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Lixo hospitalar é descartado em território quilombola no Maranhão

Ed Wilson Araújo

Localizado à margem da rodovia MA-106, na comunidade Pavão, o lixão do município de Alcântara (a 91km de São Luís) não é só um depósito a céu aberto de resíduos domésticos e dos estabelecimentos comerciais. No mesmo terreno, uma vala contém centenas de ampolas de vidro, sobras de medicamentos, restos de seringas, agulhas e escalpes. Todo o material encontrado está escurecido e agregado de fuligem, indicando que houve o descarte seguido de incineração, ambos irregulares, contrariando as normas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei 12.305/2010, além da nova Lei do Saneamento Básico nº 14.026/2020.

Vala de resíduos contaminantes provoca danos ao solo e às águas subterrâneas. Imagem: Ed Wilson Araújo

O “Lixão do Pavão” é o destino final da coleta realizada pela Prefeitura de Alcântara. Quando o caminhão chega, os catadores de materiais recicláveis, moradores do entorno, sobem no monturo de sacos, rasgam as embalagens e separam o que pode ser vendido, principalmente plástico e papelão.

As sobras de alimentos são disputadas pela população de 12 cachorros e quatro gatos abandonados no local.

Sem luvas, usando um tênis comum, bermuda de tecido fino e blusa de mangas curtas, uma catadora que não quis se identificar reclamou que o material hospitalar era “jogado e queimado” bem próximo aos montes de resíduos domésticos. “A gente reclamou por que tinha vidro e agulhas e nós podia se machucar. Aí colocaram ali mais do lado ”, alertou.

As denúncias sobre o descarte de resíduos hospitalares no “Lixão do Pavão” vieram a público desde 2019, em imagens divulgadas pelo professor e biólogo Alexsandro Mendonça Viegas, doutorando em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental. À época, ele registrou o acúmulo de seringas, agulhas, ampolas e tabletes de medicamentos parcialmente incinerados, a poucos metros do local de trabalho dos catadores.

Registros de 2019 do biólogo Alexsandro Viegas já mostravam o descarte de materiais hospitalares no Lixão do Pavão. Foto: Alexandro Viegas.

“Quando eu fiz a primeira denúncia não havia a vala que encontramos agora em 2026, lotada de resíduos hospitalares incinerados. Fica bem perceptível que houve uma escavação feita por máquina, provavelmente um trator, e abriram uma espécie de cova para despejar o lixo contaminante”, detalhou Viegas.

BURACO NO TRAJANO

A Secretaria de Infraestrutura de Alcântara (Sinfra), responsável pela coleta e destino final dos resíduos sólidos do município, negou qualquer participação no despejo de material hospitalar no “Lixão do Pavão”, mas atestou outras irregularidades. Segundo o secretário Denizar Dias Alves Borges, os resíduos do Hospital Municipal Dr Neto Guterres e das nove UBS (Unidades Básicas de Saúde) do município ficam armazenados temporariamente em um depósito e, a cada quinze dias, em média, são recolhidos e transportados para o povoado Trajano. “Lá, a gente tem um buraco onde depositamos esses materiais hospitalares, incineramos e depois cobrimos de terra novamente”, revelou.

Denizar Borges não informou o local exato do descarte no Trajano. A reportagem percorreu parte do território e conversou com moradores e lideranças locais, mas não há registros do buraco onde haveria a queima de lixo hospitalar na comunidade.

A agricultora familiar e presidenta da Associação do Território Étnico Quilombola de Alcântara (Atequila), Valdirene Ferreira Mendonça, repudia os resíduos no Pavão amparada na certidão da Fundação Cultural Palmares, emitida em 2004, reconhecendo 152 comunidades remanescentes de quilombos. “Todo o território de Alcântara é quilombola. Qual autorização se tem para fazer uma vala no meio de uma comunidade nossa para jogar lixo? Isso é muito mais grave ainda. Cabe ao Ministério Público investigar. A gente vem há muito tempo reclamando e nunca foi tomada uma providência. Não dá mais para aceitar esse tipo de situação. A Prefeitura, a Secretaria de Saúde e a Sinfra precisam dizer onde botam o lixo hospitalar e mesmo que seja no Trajano é um absurdo que não dá para aceitar”, contestou.

Já o depósito onde ficam armazenadas as caixas com seringas, agulhas usadas e outros resíduos é anexo à garagem do hospital Dr Neto Guterres, localizado na rua Direita, no Centro de Alcântara, próximo de padaria, lojas, lanchonete, residências e de uma escola.

