeito derrotado na tentativa de reeleição. “Apesar das diferenças políticas, não me taxo como oposição ao padre William e vou atuar na Câmara dos Vereadores ao lado do povo”, esclareceu.

Padre exibe o diploma de prefeito com a oração
do Pai Nosso acima. Foto: Ed Wilson Araújo

As sucessivas vitórias eleitorais do padre somam fé e política. “Primeiro vem Deus. Eu faço meu trabalho de evangelização. Sou um catequista, buscando a libertação das pessoas”, detalhou, explicando que durante o mandato de prefeito não pode exercer cargos administrativos na Igreja, de acordo com o Código de Direito Canônico.

A Teologia da Libertação é fruto do Concílio Vaticano II (1962-1965), uma tendência de renovação teológico-eclesial da Igreja latino-americana, baseada na opção pelos pobres e fortalecimento dos laços entre fé e política nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que mobilizava os religiosos para o trabalho pastoral no meio popular.

Para o arcebispo de São Luís, Dom José Belisário da Silva, esta perspectiva contrastava outra orientação da Igreja, o Concílio de Trento (1545 a 1563), esteio do catolicismo tridentino, fundamentado na disciplina, rigor acadêmico, ortodoxia religiosa, celibato e obediência à hierarquia. A opção pelos pobres caracterizava uma “rebelião contra a disciplina tridentista” e via no papel do padre um militante social junto do povo, explica o escritor Kenneth Serbin, na obra “Padres, celibato e conflito social: uma História da Igreja católica no Brasil”

Embora a Teologia da Libertação tenha sido uma das inspirações na sua formação eclesial, o padre William Silva é pragmático nas campanhas eleitorais e nos mandatos. Na entrevista concedida para esta reportagem, o foguetório e o telefone não paravam de tocar, festejando os afagos de eleitores e políticos. Ao longo da sua carreira orgulha-se do trânsito junto a várias personagens influentes do Maranhão, sem discriminação. “Eu não me ative a programa de partido nem ideologias. O que primava em mim era o apoio à coletividade, através das emendas”, ressaltou.

Beirando os 80 anos, o futuro prefeito vai encarar a cidade com um passivo administrativo herdado de vários gestores, há décadas. Nesse lugar de tecnologia aeroespacial, o único hospital do município não tem UTI em plena pandemia covid19.

Ladeira do Jacaré, principal via de acesso ao
porto de Alcântara. Foto: Ed Wilson Araújo

Mas Alcântara, apesar de tudo, tem seus encantos. É uma cidade cênica a céu aberto. Tem o charme da arquitetura colonial, ruínas de igrejas e palácios projetados para receber o imperador (Dom Pedro II) em uma visita prevista para 1870 que nunca aconteceu. É agitada nos tradicionais festejos do Divino Espírito Santo e São Benedito, pacata no visual dos sobradões, ruas e calçadas de pedra, praias exóticas, comunidades quilombolas com variados atrativos culturais e amplo potencial turístico.

Antiga vila de Tapuitapera, de ruas semidesertas, onde a vida corre lentamente, a velha cidade fundada em 1648 completou 372 anos em 22 de dezembro. Vista em panorâmica, a paisagem tem tons de ubiquidade. Passado e futuro estão no mesmo lugar. Foguetes rápidos no céu contrastam o toque lento dos sinos das igrejas na terra.

Votação dos candidatos à Prefeitura

William Guimaraes da Silva (PL) – 7.874 votos – 60,29%

Anderson Wilker de Abreu Araújo (PCdoB) – 4.372 votos – 33,48%

João Francisco Leitão (PODE) – 715 votos – 5,47%

Antonio Rosa Cruz Pereira (PSL) – 99 votos – 0,76%

Vereadores eleitos em Alcântara

Valdemir Souza Pereira (PL) – 624 votos – 4,72%

Lazaro Vivino Amorim (PDT) – 604 votos – 4,57%

Claudielson Basson Guterres (Avante) – 452 votos – 3,42%

Dyna Nathalia Silva Barbosa (PDT) – 430 votos – 3,25%

Miecio Moraes Macedo (PL) – 380 votos – 2,87%

Nilson dos Santos Pereira (PL) – 366 votos – 2,77%

Robson Mendes Corvelo (PP) – 353 votos – 2,67%

Jose Mario de Jesus Barbosa (PCdoB) – 341 votos – 2,58%

Maria do Nascimento França Pinho (PP) – 337 votos – 2,55%

Joedes Luiz Melo Dias (PROS) – 298 votos – 2,25%

Marivaldo Barbosa Soares Campos (PROS) – 266 votos – 2,01%

Votos em branco: 177 (1,29%)

Nulos: 435 (3,18%)

Abstenção: 4.050 (22,85%)

Milagre! Caiu uma chuva de dinheiro e brotaram lixeiras em São Luís

Neste domingo, quando os moradores da capital maranhense saírem de casa para votar, eles vão passar ao longo dos seus percursos por milhares de lixeiras novas fincadas nos postes de todos os bairros.

