Era uma vez um foguete antes da base dos foguetes

Celso Borges

Quando o diretor Glauber Rocha veio a São Luís no final de 1965 para filmar a posse de José Sarney como governador eleito, não havia nenhuma tradição de cinema local, nenhum movimento que pudesse se alimentar ou dialogar, direta ou indiretamente, com o cineasta baiano. A câmera do filme Maranhão 66, foi feita por Fernando Duarte. Nos créditos, ele divide a cinegrafia com Gláuber Rocha.

Isso, por si só, já garantiria uma citação na história do cinema maranhense, mas a importância de Duarte aumenta por que logo depois, em 1968, ele faria a fotografia de um dos primeiros curtas filmados em São Luís, Alcântara Cidade Morta, dirigido por Sérgio Sanz e provavelmente produzido pelo Instituto Nacional do Cinema, segundo o cineasta Murilo Santos.

O texto do curta é assinado por Armando Costa e narrado pelo ator Cecil Thiré. Tem trilha marcante do violonista Baden Powell e mistura imagens de barcos, sobradões antigos e peças sacras do Museu de Alcântara. É interessante destacar que no final do filme, de pouco mais de 10 minutos, aparecem imagens de um foguete da Gemini V * sendo lançado de uma base, que não tem relação alguma com a base de Alcântara, que se estabeleceria na cidade pouco mais de 10 anos depois.

O mesmo Fernando Duarte voltaria a São Luís, em 1977, para dar um curso na área de cinema, a convite de Mario Cella, da Universidade Federal do Maranhão. Este seria o segundo curso na área que acontecia na cidade. Cinco anos antes, nos primeiros dias de ocupação do Laborarte, o engenheiro de som Stênio Gandra, irmão de Cirano Gandra, integrante do departamento de som do grupo, daria uma primeira oficina, além de gravar imagens do prédio do Labô, que acabaram perdidas. 

Em 1976, Mario Cella convidaria o fotógrafo e cineasta Murilo Santos para ficar à frente do recém criado Cine Clube Universitário, que funcionava numa sala da faculdade de Farmácia, no Largo de São João. Quando Fernando Duarte chegou aqui em 1977, sugeriu a mudança do nome para Cine Clube Uirá, homenagem ao primeiro longa metragem gravado em São Luís, em 1972: Uirá: um índio à procura de Deus. O Cine Clube motivou a criação da Jornada Maranhense de Super 8, que depois se transformaria no Festival Guarnicê de Cinema.

Mario Cella foi um personagem importante culturalmente naquele momento. Italiano, chegou ao Brasil na primeira metade dos anos 1960 e em pouco tempo estava ensinando filosofia na UFMA. Na década seguinte foi diretor do CEAC e do DAC, órgãos da UFMA responsáveis pela criação do Coral da Universidade, grupo musical Terra e Chão e do grupo de teatro Gangorra, entre outras ações culturais.

FOTO DESTACADA Gemini V foi o terceiro voo tripulado do Projeto Gemini, realizado em agosto de 1965 , onde pela primeira vez foram usadas células combustíveis como energia para as naves Gemini, antes movidas à bateria. A missão também foi a primeira da história a registrar um eclipse lunar. O voo teve a duração de oito dias no espaço, o dobro da missão anterior. Isto foi possível devido as células combustíveis, que geravam eletricidade suficiente para voos mais demorados, uma invenção fundamental para as futuras missões Apollo. (fonte:Wkipedia)

Natal da discórdia no Maranhão

São Luís às vezes tem traços de Macondo e Sucupira, juntas.

O Circo da Cidade virou borboleta, o Estádio Municipal Nhozinho Santos é um cemitério de dinheiro público, o acervo do Memorial Bandeira Tribuzi está amontoado lá pras bandas do Desterro; e os portais da cidade, aprovados em um rumoroso concurso, nunca saíram do papel. Para completar, a reportagem do jornalista Silvio Martins revelou mais um funeral do erário no coração do Centro Histórico – as reformas no prédio do BEM já consumiram R$ 30 milhões.

Nesse Natal, como será a chegada de Jesus para os índios do Maranhão? E a ceia dos moradores do Cajueiro? Qual presente receberão os quilombolas de Alcântara?

Que futuro terá nossa região metropolitana com a proposta da Prefeitura de São Luís para eliminar 41% da zona rural na revisão do Plano Diretor?

Vamos às respostas.

Há um consenso sobre o extermínio dos indígenas. Bolsonaro (a política de ódio) é o culpado-mor, mas a estrutura oligárquica do Maranhão, firme e forte em todos os governos, dita a ordem da violência no campo para dizimar os povos e as comunidades tradicionais.

Não há como negar a veia progressista do governador Flávio Dino (PCdoB) e o esforço da gestão para melhorar o panorama e os indicadores locais, mas a violência no campo tem a cota de participação da direita eternamente apaixonada pelo Palácio dos Leões.