Sequência de imagens do depósito no Hospital Municipal Dr. Neto Guterres, que faz o armazenamento temporário, antes do descarte final dos resíduos hospitalares. Fotos: Ed Wilson Araújo

A secretária municipal de Saúde, Jorgeanne Serejo, confirmou o armazenamento temporário no hospital, mas disse não ter conhecimento do destino final. Ela informou que está cogitando fazer o levantamento dos custos de uma empresa especializada no manejo do material contaminante para sugerir uma licitação à Prefeitura de Alcântara; no entanto, antecipou que a receita do município é muito limitada.

Segundo o biólogo Alexsandro Viegas, o manejo e o despejo irregulares oferecem diversos riscos ao meio ambiente, como a poluição do ar durante a liberação de partículas no processo de incineração descontrolada, contaminação do solo e das águas superficiais e subterrâneas, produção de fumaça tóxica, além dos riscos para os catadores e animais em contato com objetos perfurocortantes.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais e membro do Conselho Municipal de Saúde (CMS), Aniceto Araújo Pereira, afirmou que conhece bem o território Trajano e nunca ouviu falar em um ponto de incineração na comunidade. Ao situar a localização geográfica do Pavão, explicou os riscos de infiltração do chorume para o apicum e o manguezal. “Está bem perto e desce tudo para o igarapé do Jirijó, que atravessa as comunidades Santo Inácio, Castelo, Itapiranga, Baixa Grande. Aí escorre até o Jacaré, o porto principal de Alcântara”, detalhou.

LIXÃO CONTRA AS LEIS

O Ministério Público (MP) recebeu em 3 de março de 2026 uma denúncia sobre a situação do descarte de material hospitalar. Segundo o promotor da Comarca de Alcântara, Raimundo Nonato Leite Filho, foram oficiadas a Vigiância Sanitária Municipal, a Sinfra, a Secretaria de Saúde e a Procuradoria Municipal para saber se a Prefeitura tem conhecimento do descarte e se já existe algum procedimento administrativo ou sindicância visando apurar as responsabilidades.

Em setembro de 2018, a pedido do MP, a Justiça condenou o município a encerrar o “Lixão do Pavão” e implantar um aterro sanitário, mas nenhuma medida foi tomada para atender à ordem judicial.

O chamado “lixo hospitalar” é tipificado como Resíduos de Serviços de Saúde (RSS), normatizados pela Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 222, de 28 de março de 2018, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), vinculada ao Ministério da Saúde. A RDC recomenda a implantação do Plano de Gerenciamento dos Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS), “documento que aponta e descreve todas as ações relativas ao gerenciamento dos resíduos de serviços de saúde, observadas suas características e riscos, contemplando os aspectos referentes à geração, identificação, segregação, acondicionamento, coleta, armazenamento, transporte, destinação e disposição final ambientalmente adequada, bem como as ações de proteção à saúde pública, do trabalhador e do meio ambiente.”

Os materiais descartados no “Lixão do Pavão”, segundo a regulamentação da Anvisa, são classificados no Grupo E dos RSS, que inclui “materiais perfurocortantes ou escarificantes, tais como: lâminas de barbear, agulhas, escalpes, ampolas de vidro, brocas, limas endodônticas, pontas diamantadas, lâminas de bisturi, lancetas; tubos capilares; ponteiras de micropipetas; lâminas e lamínulas; espátulas; e todos os utensílios de vidro quebrados no laboratório (pipetas, tubos de coleta sanguínea e placas de Petri) e outros similares.”

Existem pelo menos três formas de tratamento para os RSS, denominadas tecnologias de desinfecção: autoclavagem (por meio de vapor em altas temperaturas); submissão dos resíduos a micro-ondas em alta e baixa frequência, precedido de trituração e umidificação; e câmara de incineração, variando de 800ºC a 1200ºC (graus Celsius).

Lei 12.305/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), determinou a extinção dos lixões em todo o Brasil até 2014.

O Maranhão tem 217 municípios e apenas um aterro sanitário – o Titara. Localizado em Rosário, a 75 Km de São Luís, foi implantado em 2015 e recebe os resíduos coletados de apenas 17 cidades, segundo a Agência Executiva Metropolitana (Agem) do Governo do Estado. As demais, incluindo Alcântara, utilizam lixões a céu aberto, em desobediência à Política Federal de Saneamento Básico, instituída pela Lei nº 11.445/2007, complementada pela PNRS (Lei nº 12.305/2010), atualizada pelo Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020).

Em seu conjunto, as legislações recomendam uma série de medidas para o tratamento dos resíduos sólidos em ambientes adequados (evitando danos ambientais), a valorização da profissão de catador de materiais recicláveis e a extinção dos lixões.

