Movimentos sociais repudiam a ditadura com outdoors em São Luís

Para denunciar os 57 anos do golpe civil-militar no Brasil, deflagrado em 31 de março de 1964, diversas organizações dos movimentos sociais (veja abaixo) realizam ações por memória, justiça e verdade.

Material de divulgação da campanha unificada mostra painel de outdoors

Uma das iniciativas é a distribuição de outdoors em São Luís com os motes “Fora Bolsonaro” e “Ditadura Nunca Mais”, “vacina já” e “auxílio emergencial de R$ 600,00”. As placas começaram a ser visualizadas desde terça-feira (30/03) como parte da campanha unificada de sindicatos, entidades de direitos humanos e pela cidadania.

O objetivo dos outdoors é dar visibilidade e denunciar a interrupção do processo democrático no Brasil nos anos 1960, bem como alertar para a conjuntura atual, no governo Jair Bolsonaro, apologista de ditaduras, da tortura e da violação de direitos humanos.

Além das peças publicitárias estão sendo realizados eventos remotos, palestras e debates sobre os impactos do golpe civil-militar de 1964 e os efeitos da ditadura no Brasil.

Ao longo de toda a semana o tema “ditadura nunca mais” será pautado com entrevistas diárias na Agência Tambor.

Entidades parceiras: ABJD, APRUMA, Agência Tambor, DCE-UFMA, MST, Sindicato dos Bancários, SINDEDUCAÇÃO, SINASEFE, SINDUEMA, SINTECT-MA, SITIU-MA, SINTRAJUFE.

Andes: ditadura nunca mais, pela memória, verdade e justiça!

O golpe empresarial-militar de 1964 está completando 57 anos. É importante reafirmar que foram 21 anos de um regime político que atacou a classe trabalhadora com um imenso arrocho salarial e que reprimiu todas as suas manifestações, a exemplo das greves de Osasco, Contagem e do ABC paulista. Os governos militares, a serviço do imperialismo e da burguesia interna, interviram nas universidades brasileiras e massacraram a população indígena, camponesa e quilombola.

Esse longo período de exceção notabilizou-se pela cassação de milhares de ativistas, mas, também, pela prática do terrorismo de Estado. A ditadura prendeu milhares de opositore(a)s, inclusive religioso(a)s; torturou centenas de militante; forçando ao exílio um grupo importante de lideranças políticas, sindicais, estudantis e intelectuais. Para além dessa tragédia política, a ditadura de 1964 matou – em cifras oficiais – 434 homens e mulheres que lutavam em defesa das liberdades democráticas, contra os governos militares e em defesa dos interesses da classe trabalhadora e da democracia.

Dentro desse cenário político, um dos maiores ataques engendrados pela ditadura foi contra a universidade brasileira, partindo de uma orientação que advinha da ideologia da segurança nacional, centrado no chamado “inimigo interno”, que foi formulada pela ESG em consonância com agências internacionais, o regime autoritário usou fortemente dos seus organismos de repressão (SNI, Polícia Federal, AESI, CENIMAR, CISA, CIE, DOI-CODI, etc.) para agir sobre a universidade brasileira, chegando ao criminoso ato de assassinar 119 membros da comunidade universitária (97 homens e 22 mulheres), entre professore(a)s, estudantes e um técnico.

Foi criado durante esse período ditatorial um aparato de repressão interno ao ambiente da universidade. A AESI ou ASI (Assessorias Especiais de Segurança e Informações) tinha como finalidade vigiar, filtrar contratações, operar sobre possíveis ações do movimento estudantil, emitir relatórios para os órgãos de segurança do Estado ditatorial e denunciar membros da comunidade acadêmica para serem enquadrado(a)s no Decreto nº 477. Este decreto espúrio de 1969, ficou conhecido como o “AI-5 da educação” e tinha rito sumário para finalizar processos (20 dias).

Ainda nesse período tortuoso da história brasileira, o ensino privado foi expandido, os acordos com os EUA (MEC/USAID) comprovam a ingerência externa na educação, tendo sido aplicado um conjunto de reformas na universidade para colocá-la a serviço dos planos de desenvolvimento autoritário dos governos militares, como podemos entender a Lei nº 5.540/68. E, posteriormente, com a implementação da Lei nº 5692/71 que criou diretrizes e bases para uma educação totalmente voltada aos interesses profissionais como formas de servir aos capitalistas em nosso país.

O esquema repressor que se desenvolveu na universidade brasileira foi gerenciado para se representar nas formas administrativas por meio de seu caráter de controle interno, a exemplo de estatutos, regimentos, portarias e resoluções dos diversos conselhos. Ainda convivemos com esse entulho autoritário em muitas universidades, por meio das diversas permanências desse arcabouço no ambiente acadêmico.

Ao repudiarmos os 57 anos desse golpe e tudo que ocorreu com a ditadura empresarial-militar de 1964, precisamos alertar a comunidade universitária brasileira que estamos vivendo um grave momento político. Voltam à cena grupos obscurantistas e reacionários com o desejo político de romper as balizas da democracia formal com o nítido sentido de operar um “novo” regime de exceção. São hordas neofascistas, grupos golpistas que se confirmam como apoiadore(a)s do atual presidente da república, Jair Bolsonaro.

O Brasil vive uma intensa crise, cujo elemento mais contundente é a pandemia em virtude da Covid 19. O governo negacionista abriu as portas para o genocídio da nossa população, situando-se de forma perversa e com total irresponsabilidade diante da imensa mortandade.

Assim como, durante os anos da ditadura de 1964, lutamos e vencemos as trevas, agora, mais do que nunca, precisamos construir uma firme unidade de ação para enfrentar o(a)s golpistas neofascistas, defender a universidade brasileira e os serviços públicos. Temos que cerrar fileiras na luta pela vacinação já, para todos e todas.

Em defesa da democracia e da luta da nossa classe contra a tirania, denunciamos qualquer forma de comemoração desse evento nefasto da história brasileira. Tal atitude, ocorra onde ocorrer, deve merecer o nosso mais profundo repúdio.

