Horror e esplendor nas caminhadas de Walt Whitman pela América

Para ler e ouvir. O poeta Celso Borges resenha e interpreta trechos da obra Dias exemplares, do escritor Walt Whitman, fundador da poesia moderna americana com Folhas de relva. Ao navegar na leitura de Dias exemplares, Borges encontra a catarse de WW nas páginas de um livro em que o autor relata os horrores da Guerra de Secessão e posteriormente as belezas naturais dos Estados Unidos

Veja abaixo a resenha e ouça os trechos de Dias exemplares

Celso Borges

Andei tateando esperança nos últimos dias e a encontrei depois de um café com afeto na casa do amigo Fernando Abreu. Ela estava num pequeno livro que ele me emprestou, Dias exemplares, reunindo os diários de Walt Whitman (1819-1892) sobre suas caminhadas pela América do Norte no século 19, entre 1863 e 1882. A radiografia telúrica dos passos do bardo libertário pelos Estados Unidos está numa linda edição numerada, de 2019, da editora Carambaia, com tradução e posfácio de Bruno Gambarotto.  

Na época em que esses diários foram lançados pela primeira vez, em 1882, eles foram recebidos como um volume gêmeo de Folhas de relva, obra fundadora da poesia moderna americana, que Walt Whitman praticamente reescreveu durante toda a vida. Publicado inicialmente em 1855, Folhas de relva teve outras seis edições, a última delas em 1881.

Dias exemplares começa em 1863 como um projeto de narrativa sobre a Guerra da Secessão (1861-1865), que aboliu a escravatura nos Estados Unidos, mas matou milhões de americanos. Naquele momento, Whitman é, nas palavras de Bruno Gambarotto, “o enfermeiro (wound-dresser), bardo instalado no coração do país dilacerado para cuidar de suas chagas, que substitui o poeta provocador de 1855, o sábio de 1856 e o dândi desiludido de 1861”.

Livro traduz guerra e paz na escrita de Walt Whitman

A guerra devastou o país. Whitman percorre acampamentos, hospitais e enfermarias, de norte a sul, visitando e conversando com os soldados, muitos deles próximos da morte. Quase toda a primeira parte do livro relata esses dias dolorosos e posso, por isso, chamá-los de Diários de Guerra. A forma como o poeta trata e acompanha os americanos feridos é comovente. Whitman fala com ternura com alguns deles, leva-lhes conforto, às vezes um pedaço de biscoito, uma flor, frutas, doces. Outras vezes escreve para os parentes dos soldados. Todo esse sentimento se transfere para a prosa demasiadamente humana, que percorre as páginas do diário.

A verdadeira guerra nunca entrará nos livros, anuncia o poeta na página 139:

Os anos do futuro jamais conhecerão o inferno fervilhante o negrume do pano de fundo infernal das incontáveis cenas menores e interiores da Guerra da Secessão; e é melhor que não o conheçam – a guerra real nunca entrará nos livros. Nas influências piegas dos tempos atuais, também, a atmosfera nervosa e os eventos típicos daqueles anos correm o risco de ser totalmente esquecidos. Passei noites em vigília ao lado de um homem doente no hospital, alguém que não sobreviveria muitas horas. Vi seus olhos brilharem e arderem enquanto se levantava e recobrava as crueldades infligidas ao seu irmão rendido e as mutilações do cadáver depois…….

Essa foi a guerra. Não foi uma quadrille em um salão de baile….

Whitman adoece durante a secessão, tem crises de fraqueza, tontura. Isso se intensifica nos anos seguintes, culminando com um derrame cerebral, em 1873, que o deixa coxo. 1874 e 1875 são dois anos difíceis, de recuperação lenta, mas que traz bons resultados. O poeta passa semanas a fio, meses inteiro no campo, num local recluso e rural ao longo do riacho Timber, afluente do rio Delaware. Ali fica na casa dos amigos Stafford, entre o riacho, campos e trilhas próximas.