Para o pensamento político do campo conservador pouco importa se os índios vão morrer de susto, bala ou vício.

Já na dimensão geopolítica, a força do capital internacional passa o trator no Cajueiro para atender à expansão portuária e industrial. Esta, por sua vez, precisa das alterações no Plano Diretor para tirar do meio do caminho a zona rural, como se as comunidades tradicionais estivessem impedindo o “desenvolvimento” do Maranhão.

O prefeito Edivaldo Holanda Junior (PDT), no segundo mandato, opera os interesses das empreiteiras e dos lobistas do mercado de terras para fazer de São Luís um gigantesco “grilo chique”. Não há qualquer diferença entre esse projeto e o de Eduardo Braide (Podemos), deputado federal e líder nas pesquisas de opinião para prefeito de São Luís, em 2020. Ambos são filhos da mesma árvore política.

Existe portanto uma opção clara pela continuidade da modernização conservadora. Assim, os quilombolas de Alcântara podem ter o mesmo destino dos moradores do Cajueiro: tropa de choque, balas de borracha e bombas de efeito moral.

Tudo isso ocorre no mês do Natal, em meio à polêmica sobre o Papai Noel no Centro Histórico de São Luís e críticas reais acerca das políticas culturais do Governo do Estado e da Prefeitura de São Luís.

O melhor de tudo é a divergência. Como é salutar ver opiniões conflitantes sobre o velho de barba branca e roupão vermelho que emociona os ricos da ceia farta e os pobres com as suas limitações.

Jesus Cristo, o homem histórico de carne e osso, combateu os poderosos e pregou justiça. Que ele renasça nos corações e nas nossas palavras neste Natal das discordâncias saudáveis.

Nota do Editor: Texto atualizado às 20h38. Houve um equívoco ao associar o ex-prefeito de Santa Luzia do Tide, Antonio Braide, ao deputado federal Eduardo Braide.

Café e filosofia em Alcântara

Faz muito tempo, na mesa de um bar, surgiram duas questões filosóficas em uma só: “Alcântara não vai ninguém porque não tem nada ou não tem nada porque não vai ninguém”?

Por “nada” e “ninguém” não entenda sentidos pejorativos ou depreciativos. Na pergunta está embutida a torcida, o desejo e a vontade dos frequentadores da deliciosa e encantadora Alcântara para que a cidade seja equipada com investimentos para a geração de emprego e renda aos seus moradores (em primeiro lugar) e opções de turismo, com o objetivo de movimentar a economia e ampliar o fluxo de visitantes na cidade.

“Se Alcântara fosse na Bahia, Caetano Veloso já tinha feito uma canção e davam um jeito de tocar na novela das oito”, dispara um atento observador da cidade.

A dupla questão filosófica acima provoca outra, baseada nas contradições do capitalismo e nas desigualdades que ele é capaz de produzir: Alcântara abriga pessoas analfabetas na vizinhança de uma base de lançamento de foguetes.

Fachada do café com lua cheia em Alcântara

No século XXI a tecnologia da escrita ainda não é acessível para muita gente nas proximidades da base que sedia um dos maiores polos de tecnologia aeroespacial do mundo.

Pois foi neste lugar estranho que aportou o casal Sergio e Lea, entusiastas do Café com Arte, o novo espaço cultural da cidade, ideal para bater papo, degustar petiscos e saborear cachaças e outras beberagens artesanais, além dos cafés especiais.

A casa não é um empreendimento no sentido convencional. Café com Arte oferece, antes de tudo, afeto, estampado no sorriso acolhedor de Sergio e Lea.

O lugar é um mix de cafeteria, cachaçaria e ponto de encontro para conversar, como todo boteco deve ser, no pé do balcão.

Localizado na rua Grande, 76, Centro, o Café com Arte também recebe artistas para voz e violão, recitais literários e audição de boa música. Livros e discos estão à vontade na sala, que dispõe de bancos decorados e duas poltronas.

O casal morou no Rio de Janeiro por umas décadas e mudou para São Luís em busca de tranquilidade, até conhecer Alcântara e o sossego. Aí decidiram montar o Café com Arte.

Cachaças locais e importadas, licores, cafés, biscoitos e docinhos, petiscos rápidos à base de castanha, queijo e azeitona compõem o cardápio. No local não servem refeições e nem cerveja.

Bebida saudável e afeto

Longe de ser um empreendimento com fins lucrativos, segundo Sergio, o local é um ponto de encontro para degustar, saborear e prosear.

O balcão ocupa o cômodo logo  na entrada, cercado de baquinhos e duas poltronas, porque o propósito maior é conversar e desfrutar os sabores etílicos e barísticos da casa.

Entre as bebidas especiais estão pelo menos dois rótulos produzidos no Maranhão: a cachaça Jacobina, de Balsas; e a tiquira Guaaja, produzida em Santo Amaro.