ALCÂNTARA: TEMPO E ESPAÇO

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em Alcântara vivem 171 comunidades quilombolas, ocupando 87.105 hectares. Proporcionalmente, é a maior população de descendentes de escravos do Brasil. Entre os séculos XVIII e XIX, o município foi símbolo do modelo agrário exportador, vinculado ao monopólio colonial de Portugal, através da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão. Grandes fluxos do tráfico de escravos da África para o Brasil tinham como destino as fazendas alcantarenses de algodão e arroz. A parte urbana da cidade concentrava os casarões imponentes, igrejas e sobrados, lugar de moradia da aristocracia rural.

Mas, a crise do mercado internacional de algodão e a Abolição da Escravatura, em 1888, transformaram opulência em decadência. As antigas fazendas, abandonadas pelos barões empobrecidos, transformaram-se em quilombos. Os casarões que ostentavam riqueza, as ruínas, igrejas, sobrados, ruas de pedra e o casario colonial renderam à cidade o título de Patrimônio Histórico Nacional, concedido em 1948 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A partir de 1983, as comunidades quilombolas vêm sofrendo os impactos da implantação de um complexo tecnológico para o lançamento de foguetes, o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), sob a administração da Força Aérea Brasileira (FAB).

O município de Alcântara tem 145.800 hectares e a população total de 18.467 habitantes, segundo o Censo do IBGE de 2022. O CLA ocupou 8.903 hectares, provocando o remanejamento dos quilombolas das suas terras originárias para agrovilas, distantes dos meios de sobrevivência das populações tradicionais. Os conflitos entre a FAB e os modos de vida quilombolas desde os anos 1980 tiveram um desfecho em 2025, quando a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou o Estado brasileiro pela violação dos direitos das comunidades atingidas pela base espacial. Após a sentença, o Brasil fez um pedido público de desculpas às comunidades quilombolas.

NOVO LIXÃO NA AGROVILA PERU

O “Lixão do Pavão” fica à margem da rodovia MA-106, que liga a sede do município ao Terminal Hidroviário de Cujupe (porto de ferry-boat), principal meio de transporte marítimo entre a capital (São Luís) e a Baixada Maranhense. A estrada é também o acesso ao Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) e aos ramais de piçarra das agrovilas.

No caminho da Agrovila Peru, contíguo a uma pedreira, um novo depósito de resíduos a céu aberto está se formando com lixo doméstico, pneus inutilizados, embalagens de produtos industriais e restos de material de construção.

Estrada de acesso à agrovila Peru tem acúmulo de resíduos a céu aberto. Foto: Ed Wilson Araújo

O Centro Histórico (reconhecido como um museu a céu aberto), a cultura quilombola e o litoral de Alcântara, com belas praias, oferecem grande potencial turístico, mas a cidade tem problemas estruturais como o abastecimento de água potável precário e serviço de transporte marítimo em constante manutenção para consertar as embarcações. A única lotérica da cidade foi desativada, obrigando pessoas humildes a se deslocarem até São Luís para fazer pequenas transações bancárias.

Além do transporte por ferry boat, objeto de permanentes denúncias de má operação, outra forma de acessar a cidade é através de um barco e uma lancha que partem do Terminal Hidroviário de São Luís e cruzam a baía de São Marcos (19 km em linha reta). A viagem demora, em média, uma hora e meia e depende do horário das marés.

A pacata cidade fica movimentada nos festejos do Divino Espírito Santo e de São Benedito. Durante as celebrações, nos dias de santos ou nos períodos de eleição, é comum o hábito de soltar foguetes por toda Alcântara, mas a grande agitação, carregada de expectativas, ocorre durante os testes e os lançamentos de veículos aeroespaciais pelo CLA.

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Lixão de Barreirinhas contrasta as belezas naturais dos Lençóis Maranhenses

Ed Wilson Araújo

O luxo.

Uma rápida folheada no cardápio de um dos restaurantes de médio padrão na orla de Atins, o point do turismo sofisticado de Barreirinhas, revela preços estratosféricos de bebidas e alimentos. Uma cerveja de 350ml (long neck) é 20,00; uma porção de pastel sai por 70,00; e um prato para quatro pessoas chega a 675,00. Para sentar e consumir, ao som de música ao vivo, o couvert custa 30,00. Nesse pedaço de paraíso tropical localizado nos Lençóis Maranhenses, algumas diárias de hotéis chegam a R$ 5.000,00.