Do horror ao esplendor

Whitman não voltará a se locomover como antes, mas retoma, em 1876, suas caminhadas e, com ela, a segunda parte dos Dias exemplares, que nomeio como Diários da Natureza. Neles, saúda a exuberância da paisagem americana, viajando e passeando nos seis anos seguintes, entre lagos, montanhas, vales e pradarias. A pé, de barco ou de trem, atravessa a América com seus rios volumosos, entre eles o Mississipi e o Delaware, sob o manto de estrelas cintilantes em meio às constelações de Orion, Ursa maior, Escorpião, Touro, a Aurora Boreal, a rubra Aldebarã e outros quadrantes de luz.

Walt Whitman pousa o corpo e os olhos na América rural. No contato com a natureza, busca recuperar o vigor perdido nos anos anteriores. O que tem à frente durante os longos passeios é o espetáculo maior da mãe terra com suas revelações de luz, brisas de setembro roçando as copas das arvores. Ora ouve um passarinho cantando ao longe embalado pelo silêncio ao redor, ora vê deslumbrado um arco-íris se levantando no fundo do céu quando o vento mudou de direção e as nuvens rapidamente se abriram como cortinas.

Tudo parece divino nesses dias exemplares. Deslumbrado, o poeta é capaz de ouvir grilos e gafanhotos a 200 pés de distância, enquanto se veste de sombras entre álamos, nogueiras e carvalhos no exercício de sua prosa diária. Toma banhos nus e solitários e enumera listas de flora e fauna, que ouve e vê no corpo colorido e libertador da natureza que o cerca. Na página 214 saúda as flores silvestres:

… oceanos delas dão contornos às estradas através dos bosques, demarcam os limites dos cursos d’água, crescem ao longo das antigas cercas e espalham-se em profusão sobre os campos. É muito comum ver uma flor de oito pétalas amarelo-ouro, clara e brilhante, com um tufo marrom no centro, quase tão grande quanto um meio dólar de prata; ontem em um longo percurso, observei que elas ocupavam densamente as margens dos riachos por toda a parte. Há também um lindo mato coberto de flores azuis (o azul das velhas xícaras chinesas bastante estimadas por nossas tias-avós), que sempre paro para admirar… Deixe-me dar os nomes de algumas dessas flores perenes e ervas amigáveis que conheci por aqui em uma ou outra estação em minhas caminhadas:

Azaléia silvestre, madressilva silvestre, rosas silvestres, varas-de-ouro, erva piolheira, açafrão da floresta, lírio do charco, trombeta, manjerona cheirosa, ageratina, selo-de-salomão, erva cidreira, hortelã, gerânio silvestre, heliotrópio silvestre, bardana, dentes-de-leão, feiterinha, coreópsis, ervilha silvestre, madressilva, sabugueiro, caruru-de-cacho, girassol, camomila, violetas, clemátis, sanguinária, magnólia, asclépia, margarida silvestre, crisântemo silvestre.

Enquanto lia as páginas desse Dias Exemplares, tentei de alguma forma me transportar para a exuberância daquela luz que aquece o corpo do poeta enquanto ele ouve os assovios que o circundam e o embalam e sente na pele os ventos americanos. A intensidade dessa percepção, tanto da guerra quanto da natureza, me levou a gravar algumas páginas desse diário, me aproximando mais uma vez do espírito poético desse artista que descobri no começo dos anos 1980, traduzido por Geir Campos, num pequeno volume da coleção Cantadas Literárias, da editora Brasiliense.

A partir desse encontro, WW tornou-se para mim uma referência cada vez mais libertadora do verso livre que ele inaugura e que se seria um instrumento importante e definitivo para a poesia que se espalhou pelo mundo no século 20.

Áudios do horror: Diários da Guerra

Um soldado de Nova York

A morte de um herói

Um soldado ianque

Áudios do esplendor: Diários da Natureza

Pequenas cenas de outono

O céu – dias e noites – felicidade

Dias e noites do verão maduro

Melhor vista das cataratas do Niágara

Calor em Nova York

Imagem destacada / divulgação / Walt Whitman / capturada neste site

O machado afiado da poesia e do reggae em canção e clipe

Os poetas Fernando Abreu e Celso Borges juntaram seu amor ao reggae e a música de Bob Marley para fazer uma versão livre da canção Small Axe, do cantor e compositor jamaicano.