Por nosso(a)s morto(a)s nem um minuto de silêncio, toda uma vida de combate!

Ditadura nunca mais! Brasília(DF), 31 de março de 20

Professora da UFMA sofre intimidação depois de postagem “Bolsonaro genocida”

A professora do Departamento de Medicina III da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Marizélia Ribeiro, recebeu intimidação em uma rede social na noite de sábado (20) após compartilhar uma imagem que associava o adjetivo “genocida” ao presidente Jair Bolsonaro.

O compartilhamento foi rebatido em tom de intimidação. A bolsonarista Denicy Alves, também docente da UFMA, adicionou um print do perfil “Conservadores do Brasil (OACB)” alusivo à criação um canal de denúncias para coagir pessoas que façam críticas ao presidente Jair Bolsonaro. “A organização garantiu que irá ingressar com ações judiciais contra todos os autores das mensagens”, diz o texto. Após isso, Alves fez o comentário “Cuidado professora”.

O panfleto eletrônico informa os critérios e o e-mail para enviar as denúncias, especificando os alvos: “Se você receber ou deparar com vídeos, fotos ou qualquer outro tipo de postagem ofensiva ao Presidente Jair Bolsonaro, sua família e membros do seu governo, seja por parte de políticos, artistas, professores ou qualquer um do povo, envie o material para o e-mail secretariageral@oacb.org.br. A professora Denicy Alves postou em seu Facebook esse print dos Conservadores do Brasil (OACB).

Mais abaixo a publicação diz que as denúncias podem ser anônimas e reitera a ameaça: “VAMOS PROCESSAR TODOS” e “vamos derrotar o mal”, em alusão aos críticos do presidente.

Denicy Alves opera nas redes sociais defendendo a ditadura militar e Jair Bolsonaro, como pode ser observado nas mensagens abaixo. Um dos compartilhamentos da professora é da deputada federal bolsonarista Carla Zambelli, elogiando a data de 31 de março de 1964, quando foi deflagrada a ditadura militar no Brasil, que resultou em torturas, mortes e desaparecidos políticos.

Além desses post, o perfil da docente expõe fotos, prints e textos contendo críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), expressões depreciativas sobre o comunismo (sem qualquer fundamentação teórica), ironias sobre a adoção de medidas restritivas para combater a pandemia, frases sintomáticas de fanatismo e idolatria bolsonarista, menções depreciativas ao ex-presidente Lula e até mesmo a publicação de uma imagem sobre uso de medicamentos sem comprovação científica no combate à covid19, intitulada “”VIDEO: médicos europeus pedem uso urgente da invermectina no tratamento contra a covid19.

Ela chegou inclusive a publicar conteúdo falacioso em uma rede social e foi censurada por conteúdo indevido.

FRASE DO ANO

A frase “Bolsonaro genocida” vem sendo usada largamente nas redes sociais para denunciar a inoperância do governo federal no combate à pandemia covid19 e os discursos violentos, depreciativos, grotescos e irônicos do presidente Jair Bolsonaro diante da morte de quase 300 mil brasileiros.

O epíteto “genocida” associado ao presidente vem sendo combatido de variadas formas pelo governo federal. O influenciador Felipe Neto já foi alvo de ação da Polícia Federal após criticar a política necrófila de Bolsonaro em relação à pandemia.

As ameaças e intimidações alcançaram outras pessoas Brasil afora. Fatos amplamente divulgados dão conta de ameaças e intimidações não só de bolsonaristas comuns, mas do aparelho coercitivo do Estado contra professores e até reitores.

Ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (RS), o epidemiologista Pedro Hallal foi processado pelo governo federal após criticar ações governamentais durante uma atividade on line. Antes desse episódio, Hallal já havia sido atacado pelo próprio Bolsonaro em uma rede social.

Perseguições, ameaças, intimidações e agressões nas redes sociais e nos pronunciamentos do presidente e de vários ministros têm como alvo professores, uma categoria das mais odiadas pelo espectro bolsonarista. A pedido do ministro da Justiça e Segurança Pública, André Luiz de Almeida Mendonça, a Polícia Federal instaurou inquérito para investigar o sociólogo Tiago Costa Rodrigues, do Tocantins, pela publicação de frases em outdoor contendo críticas ao presidente Jair Bolsonaro. Uma das peças publicitárias compara o chefe do executivo a um “pequi roído”.

Profissionais de saúde que defendem protocolos sanitários também são hostilizados pela horda negacionista. Um dos casos mais graves ocorreu recentemente contra a médica cardiologista Ludhmila Hajjar, que chegou a ser cotada para substituir Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde. “Realmente foi assustador. Está sendo, porque eles não terminaram. Mas eu tenho muita coragem, e pelo Brasil eu estava disposto a passar por isso. Mas isso me assustou. Criaram perfis falsos meus em Twitter, perfis falsos em Instagram. Divulgaram meu celular em redes sociais. Imagina, eu sou uma médica, eu preciso do meu telefone para atender meus doentes. Eu recebo mais de 300 chamadas. Ameaças de morte. Houve uma tentativa de entrar no meu hotel no qual eu estou em Brasília. Houve ameaças à minha família. Então, tudo o que você imaginar de pessoas que eu só posso considerar que estejam lutando para o Brasil dar errado eu sofri” , detalhou Hajjar.

Asfixia Brasileira

Luiz Eduardo Neves dos Santos[1]

O poder de hoje se baseia em relações abstratas entre entidades numéricas. Enquanto a esfera das finanças é regida por algoritmos que conectam fractais de trabalho precarizado, a esfera da vida é invadida por fluxos de caos que paralisam o corpo social e abafam e sufocam a respiração”.

Franco Berardi, Asfixia, 2020, p. 9.

“Em tempos de terror, escolhemos monstros para nos proteger”

Mia Couto, O bebedor de horizontes (2018)[2].