Esse lugar onde circula muito dinheiro também produz demasiado lixo nas pousadas, resorts, bares e restaurantes. Tudo é transportado em tratores e caminhonetes para a sede do município de Barreirinhas, a 256 Km de São Luís. Em julho de 2024, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses recebeu o título de Patrimônio Natural da Humanidade, concedido pela Unesco.

O inferno.

Diariamente, às 5h30min da manhã, um velho caminhão pau de arara leva um grupo de catadores para o lixão da cidade, uma área de aproximadamente três hectares, degradada, às margens da rodovia MA-225, próximo ao povoado Sobradinho. Eles trabalham entre urubus, calor extenuante, fumaça tóxica asfixiante, contaminantes químicos, odores diversos, carniças disputadas por cachorros esqueléticos, ratos, baratas e moscas aos montes, correndo ainda o risco de serem atingidos por incêndio.

Sem licença ambiental, a Prefeitura de Barreirinhas despeja diariamente 80 toneladas de resíduos na margem da MA-225, segundo a Secretaria Municipal do Meio Ambente.

Transporte precário conduz catadores ao trabalho. Imagem: Ed Wilson Araújo

Sentada no monturo de sacos pretos e outros de variadas colorações, uma mulher forte faz várias operações simultâneas: maneja uma pequena faca e corta as embalagens, espanta a nuvem de moscas no seu rosto e revira tudo à cata das coisas de valor. A alma do capitalismo espalha-se sobre a montanha de resíduos, onde os objetos recicláveis viram mercadoria com preços diferenciados: garrafas pet, plástico filme, latas de bebidas, cobre, papelão, embalagens de papel, alumínio e ferro.

Os primeiros registros sobre o lixão datam de 2004, segundo a pesquisa de Fernanda Maria da Costa Lindoso, graduada em Ciências Biológicas pelo Instituto Federal do Maranhão (IFMA) em Barreirinhas. O depósito de resíduos a céu aberto ficava nas proximidades do Hospital Regional e dos bairros Vila Canaã, Cidade Nova e Residencial Mundico Cosme e era conhecido como “Lixão da Cidade Nova”, objeto de conflitos com moradores devido à fumaça tóxica, moscas, odores e contaminação do solo e da água.

À época, um relatório técnico emitido por pesquisadores do IFMA, após avaliar a qualidade da água dos poços da Vila Canaã, registrou um dado alarmante: “85% das amostras coletadas na estação seca e na estação chuvosa apresentaram contaminação por coliformes totais e todas as amostras que apresentaram contaminação por coliformes também apresentaram contaminação por coliformes fecais”, constatando o perigo de consumo para a saúde humana, atestaram a doutora em Biologia Vegetal Éville Karina Maciel Delgado Ribeiro Novaes e o químico industrial Carlos Augusto Gomes Soares.

VIDA “SOFRIDEIRA”

Em 2022, houve a transferência dos resíduos para o terreno marginal à rodovia MA-225, a cerca de 25Km do Centro de Barreirinhas. No novo depósito não há moradias nem equipamentos públicos nas proximidades, mas a área degradada é flagrante crime ambiental, previsto na Lei 12.305/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, determinando a extinção dos lixões até 2014.

Cerca de 30 famílias trabalham no local. O rosto coberto de fuligem, entre as rugas profundas, guarda as marcas do tempo de serviço de Sebastião Nunes Pereira, o Tião da Reciclagem. Ele explicou que atua no ramo há cerca de 20 anos, desde o lixão de Tutoia, cidade localizada a 70 Km de Barreirinhas. Hoje, além de catador, é sucateiro. Há quatro anos comprou uma caminhonete e passou a empreender – adquire no lixão e vende para os “patrões”, como são denominados os compradores de maior porte. “A nossa vida é sofrideira. Se não trabalhar, não vai”, definiu. A sua esposa, Maria dos Reis, tem 28 anos na reciclagem. “Sou fundadora do lixão de Tutóia, mas aqui em Barreirinhas o lixo dá melhor, tem mais renda”, enfatizou.

Tião da Reciclagem começou a reciclar no lixão de Tutóia. Foto: Ed Wilson Araújo

A jovem Letícia Silva, de 24 anos, afirma estar no lixão desde criança, trabalhando com o seu pai no antigo depósito de resíduos da Cidade Nova. “Aqui é bom, mas cansativo, por causa do sol e da fumaça”, enfatizou. Perguntada sobre o futuro, disse que deseja fazer curso de Fisioterapia para cuidar das pessoas.

Antônio Pereira da Silva tem 40 anos de idade e considera-se um dos fundadores do “novo” lixão, em 2022, à margem da MA-225. A sua esposa, Bernadete Feitosa, de 49 anos, foi junto. O casal tem uma renda média de R$ 4.000,00 com a reciclagem.