O reggae Machado Afiado foi gravado no mês de junho e virou clipe pelas mãos de Inácio Araújo, da Carabina Filmes. O lançamento acontece no próximo sábado.

Na primeira etapa do projeto, em junho, os poetas gravaram a parceria no Estúdio Zabumba Records. A produção musical foi assinada pelo percussionista Luiz Claudio que, também, tocou na sessão. Fernando Abreu fez os violões e dividiu os vocais com Celso Borges; Jesiel Bives tocou teclados e baixo; e George Gomes, bateria. Jailton Sodré gravou, mix e masterizou a faixa.

No mês seguinte, a dupla saiu às ruas, acompanhada pela câmera de Inácio Araújo, da Carabina Filmes, e gravaram imagens na Praia Grande. A edição final do clipe terá também a participação especial do artista plástico Edson Mondego tocando berimbau.

“Nos divertimos muito nas gravações, tanto no estúdio quanto nas ruas do centro. A gente sabe que não é cantor nem tem pretensões de seguir carreira ou algo parecido.  Machado Afiado é antes de qualquer coisa uma homenagem a Bob Marley, um  cara que admiramos muito”, afirma Celso Borges.

Para o poeta Fernando Abreu “o reggae e Bob Marley estão misturados com a poesia da gente desde o começo. Estamos muito felizes de cantar uma letra que é uma leitura livre mas reverente de um poeta do povo, que sempre será farol e referência”.

MACHADO AFIADO

Versão livre de Fernando Abreu e Celso Borges
Para a música Small Axe, de Bob Marley

Se é tarde eu não sei
Resistimos
Somos Davi
Se você é Golias

A gente vai pra cima de ti
É inútil fugir
Tu queda é pra já
Cadê tua coragem?

Você me dá pão e circo
Querendo se dar bem
Mas o pau que dá em Chico
Dá em Francisco também

Você cavou sua cova
Se envenenou com seu ódio
Eu já disse e vou repetir
Sai fora, man
Sai fora
É capoeira pra cima de ti
Não corre man
Não corre

Você me dá pão e circo
Querendo se dar bem
Mas o pau que dá em Chico
Dá em Francisco também

Poesia em convulsão: livro reúne 70 autores brasileiros contemporâneos

Organizado pelo poeta e ensaísta Manoel Ricardo de Lima, Uma pausa na luta traz poemas dos maranhenses Celso Borges e Josoaldo Lima Rêgo, além de Ricardo Aleixo, Thiago E, Micheliny Verunschk, Júlia Studart, Fabiano Calixto, Ruy Proença, Anitta Costa Malufe, Ramon Nunes Mello, Tarso Melo e Heitor Ferraz, entre outros. 

A partir da reflexão de Pasolini, de que “uma pausa na luta” é também a possibilidade de “reavaliação da luta”, este ajuntamento de poetas e poemas se propõe a reinventar a luta, como uma deriva suspensa do tempo e da história, tentando dizer outras coisas, algumas esperanças contra o diletantismo das circunstâncias atuais. 

“Como reavaliar a vida com força e sem tanto luto, propondo apenas uma filigrana de pausa na luta?” é uma das perguntas que o organizador do livro, Manoel Ricardo de Lima, faz no prefácio da obra, que ele faz questão de afirmar que não é uma antologia, mas uma convulsão.

Uma pausa na luta sai pela Mórola Editorial e está à disposição para download gratuito pelo link  https://morula.com.br/produto/uma-pausa-na-luta/

Manoel Ricardo de Lima é professor da UNIRIO e publicou, entre outros, Falas Inacabadas [com Elida Tessler], Pasolini: retratações [com Davi Pessoa] e Geografia Aérea. Organizou A visita [com Isabella Marcatti] e A nossos pés.  Coordenou a edição da obra completa do poeta português Ruy Belo no Brasil [7Letras] e coordena a coleção Móbile de mini-ensaios [Lumme Editor]. 