De repente, no final da gestão do prefeito Edivaldo Holanda Junior (PDT), parece ter caído uma chuva de dinheiro e, milagrosamente, essas cédulas, semelhantes aos santinhos dos candidatos, espalhadas pelo chão, brotaram como trepadeiras nos postes.

O dinheiro é tão fértil que as lixeiras cresceram até mesmo em lugares demasiado impróprios: no meio do lixo, nos esgotos, nos matagais, nas sarjetas, nas calçadas mal feitas, nas beiradas dos terrenos baldios etc.

Às vezes dá a impressão de que o dinheiro público, transformado em lixeiras, escorre feito o chorume da política mal feita.

Nunca antes na História se viu algo tão espetacular como o milagre da multiplicação das lixeiras, que vai entrar para os registros como a marca principal da gestão de oito anos do prefeito, completando um ciclo de mais de três décadas do PDT no comando de São Luís.

Como não há uma política de transparência sobre o uso do dinheiro público, ninguém sabe quem ganhou a licitação e menos ainda se tem conhecimento sobre o valor gasto nessa compra gigantesca.

Alguém precisava vender e a Prefeitura de São Luís comprou as lixeiras aos milhares.

E ninguém foi consultado sobre essa prioridade. Como é de costume, a gestão da cidade é tocada à revelia do interesse público, uma das formas de corrupção do conceito de política.

Só sabemos que o dinheiro do cidadão ludovicense foi convertido em milhares de latas do lixo.

Na eleição para decidir o futuro prefeito da cidade, os candidatos deveriam assumir o compromisso de fazer uma auditoria nas contas públicas sobre a aquisição das lixeiras.

Afinal, temos o direito de saber quem vendeu e o valor da compra.

Durante os debates os prefeituráveis Eduardo Braide (Podemos) e Duarte Junior (Republicanos) falam exageradamente em sujeira, como se a política fosse uma espécie de escória da vida pública e privada.

Já que estão atolados em acusações mútuas sobre práticas imundas, o ideal é mergulharem de vez no monturo e tornar pública a licitação das lixeiras.

Seria uma oportunidade para ambos limparem as suas imagens de políticos sujos, atribuídas por eles próprios ao longo de toda a campanha eleitoral.

Eu, cidadão, #estou pronto para saber quanto dinheiro foi gasto nas lixeiras. E aí, # bora resolver essa incógnita?

A construção dos discursos de Eduardo Braide e Duarte Junior na propaganda eleitoral da TV

Eduardo Braide elabora o conceito de político equilibrado, maduro, confiante, supostamente mais preparado para administrar a cidade, atribuindo serenidade à sua pessoa. Duarte Junior carrega os hormônios da juventude, corre nas caminhadas de rua, ergue o braço musculoso para demonstrar força, agilidade e eficácia como gestor resolutivo

Os fatos novos na campanha para a Prefeitura de São Luís trouxeram à tona ataques e contrataques entre Duarte Junior (Republicanos) e Eduardo Braide (Podemos) na propaganda eleitoral no rádio e na TV.

Bater e apanhar faz parte do jogo. Depois, as forças políticas se reacomodam, vêm os pedidos de desculpas e tudo fica normal.

Mas, agora, o momento é da disputa sem trégua e os efeitos da batalha mais acirrada podem inclusive levar o eleitor a mudar o voto.

Duarte Junior partiu para a ofensiva tentando desconstruir a gestão de Eduardo Braide na Caema (Companhia de Saneamento Ambiental do Maranhão) e insiste na tese de que o candidato do Podemos é investigado por corrupção.

A reação do adversário veio em tom forte, expondo áudios e personagens que depõem contra a conduta até então sem ranhuras graves sobre a vida e os atos do gestor Duarte Junior, acusado de proferir expressões misóginas e homofóbicas, além de bater em pessoa idosa.

Na propaganda eletrônica Eduardo Braide vinha mantendo a postura convencional de qualquer líder nas pesquisas – apresentar propostas e não polemizar.

O republicano, por sua vez, partiu para a ofensiva.

Em síntese, os últimos dias do segundo turno ganham os contornos típicos de uma novela, com três ingredientes fundamentais: dinheiro, poder, intrigas e traições.