Nenhum dos catadores usa EPI (Equipamento de Proteção Individual). Todos manejam pequenas facas para cortar os sacos que chegam despejados pelas caçambas e caminhões de coleta. A triagem é rústica. Consiste em ir para dentro do monturo, revirar os sacos e separar os recicláveis. “A gente aqui faz a limpeza”, explica Feitosa.

O Maranhão tem 217 municípios e apenas um aterro sanitário – o Titara. Localizado em Rosário, a 75 Km de São Luís, foi implantado em 2015 e recebe os resíduos coletados de apenas 17 cidades, segundo a Agência Executiva Metropolitana (Agem). As demais, incluindo Barreirinhas, utilizam lixões a céu aberto, em desobediência à Política Federal de Saneamento Básico, instituída pela Lei nº 11.445/2007, complementada pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010), atualizada pelo Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020).

Em seu conjunto, as legislações recomendam uma série de medidas para o tratamento dos resíduos sólidos em ambientes adequados (evitando danos ambientais), a valorização da profissão de catador de materiais recicláveis e a extinção dos lixões.

Apesar de sofrer discriminação pelo tipo do trabalho, Bernadete Feitosa conta que tem uma vida digna. Com ela e o marido – detalha – outros familiares também vivem da reciclagem: mãe, irmã, sobrinha e cunhados. “Eu comprei um terreno, fiz o muro, construí a minha casa e tenho moto. Tudo do lixão. Se eu tivesse outro serviço não tinha certeza de conquistar essas coisas”, comparou.

REVÓLVER, DINHEIRO E FETO

Quando o sol e a fumaça pesam sobre os corpos exaustos, os catadores buscam abrigo em um barraco improvisado, rodeado de sacos gigantes abarrotados de garrafas pet. É o momento da resenha, do café e da contação das histórias sobre a vida no lixão e os achados inusitados.

A narradora Bernadete Feitosa comanda o fio da conversa, entrecortada pelos outros participantes, revelando fatos diversos. Relatam que certa vez um conhecido político de Barreirinhas chegou desesperado para encontrar um revólver de cabo dourado que estava enrolado em um plástico e foi colocado no lixo da casa dele por engano, pela faxineira. Contam ainda sobre 5 mil reais encontrados em uma caixa de peixe seco. Os donos do dinheiro estariam bebendo em um bar e deixaram a caixa de papelão na calçada, distraídos, quando o caminhão da limpeza passou e recolheu.

Bernardete e Antônio: casa, roupas e motocicleta conquistados no lixão. Foto: Ed Wilson Araújo

Outros ditos dão conta dos achados de R$ 200,00 em uma carteira porta-cédulas e 475,00 em um envelope utilizado para fazer depósito bancário. “O Deus nos acuda mesmo aconteceu no dia que encontraram um feto no lixão. Era polícia para todo lado, um desespero. O corpo ainda estava molinho. Uma tristeza essa tragédia”, confessa Feitosa.

Os catadores, por outro lado, celebram a coleta de objetos de uso pessoal descartados ainda em boas condições de uso, como bolsas, calças, bermudas, sapatos, tênis, sandálias e até aparelhos celulares. “Tudo que eu visto tiro daqui. As minhas roupas de cama também, porque nós recebe doação de enxovais usados das pousadas e hotéis”, mencionou Maria José da Silva, registrando ainda as cestas básicas fornecidas pelos eventos de trilha e rally nos Lençóis Maranhenses.

MUNICÍPIO DESCUMPRIU DECISÃO JUDICIAL

A transferência do depósito de resíduos da área urbana para a margem da MA-225 ocorreu em meio aos protestos de moradores, de iniciativas do Ministério Público (MP) e condenação do município em decisão judicial. Os trâmites remetem ao ano de 2014, quando o Promotor de Proteção ao Meio Ambiente, Urbanismo e Patrimônio Cultural de Barreirinhas instaurou Inquérito Civil para apurar o cumprimento do artigo 54 da Lei nº 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos), que proíbe a destinação ou disposição final de resíduos sólidos ou rejeitos in natura a céu aberto, estabelecendo o prazo de quatro anos (2014) para a extinção dos lixões.

Já em 2018, a Promotoria de Justiça de Barreirinhas instaurou o Inquérito Civil nº 001347-018/2018 com o objetivo de apurar as providências.