pausa

drible no grito

quase

matar o corpo osso a osso

pele a pele

músculos no exílio

nus nós cegos

e desatarmo-nos em praça pública

depois de pendurados

nas agonias do limbo


pause

imagens perdidas do último capítulo da série de sucesso

amarrar o voo das abelhas inclusive o mel

pisar no eco, talvez

o ovo em pé inevitável

quebrá-lo no ar

e refletir

onde se aloja o amado medo

marcado pelo suor de deus


fuga do front

embrulhar com zelo o pacote da pancada futura

pensar que seria um erro fazê-lo agora

sim ao pouso do pássaro acima do chão

por enquanto

não tremer


trégua sem trégua


rigidez e leveza

aceitar que o poema pode ser inútil

intervalo para o último assalto

tomar de assalto o ventre do ringue

antes do nocaute

pensar melhor fora da cabeça

peixe fora do aquário

quase

respiração suspensa

até o segundo final

antes de subir à tona

e soprar o pulmão do mundo

                                   celso borges


Quase a forma

não escrita

A voz

disposta na calçada

e esquecida


Vida pra quem respira

nos intervalos

josoaldo lima rego

Literatura para ouvir: a encantaria de “Remédios, a Bela”

Das entranhas do clássico “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez, a personagem Remédios, a Bela é apresentada em três narrativas na voz do poeta Celso Borges.

No primeiro áudio o trecho do livro discorre sobre a beleza deslumbrante de Remédios, a Bela, a ponto de levar os homens à igreja com o único propósito de ver o rosto dela, que fora proclamada rainha.

Em seguida a narrativa avança sobre a repulsa da personagem diante dos ditames da moda. Enquanto as mulheres “normais” se preocupavam com vestidos e espartilhos, Remédios, a Bela costurou uma batina de estopa “sem abandonar a impressão de estar nua”.

Deixo para a sua audição o detalhe sobre os cabelos da personagem e o seu perfume natural…

A terceira gravação acompanha a evolução de Remédios, a Bela para outra dimensão da realidade, quando ela em carne e osso passa por uma transmutação.

Essa é a segunda série de gravações da obra “Cem anos de solidão” na voz do poeta Celso Borges. Ouça a primeira no link abaixo.

Celso Borges na companhia de García Márquez

Imagem destacada / capa do livro Cem anos de solidão capturada neste site

Livrinho ouve o silêncio do BOI

BOI reúne poemas e letras de música que o poeta Celso Borges escreveu, principalmente, nos últimos dez anos. Obra tem o projeto gráfico de Isis Rost e faz parte da coleção Livrinho também é livro, da editora Passagens.

O poeta e letrista Celso Borges homenageia o boi do Maranhão no primeiro ano em que essa manifestação não estará nas ruas e arraiais da cidade, por causa da pandemia do corona vírus.

“Este livrinho nasce dessa não voz, ou da poesia dessa voz na memória, ou do afeto que vislumbro a partir da falta do boi e suas zoadas essenciais”, afirma o escritor que tem ligação com o bumba-meu-boi desde criança, quando via e ouvia os grupos se apresentarem em frente à sua casa, no Largo de São João, centro da cidade.

BOI é o terceiro trabalho da coleção Livrinho também é livro que estreou com A rua morta (Luís Inácio Oliveira), seguido de O declínio da narrativa (Isis Rost). Assim como os dois primeiros livrinhos, BOI vai sair também no formato digital.

“É claro que a gente quer publicar esses trabalhos no papel, mas por enquanto eles estão disponíveis de forma gratuita apenas virtualmente”, afirma Isis Rost, da editora Passagens, que já publicou, além das obras dessa coleção, quatro outros livros: Penúltima Página (Zema Ribeiro); O Risco do Berro – Torquato, neto, Morte e Loucura (Isis Rost), Vaia de Bebo Não Vale (Helen Lopes) e Ruminações – cultura e política (Flávio Reis), todos em 2019.

A capa de BOI foi feita a partir de um quadro do pintor Ciro Falcão, da geração de artistas plásticos maranhenses que começou a expor nos anos 1970. As outras páginas do livrinho trazem ilustrações, quadros e fotos de vários artistas nacionais e internacionais, entre eles Pablo Picasso, Cícero Dias, Aldemir Martins, Marcos Palhano, Ribamar Rocha, Militão dos Santos e J. Borges.