O italiano Franco Berardi, em sua obra Asfixia[3], nos ajuda a compreender como as relações sociais, pertencentes à esfera da linguagem, estão sendo sufocadas por um tipo de inteligência artificial impiedosa, comandada pela economia financeira global, visando única e exclusivamente a acumulação. Ela tem transformado as formas de comunicação social e nossa cognição de tal forma, a ponto da cultura humana abandonar o humanismo, deixando de lado também o diálogo, a tolerância, o bem comum e a solidariedade.

Berardi chama esse processo de Semiocapitalismo, caracterizado como abstração máxima do capital, que interfere sistematicamente na vida de grupos sociais, cada vez mais submersos nas realidades virtuais, incapacitados de perceberem o mundo real porque são desprovidos de reflexão e de crítica, por estarem conectados de forma permanente a dispositivos automáticos que obnubilam suas visões.

A partir da leitura um tanto catastrófica do filósofo italiano, é possível tecer alguns comentários sobre a ascensão da extrema direita no Brasil, que chega ao poder em 2018 muito em função da linguagem do capitalismo semiótico, por meio dos chamados disparos em massa nas redes sociais, como o WhatsApp e Facebook.

Milhões de brasileiros, seduzidos por informações aberrantes que circularam pelos quatro cantos do país, apostaram suas fichas em um militar da reserva, sucessivamente eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro, tendo como bandeira uma série de pautas antidemocráticas e em favor das atrocidades da Ditadura Militar[4].

Tais massas digitais experimentaram confrontos relacionais em torno daquilo que acreditam, multiplicaram-se assim, tensões discursivas entre grupos familiares, de amizades, de trabalho, da escola e da faculdade, provocando verdadeiras fissuras nos mais diversos relacionamentos sociais.

A chegada de Bolsonaro ao poder se deu à custa do que o psicanalista Christian Dunker chamou de “afetos segregativos”[5], com fortes traços fascistas, inerentes a uma massa que sempre existiu no Brasil, mas que na atualidade tem a oportunidade de vociferar nas redes sociais seus mais repulsivos sentimentos, como preconceitos, ódios, rancores, invejas e frustrações. Uma massa hipnotizada, que se espelha em torno da figura de um “mito”, de um “herói”, uma espécie de redentor que chegou para curar um Brasil doente pela “esquerdopatia” e livrá-lo da ameaça comunista. O eleito, no entanto, não passa de uma figura medíocre e caricata, incapaz de formular uma única ideia proficiente em suas falas, o que demonstra um sintoma claro da indigência moral e intelectual dos grupos que o levaram ao poder. Podemos inferir que é o semiocapitalismo da era digital-tecnológica que instaura abstrações generalizadas a essas massas, ao comandar seus sistemas nervosos.

É possível afirmar que o Brasil vive uma escalada sem precedentes de retrocessos variados, um aprofundamento de tensões e massacres sociais, possíveis em função de uma massa que colocou um ignóbil no poder. Utilizando o título deste artigo como metáfora, parece que estamos prendendo nossa respiração, tanto pelo mau cheiro oriundo do Planalto, que empesta o ar, como pelas sucessivas declarações e ações, proferidas e realizadas pelo chefe do Executivo, que tem a capacidade de nos tirar o ar.

Destarte, a asfixia brasileira é representada por tragédias socioeconômicas e políticas que possuem vigorosas raízes históricas, possíveis de serem vistas quando populações inteiras, segregadas, espoliadas e estereotipadas nos grandes centros urbanos são submetidas a uma vida sem dignidade[6], ou quando camponeses são capturados pelo “trabalho escravo contemporâneo”[7] em plantações e fazendas, privados de sono, comida e água. Este estrangulamento no país, amparado no capital financeiro e na acumulação, pode ser visto ainda a partir da liberação desenfreada de agrotóxicos[8] perigosos à saúde humana, no afrouxamento de fiscalizações ambientais diversas, contribuindo para a destruição de biomas e para a contaminação de rios, peixes, lençóis freáticos e aquíferos por produtos derivados da mineração selvagem.

O sufocamento à brasileira, com a omissão ou com o aval governamental, se manifesta quando transnacionais mineiras aniquilam vidas humanas, jogando em cima delas milhares de toneladas de rejeitos de ferro e sílica – sem que ninguém tenha sido responsabilizado criminalmente por isso até hoje[9]; aparece ainda quando fábricas fecham as portas e demitem milhares de trabalhadores, ou ainda quando ocorre o genocídio cotidiano das populações indígenas, pobres e pretas, à medida que se facilita o acesso a armas de fogo para uma parcela específica da população.

A pandemia do COVID-19 agravou a situação de um país que já se recusava a sair de uma crise social, econômica e política, muito também em decorrência da gritante inoperância de uma gestão perdida nos próprios devaneios, acostumada a criar narrativas falaciosas e a inventar inimigos imaginários com o objetivo de acirrar os ânimos dos fiéis apoiadores, além de tergiversar quando cobrada por órgãos de imprensa ou por outros poderes instituídos.

Parece inacreditável, mas o governo federal, principalmente por meio do presidente e seus ministros, tem exercido um papel ignominioso no que se refere ao combate à pandemia no Brasil, que já matou, em números oficiais, mais de 210 mil habitantes.

A lista de irresponsabilidades e omissões, em pouco menos de um ano do alastramento da doença no território brasileiro, é extensa. Inclui a demissão de dois ministros da Saúde médicos, e da nomeação – para o mesmo cargo – de um general da ativa que não possui o mínimo de conhecimento ou experiência para exercer a função. Acrescente-se a isso, declarações públicas que desdenharam dos milhares de mortos pelo vírus, do incentivo ao não uso da máscara e contra o isolamento social, além de fazer a defesa contumaz de medicamentos que não possuem comprovação científica para tratar a doença, como no pronunciamento vergonhoso que fez à nação no 24 de março de 2020.