A trama entre os oponentes apresenta os seguintes perfis:

19 Eduardo Braide constrói um conceito de político equilibrado, maduro, supostamente mais preparado para administrar a cidade. Ele visa formatar a imagem de serenidade, postulado da confiança no público, tentando, com isso, estabelecer vôo próprio e amenizar o fato de ser filho de um político tradicional, o ex-presidente da Assembleia Legislativa (Carlos Braide), patrono da herança eleitoral da família. O bordão “Eu sou Braide. Estou pronto” traduz isso.

10 Duarte Junior demonstra carregar os hormônios da juventude. É afoito, corre nas caminhadas de rua, sacode o braço musculoso para demonstrar força e eficácia como gestor do Procon e do Viva Cidadão. Busca ainda estabelecer diferença em relação ao filhotismo político do seu antagonista e produz a narrativa de que venceu na vida com esforço e trabalho próprios. Assim, ele sistematiza dois bordões: “Filho do povo, igual a você” e “Bora resolver”

As imagens de estúdio e da campanha de rua, importadas para as telas da televisão e dos dispositivos móveis, reforçam os conceitos dos candidatos junto ao eleitorado para obter reconhecimento, afinidade e construir laços de racionalidade e/ou afetivos na hora de votar.

Na novela, onde amor e ódio pulsam com vigor, pode ser que Duarte Junior leve vantagem. Ele é um ator mais preparado, sabe incorporar o drama que vai motivar o eleitor. Eduardo Braide, por sua vez, foca mais no aspecto racional.

Eleição é paixão e a campanha na reta final está inundada por um turbilhão de mensagens publicitárias, informações e desinformações, numa avalanche de conteúdo que confunde cada vez mais a maioria do eleitorado não militante na política partidária.

Eis a síntese. Os sucessivos ataques de ambos os lados estão provocando uma certa margem de dúvida no eleitorado. E só o debate cara a cara na TV vai proporcionar um nível de esclarecimento suficiente para o público tomar a decisão final.

PT de São Luís vai rachado ao 2º turno: maioria apoia Duarte Junior e a CNB segue Eduardo Braide

A velha disputa interna do PT no Maranhão ganha mais um capítulo na eleição para a Prefeitura de São Luís em 2020.

Durante o 1º turno a maioria do partido marchou unificada com o candidato a vice-prefeito e vereador Honorato Fernandes na chapa liderada por Rubens Junior (PCdoB), integrando o campo político-eleitoral do governador Flávio Dino (PCdoB).

No segundo turno o PT oficialmente declarou apoio a Duarte Junior (Republicanos), seguindo o comando do Palácio dos Leões, mas uma tendência do partido – a CNB (Construindo um Novo Brasil), liderada pelo deputado estadual José Inácio – abriu uma dissidência e está no palanque de Eduardo Braide (Podemos), apontado como bolsonarista.

Em uma nota pública (veja abaixo), a CNB justifica o apoio ao bolsonarista; porém, no mesmo texto, aponta fidelidade ao governador Flávio Dino na eleição de 2022.

CNB assume Braide, mas promete fidelidade a Flávio Dino em 2022

“Cumpre destacar, desde já, o compromisso da CNB – Maranhão com o Governador do Estado, e o projeto que ele representa para a esquerda brasileira, motivo pelo qual ressaltamos o nosso total apoio ao futuro candidato de Flávio Dino ao Governo do Maranhão, por entender que é preciso dar continuidade ao ciclo de avanços e conquistas que transformaram a vida do povo maranhense e garantiram mais dignidade aos mais pobres através do Governo Dino.”, pregou a CNB.

Outra nota (veja aqui), da Executiva Municipal do PT de São Luís, rechaça qualquer tipo de aproximação com Eduardo Braide e firma compromisso com Duarte Junior (Republicanos), candidato do governador Flávio Dino.

“Em reunião da Executiva Municipal, realizada na última terça-feira (17), foi definido por 13 votos favoráveis e uma abstenção, o apoio do PT ao candidato Duarte Jr. no 2° turno. A questão foi debatida e a decisão tomada. O PT neste segundo está com Duarte Jr.”, reiterou a direção local petista.

Entre textos e posições distintas, o PT só elegeu um prefeito nos 217 municípios do Maranhão, em Coroatá; e a candidatura coletiva NÓS para uma das 31 vagas da Câmara dos Vereadores de São Luís.

No passado, o braço local da CNB levou a má fama de “sarnopetista”, devido ao alinhamento à oligarquia liderada por José Sarney, que não se esgotou durante a participação do PT no governo Roseana Sarney.

Mergulhando nas águas profundas da política o sarnopetismo segue fazendo tabela com a ex-governadora e o seu pai-conselheiro. Agora, na disputa do segundo turno em São Luís, o MDB migrou para Eduardo Braide e a CNB foi junto.

Pode até parecer coincidência, mas não é.