BOI

Livro de Celso Borges

Projeto gráfico de Isis Rost

56 páginas, editora Passagens

A partir do dia 20 de junho, disponível gratuitamente

No site da editora: https://editorapassagens.blogspot.com/

O bloco de Sérgio Sampaio ainda está na rua

Texto de Celso Borges, poeta e jornalista

São Paulo, primeiro semestre de 1994. Subo a Rua Abílio Soares, no bairro do Paraíso, em direção à Avenida Paulista. Passo na porta do Café Paris, ou seria o Barnaldo Lucrécia? A memória falha, mas isso não tem importância, porque lembro perfeitamente o cartaz na porta: “Sérgio Sampaio, show dia 14 de abril”. Seria dali a duas semanas. Meu coração bateu no brilho dos olhos. Finalmente poderia ver um cara que eu amava apenas no radinho de pilha. Queria chegar perto dele depois do show, talvez, e pedir um abraço. Não aconteceu. Na semana seguinte fui comprar o ingresso e o show tinha sido transferido, sem previsão de data.

A verdade do adiamento é que Sérgio Sampaio estava morrendo. Um mês depois, em 15 de maio, foi embora, vítima de cirrose hepática. Ficou um vazio duplamente presente pelas duas ausências. O show e o abraço que não tive, além do silêncio do corpo do artista para sempre.

Essa tristeza foi substituída poucos anos depois pela enorme alegria ao ouvir Zeca Baleiro cantando Tem que acontecer, uma canção belíssima que invadiu deliciosamente rádios do Brasil inteiro e trouxe de volta a alma e a voz do compositor popular.

Não fui eu nem Deus

Não foi você nem foi ninguém

Tudo o que se ganha nessa vida

É pra perder

Tem que acontecer, tem que ser assim

Nada permanece inalterado até o fim

Foi Zeca, sem dúvida, o grande responsável pela valorização de Sampaio. Pouco tempo depois, Mazolla produziria o CD Balaio do Sampaio, uma coletânea de suas músicas cantadas por vários artistas da MPB. Foi ali que ouvi pela primeira vez Meu pobre blues, composição de Sérgio em “homenagem” a seu conterrâneo de Cachoeiro do Itapemirim, Roberto Carlos. Sampaio sempre tentou, em vão, que Roberto cantasse uma música dele, mas o rei do iê-iê-iê não tinha olhos para ver e ouvir as verdades de quem teve coragem de dizer versos tão comoventes, ironicamente interpretados no disco pelo parceiro Erasmo Carlos.

Meu amigo,

Foi inútil…

Eu juro que tentei compor

Uma canção de amor

Mas tudo pareceu tão fútil

E agora que esses detalhes

Já estão pequenos demais

E até o nosso calhambeque

Não te reconhece mais

Eu trouxe um novo blues

Com um cheiro de uns dez anos atrás

E penso ouvir você cantar

Mesmo que as mesmas portas

Estejam fechadas

Eu pretendo entrar

Mesmo que minha mulher

Depois de me escutar

Ainda insista

Que você não vai gostar

Mas a homenagem mais importante viria em 2010, quando Zeca Baleiro produziu e lançou o disco Cruel, reunindo oito canções que Sampaio tinha registrado em voz e violão num estúdio em Salvador pouco tempo antes de morrer, além de outras composições resgatadas de uma velha fita cassete. Baleiro colocou uma banda acompanhando o artista, um trabalho arriscado e difícil de fazer, mas cujo resultado final valeu a pena.

Semana passada recebi a mensagem de um amigo do Rio de Janeiro, o poeta e diretor de teatro, Sidnei Cruz, sugerindo um vídeo com o último show gravado de Sérgio Sampaio, em 1993, na Universidade Federal do Espírito Santo. Não tenho palavras. Vê-lo cantar me passa uma verdade tão grande, que compreendo claramente porque Eu quero botar meu bloco na rua, sua composição mais conhecida, sempre me causou tanta emoção desde a primeira vez que a escutei num radinho de pilha no programa Quem manda é você, de Zé Branco, na Difusora AM, em 1972.