A ofensiva discursiva contra as vacinas é outro aspecto que chama atenção no mar de lama da incompetência e do negacionismo bolsonarista. A gestão vigente é composta por um amontoado de pessoas que, constantemente, se recusam a ouvir as vozes e os alertas de técnicos, estudiosos, intelectuais e cientistas. Isto inclui o descrédito em relação às pesquisas científicas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que demonstrou avanços significativos no desmatamento da Floresta Amazônica e inclui ainda a demonização da vacina Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan, apelidada pejorativamente de “vaChina” por interlocutores ensandecidos.

Estamos testemunhando as ações do governo mais omisso, mentiroso, inepto e assassino da nossa História, a asfixia literal que o Estado – liderado por Bolsonaro – está fazendo no Amazonas, sobretudo em sua capital Manaus, é algo desumano e inaceitável. A triste ironia é que centenas estão morrendo no coração da Amazônia por falta de oxigênio, debaixo do nariz da administração pública federal, um caso de polícia. O mínimo que o presidente deveria ter feito era viajar à Manaus, montar uma força-tarefa mobilizando todos os recursos necessários para minorar esta tragédia. Mas o que ele fez e faz? Foi às redes sociais fazer o que sempre fez no cargo, vomitar ódio contra a imprensa e os desafetos políticos, recomendando o uso da cloroquina para tratar doentes de Covid-19.

O mais espantoso é que uma parcela da sociedade brasileira se mostra indiferente ou mesmo conivente em relação às ações desastrosas e irresponsáveis do governo federal. Voltando à Berardi, isto pode ser explicado, em parte, pela semiotização da produção social, o que implica uma profunda metamorfose nos processos de subjetivação, afetando, em larga medida, a chamada psicosfera[10] com todas as suas formas de percepção da realidade.

Os dispositivos de linguagem digital-virtual – potencialmente violentos – sob a égide do capitalismo financeiro, representados por uma inédita estetização do mundo, nos leva a compreender como são forjadas novas subjetividades e o porquê da aparição de inéditas formas de servidão voluntária, fincadas na apatia, na indiferença, na ausência de reflexão e de crítica e na desumanidade.

Por outro lado, a perversidade do mundo, materializada pelo sufocamento das populações despossuídas e de trabalhadores precarizados, sujeitos a todo tipo de insegurança: alimentar, habitacional, emocional etc. deixa à mostra as debilidades e fraquezas deste sistema, injusto e doentio, caracterizado por Byung-Chul Han como a “Sociedade do Cansaço”, dominada pela abundância da positividade, que gera estados psíquicos graves devido ao estresse, à exaustão e ao esgotamento excessivos[11].

Nesta perspectiva, é que se abrem possibilidades de tomada de consciência, e como Milton Santos ousou pensar, “a história da humanidade sobre a Terra dispõe afinal das condições objetivas, materiais, intelectuais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetos técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória”[12]. Mas o desafio é dos mais complexos, pois é necessário se perceber no mundo, ter uma visão crítica e totalizante de como o sistema atua nos processos de produção das nossas subjetividades, condicionando nossos corpos e mentes a satisfazer seus objetivos, que é nos deixar presos nas armadilhas dos algoritmos e da automação, interferindo de modo negativo em nossas vontades, ideias, anseios, paixões e desejos.

Portanto, é imprescindível procurar entender e acreditar que este mundo – do ponto de vista físico e social – incluindo um país com a diversidade e o tamanho do Brasil, pode ser construído e reconstruído quantas vezes for necessário. E como já escreveu David Harvey[13], poderemos então nos afastar dos medos, das ansiedades, do excesso de trabalho e das noites sem dormir. Neste novo mundo possível, não faltará cilindros de oxigênio e teremos a oportunidade de respirar um ar puro, sem fuligens, monóxidos de carbono, dióxidos de enxofre, hidrocarbonetos e, principalmente, sem a presença fétida de cadáveres putrefeitos como Bolsonaro e sua súcia.


[1] Geógrafo e Professor Adjunto I do Curso de Licenciatura em Ciência Humanas, Universidade Federal do Maranhão (UFMA) – Campus Pinheiro.

[2] COUTO, Mia. O bebedor de horizontes. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. 328p.

[3] BERARDI, Franco. Asfixia: capitalismo financeiro e insurreição da linguagem. São Paulo: Ubu Editora, 2020. 256p.

[4] CAMPOS, João Pedroso de. Doze vezes em que Bolsonaro e seus filhos exaltaram e acenaram à ditadura. Veja. São Paulo, 1 de novembro de 2019. Disponível em:< Doze vezes em que Bolsonaro e seus filhos exaltaram e acenaram à ditadura | VEJA (abril.com.br)>. Acesso em 17 abr. 2021.

[5] DUNKER, Christian. Psicologia das massas digitais e análise do sujeito democrático. In: ABRANCHES, Sérgio et al. Democracia em Risco? 22 ensaios sobre o Brasil de hoje. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 116-135.

[6] VASCONCELOS, Gabriel; ROSAS, Rafael. Número de domicílios em favelas no Brasil é de 5,12 milhões, informa IBGE. Valor Econômico. Rio de Janeiro, 19 de maio de 2020. Disponível em:<Número de domicílios em favelas no Brasil é de 5,12 milhões, informa IBGE | Brasil | Valor Econômico (globo.com)>. Acesso em 17 jan. 2021.

[7] RODRIGUES, Sávio José Dias. Quem não tem é escravo de quem tem: migração camponesa e a reprodução do trabalho escravo contemporâneo. São Paulo: Paco Editorial, 2020. 248p.

[8] LEITE, Catalina. Governo Bolsonaro já registrou 745 novos agrotóxicos; número é o maior em 15 anos. O Povo online. Fortaleza, 10 de agosto 2020. Disponível em:< Governo Bolsonaro já registrou 745 novos agrotóxicos; número é o maior em 15 anos | Brasil – Últimas Notícias do Brasil | O POVO Online>. Acesso em 17 jan. 2020.