Veja abaixo a nota da CNB na qual justifica o apoio a Eduardo Braide:

*RESOLUÇÃO DA CNB-MA SOBRE O SEGUNDO TURNO EM SÃO LUÍS*

O segundo turno das eleições de São Luís exige das forças do campo democrático e popular uma profunda reflexão acerca da conjuntura que se desenhou no pleito da capital.

Finalizado o primeiro turno em 15 de novembro, têm-se na disputa eleitoral do segundo turno dois candidatos que integram partidos da base aliada do governo federal: Eduardo Braide e Duarte Júnior.

Braide é do Podemos e Duarte é do Republicanos. Ambos os partidos não possuem alinhamento ideológico com o PT ou com o campo democrático-popular.

Ao analisar meticulosamente quem apoiar neste segundo turno, o PT e as demais forças de esquerda devem considerar que não se trata de uma opção meramente ideológica, posto que ambos os candidatos não possuem afinidade política com o campo democrático-popular.

O candidato Duarte Júnior, que abandonou as fileiras do PCdoB para se filiar ao partido dos filhos de Bolsonaro (Republicanos), já fez declaração pública – como se fosse motivo de orgulho – de que integra o partido da base aliada de Jair Bolsonaro, usando tal discurso como meio de conquistar apoio político e votos. Outrossim, o candidato Duarte desferiu recentemente ataques ao então candidato do PCdoB à prefeitura, Rubens, e à militância do partido, fazendo insinuações pejorativas e referendando uma posição antipartidária de negação da política.

É importante destacar também que o candidato Eduardo Braide tem adotado uma posição independente na Câmara dos Deputados, tendo votado contrariamente à orientação do governo Bolsonaro em temas importantes como a Reforma da Previdência, o Novo Marco Legal do Saneamento Básico, MP da flexibilização das regras trabalhistas durante a pandemia e o Novo FUNDEB, matérias em que Eduardo Braide se posicionou da mesma forma que a bancada do PT.

A análise sobre o segundo turno deve ser político-eleitoral, com o fito de buscar concretizar um modelo de gestão que seja capaz de desenvolver São Luís e garantir melhorias para a nossa população, sobretudo a mais pobre.

No que se refere à política de alianças, o Podemos em Recife já declarou apoio à candidata Marília Arraes, do PT, no segundo turno, o que reforça a tese de que esse novo momento eleitoral reúne forças e projetos opostos em torno de uma causa maior, que é o desenvolvimento e o bem-estar das cidades e do seu povo.

É legítimo que o PT, seus militantes e lideranças, ou qualquer partido progressista, façam a opção política de apoiar qualquer dos candidatos a prefeito de São Luís, visto que não se trata de uma disputa com a presença de figuras que representam o campo popular e democrático que a esquerda integra.

Cumpre destacar, desde já, o compromisso da CNB – Maranhão com o Governador do Estado, e o projeto que ele representa para a esquerda brasileira, motivo pelo qual ressaltamos o nosso total apoio ao futuro candidato de Flávio Dino ao governo do Maranhão, por entender que é preciso dar continuidade ao ciclo de avanços e conquistas que transformaram a vida do povo maranhense e garantiram mais dignidade aos mais pobres através do Governo Dino.

Diante deste cenário, a CNB Maranhão DECIDE declarar apoio ao candidato Eduardo Braide (Podemos) neste segundo turno, por acreditar que ele é o mais preparado para gerir São Luís e garantir melhores condições de vida para a população, e, principalmente, por ter assumido o compromisso de efetivar políticas que dialogam diretamente com o modo petista de governar, tendo como princípios basilares a luta contra as desigualdades e a defesa da justiça social.

São Luís, 20 de novembro de 2020.
CNB – Maranhão
Coordenação

Eduardo Braide declarou mais de R$ 1 milhão em bens e Duarte Junior R$ 646 mil

Candidato do Podemos tem apartamento na “Península” avaliado em R$ 628 mil. O republicano possui casa no valor de R$ 361 mil, no bairro Quintas do Calhau

Somado, o patrimônio dos candidatos que disputam a Prefeitura de São Luís em 2020 é de R$ 1 milhão, 713 mil, 620 reais e 62 centavos.

De acordo com os dados registrados na Justiça Eleitoral, o deputado federal Eduardo Braide (Podemos) declarou como bens no menor valor uma conta corrente com apenas R$ 74,37 (Setenta e quatro reais e trinta e sete centavos) e patrimônio máximo um apartamento de R$ 628.206,73 (Seiscentos e vinte e oito mil, duzentos e seis reais e setenta e três centavos), localizado na “Península”, metro quadrado mais caro de São Luís, no edifício José Gonçalves dos Santos Filho (imagem destacada).

