Bolsonaro não é burro. Ele tem uma estratégia e sabe onde quer chegar

Ed Wilson Araújo

Pelo menos três vezes por dia Jair Bolsonaro e seus filhos soltam uma verborragia para alimentar as redes sociais.

E nós?!

Passamos horas e horas em longas réplicas e tréplicas, travando extenuantes debates com a torcida organizada bolsonarista.

Eles são profissionais nesse ramo.

E nós?! Movidos pela ânsia de refutar as aberrações, vamos entrando no labirinto da irracionalidade. Às vezes sem perceber.

Nenhum discurso iluminista, baseado na Ciência ou na razão, vai mudar o pensamento de um bolsonarista fanático.

Mal respiramos dos palavreados chulos vomitados no café da manhã da família Bolsonaro e já estamos envolvidos em novas polêmicas provocadas por alguma declaração, gesto ou medida esdrúxula.

Assim, ele nos condiciona ao envolvimento na bolha da sua própria agenda e dita a pauta, enquanto passa a boiada no parlamento e nas ações executivas.

O eixo central da liderança estratégica de Jair Bolsonaro é nos manter presos ao círculo de debates infrutíferos que ele próprio traça com um pedaço de giz. Em torno dele, da sua verborreia incontrolada, gravitam os partidos, a mídia e as lideranças políticas, incluindo a oposição.

Nesse aspecto, ele busca se diferenciar do político tradicional ou da velha política onde fez carreira e enfiou os filhos.

Esse tipo de hipocrisia movimenta o jogo: afirmar e depois negar ou fazer algo que condena e posteriormente se aproveitar da situação.

Qual presidente ficou tanto tempo sem partido durante o exercício do cargo? A negação das legendas faz parte das táticas. Ele não precisa de siglas para governar, tanto é que usou outros critérios para lotear a gestão entre militares, evangélicos e ruralistas.

Houve a tentativa de criar um partido para chamar de seu – o Aliança pelo Brasil – mas o redemoinho da conjuntura alterou a tática para algo menos trabalhoso e mais pragmático: comprar o Centrão.

Jair Bolsonaro não enganou ninguém. A representação da sua liderança junto ao público cativo, no sentido rigoroso do termo (para designar o escravo preso no cativeiro), decorre de uma absurda sinceridade.

Ele é o que é e ponto final: homofóbico, racista, armamentista, genocida, macho hétero e indiferente ao sofrimento das outras pessoas. Pouco importa se o Brasil foi transformado em necrotério…

O presidente tem um canal direto com o seu eleitorado. Não precisa de intermediários da mídia de mercado. Os conglomerados são periféricos na estratégia da extrema-direita. Servem apenas para repercutir a agenda produzida intencionalmente pelo modo bolsonarista de governar.

Esse processo de repulsa aos meios convencionais fez uma parte da audiência deixar de assistir às instituições sagradas da televisão como o Jornal Nacional e o Fantástico, ambos da Rede Globo, para aderir à aberração Silvio Santos.

O eleitor da extrema direita é fiel sob qualquer cenário ou circunstância. Ele recebe e distribui conteúdo diariamente nas redes sociais. É um trabalhador da mentira, engajado no fanatismo, discípulo da crença, adepto do “mito”.

Durante décadas a academia e os jornalistas críticos escreveram variados livros, dissertações e teses fundamentadas sobre o caráter manipulador e golpista dos grandes meios de comunicação, celebrando o conceito de coronelismo eletrônico.

Bolsonaro conseguiu desmascarar a mídia convencional de forma enviesada, simplificando o discurso com uma hastag: #GloboLixo.

É claro que outros ingredientes estão associados a esse processo, como a poderosa indústria de desinformação utilizada nas eleições de 2018, na vitória de Donald Trump e no Brexit.

Montado no cavalo da insanidade, Jair Bolsonaro vai tangendo o gado.

Com uma só chicotada, ele se desfez da suposta seriedade da mídia lavajatista e da enganosa austeridade de Sergio Moro. Espertamente, o bolsonarismo surfou na onda do jornalismo lavajateiro e do morismo para depois jogá-los no abismo da desconfiança.

E ainda põe na arena os constantes ataques à Justiça, focados no STF, e ao Jornalismo, preferencialmente a Rede Globo, cavalgando sobre os mortos no cemitério da covid19 com o discurso de defensor dos trabalhadores contra as medidas restritivas.