[9] MARTINS, Patrícia. Brumadinho um ano depois: impunidade e sofrimento dos que ficaram. Congresso em foco. 22 de janeiro 2020. Disponível em:< Brumadinho um ano depois: impunidade e sofrimento dos que ficaram | Congresso em Foco (uol.com.br)>. Acesso em 17 jan 2020.

[10] SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2002. (Coleção Milton Santos 1). 384p.

[11] HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. 2. ed. ampliada. Petrópolis: Vozes, 2015. 128p.

[12] SANTOS, Milton. Por Uma Outra Globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000. 176p.

[13] HARVEY, David. Espaços de Esperança. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2006. 382p.

O bolsonarismo das pessoas gentis

Quando Fernando Haddad e Jair Bolsonaro disputaram a presidência, em 2018, uma certa claque profetizou nas redes sociais o discurso “eles não”. Esse bordão era compartilhado por gentes finas, elegantes e sinceras, alguns até frequentadores dos ambientes “cult” de São Luís.

Diferentemente do bolsonarista raiz, que vai logo disparando os xingamentos “Lula ladrão” ou “A culpa é do PT”, o eleitor cool da direita é sofisticado, circula nos ambientes alternativos, transita no meio cultural da esquerda e até pisa em algum bar descolado da Praia Grande.

Esses eleitores refinados têm seus representantes e ocupam lugares estratégicos nos cargos de gestão, nas elites administrativas do Estado, nos empreendimentos das marcas de sucesso, nas comunidades científicas, nos púlpitos das igrejas e, sobretudo, nos três poderes onde as coisas são decididas.

“Eles não”, em tradução direta, significa igualar um professor universitário civilizado a um ser ignóbil, homofóbico, misógino, racista e elogiador de torturadores, entre outros adjetivos não pronunciáveis.

O raciocínio é mais ou menos esse: tornar os diferentes iguais (“eles não”) para justificar a opção pelo degenerado, sem macular a escolha. É o disfarce perfeito.

Trata-se de algo diferente do bolsonarista cego de ódio, que não apresenta sequer um argumento, a não ser a sua crença de que “a culpa é do PT”

Para os analistas do discurso, “Eles não” é uma forma camuflada de opção pela direita sem pronunciar o discurso raivoso.

Entre esses bolsonaristas existem aqueles que odeiam o setor público, mas adoram um cargo arranjado no esquema clientelista, ganhando muito para não trabalhar. Mas, sempre mantendo a pose elegante.

Às vezes é aquela pessoa muito bem vestida, polida, sorridente, limpa, galante, bondosa; enfim, educada.

Parte desse eleitorado, adepto do lavajatismo, “evoluiu” para o bolsonarismo e está sempre armada para repetir que o desastre do atual governo não é bem assim…

Já o bolsonarista grosseiro, fácil de identificar, você bate o olho, apura o ouvido e reconhece logo. Ele grita “fora PT” e cruza o sinal vermelho, não respeita a faixa de pedestre, ocupa a vaga do deficiente ou do idoso no estacionamento, fura a fila do banco, burla o fisco e joga lixo na rua.

O outro, aquele tipo sofisticado que postou nas redes sociais “eles não”, é bem mais refinado. Fala baixo, costuma respeitar as regras básicas da civilização e tem bom convívio social.

São tipos diferentes no comportamento, mas iguais na opção.

“Eles não” vai sempre torcer o nariz para qualquer governo humanista com o mínimo de intencionalidade voltada para a justiça social.

É um tipo de gente que topa qualquer coisa (até mesmo Bolsonaro!), menos Lula, o PT, o protagonismo dos pretos, dos índios, das mulheres, da Bolsa Família, da comunidade gay e dos pobres em geral.

A velha aristocracia escravocrata está no meio de nós e, às vezes, nem percebemos.

Imagem destacada capturada aqui

São Luís: eleição está indefinida e tudo pode acontecer, inclusive Braide perder

Embora os institutos de pesquisa (confiáveis e falhos) apontem a liderança de Eduardo Braide (Podemos) ao longo de toda a campanha, os fatos novos podem desembocar em uma reviravolta no resultado.

O tom é dado pelo Ibope. Segundo a última sondagem, a vitória em primeiro turno está descartada e o segundo lugar é disputado por quatro candidaturas: Duarte Junior (Republicanos), Neto Evangelista (Democratas), Rubens Junior (PCdoB) e Bira do Pindaré (PSB).

Além disso, a margem folgada de Braide, caiu.

Na reta final o ânimo dos competidores foca no acirramento da disputa.

O governador Flávio Dino entrou na campanha de corpo e alma para tentar levar o seu candidato, Rubens Junior (PCdoB), ao segundo turno. Na propaganda eleitoral e nas redes sociais o próprio governador e a militância comunista desencadearam ataques frontais a Eduardo Braide e ao segundo colocado no Ibope, Duarte Junior, acusando ambos de “bolsonaristas”. Faltou só incluir Neto Evangelista no pacote.

Em decadência após a derrota de Donald Trump nos Estados Unidos, o presidente Jair Bolsonaro é um péssimo cabo eleitoral. Daí a tática dos comunistas de associá-lo a Braide e Duarte Junior.

O candidato do Podemos também foi alvejado pela reportagem da Folha de São Paulo deste domingo (8), amplamente repercutida pelos adversários, que aponta a sua condição de investigado.

Braide rebateu a matéria nas redes sociais, dizendo-se ficha limpa, e acusou a Folha de requentar o tema em véspera de eleição (veja abaixo).

Ainda segundo o Ibope, Duarte Junior e Bira do Pindaré são as candidaturas com o maior crescimento. Nas caminhadas pelas ruas e nas redes sociais, o nome de Bira vem sendo muito receptivo e o trabalho de corpo a corpo pode alavancar a campanha na reta final e até apontar no segundo turno.

Debate

Não se deve menosprezar também a capacidade e o desempenho de todos os candidatos nas entrevistas e nos debates nesta última semana.

As candidaturas não listadas entre as mais competitivas pelo Ibope têm as suas peculiaridades e podem surpreender na fase decisiva do primeiro turno, a exemplo de Franklin Douglas (PSOL) e Hertz Dias (PSTU).