Os bens totais somam R$ 1.067.620,62 (Um milhão, sessenta e sete mil, seiscentos e vinte reais e sessenta e dois centavos).

Veja aqui e também na imagem abaixo os bens declarados por Eduardo Braide

Filho de político – o pai Carlos Salim Braide foi presidente da Assembleia Legislativa do Maranhão – Eduardo Braide declarou ainda “quotas ou quinhões de capital” com o seu genitor e o irmão Fernando Salim Braide no valor de R$ 73.333,33 (Setenta e três mil, trezentos e trinta e três reais e trinta e três centavos).

Já Duarte Junior tem menos posses. Mas, apesar de usar no bordão publicitário de campanha um apelo à vida modesta – “filho do povo, igual a você” – o candidato apresentou uma declaração de bens com R$ 646.000,00 (Seiscentos e quarenta e seis mil reais).

O bem de menor valor é o saldo em conta corrente totalizando R$ 25.000,00 (Vinte e cinco mil reais) e no teto dos bens o candidato registrou uma casa situada na rua Lago Verde, valendo R$ 361.000,00 (Trezentos e sessenta e um mil reais), localizada no bairro Quintas do Calhau.

Veja aqui e na imagem abaixo os bens declarados por Duarte Junior

Vamos seguir acompanhando a evolução patrimonial dos dois candidatos. Ambos têm pretensões eleitorais futuras e é fundamental monitorar a movimentação dos bens de cada um.

Eleições 2020: São Luís é conservadora e provinciana

Ed Wilson Araújo

Nem Ilha Rebelde nem Atenas Brasileira. A capital do Maranhão vota em massa na direita. Está em curso uma renovação geracional tradicional protagonizada pelos “velhos atenienses” de rostos juvenis com as suas hastags #estoupronto e #boraresolver

As urnas abertas no primeiro turno da eleição para a Prefeitura de São Luís reafirmaram a preferência da população por dois filhos de políticos tradicionais e um outsider. Os três primeiros colocados – Eduardo Braide (Podemos / 37,81% dos votos), Duarte Junior (Republicanos / 22,15%) e Neto Evangelista (DEM / 16,24%) – com as suas respectivas coligações, representam a direita local em tons diferentes do bolsonarismo.

Somados, eles obtiveram 390.146 sufrágios do total de 553.499 votos válidos dia 15 de novembro.

São Luís, outrora denominada “Ilha Rebelde”, porque teria uma tendência de voto progressista, deu uma guinada radical ao conservadorismo – prolongamento da marca dos dois mandatos do atual prefeito, herdeiro de 30 anos do mesmo grupo político entranhado na gestão da cidade.

O resultado também questiona o mito da Atenas Brasileira, fruto de uma suposta superioridade letrada de São Luís, cultuada pelo saudosismo de uma badalada efervescência cultural da cidade no século XIX.

Em que pesem o mérito e as qualidades dos nossos escritores, motivo de orgulho, o mito da Atenas Brasileira não corresponde à realidade. A maioria expressiva da população maranhense sequer sabia ler nem escrever e o conjunto da população estava alheio à invenção ateniense tupiniquim.

Apenas os letrados e o seu entorno reconheciam a grandiosidade intelectual ludovicense. O mito da Atenas Brasileira é uma invenção criada para emoldurar o glamour dos filhos da elite escravocrata do Maranhão que estudavam na Europa e depois voltavam à província.

E a maioria dos iluminados egressos do novo mundo não se preocupava com as barbaridades da sua terra natal.

Civilização e barbárie

Naquela sofisticada efervescência cultural do século XIX, em 14 de novembro de 1876, São Luís foi o palco de quatro atos de desumanidade contra um menino negro de oito anos.

Primeiro: o garoto foi torturado e assassinado.

Segundo: houve um sepultamento às pressas do corpo mutilado.

Terceiro: apontada como autora, Dona Anna Rosa Viana Ribeiro, típica representante da aristocracia provinciana, foi absolvida por unanimidade.

Quarto: o promotor do caso, Celso Magalhães, que levou a júri a douta Anna Rosa Ribeiro, foi execrado da cidade.

O rumoroso episódio ficou conhecido como “O crime da baronesa”.

Cena de garimpo no Centro Histórico de São Luís

Muitas reprises de atos semelhantes marcam a cidade. Recentemente, um empresário espancou e torturou um homem negro morador de rua, amarrou a vítima em uma caminhonete apeado como um porco e arrastou pelas ruas do Centro Histórico de São Luís, até a morte.

Passado presente

A tradição de cultuar o passado, como a invenção da Atenas Brasileira, está reproduzida em grande escala na tradição política clientelista do Maranhão.