Para o eleitor fanático, a agressividade do presidente funciona como uma espécie de defesa. Ele se comporta como “vítima do sistema da velha política” que não deixa fazer as mudanças.

A vitimização opera tanto quanto a transferência de culpa, atribuída ao “sistema”, “aos políticos”. No caso da pandemia, a culpa é dos governadores e prefeitos.

O eleitorado “fechado com Bolsonaro” representa uma aliança sólida, independente do que puder acontecer de pior: mortes, violência, quebra da economia, desemprego e miséria.

Toda a agenda negativa do governo é refutada pela poderosa indústria da desinformação que abastece diariamente os seguidores da extrema direita com uma gigantesca carga de dúvida sobre os meios de comunicação convencionais.

TVs, jornais, sites e emissoras de rádio são desprezados pelo presidente em sua live semanal, onde ele se comunica diretamente com o seu público.

A operação de guerra nas redes digitais ganha reforço nas ruas, convergindo o virtual e o real no movimento de construção da sua reeleição para completar o trabalho obstruído pelo “sistema”.

O bolsonarismo ainda posicionado na condição de um movimento (e não um regime) prega a liberdade sem limites contra a política, uma espécie de retorno ao estado de natureza ou guerra de todos contra todos, quando vigora o poder da força: os tratores, as motos, as armas…os impulsos.

A estratégia está clara. Ele veio para destruir tudo isso que está aí, eliminando os inimigos artificiais e os reais: os “pedófilos do comunismo”, o STF, o Jornalismo, a esquerda em geral, a Educação, a Ciência, a comunidade GLBT, indígenas, quilombolas e os povos da floresta.

Jair Bolsonaro atravessa a pandemia negando a doença, a Ciência e a vida. Apesar de tudo isso, infelizmente, pode ir ao segundo turno em 2022.

Quem vê no presidente um burro está redondamente enganado. Ele tem uma estratégia e sabe onde quer chegar.

Navegantes da injustiça

Jadeilson Cruz

Graduado em Filosofia e graduando em Comunicação Social/Jornalismo, na Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

De acordo com uma pesquisa do IBGE divulgada em abril de 2021 e realizada no quarto trimestre de 2019, cerca de 78,3% dos brasileiros estão conectados à internet. As pessoas utilizam o espaço virtual para pesquisas, compras de produtos, comentários em portais de notícias, acesso a plataformas e muito mais.

Nem todos que navegam na internet cometem injustiças, mas muitos praticam atos condenáveis. Há pessoas que no convívio social aparentam ser adoráveis e respeitosas; porém, na web, criam perfis falsos e descarregam todo o ódio acumulado. Elas sentem prazer em humilhar e menosprezar os outros.

O maluco da internet pode ser um vizinho, um parente, um professor, um colega de trabalho ou qualquer outra pessoa que você conheça. O ambiente virtual é uma oportunidade para que muitos pairam aquilo que por anos foi gestado odiosamente.

No Livro II da obra A República, de Platão, o personagem Glauco faz referência ao mito: Anel de Giges, ao falar sobre a justiça e a injustiça. Giges era um pastor a serviço do rei da Lídia. Certo dia se apossou de um anel mágico e conquistou o poder da invisibilidade.

Seduziu a rainha e com ela conspirou contra o monarca Lídio, matou-o e assim obteve o poder.

Antes de encontrar o anel mágico, Giges, o Lídio era um homem comum, aparentemente bom e justo, que vivia pacatamente. Também participava mensalmente da assembleia dos pastores, que levantava informações sobre os rebanhos do rei. E quase não era notado pela sociedade.

Glauco é bastante claro ao sugerir que, para o ser humano, a injustiça é muito mais vantajosa do que a justiça. Desse modo, a comparação entre Giges e o internauta não é absurda. O indivíduo que anonimamente, na internet, humilha e menospreza o outro, liberta-se de algo sufocante. No dia a dia muita gente tem medo de se expor e externar os preconceitos que carrega dentro de si. Assim, um perfil anônimo é como um anel mágico que possibilita poderes extraordinários.

A web está empesteada de pessoas raivosas e dispostas a macular a honra alheia. Esses indivíduos atacam os outros simplesmente por não aceitarem o diferente, e assim, invisíveis e poderosos tramam contra os que consideram impuros e indignos de viver na mesma sociedade que eles.