Basta lembrar da campanha de 2016, quando Eduardo Braide, então candidato por um partido minúsculo (PMN), chegou ao segundo turno contra Edivaldo Holanda Junior (PDT) devido ao seu desempenho nos debates.

Máquina

Outro aspecto a destacar é a famosa máquina eleitoral do PDT, cuja expertise de 30 anos no comando da Prefeitura de São Luís deve ser sempre colocada em avaliação.

O PDT está na coligação de Neto Evangelista, que tem ainda o apoio do MDB de José Sarney, além do PTB e do PSL.

No eventual segundo turno, a reacomodação das forças políticas muda todo o cenário naquilo que se costuma dizer: é outra eleição!

Braide sempre liderou com folga. Se ele chegar na frente com pequena vantagem, vai sinalizar desidratação. O sinal amarelo está aceso desde já. E pode avermelhar no segundo turno.

Imagem destacada / Candidatos a prefeito de São Luís nas eleições 2020 / Foto: Arte/G1. / Da esquerda para a direita Bira do Pindaré, Duarte Junior, Eduardo Braide, Franklin Douglas, Hertz Dias, Jeisael Marx, Neto Evangelista, Rubens Junior, Silvio Antônio e Yglesio.

Candidatos escondem Bolsonaro em São Luís

Os três candidatos melhor posicionados na pesquisa Ibope para a Prefeitura de São Luís querem distância de qualquer associação das suas campanhas com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Direta ou indiretamente vinculados à base bolsonarista, Eduardo Braide (Podemos), Duarte Junior (Republicanos) e Neto Evangelista (Democratas) querem distância do presidente.

Bolsonaro esteve recentemente no Maranhão e foi ignorado pelos candidatos a prefeito. Apenas Silvio Antônio (PRTB), em último lugar nas pesquisas, faz questão de assumir a ligação com o presidente.

A rejeição de Bolsonaro é ainda maior depois da derrota de Donald Trump na eleição dos EUA.

O efeito da vitória de Joe Biden é devastador sobre o campo político da ultradireita fundamentalista e das suas bandeiras anticiência, homofóbica, racista, misógina e contra os preceitos civilizatórios fundamentais.

Bolsonaro, o maior representante do trumpismo no Brasil, é uma espécie de vírus político pandêmico. Quando não mata, deixa sequelas graves.

Bolsonaro faz recuo tático no Renda Brasil

Durante o período mais forte da pandemia do novo coronavírus o Auxílio Emergencial passou a ser um ativo importante nos índices de aprovação e popularidade do governo Jair Bolsonaro.

O presidente sentiu nas pesquisas o efeito da injeção do dinheiro no bolso da população pobre. Somado ao Bolsa Família, o Auxílio Emergencial acendeu a luz verde para a reeleição de Bolsonaro em 2020.

Falta, apenas, rebatizar o Bolsa Família e transformá-lo no Renda Brasil, apagando a marca tucano-petista para criar um novo mote publicitário de ajuda aos pobres, sob a insígnia nacionalista e uma provável paleta de cores verde e amarela.

Momentaneamente há um conflito entre a sedução eleitoreira de Bolsonaro e as restrições orçamentárias somadas à antipatia pelos pobres do ministro da Economia Paulo Guedes.

Para evitar um desgaste maior com a equipe econômica, o presidente faz um recuo tático no Renda Brasil, mas na virada de 2021 para 2022, ano eleitoral, o tema voltará à pauta com todo vigor.

O bolsonarismo, que odeia os programas sociais pejorativamente denominados “esmola para os pobres”, vai mudar de opinião em nome da reeleição do presidente.

Espelhado no PSDB e no PT, pai e mãe dos programas sociais recentes, Bolsonaro vai manter e aperfeiçoar tudo aquilo que condenava.

Assim, o Renda Brasil tende a ser o maior cabo eleitoral de 2022.

Bolsonaro promoveu 245 ofensas contra o Jornalismo no 1º semestre

Monitoramento da FENAJ evidencia que, independentemente da crise que o governo enfrenta em tempos de pandemia, produção de notícias é alvo de ataques reiteradas vezes

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) divulgou dados atualizados sobre o monitoramento de ataques contra o jornalismo por parte do Presidente da República, Jair Bolsonaro, referentes ao primeiro semestre de 2020. Foram registradas 245 ocorrências de janeiro a junho de 2020, sendo 211 categorizadas como descredibilização da imprensa, 32 ataques pessoais a jornalistas e 2 ataques contra a Fenaj. São quase dez ataques ao trabalho jornalístico por semana, neste ano.

O monitoramento da Fenaj contempla declarações públicas do presidente em suas lives publicadas no YouTube, conta pessoal no Twitter, vídeos de entrevistas coletivas em frente ao Palácio do Alvorada e transcrições de discursos e entrevistas disponibilizadas no portal do Planalto.

Para além dos números, os dados mostram que as notícias sobre as ações do governo ou a postura do presidente sobre diversos assuntos transformam a imprensa em sua “inimiga”, com a construção de uma narrativa de ataques com o objetivo de promover a descredibilização do trabalho jornalístico e da credibilidade da produção de notícias. Algumas vezes o presidente coloca a imprensa e os jornalistas como “inimigos do país”, por conta de coberturas que o desagradam.

Retrospecto

Entre os meses de janeiro e a primeira semana de março, o presidente Bolsonaro se referiu ao trabalho da imprensa, por diversas vezes, como mentirosa, omissa, sem credibilidade ou confiabilidade, afirmou que a imprensa atrapalha, é uma vergonha, deturpa, esculhamba, tripudia, que falta notícias verdadeiras, chama de fake news, que destrói reputações. No mês de fevereiro, o jornalismo profissional também sofreu ataques misóginos e homofóbicos por parte do presidente.

O presidente chega ao ponto de fazer gestos ofensivos aos profissionais jornalistas que atuam na cobertura em frente ao Palácio do Alvorada, em Brasília, e a contratar um humorista para distribuir bananas.