Com algumas boas exceções nos três poderes, os filhos dos políticos conservadores reproduzem os legados dos seus predecessores. Eduardo Braide e Neto Evangelista preenchem esse critério na eleição de 2020, mas os exemplos idênticos são muitos há tanto tempo.

Entre mortos e feridos nas eleições 2020 salvou-se, na Câmara Municipal, uma candidatura coletiva do PT, o NÓS, no total de 31 vereadores.

No mais, está em curso uma renovação geracional conservadora protagonizada pelos velhos atenienses de rostos juvenis com as suas hastags #estoupronto e #boraresolver

Imagem destacada / Eduardo Braide, do Podemos e Duarte Júnior, do Republicanos, vão disputar o 2º turno em São Luís (MA) — Foto: Arte / G1

“Máquina” eleitoral do PDT pode atropelar Duarte Junior

A última pesquisa do Ibope divulgada antes da eleição aponta Eduardo Braide (Podemos) em primeiro lugar com 37% e o indicativo de segundo turno disputado entre Duarte Junior (Republicanos) e Neto Evangelista (Democratas), ambos com 17%.

Abalado pelas informações de que teria contraído covid19 e seguia a campanha em contato com milhares de eleitores, Duarte Junior desidratou em parte seu eleitorado, além de ter ficado fora da campanha nos dias decisivos.

Neto Evangelista, por sua vez, tem a seu favor a gigantesca máquina eleitoral do PDT, legenda que domina a estrutura da Prefeitura de São Luís há 30 anos.

O PDT tem uma expertise em eleições e sabe como fazer para o voto chegar à urna.

A tendência, portanto, é de crescimento da candidatura de Neto Evangelista ainda nessa madrugada e no dia da eleição, quando a militância do PDT vai avançar sobre o eleitorado com toda a garra para ir ao segundo turno e, quem sabe, sonhar com mais tempo na administração de São Luís.

Genocídio cultural em São Luís

# cena 1: o VLT dorme em um cemitério no Aterro do Bacanga;

# cena 2: um fantasma brinca de malabares no Circo da Cidade;

# cena 3: caiu uma chuva de lixeiras na cidade;

# cena 4: o abrigo do Largo do Carmo virou pó;

# cena 5: uma onda gigante varreu as bancas de revista;

# cena 6: festival de música vira palanque gospel;

# cena 7: um homem arrasta e mata um morador de rua amarrado a uma caminhonete no Centro Histórico.

Cena de garimpo em São Luís

Vou dar zoom na # cena 3: repentinamente, nos lugares mais esquisitos, onde não tem calçada, só matagal e lama, a prefeitura plantou um pé de lixeira em cada poste.

Você sabe quanto foi gasto nesse arranjo? Tem ideia de como seu dinheiro foi aplicado? Houve licitação? Qual empresa ganhou?

De uma hora para outra algum gestor iluminado decidiu que teria de colocar lixeiras por toda parte e assim foi feito. Até nos lugares inadequados.

Chuva de lixeiras em São Luís

Há décadas as obras são tocadas sem qualquer mecanismo de consulta aos moradores, empreendedores e fruidores dos espaços públicos.

No geral, são ouvidas as empreiteiras, os lobistas e os negócios do entorno. O trânsito muda para atender o condomínio. O esgoto sem tratamento é jogado num rio qualquer. A zona rural é devastada para atrair grandes empreendimentos… e por aí vai…

O Plano Diretor, principal meio de planejamento da cidade, é ignorado pela maioria da população porque a prefeitura vem escondendo esse tema tão importante da agenda pública.

É muito estranho. Com tanto dinheiro torrado em propaganda para divulgar obras, quase nada é investido na divulgação das audiências públicas de revisão da legislação urbanística.

Vivemos em uma cidade sem participação e transparência, princípios fundamentais de uma administração democrática.

Um dos sintomas mais graves do genocídio cultural é a falta de diálogo sobre as decisões de interesse coletivo.

Os cidadãos foram consultados para saber se a melhor solução seria derrubar o abrigo do Largo do Carmo?

Quem decidiu plantar lixeira, questionou os moradores sobre calçada ou rampa?

Não existe conexão entre a gestão e os cidadãos. As intervenções urbanas são feitas sem qualquer mecanismo de participação da população. E sem transparência quanto à aplicação dos recursos públicos.

O atraso em São Luís é tamanho que reforma de praça, operação tapa-buracos, asfaltamento, capina do matagal e chuva de lixeira viram exemplo de gestão.

Em qualquer capital antenada com os princípios elementares da civilização, equipamentos como bancas de jornais e revistas são incorporados à dinâmica das cidades, inclusive adaptadas às inovações tecnológicas.

Aqui, bancas são exterminadas.