Essa canção me joga em outras imagens, que também me atravessam e me comovem. Um pequeno trecho de um show de Sérgio Sampaio, em maio de 1993, organizado pela gravadora Phonogram, no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo. O compositor capixaba se apresenta de cabelos compridos, veste uma espécie de tapete colorido como casaco, calça boca de sino e uma faixa amarela na cintura. Como um dândi, um arlequim, um antibobo da corte, corpo e alma sentindo a vida com a profundidade dos grandes artistas. Canta e toca sentado, passa a mão nos olhos, levanta em transe, continua cantando, dança, se contorce e bota o bloco na rua. Há algo ali maior que tudo.

Fotos/Divulgação (selecionadas no Google por Celso Borges)

Literatura para ouvir: fragmentos de García Márquez em áudio

Tudo começou quando o poeta Celso Borges postou em uma rede social que começaria a reler “Cem anos de solidão”, obra clássica do escritor colombiano Gabriel García Márquez.

Eu também queria revisitar a obra, mas estava impedido pela pandemia de buscar meu livro na antiga casa da minha família, no bairro Apeadouro, guardado em alguma caixa ou armário que eu demoraria a encontrar.

Ainda sou do tipo fissurado em livro de papel e não tenho o hábito de ler grandes obras literárias em pdf nos dispositivos móveis.

Então pedi a Celso que gravasse alguns trechos em áudio e enviasse por WhatsApp. Aos poucos ele está me abastecendo com passagens de um livro marcante para toda a minha vida.

Nas três gravações já enviadas você pode ouvir um trecho descritivo sobre Macondo, a morte do coronel Aureliano Buendía e a reação irada de Aureliano Segundo.

Ando ansioso para o poeta enviar algum trecho da personagem “Remédios, a Bela”

Já que não me interessei em fazer o download do livro de Márquez, fiz o upload dos fragmentos da obra enviados por áudio para a minha nuvem no Soundcloud. Obrigado, Celso.

A pandemia tem dessas coisas. Nós estamos isolados, mas não solitários. Viva a solidariedade.

As músicas desconhecidas de Belchior e Frédéric Pagès

Ed Wilson Araújo

Os alunos têm sempre algo a ensinar para os professores. Esse é o principal sentido de Paulo Freire. E foi assim na primeira aula da disciplina Roteiro para Rádio de 2020. Durante a interação com os estudantes, informei a turma sobre o evento “Diálogos Insurgentes”, que teria a participação dos artistas Frédéric Pagès e Celso Borges.

Ao anunciar o evento contei aos alunos que Pagès, quando jovem, participou ativamente do movimento Maio 68. Logo depois o aluno Ailton Lima sacou uns versos da música Os profissionais, de Belchior, cuja letra é uma crítica ácida aos jovens rebeldes que se converteram em yuppies.

Eu nunca tinha ouvido Os profissionais e fiquei impressionado diante da inventividade do saudoso Belchior com aquela música cantada em um ritmo totalmente estranho ao seu estilo. Isso, por si só, já seria uma provocação?!

Logo na primeira estrofe, ele pergunta e responde:

Onde anda o tipo afoito
Que em 1-9-6-8
Queria tomar o poder?
Hoje, rei da vaselina,
Correu de carrão pra China,
Só toma mesmo aspirina
E já não quer nem saber.

A música é atualíssima para entender os recuos de alguns rebeldes que se entregaram ao sistema, convertidos aos seus próprios interesses, ajoelhados diante da luz feiticeira do vil metal. Na vasta floresta dos idealistas, Belchior distingue os revolucionários dos “yuppies sabor baunilha”, parâmetro para o “herói de boutique / dos chiques profissionais”.

Realizado pelas secretarias de Direitos Humanos (Sedihpop) e Ciência e Tecnologia/Inovação (Secti), os “Diálogos Insurgentes” das águas de março trouxeram ao palco o tema “arte e resistência”, abordados por Frédéric Pagès e Celso Borges em um animado bate-papo com a plateia, no teatro Alcione Nazaré.