Em 10 de março é registrada a primeira ocorrência em que o presidente Bolsonaro fala sobre a pandemia do coronavírus. Durante discurso em sua viagem aos Estados Unidos, Bolsonaro fala que a mídia propaga “fantasia”. A partir desse momento, o trabalho jornalístico na cobertura da pandemia é reiteradas vezes alvo do presidente: ele diz que “grande parte da mídia potencializou em cima desse evento”, associa capa de jornal com “busca do caos” no contexto da pandemia, segue afirmando que o povo “foi enganado” por governadores e “grande parte da mídia” em relação ao coronavírus.

Nesse contexto, as diversas outras ocorrências públicas correlatas, como manifestações, presenciais, virtuais ou nas janelas, seriam “inventadas” ou “incentivadas” pela imprensa, que também seria a responsável por “fabricar” crises com seus ministros.

Nas entrevistas coletivas em frente ao Alvorada, estimula que apoiadores ajam com hostilidade à imprensa, especialmente a partir do dia 23 de março. Nesta mesma data, afirma que intrigas alimentam o pânico e que jornalistas “insistem em falar em assuntos” que alimentariam essas intrigas, ao postar em seu Twitter anúncios sobre a covid-19.

Dia 24 de março faz pronunciamento em cadeia de TV e rádio afirmando que meios de comunicação “espalharam exatamente a sensação de pavor” e pela primeira vez associa a atuação da imprensa no contexto da pandemia como causadora de “histeria”.

Na mesma semana, ataca os repórteres que realizam a cobertura no Alvorada, questionando a presença deles no local e se não estão com medo do coronavírus e repete a associação à histeria.  No dia 27 de março, Bolsonaro compara a imprensa a um vírus “pior que coronavírus”.

Conforme os meses vão passando, a postura de descredibilizar a cobertura do jornalismo segue a mesma linha de associar ao terror, histeria, caos, disseminação de pânico. Em junho, mês em que o Brasil ultrapassou 50 mil mortes pela covid-19, Bolsonaro ainda repete que grande parte da imprensa criou “estado de pânico junto à população”, como ocorrido dia 2 de junho, em entrevista coletiva em frente ao Alvorada, ou no dia 5 de junho, quando afirma que veículos de imprensa (cita Jornal Nacional e O Globo) “gosta de dizer que o Brasil é recordista em mortes”.

No dia 9 de junho, diz que as manchetes acusam o governo federal “como se a responsabilidade fosse exclusivamente minha”. Nesse mesmo dia, ele fala que “o pânico foi pregado lá atrás, por parte da grande mídia”, que “teima em rotular este governo”.

Neste último mês, contudo, o número de ataques foi reduzido, com 28 ocorrências, todas classificadas como “descredibilização da imprensa”. Não inserimos neste relatório alguns casos que denotam mudança de postura do presidente em suas postagens no Twitter e discursos oficiais disponibilizados pelo Planalto, em que Bolsonaro usa de expressões de ironia para se referir ao trabalho da imprensa, mas sem desferir ataques.

Agressões a jornalistas

Em abril, Bolsonaro chama jornalistas de urubus e fala que trabalham “amontoados”, sendo que os trabalhadores estavam ali justamente porque eram as condições proporcionadas pelo governo federal. Ele repete dia 10 de abril que repórteres trabalham aglomerados e ironiza que contrariam normas de saúde. Utiliza expressões como “amigos do vírus”, “vírus politizado” e que é a imprensa que quer responsabilizá-lo em questões relativas ao coronavírus.

Em maio, o presidente direciona o ataque à imprensa relacionando a crise econômica como efeito do coronavírus, dizendo que a imprensa deve “parar com essas babaquices, e fazer coisa séria”.

Dia 5 de maio, durante entrevista coletiva no Alvorada, manda jornalistas “calarem a boca” e usa os adjetivos “patifaria” e “canalha” para se referir ao teor de matérias jornalísticas. Na mesma semana, ocorre o episódio sobre ter anunciado um churrasco durante a pandemia para depois chamar jornalistas de “idiotas” por acreditarem em “fake news”.

Nesse período, durante vários dias, o presidente usa os espaços das lives, twitter, vídeos no youtube e pronunciamentos no Alvorada para direcionar ataques à emissora Globo, com o caso do vídeo de reunião ministerial divulgado na íntegra após a saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça.

Dia 11 de junho, Bolsonaro se manifesta sobre as agressões físicas a jornalistas no exercício profissional, como os que ocorrem em frente ao Alvorada, por parte de seus apoiadores, e que geraram reação por parte das empresas jornalísticas, que retiraram seus trabalhadores das coberturas: “se são agredidos, saiam dali, pô! Vocês não tão obrigados a ficar ali.”

Violência contra jornalistas

Como a Fenaj vem denunciando desde o ano passado, os ataques de Bolsonaro à imprensa  estimulam a violência contra jornalistas em coberturas diárias. Em 10 de abril, em São Paulo, o repórter Renato Peters estava ao vivo quando teve o microfone arrancado por uma apoiadora do presidente.  No mesmo mês, em Salvador, ao menos dois repórteres foram perseguidos por apoiadores de Bolsonaro.

Em 19 de abril, em manifestação com pautas antidemocráticas e com a participação de Jair Bolsonaro, em Brasília, equipes de reportagem foram agredidas fisicamente e expulsas do local. No mesmo dia foram registradas agressões a jornalistas em Porto Alegre e em Fortaleza.

No Dia do Trabalhador e da Trabalhadora, em 1º de maio, jornalistas e manifestantes em Brasília foram agredidos por simpatizantes de extrema-direita, em protesto de trabalhadores da saúde. Em 25 de maio, apoiadores do presidente xingaram e se aproximaram de jornalistas que cobrem as entrevistas coletivas diárias de Bolsonaro, na saída do Alvorada. O episódio fez com que empresas jornalísticas deixassem de mandar repórteres ao local, reivindicação feita há tempos pela FENAJ e pelo Sindicato do DF.