Respondendo ao MP, o Município de Barreirinhas informou que realizou o Processo Licitatório nº 008-3766/2013 e contratou a empresa Gestão Ambiental de Projetos e Consultoria Ltda para conduzir a implantação do Plano Municipal de Saneamento Básico (PMSB), efetivado na Lei nº 765, de 07/12/2017. Sobre o despejo dos resíduos a céu aberto, informou que estava realizando a contenção do lixão existente no povoado Santa Cruz e que seria transferido para o Aterro Sanitário, a ser localizado após a comunidade Passagem do Castro.

Apesar das justificativas apresentadas ao MP, a Prefeitura de Barreirinhas não cumpriu a Lei nº 12.305/2010, que mandava extinguir os lixões até 2014. 

Em 2019 o Ministério Público ingressou com uma Ação Civil Pública (ACP) contra o município, requerendo a imediata interrupção do despejo irregular de resíduos sólidos a céu aberto e a construção de Aterro Sanitário, com prazo de implantação em até quatro anos (2023). O município não acatou o Parket, que ajuizou junto ao Tribunal de Justiça para obrigar a gestão municipal a fazer a destinação adequada dos resíduos.

A Justiça julgou procedente o pedido do Ministério Público, condenando o Município de Barreirinhas a:

– Adequar a destinação dos resíduos sólidos conforme os padrões técnicos e sanitários da Lei nº 12.305/2010, no prazo de até 24 meses;

– Encaminhar ao Ministério Público, após 120 dias da intimação, o projeto e cronograma para a execução da medida;

– Prestar contas mensalmente ao Ministério Público sobre o cumprimento do cronograma;

– Prever os recursos financeiros necessários no orçamento municipal a partir de 2022.

O município descumpriu a decisão. Em sua defesa, a gestão alegou ausência de área licenciada para fazer o descarte e solicitou prazo de 120 dias aprovar um projeto de lei na Câmara dos Vereadores, bem como realizar uma licitação para construir uma usina de tratamento dos resíduos, mas nenhuma das medidas foi cumprida.

Ao fim, o Lixão da Cidade Nova foi desativado e o destino final dos resíduos sólidos passou a ser o novo depósito a céu aberto à margem da MA-225.

No entanto, o aterro sanitário está previsto no Plano Municipal de Saneamento Básico (Lei nº 765, de 07/12/2017), constando, na Seção III, a “Adoção do aterro sanitário enquanto solução tecnológica de destinação final dos rejeitos, com sua vida útil de até 20 anos”.

PROBLEMAS E SOLUÇÕES

O documento “Diagnóstico situacional: Inclusão Socioprodutiva de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis do Estado do Maranhão”, produzido pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no Maranhão, no âmbito do Programa Pró-Catadores (PPC), apresenta uma série de indicadores sobre a cadeia produtiva dos resíduos sólidos em 16 cidades do Maranhão, incluindo Barreirinhas.

Segundo o levantamento, a situação dos trabalhadores nos lixões configura violação de direitos em ambientes insalubres, sem uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), submetidos a riscos de acidentes com materiais perfurocortantes, ameaças de contrair doenças de pele ou intoxicação por substâncias químicas e fumaça tóxica, constante exposição a resíduos contaminantes e altas temperaturas geradas pela queima dos rejeitos.

O documento aponta ainda a falta de reconhecimento institucional. “Apesar da sua importância, os catadores ainda são pouco valorizados pelas políticas públicas e pela sociedade, o que limita o acesso aos programas de apoio e financiamento”, explica o diagnóstico.

Entre as 16 cidades mapeadas pelo Sebrae, Barreirinhas figura com médias baixas em quase todos os itens. Embora tenha elaborado o Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (ver página 7 no link), o município não implantou o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) para os catadores, item obrigatório da legislação. Outro dispositivo ausente é o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), destinado a evitar danos corporais e acidentes com os catadores nos ambientes insalubres e precários.

CATADORES ORGANIZADOS

Egresso do lixão, outro grupo trabalha de forma organizada na Associação dos Catadores e Catadoras de Barreirinhas (ACCB), o Shopping da Reciclagem, localizado em um galpão na área urbana da cidade, equipado com máquina de prensa e balança fornecidos pelo Governo do Estado e utilizados para compactar e pesar os recicláveis.

Ex-catadores do lixão migraram para o Shopping da Reciclagem. Foto: Ed Wilson Araújo

O Shopping da Reciclagem recolhe os materiais (garrafas plásticas, papelão e latas de bebidas) com uma triagem prévia dos parceiros do comércio e da hotelaria. “No galpão somos cinco catadores. Toda a renda da associação é dividida e vendemos para os compradores que dão o maior preço. O mercado de resíduo sólido é muito procurado”, esclareceu a vice-presidenta da associação, Josélia Reis.