Em tempos de avanço das forças conservadoras e do obscurantismo, a dupla palestrante colocou a arte em seu devido lugar, ou fora de qualquer enquadramento, visto que na interpretação de Borges e Pagès a criação estética é visceral e transgressora. Quando age, engendra sedução, inquietude e subversão, carregando a imensurável força de reencantar a realidade. Em tudo isso, arte tem poder!

No dia seguinte aos “Diálogos Insurgentes”, Frédéric Pagès participou da roda de conversa “Literatura (en)cantada: empoderar-se da língua”, juntamente com a professora Joelma Correia (UFMA) e o músico Wesley Sousa. O trio tratou com carinho as relações entre Pedagogia e arte para um auditório lotado e perseverante, no campus do Bacanga.

Pagès relatou sua afinidade com o pensamento de Paulo Freire e Darcy Ribeiro, sintetizando a longa jornada do processo de formação do ser humano: “Educação é tarefa para a vida inteira”, cravou.

Em Diadema, na grande São Paulo, o francês desenvolveu um projeto com jovens da periferia, construindo junto com rappers o protagonismo de um refinado material didático sobre Literatura, envolvendo texto, música e performance.

No experimento de Diadema, a pedagogia sonora é o esteio da Literatura que, cantada, encanta. Assim, um texto Machado de Assis ganha vida na música. Esse trabalho de transposição passa por um navegar de corpo e alma no universo das palavras corporificadas na voz dos intérpretes rappers.

Escritor, cantor, compositor e produtor, Frédéric Pagès desenvolve suas atividades na música e na Literatura entre a França e o Brasil há 40 anos, período em que participou de inúmeros projetos culturais de intercâmbio entre os dois países.

Entre outras “artes”, em 2019 Pagès se autoproclamou presidente da França, inspirado no ator brasileiro José de Abreu.

Na sua estada em São Luís ele apresentou canções e poemas no pocket show “Passion Brésil”, versão sintética do espetáculo homônimo estreado recentemente, em Paris, celebrando quatro décadas de relação com a cultura brasileira, que também dá título ao seu CD lançado em 2019.

Veja abaixo vídeos do cantor.

Leia mais sobre a carreira de Frédéric Pagès aqui

Do que vi e ouvi de Pagès, deu para perceber que ele não se enquadra na crítica precisa de Belchior sobre os rebeldes que se perderam no meio do caminho.

Oh! L’age d’or de ma jeunesse!
Rimbaud, “par delicatesse
J’ai perdu (também!) ma vie!”

Em tradução direta:

Oh! A idade de ouro da minha juventude!
Rimbaud “por delicadeza
Perdi (também!) minha vida! “

O artista franco-brasileiro não parece cansado de guerra. Na sua maturidade, empunha na arte e no discurso as bandeiras do jovem ativista do Maio 68. Ele segue na marcha da utopia, encantando as pessoas com o poder mágico das palavras e dos sons.

Assim, as músicas (não mais) desconhecidas de Belchior e Frédéric Pagès (ouça aqui) agora fazem parte de um saboroso aprendizado.

Veja abaixo a letra de Belchior.

Os profissionais

Onde anda o tipo afoito
Que em 1-9-6-8
Queria tomar o poder?
Hoje, rei da vaselina,
Correu de carrão pra China,
Só toma mesmo aspirina
E já não quer nem saber.

Flower power! Que conquista!
Mas eis que chegou o florista
Cobrou a conta e sumiu
Amor, coisa de amadores
Vou seguir-te aonde f(l)ores!
Vamos lá, ex-sonhadores,
À mamãe que nos pariu!

Oh! L’age d’or de ma jeunesse!
Rimbaud, “par delicatesse
J’ai perdu (também!) ma vie!”
(Se há vida neste buraco
Tropical, que enche o saco
Ao ser tão vil, tão servil!)

E então? Vencemos o crime?
Já ninguém mais nos oprime
Pastores, pais, lei e algoz?
Que bom voltar pra família!
Viver a vidinha à pilha!
Yuppies sabor baunilha
Era uma vez todos nós!