Perseguição às bancas de revista
é uma das marcas da cidade

Não adianta higienizar os espaços e inaugurar obras se a mentalidade provinciana permanece entranhada na administração da cidade.

Genocídio cultural não diz respeito apenas às ações específicas relacionadas à morte dos espaços e do fomento às diversas manifestações artísticas na cidade.

No fundo, o genocídio é uma forma de governança excludente, instituída nos moldes arcaicos, amparada numa levada obreira, como o milagre dos tapumes e puxadinhos em anos eleitorais.

Todo esse peso é suportado pelo alicerce duro do pragmatismo eleitoral. Aí quase tudo vira uma prática arcaica entre as elites principais.

O Plano Diretor, a grande política, o governo municipal esconde.

Apesar da boa aparência e gentileza do prefeito, São Luís parece administrada na vida real por alguém saído recentemente do estado de natureza, bicho bruto do agronegócio, tipo de gente que odeia jornal, banca de revista, atriz, gay, estética, leitura, encantamento, poeta, índio e arte em geral.

Desativado em 2012, o Circo da Cidade virou lenda

Além de requalificar as praças, a cidade precisa mudar é a mentalidade provinciana, racista e; às vezes, estúpida, como a ocupar irregularmente os espaços para estacionamento. Essas marcas do autoritarismo, herdeiras das sociedades escravocratas e clientelistas, ainda estão presentes no dia a dia da gestão tocada pelo quero, posso e mando…tirar as bancas de revista, derrubar o abrigo, arrancar o circo, fazer um VLT nas coxas ou enfiar lixeiras nos postes.

Outro forte traço do genocídio cultural é o processo de gentrificação dos espaços públicos, a exemplo do ocorrido na “península”, que transformou uma vila de pecadores no “Leblon ludovicense”.

Os espectros da direita e da extrema direita rondam São Luís. Uma das variações do bolsonarismo, a bibliocracia, está presente e valendo na gestão do prefeito Edivaldo Holanda Junior (PDT).

O exemplo mais esdrúxulo é o recente edital para um festival de música religiosa que exclui as vertentes emanadas do rico patrimônio estético dos povos de matriz africana.

Atualidades do racismo em São Luís

A mentalidade provinciana e racista de hoje guarda resquícios de fatos marcantes em outras épocas: o mulato Gonçalves Dias rejeitado pela família de Ana Amélia; o exílio forçado de Aluísio Azevedo após a repercussão da obra “O mulato”; a fuga de Nina Rodrigues porque era incompreendido na sua província; os rituais de matança de escravos no Largo da Forca Velha (hoje praça da Alegria); a rumorosa absolvição unânime da grã-fina Anna Rosa Viana Ribeiro, acusada de torturar e matar uma criança negra de oito anos, no final do século 19; os escritos racistas de Corrêa Araújo contra Nascimento de Moraes…

Esses e outros tantos outros exemplos estão bem aí, na cara da gente, todos os dias, na São Luís que quer virar Paris…

A capital do Maranhão está parada, olhando o retrovisor: as velhas práticas permanecem e a novidade é tão antiga quanto os esqueletos do passado.

Neto Evangelista prometeu o VLT na eleição de 2012

Então, é mais ou menos isso: uma sequência dos últimos 30 anos repaginados no velho discurso da renovação. Assim, novas gerações conservadoras e os 50 tons de bolsonarismo manobram à direita na antiga ilha rebelde.

# cena 7: a serpente acordou expelindo veneno: “sou 19 e estou pronto”

Imagem destacada / As novas caras do conservadorismo: Eduardo Braide, Duarte Junior e Neto Evangelista lideram as pesquisas para a Prefeitura de São Luís em 2020

Eduardo Braide, as pesquisas e a campanha real

As pesquisas de opinião em período eleitoral nem sempre correspondem à realidade plena. Algumas são visivelmente forjadas com o intuito de favorecer o contratante. Outras, de institutos razoavelmente confiáveis, são mais próximas da vontade do entrevistado.

Geralmente, as sondagens induzem o voto e têm um papel significativo na formação das correntes de opinião que influenciam o conjunto do eleitorado.

Dito isso, é fato que o candidato Eduardo Braide (Podemos) vem liderando a disputa ao longo da campanha. Todos os institutos de pesquisa mostram essa tendência.

Mas, na reta final, é natural que o líder seja atacado e os candidatos mais competitivos dêem um tom mais agressivo na propaganda eleitoral, nas redes sociais e nos debates.

Nem sempre liderar pesquisas tanto tempo é vantajoso porque o primeiro colocado será sempre atacado pelos adversários.

Liderança contínua e por larga margem são dois aspectos carregados de contradições em uma disputa majoritária. Braide sente isso na pele agora na reta final, quando começa a desidratar, correndo até o risco de perder a eleição no segundo turno.