A Prefeitura de Barreirinhas paga o aluguel e a manutenção do galpão. Fornece também o caminhão para o transporte dos resídios.

Criada em 2018, a entidade tem 32 filiados e registro no CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas). Recentemente, criou o “selo verde” com a identificação “esse estabelecimento tem compromisso com a sustentabilidade”, distinção utilizada para valorizar e estimular as parcerias que fornecem os resíduos.

O secretário municipal de Meio Ambiente de Barreirinhas, Ronald Augusto Sousa Rocha, o Ronin, explica que o Shopping da Reciclagem serve como referência para retirar os catadores do lixão. “O objetivo da prefeitura é concentrar todos os catadores no galpão, transformar o lixão em área de transbordo e transferir os resíduos para o aterro sanitário de Titara”, detalhou.

Até agosto de 2025 o município recebeu cerca de 250 mil turistas, mas a gestão ainda não implantou a coleta seletiva, informou o secretário.

MAIS TURISMO, MENOS SANEAMENTO

Para o doutorando em Geografia Humana pela USP e membro do Lepeng (Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia), da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Giovanny Castro, “o crescimento populacional e o avanço do turismo transformaram Barreirinhas, porta de entrada do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, em um retrato das contradições brasileiras”. Com base no IBGE, ele detalha que entre 1993 e 2022 a população do município aumentou 251%, saltando de 18,6 mil para 65,5 mil habitantes.

O pesquisador interpreta a situação como um exemplo de expansão do turismo sem planejamento e políticas públicas eficazes, acentuando desigualdades com a degradação de áreas ecologicamente sensíveis, em desobediência à Política Nacional dos Resíduos Sólidos.

Área do novo lixão de Barreirinhas tem fogo e fumaça permanantes. Imagem: Giovanny Castro

“Barreirinhas ainda não conta com rede de esgoto e destina seus resíduos a céu aberto. Novos empreendimentos como pousadas, resorts e hotéis sobrecarregaram uma estrutura já frágil”, enfatizou.

O conflito entre a localização de lixões e a resistência das populações adjacentes revela o fenômeno conhecido como “nimby”, iniciais de not in my backyard (“não no meu quintal”), utilizada para repudiar instalações predatórias e insalubres em vizinhanças de moradias urbanas ou do campo.

O acúmulo de resíduos a céu aberto também contamina o solo e as águas subterrâneas pela produção de “chorume” – o líquido oriundo da decomposição da matéria orgânica, de grande potencial poluidor.

ALTERNATIVAS AOS LIXÕES

Uma das formas de amenizar o destino final dos resíduos está em curso por meio da Secretaria de Estado do Trabalho e Economia Solidária (Setres), que pretende implantar 11 Centros de Triagem e Reciclagem (CTR) no Maranhão. “O equipamento terá um galpão de 1050 metros quadrados, veículos elétricos para fazer a coleta, esteira seletiva, triturador, prensas hidráulicas para papel, plástico e alumínio e balanças digitais de precisão. O investimento total é de R$ 25 milhões, com recursos oriundos do governo federal, através do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)”, explica o titular da Setres Luiz Henrique Lula.

Os CTRs têm parceria do Sebrae, através do Programa Pró-Catadores, responsável pela capacitação em planejamento e gestão de negócios, marketing e logística, com o propósito de ensinar os beneficiários a precificar os produtos e administrar os empreendimentos.

Barreirinhas é uma das cidades programadas para receber um dos 11 CTRs. “Eu já encaminhei a documentação de um terreno específico, no local onde funcionava o antigo lixão, na Cidade Nova”, enumerou Ronald Rocha (Ronin). Ele acrescentou que outras medidas como a implantação de um ecoponto no povoado Santo Inácio (próximo de Atins) e de miniecopontos nas escolas municipais estão nos planos da prefeitura.

Segundo a Setres e a Sema de Barreirinhas, o objetivo comum é tirar os catadores dos lixões, qualificá-los para operar no circuito empreendedor dos recicláveis e fechar os depósitos de resíduos a céu aberto.

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Crime! Ambientalistas denunciam lixão na APA do Itapiracó

Uma grande quantidade de resíduos sólidos foi encontrada por um grupo de ambientalistas dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) do Itapiracó, na ilha de São Luís.

O território completou 28 anos de existência e é uma das poucas áreas protegidas na região metropolitana, estendendo-se pelos bairros Cohab, Cohatrac e Parque Vitória, no município de São José de Ribamar.