Campanha do MPT alerta para consequências do trabalho infantil

Com histórias de vítimas que guardam sequelas até hoje, campanha que marca o Dia das Crianças (12) reforça: viver a infância plenamente não é privilégio, mas, sim, direito

Para marcar o Dia das Crianças (12), o Ministério Público do Trabalho lançou uma nova campanha nas redes sociais e nas rádios de todo o país que reforça: viver a infância plenamente não é um privilégio, mas, sim, um direito. Com histórias verídicas de vítimas que guardam sequelas até hoje de acidentes ocorridos enquanto trabalhavam na infância e na adolescência, o objetivo da campanha é alertar para as graves consequências do trabalho infantil.

Nos últimos 12 anos o trabalho infantil provocou 46.507 acidentes de trabalho, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde – SINAN. Entre 2007 e 2019, dos mais de 46 mil acidentes notificados, 27.924 foram acidentes considerados graves, sendo 279 fatais.

Para a procuradora Ana Maria Villa Real, coordenadora nacional de Combate à Exploração do Trabalho da Criança e do Adolescente (Coordinfância), do MPT, “essas histórias reais comprovam mais uma vez que o trabalho infantil, para além de roubar infâncias, não é bom, não tem nada de nobre, causa acidentes graves e pode até matar”.

Ana Maria destaca ainda que, “para garantir o direito ao desenvolvimento pleno e sadio, é preciso intensificar a conscientização da sociedade, das famílias e do Estado no sentido de que todas as crianças são iguais, bem como acerca da importância de se dar concretude à doutrina da proteção integral”.

A proteção integral à infância está fixada no artigo 227 da Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente, que asseguram a todas as crianças, adolescentes e jovens, com prioridade absoluta, direitos inerentes à pessoa humana, tais como: a vida, a saúde, a educação, a alimentação, o lazer, a dignidade, o respeito, a cultura, a profissionalização e a convivência familiar e comunitária.

No entanto, Villa Real explica que “existe um abismo entre o direito prescrito e a realidade experimentada por milhares de crianças e adolescentes em todo o país e cabe a todos eliminar o trabalho infantil. O direito à infância é indisponível, portanto, irrenunciável e inalienável”, conclui.

Dados de acidentes e subnotificação – Os dados do SINAN dos últimos 12 anos apontam para uma média anual de 2.333 acidentes de trabalho graves e de 23,25 mortes em decorrência do trabalho infantil, mas o número pode ser ainda maior, uma vez que existe muita subnotificação.

Além disso, dos 27.924 acidentes graves ocorridos com crianças e adolescentes de 2007 até 2019, 10.338 atingiram a mão, causando 705 amputações traumáticas notificadas. Foram 15.147 acidentes com animais peçonhentos e pelo menos 3.176 casos registrados de intoxicação por agrotóxicos, produtos químicos e outros.

“Será que podemos fechar os olhos para esses números e naturalizarmos o trabalho de crianças e adolescentes nas ruas, em lixões, feiras livres e em tantas outras formas igualmente indignas?”, acrescenta a titular nacional da Coordinfância, que considera que os mitos existentes em torno do trabalho de crianças e adolescentes, infelizmente, estimulam a aceitação social de algo que é, em sua essência, inaceitável.

Villa Real pontua que a própria ausência do Estado e de políticas públicas sérias e eficazes incentiva esse ambiente favorável à permissividade do trabalho infantil, num contexto de aparente falta de alternativas para crianças e adolescentes, em sua maioria pobres e pretos. “É como se a construção de uma sociedade livre, justa e solidária não fosse um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil”, ressalta.

A campanha do Dia das Crianças conta com a parceria da Organização Internacional do Trabalho, da Justiça do Trabalho e do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), e dá continuidade ao alerta e à sensibilização promovidos pela campanha realizada em razão do Dia Mundial contra o Trabalho Infantil, 12 de junho, quando houve o lançamento da música “Sementes” de autoria dos rappers Emicida e Drik Barbosa, que diz:

“Se tem muita pressão/Não desenvolve a semente/É a mesma coisa com a gente/Que é pra ser gentil/Como flor é para florir/Mas sem água, sol e tempo/Que botão vai se abrir?/É muito triste, muito cedo/É muito covarde/Cortar infâncias pela metade/Pra ser um adulto, sem tumulto, não existe atalho/Em resumo/Crianças não tem trabalho não”…(trecho da canção)

Siga as redes sociais das instituições parceiras e confira a campanha para marcar o Dia das Crianças, 12 de outubro.