Como todo lugar especial, Café com Arte tem o diferencial administrativo. Sergio, o “antigerente”, não anota nada no consumo dos clientes. Avesso a comandas e planilhas para registrar a consumação, ele diz que o esforço para controlar, cansa! E este verbo, cansar, não é o propósito de ter transferido a sua morada do Rio de Janeiro para São Luís e depois Alcântara.

Ao final da visita, cada frequentador informa o que comeu e bebeu e só então entra a contabilidade de Sergio, sempre confiante na veracidade dos visitantes.

Outro detalhe: o pagamento só é feito em dinheiro. Café com Arte não operacionaliza cartão, porque a burocracia da máquina também não é o propósito, explica Sergio.

Tranquilidade é a filosofia do novo espaço cultural (e seria sideral?!) de Alcântara.

Imagens capturadas na fanpage https://www.facebook.com/cafecomarte.ma/

Floresta dos Guarás e Alcântara recebem cursos de qualificação turística

Os municípios de Cururupu, Bequimão, Guimarães, Porto Rico e Alcântara receberão, a partir desta segunda-feira (16), os projetos “Mais Qualificação e Turismo” e “Regionalização”. A ação que acontece até o dia 20 de abril é uma iniciativa do Governo do Maranhão, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e Turismo (Sectur), e irá beneficiar o Polo Floresta dos Guarás e Alcântara, município pertencente ao Polo São Luís.

“Por determinação do secretário de Estado da Cultura e Turismo, Diego Galdino, estamos visitando todos os polos a fim de medir as atividades turísticas dessas regiões e incentivar a melhoria contínua das atividades turísticas. O programa de Regionalização melhora e estrutura o turismo dos municípios com uma série de ações, uma delas é o Cadastur, que promove a regularização dos meios de hospedagens, com isso, a categorização sobe, assim, os municípios ficam aptos para captar recursos do Ministério do Turismo e da Embratur. Nesta gestão, nós unificados os programas “Mais Qualificação e Turismo” e “ Regionalização” por entendermos que essas atividades precisam andar de forma paralela potencializando o turismo e otimizando os recursos”, explica o secretário adjunto de Turismo, Hugo Veiga.

Os municípios irão receber a equipe da Secretaria Adjunta de Turismo da Sectur com uma agenda de reuniões técnicas, palestras, cursos de qualificação e ações esclarecedoras voltadas para o novo sistema de Cadastro de Pessoas Físicas e Jurídicas do Turismo (Cadastur).

Nos cinco municípios, as pessoas interessadas terão a oportunidade de participar dos cursos de Organização de eventos, Qualidade no atendimento, Como manter um negócio: cama e café, Técnicas para recepção para meios de hospedagens, Qualidade no atendimento em bares e restaurantes, Boas práticas para manipulação de alimentos e Gestão Pública para o Turismo e Projetos Técnicos (este último para servidores públicos).

Regionalização

O Polo Floresta dos Guarás e o município de Alcântara também receberão as ações do programa Regionalização. O programa reúne ações de maneira associada e articulada de incentivo à estruturação dos 10 Polos Turísticos, como reuniões técnicas com gestores e secretários de Turismo e curso de Gestão Pública para o Turismo e Projetos Técnicos. Na oportunidade, também será feita a identificação dos atrativos e das condições de infraestrutura das localidades, servindo de base para conscientização e monitoramento para o remapeamento em 2019.

Fonte: Release Secap

Radialista de Alcântara é autora do texto encenado na Via Sacra

Karina Waleska atua na rádio comunitária Alcântara FM, é graduada em História, tem especialização em Gestão da Cultura e é diretora do Museu Casa Histórica de Alcântara

Fonte: João Filho Portal de Notícias

Fé, amor, devoção e emoção em contraste com um cenário histórico marcaram a tradicional Via Sacra de Alcântara. Crianças, jovens e adultos se reuniram no propósito de recriar o fato mais importante da história do Cristianismo em uma peça cheia de surpresas e comoção. O espetáculo começou no Largo do Carmo e encerrou-se na Praça da Matriz.

Centenas de pessoas percorreram, nesta Sexta-Feira Santa (30), os principais pontos turísticos da cidade histórica de Alcântara atentos a cada detalhe da Paixão de Cristo. A peça foi realizada pela Companhia de Teatro Culturarte com o apoio da Prefeitura de Alcântara.

Para Karina Valesca, escrever a Paixão de Cristo é uma experiência única, que fica para a vida inteira. “Quando a gente começa se aprofunda na história de Jesus é muito emocionante. Aprendemos a ter mais fé a cada dia de estudo. E ver essa história sendo encenada em praça pública é impagável”, destacou a escritora.

De acordo com a espectadora Maria dos Remédios, a Via Sacra é emocionante ainda mais quando apresentada nas ruas de Alcântara. “Os casarões, as ruas de pedras e as ruínas deixaram esse espetáculo mais original. Durante a peça senti que minha fé se renovou, porque foi lindo e cheio de vida tudo que vi”, disse Maria.

Leia o texto integral e veja o álbum de fotos aqui