Mais recentemente, em 22 de junho, apoiadores de Bolsonaro hostilizaram um repórter na Avenida Paulista, em São Paulo, e ele precisou se retirar da cobertura. Além disso, ao longo do semestre, jornalistas que fazem cobertura crítica ao governo foram atacados nas redes sociais, e alguns até tiveram seus dados pessoais vazados, como a FENAJ vem denunciando em seu site.

Ação Judicial

A Fenaj, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, o Instituto Vladimir Herzog, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, o Repórteres sem Fronteiras e a Artigo 19 protocolaram na terça, dia 30 de junho, uma ação contra a omissão do Governo Federal em promover medidas de segurança para garantir a atuação de jornalistas. 

A ação lembra que os ataques são estimulados pelo tratamento abusivo do presidente e ministros contra profissionais de imprensa, e também pede indenização por dano moral coletivo no valor de R$ 300 mil.

Acesse aqui a Linha do Tempo (jan a jun/2020)

Acesse a planilha de sistematização das ocorrências (jan a jun/2020), nos formatos xlsx e ods

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Acesse aqui o Relatório da Violência Contra Jornalistas (2019)

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Palavra da vez

* Eloy Melonio

Lockdown. É só o que se fala e se ouve aqui na Ilha do Amor.

Não bastasse a exagerada quantidade de anglicismos já integrados a nossa língua, parece que a imprensa e outros segmentos da atividade político-cultural têm um certo tesão por esses termos. O da moda na mídia é “lockdown”. Nas redes sociais, só se fala em “live”. No fitness (opa!), ― sei lá! ― um monte.

Um exemplo clássico dessa vocação é o da meninina perguntando à professora da 3ª série: “Tia, como se diz shopping em inglês?”

Antigamente nossas palavras originavam-se do latim, hoje uma língua morta. Culpa de D. João VI, que, em 1809, oficializou o ensino do inglês e do francês no Brasil, antecipando a decadência do latim e do grego, cujo declínio começou logo após a segunda Guerra Mundial (1939 a 1945). Cheguei a fazer um ano de francês no ginásio, em 1967, no meu sempre-lembrado Colégio Municipal Luís Viana. Ainda me lembro da professora, uma loira de “fechar a escola”, e do “Parlez-vous Français?” Depois disso, só inglês.

“Lock”, em inglês, significa “trancar com chave, isolar”. É usado em vários sentidos. Nessa fase da pandemia de Covid-19, por extensão (substantivado com o acréscimo do advérbio down), significa “proibição da livre circulação de pessoas”, sistema primeiramente adotado aqui em São Luís-MA, a partir de 5 de maio, depois de uma decisão do poder Judiciário, seguida de decreto do Governo do Estado.

Pois bem, agora lockdown é a bola da vez, popularizada pelo ex-ministro Mandetta em suas intensas “coletivas de imprensa”. É óbvio que ele aprendeu a palavra com o pessoal da OMS, pois o termo já estava sendo usado em boa parte do mundo. E aí, é lockdown pra lá, lockdown pra cá. Até os vigias de minha rua já pronunciam o “palavrão” com uma naturalidade de dar inveja. É que eles precisam de um documento para passar nas barreiras da polícia quando vão e voltam do trabalho.

De repente, lembrei-me que lockdown tá na cabeça e na memória afetiva de duas personalidades de nosso mundo político. A primeira, o atual presidente da República; a outra, o ex-presidente Lula. No caso do atual, quanto mais Mandetta dizia “Fica no palácio, Jair”, mais o presidente se misturava à sua galera. E quanto ao ex, por uma razão mais justificável. Ficou preso numa salinha de 15 metros quadrados, na sede da PF em Curitiba por 580 dias. Aí, sim, um verdadeiro lockdown.

Pegando “carona” nessa coincidência, imaginei uma conversa telefônica entre os dois:

― Alô! É o Bozonaro?

― Quem? Aqui é o Bolsonaro, presidente da República do Brasil.

― E aí, seu presidente? Aqui é o Lula. Também já fui presidente por duas vezes. Tá lembrado, num tá?

― OK. Fala aí. O que é que tu tá querendo? Um ministério?

― Não, de jeito nenhum. É que o povo quer saber como é que tá esse negócio do isolamento social?

― Que isolamento porra nenhuma! Agora mesmo eu tô saindo pra padaria pra comprar uns pãezinhos.

― Padaria?! Mas, presidente…

― Sou livre pra fazer o que eu quiser, ir aonde eu quiser, na hora que eu quiser. Isolamento é pra quem tá, ou devia tá na cadeia.

― Tá falando comigo? Veja bem, se eu tô solto é por causa de uma decisão judicial.

― Tá certo! Enquanto esses caras do STF tiverem uma caneta na mão e nenhum juízo na cabeça, vão soltar gente que devia ficar na cadeia a vida inteira.

― É, presidente, pimenta no “olho” dos outros é refresco. Só sei que tá todo mundo comentando essa sua mania de quebrar as regras. Já tão até falando em impeachment.

― Tu tá me achando com cara de Dilma Rousseff, rapá?

― Não, absolutamente. Mas o meu amigo Dr. Moro tem provas que podem complicar sua vida.

― Tudo fake news. Coisa de desocupado.

― Ouvi dizer que vai ter lockdown aqui em Brasília. É verdade?

― Lock o quê?

― Lockdown, aquilo que fizeram comigo lá em Curitiba.

― Vai te coçar, malandro. Aqui quem manda sou eu. Preciso desligar agora porque vou falar com o meu povo lá na frente do palácio. Não sou o Milton Nascimento, né?, mas gosto de ir aonde o povo está. Fui!

― (Falando sozinho) Nunca antes na história desse lockdown

Com ou sem isolamento social, nossa velha cidade continua linda! E, na mídia nacional! Tudo por causa desse tal de lockdown.

*Eloy Melonio é professor de inglês, compositor, escritor e poeta.