As imagens são do dia 27 de julho de 2025 e foram capturadas durante uma caminhada educativa (passarinhada) organizada por integrantes do Movimento Jardim Calçada Verde (MJCV), que cuidam da área com diversas atividades educativas.

O lixão está próximo dos bairros Alto do Turu, Terra Livre e Canudos, no grande Parque Vitória (São José de Ribamar).

Fica aqui o alerta para os órgãos de fiscalização e controle acerca do grave dano causado aos recursos naturais pelo acúmulo de lixo dentro de uma área de preservação, configurando crime ambiental.

Dentro da APA existem nascentes de rios e riachos, diversas espécies de plantas, pássaros, animais de pequeno porte e uma rica biodiversidade.

Todo o território é de uma expressiva importância para a qualidade de vida não só dos moradores dos três bairros mencionados, mas para toda a ilha de São Luís.

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Operação da PF, Ibama e Exército interdita três serrarias próximas de áreas indígenas no Maranhão

Três serrarias são interditadas por ação integrada entre órgãos de controle ambiental e de segurança pública

Uma operação conjunta, realizada entre os dias 14 e 16 de outubro, interditou serrarias no município de Zé Doca, a 302Km de São Luís. A Operação Verde Brasil 2 foi realizada pela Polícia Federal, IBAMA e Exército, com o apoio da Capitania dos Portos do Maranhão, Batalhão de Policiamento Ambiental e Corpo de Bombeiros do Maranhão.

Três serrarias, localizadas no entorno das Terras Indígenas Awá e Alto Turiaçu, foram interditadas, nove fornos foram inutilizados, dois caminhões com madeira pronta foram apreendidos nas proximidades, seiscentos metros cúbicos de madeira em tora foram apreendidos e inutilizados, além de setenta e dois metros cúbicos de madeira serrados.

O setor de inteligência da Polícia Federal foi o responsável por localizar as serrarias. Os criminosos identificados são reincidentes e vão responder pelos crimes ambientais e por receptação.

As ações integradas continuarão e visam o combate a crimes ambientais. A Operação Verde Brasil 2 é coordenada pelo Ministério da Defesa. Está no escopo do Conselho Nacional da Amazônia (CNA), em apoio aos órgãos de controle ambiental e de segurança pública.

Texto e imagem: Comunicação Social da Polícia Federal no Maranhão / cs.srma@dpf.gov.br

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Milhares de peixes mortos encalham na praia de Santo Amaro, nos Lençóis Maranhenses

Uma imensa faixa de areia na orla de Santo Amaro vem registrando desde quarta-feira (10) uma quantidade expressiva de peixes mortos. Segundo a narração do vídeo enviado ao blog, a “mancha” de peixes em estado de decomposição ao longo da praia alcançaria cerca de 10 Km.

Narrador faz referência também aos peixes mortos dentro d’água
Ao fundo, dois barcos fazem arrastão no mar dos Lençóis Maranhenses

Ambientalistas de Santo Amaro informaram que a mortandade dos peixes é provocada pela pesca de arrastão, modalidade que prioriza peixes e camarão de médio e grande porte, eliminando as espécies menores, denominadas “arraia miúda”. Os agentes ambientais também identificaram uma tartaruga marinha morta, na praia da Travosa, próximo à Barra da Baleia.

Localizada a 235 Km de São Luís, na área do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (PNLM), Santo Amaro é uma das cidades mais procuradas pelos turistas devido ao conjunto de dunas, lagoas e praias que se estendem ao longo de mais três municípios integrantes do PNLM: Barreirinhas, Paulino Neves e Primeira Cruz.

Tartaruga marinha com a nadadeira mutilada foi encontrada morta na Travosa

Contatado pelo blog, o servidor do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e chefe do PNLM, Lucas Garcez, confirmou a versão dos ambientalistas. “É a pescaria de arrasto do camarão. Barcos não autorizados fazem a pescaria indevida e esse tipo é extremamente agressiva pois provavelmente está sendo feita em faixa não permitida”, esclareceu.

O chefe do PNLM acrescentou que a fiscalização ocorre em parceria com a Capitania dos Portos para que o processo de autuação das embarcações seja realizado. “Fizemos os registros e vamos repassar à Capitania dos Portos para identificar as embarcações. Então serão autuadas e se forem reincidentes terão a embarcação apreendida”, detalhou Garcez.

Na mesma região onde os peixes mortos apareceram houve o registro de manchas de óleo e dos misteriosos “caixotes emborrachados”, em outubro de 2019, à época identificados por ambientalistas do grupo Amigos do Parque, sediados em Santo Amaro. Reveja aqui