Comunicadores do meio popular e sindical estreiam programa conectando experiências de várias regiões do Brasil

Ed Wilson Araújo

A pandemia isola, mas também junta as pessoas. Com esse sentimento, jornalistas, militantes, ativistas e simpatizantes que fazem parte da Teia de Comunicação Popular e Sindical do Brasil estrearam hoje (15 de julho) o seu primeiro programa quinzenal, transmitido no Facebook.com/TeiaPopular.

Segundo a avaliação dos participantes, o objetivo inicial foi atingido: conectar as experiências de vários cantos do país, reunindo a cada edição os relatos de quem produz conteúdo em blogs, jornais impressos e digitais, sites, agências de notícias, rádios web, emissoras comunitárias e artefatos analógicos, além das transmissões ao vivo nas plataformas das redes sociais.

Com o foco nos segmentos popular, sindical e dos movimentos sociais, o programa tem um nome grande, do tamanho do sonho de quem o faz: “Tecendo a comunicação popular e sindical”.

Na primeira edição participam a apresentadora Claudia Santiago (coordenadora do Núcleo Piratininga de Comunicação – NPC), Kátia Marko (editora do Brasil de Fato no Rio Grande do Sul), Nina Valente (jornalista sindical da Metamorfose Comunicação), Inessa Lopes (redatora no jornal Voz das Comunidades) e Ed Wilson Araújo (professor da UFMA e membro da Agência Tambor), com trabalhos técnicos e apoio de Joka Madruga, Esdras Gomes e Bruno Santiago Alface, companheiros de jornada na Teia de Comunicação Popular do Brasil.

O programa abriu e fechou com música. Entoando Milton Nascimento na letra “Nada será como antes”, a apresentadora Claudia Santiago quis saber “que notícias me dão dos amigos e que notícias me dão de você(?)”. Nessa pegada musical, Inessa Lopes relatou a perseverança do Voz das Comunidades, jornal já consagrado na versão impressa e que agora, devido às restrições da pandemia covid19, está experimentando o formato digital e o desafio das novas tecnologias.

Nina Valente ponderou que a comunicação sindical e popular deve se abrir para os afetos, falar sobre a vida comum das pessoas e não ter medo de tocar em temas como estética, culinária e humor. Ela destacou ainda o papel das atividades culturais na mobilização dos sindicatos. Katia Marko enfatizou o momento da criação do jornal Brasil de Fato, lembrando a participação de várias pessoas emblemáticas na construção da democracia no Brasil, a exemplo de Vito Giannotti, que sempre recomendava o ato de distribuição do jornal impresso como uma ação militante. Ed Wilson Araújo registrou a importância de compartilhar conteúdo, tomando como referência a Agência Tambor e o movimento de rádios comunitárias que atuam conectados a várias iniciativas de comunicação popular e sindical no Brasil.

Futuro e diversidade

A cada programa haverá rotatividade dos participantes, muitos deles ex-alunos dos cursos ofertados pelo Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), organização fundada por Vito Giannotti e Claudia Santiago, que vem se dedicando a formar quadros especializados na comunicação para a democracia.

“Vamos falar sobre o que estamos produzindo e também sobre os nossos sonhos, utopias e o que ainda precisamos alcançar para realmente ter uma comunicação que fale com milhões e alcance corações e mentes”, explicou Katia Marko.

Para Claudia Santiago, cada programa será uma conversa sobre experiencias de comunicação do povo, das trabalhadoras e trabalhadores, dos povos tradicionais originários do Brasil. “A gente vai ter sindicatos, favelas, mulheres, a voz dos quilombos e dos indígenas. Vem conversar com a gente”, convidou.

O jornalista Emílio Azevedo, da Agência Tambor (Maranhão), pontua o programa como um passo adiante na caminhada de tantas companheiras e companheiros que atuam nos meios alternativos pelo país.

A estreia teve agitação nas redes sociais e no encerramento a música “Pesadelo”, de Maurício Pinheiro e Paulo Cesar Pinheiro, com interpretação do grupo MPB4, que diz assim:

Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí


Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã, olha aí

“Acreditar, eu não”

Eloy Melonio

Acreditar ou não acreditar é, hoje, um dos dilemas mais difíceis dos usuários das redes sociais.

Não resta dúvida que “acreditar” é o verbo do momento. Compete com alguns poucos ao posto de “o mais importante” do universo digital. Entre eles, “empoderar” (que só consta em versões atualizadas dos dicionários), “seguir”, “pontuar”… e “coach” (sem versão em português). Este, inclusive, chamou minha atenção numa placa na parede de um prédio que dizia: I am coaching kids.