Para além das pesquisas, a campanha real nas ruas e o bom desempenho na comunicação podem mudar o jogo nos últimos minutos. O próprio Braide sabe disso. Em 2016, ele foi protagonista de um sucesso inesperado, fruto de dois debates na televisão.

Logo ele, bom de debate no passado, vem se esquivando de algumas arenas em 2020.

No sistema eleitoral institucionalizado no Brasil, a competitividade é tradicionalmente atrelada às origens familiares (filhotismo) na política, ao poder econômico, à base social e partidária (coligações) e ainda ao desempenho pessoal da candidatura no corpo a corpo e nas plataformas de comunicação.

Braide agrega vários desses ingredientes. É filho de político tradicional de família abastada, reúne partidos do campo pragmático e tem boa desenvoltura retórica.

Apesar de tudo isso, ele pode perder uma eleição que durante toda a campanha estava dada como favas contadas.

Imagem destacada / Eduardo Braide / Agência Assembleia Legislativa do Maranhão

São Luís: eleição está indefinida e tudo pode acontecer, inclusive Braide perder

Embora os institutos de pesquisa (confiáveis e falhos) apontem a liderança de Eduardo Braide (Podemos) ao longo de toda a campanha, os fatos novos podem desembocar em uma reviravolta no resultado.

O tom é dado pelo Ibope. Segundo a última sondagem, a vitória em primeiro turno está descartada e o segundo lugar é disputado por quatro candidaturas: Duarte Junior (Republicanos), Neto Evangelista (Democratas), Rubens Junior (PCdoB) e Bira do Pindaré (PSB).

Além disso, a margem folgada de Braide, caiu.

Na reta final o ânimo dos competidores foca no acirramento da disputa.

O governador Flávio Dino entrou na campanha de corpo e alma para tentar levar o seu candidato, Rubens Junior (PCdoB), ao segundo turno. Na propaganda eleitoral e nas redes sociais o próprio governador e a militância comunista desencadearam ataques frontais a Eduardo Braide e ao segundo colocado no Ibope, Duarte Junior, acusando ambos de “bolsonaristas”. Faltou só incluir Neto Evangelista no pacote.

Em decadência após a derrota de Donald Trump nos Estados Unidos, o presidente Jair Bolsonaro é um péssimo cabo eleitoral. Daí a tática dos comunistas de associá-lo a Braide e Duarte Junior.

O candidato do Podemos também foi alvejado pela reportagem da Folha de São Paulo deste domingo (8), amplamente repercutida pelos adversários, que aponta a sua condição de investigado.

Braide rebateu a matéria nas redes sociais, dizendo-se ficha limpa, e acusou a Folha de requentar o tema em véspera de eleição (veja abaixo).

Ainda segundo o Ibope, Duarte Junior e Bira do Pindaré são as candidaturas com o maior crescimento. Nas caminhadas pelas ruas e nas redes sociais, o nome de Bira vem sendo muito receptivo e o trabalho de corpo a corpo pode alavancar a campanha na reta final e até apontar no segundo turno.

Debate

Não se deve menosprezar também a capacidade e o desempenho de todos os candidatos nas entrevistas e nos debates nesta última semana.

As candidaturas não listadas entre as mais competitivas pelo Ibope têm as suas peculiaridades e podem surpreender na fase decisiva do primeiro turno, a exemplo de Franklin Douglas (PSOL) e Hertz Dias (PSTU).

Basta lembrar da campanha de 2016, quando Eduardo Braide, então candidato por um partido minúsculo (PMN), chegou ao segundo turno contra Edivaldo Holanda Junior (PDT) devido ao seu desempenho nos debates.

Máquina

Outro aspecto a destacar é a famosa máquina eleitoral do PDT, cuja expertise de 30 anos no comando da Prefeitura de São Luís deve ser sempre colocada em avaliação.

O PDT está na coligação de Neto Evangelista, que tem ainda o apoio do MDB de José Sarney, além do PTB e do PSL.

No eventual segundo turno, a reacomodação das forças políticas muda todo o cenário naquilo que se costuma dizer: é outra eleição!

Braide sempre liderou com folga. Se ele chegar na frente com pequena vantagem, vai sinalizar desidratação. O sinal amarelo está aceso desde já. E pode avermelhar no segundo turno.

Imagem destacada / Candidatos a prefeito de São Luís nas eleições 2020 / Foto: Arte/G1. / Da esquerda para a direita Bira do Pindaré, Duarte Junior, Eduardo Braide, Franklin Douglas, Hertz Dias, Jeisael Marx, Neto Evangelista, Rubens Junior, Silvio Antônio e Yglesio.