E assim, numa das acepções do Aurélio, acreditar é “confiar”. E é exatamente aí que mora o problema: confiar em quem, ou confiar em quê?

A torcida do Atlético-MG adotou o lema “Eu acredito” a partir da Copa Libertadores das Américas de 2013. E quando esse grito ecoava nas arquibancadas, torcida e time se fortaleciam para superar situações adversas e se enchiam de confiança na conquista do tão sonhado título inédito. E não é que deu certo!

Não obstante, acreditar, especialmente em coisas veiculadas nas redes sociais, não é tão simples ou seguro. É que hoje pisamos em terreno fértil para a disseminação de notícias falsas. Com o advento da comunicação digital, a verdade anda meio perdida num cipoal de dúvidas e confusão. Mente-se com a cara de pau de um malandro do bar da esquina. Planta-se uma mentira como quem planta uma semente de girassol.

Na propaganda gratuita na TV, a fala solta dos candidatos a presidente se enche de promessas que, sem nenhum filtro, chegam a milhões de lares por todo o país. Não estou dizendo que mentem antecipadamente, mas apenas lembrando que o que dizem hoje já foi dito ontem. Daí a dúvida dos eleitores. Se fizerem 50% do que prometem, nosso país entrará, em apenas quatro anos, para a rol dos desenvolvidos.

Com a mesma percepção, Tadeu Schmidt, apresentador dos Gols do Fantástico (9-9-2018), depois de ouvir algumas promessas do cavalinho do Internacional, forte candidato ao título do Campeonato Brasileiro, retrucou cético: “Qué isso, cavalinho? Parece até candidato!”

Minha inquietação é com a facilidade com que as pessoas, nas famigeradas redes sociais, repassam notícias sem nenhum filtro ou verificação da fonte. As “fake news” viajam na velocidade da luz em todas as direções. É com razão que o poeta detona: “Desconfio que estou ficando louco… /Tanta coisa me passa na cabeça,/ Que se senso me resta é já bem pouco.” (Via-Sacra e Outros Poemas, Marcelo Gama). Parece que o velho bom senso anda mesmo sumido nestes tempos de “passa-repassa”.

Um contato do WhatsApp me enviou um texto, pedindo que eu o repassasse. Respondi-lhe prontamente: “Não creio que este texto seja do juiz Sérgio Moro. Por dois motivos simples: ele não se inclinaria a falar abertamente sobre um assunto tão baixo, e o texto contém erros gramaticais secundários, o que não seria típico de um juiz de sua categoria”. E alfinetei: fake texto é fake news. Sua resposta, curta e seca: “É. Pode ser”.

Esse “pode ser” revela que ele não tinha certeza do que estava repassando. E, mesmo assim, não se limitou a verificar se o texto (e o contexto) fazia mesmo algum sentido. Ao contrário, de forma compulsiva e inescrupulosa, empenhou-se em “repassar” e pedir aos destinatários que fizessem o mesmo. E assim, mais uma vez recorro à poesia para elucidar tal atitude: “Enquanto a mentira berra, a verdade sussurra” (poema “A verdade e a mentira”, de Augusto Pellegrini).

As celebridades ― e agora os “digital influencers” ― gabam-se de ter milhares ou milhões de seguidores, cifras de dar inveja a Jesus Cristo. E com esse poder em seus dedinhos, vendem seus conteúdos (se possível, exagerando) para propagar pontos que visam a empoderar seus contratantes, em geral políticos e partidos. E de tal forma, o poder das palavras (e sua reputação) nunca esteve em tão alta evidência! Hoje todo mundo sabe tudo sobre todo mundo e sobre todas as coisas.

E assim, arrisco-me apenas a, de forma irônica, parafrasear uma citação de Latino Coelho: “De todas as artes a mais influenciadora, a mais empoderada, a mais lucrativa, é sem dúvida a arte da mentira”*.

Recorrendo mais uma vez à poesia, exalto o primeiro verso de um grande samba da saudosa Dona Ivone Lara: “Acreditar, eu não”. Dito isto, seria de bom alvitre se não nos deixássemos enganar por notícias que não têm raízes em fonte fidedigna, no bom senso ou na coerência.

Acredite ou não, confiar no que se lê e no que se ouve por aí está ficando cada vez mais perigoso.

Eloy Melonio é professor, escritor, compositor e poeta

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(*) “De todas as artes a mais bela, a mais expressiva, a mais difícil, é sem dúvida a arte da palavra.” (Latino Coelho, A Oração da Coroa)