Dancei no pó dessa estrada…
Mas viva a rapaziada
Que berrava: “Amor e Paz!”
Perdão, que perdi o pique…
Mas se a vida é um piquenique
Basta o herói de butique
Dos chiques profissionais.

I have a dream… My dream is over!
(Guerrilla de latin lover!)
Mire-se o dólar que faz sol
Esplim, susexo e poder,
Vim de banda e podes crer:
“Muito jovem pra morrer
E velho pro rock ‘n’ roll!”

Imagem destacada: Pagés foi ativista e escreveu livro sobre Maio 68
Foto capturada neste site

Diálogos Insurgentes: jornalista francês Frédéric Pagès e o poeta Celso Borges conversam sobre arte e resistência

Censura, resistência e arte serão novamente abordados na 16ª edição do Diálogos Insurgentes, que irá receber o cantor, ator e jornalista francês Frédéric Pagès e o poeta, letrista e jornalista maranhense Celso Borges

A 16ª edição traz a parceria inédita entre a Secretaria de Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop) e a Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia (Secti) no Diálogos Insurgentes. O tema arte e censura não é novidade no evento, que já recebeu em sua 14ª edição o ator, diretor e produtor cultural Sérgio Mamberti.

Com o tema “Arte da resistência, Resistência da arte”, e mediação do jornalista e professor da UFMA Ed Wilson Araújo, a dupla promete aos participantes, uma viagem por meio das histórias que permeiam as lutas das atividades culturais entre Brasil e França, como a Resistência Francesa ao nazismo e o movimento Maio 68, do qual Pagès foi uma das figuras de destaque.

Frédéric Pagès, um dos convidados da edição, pontua que “a arte não é arte se não denuncia todas as formas de opressão e de aviltamento do ser humano. Se não é exigência constante de dignidade, de lucidez e de criatividade”.

O objetivo dos Diálogos Insurgentes é ampliar o debate intersetorial e transversal de temas contemporâneos relacionados aos Direitos Humanos, assim contribuindo para a disseminação da cultura e educação em direitos humanos nos diversos segmentos da sociedade.

O secretário de Estado dos Diretos Humanos e Participação Popular, Francisco Gonçalves, destacou que a 16ª Edição do “Diálogos Insurgentes” será mais uma boa oportunidade para que os maranhenses tenham acesso a um debate sobre a censura. “Não bastasse a onda de intolerância religiosa, os artistas também sofrem diferentes formas de censura, como a demonização da categoria; a disseminação de fake news sobre a Lei Rouanet e os cancelamentos de shows e exposições, por exemplo. É preciso, neste caso, defender a liberdade de pensamento e criação artística, prevista na Constituição Federal”, pontuou.

CONHEÇA OS DEBATEDORES

*Frédéric Pagès*

Cantor-viajante, Frédéric Pagès navega na fronteira da música e da literatura, lá onde dançam as palavras e onde os textos e ritmos se enlaçam, para tentar reencantar um mundo sob sombras. 

Vivendo há quarenta anos entre a França e o Brasil, concebeu e realizou incontáveis projetos culturais nos dois países, como o “Manual de Literatura Encantada”, um Livro-CD criado e gravado com dez jovens rappers profissionais da periferia de São Paulo, colocando vozes e ritmos, sob sua direção, em textos da literatura brasileira clássica e moderna.

Passion Brésil, seu último disco, é uma “revista de viagem cantada”, gravado no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Belém com alguns dos melhores instrumentistas do Brasil.

Figura de destaque do Maio 68, e também articulista na imprensa francesa e em revistas brasileiras (Cult, Bravo e no.com), Frédéric Pagès lançou na França, em 2018, junto com Jacques Brissaud e Olivier de La Soujeole, a obra “Maio 68 está diante de nós”, livro no qual rememora os eventos desse período tão marcante na história do século XX, vivido por ele tão intensamente, na perspectiva de compreender e de mensurar a sua significação nos dias atuais.

*Celso Borges*

Poeta e letrista, parceiro de Zeca Baleiro, Chico César, Criolina, Gerson da Conceição e Nosly, entre outros compositores, Celso Borges tem 10 livros de poesia editados, entre eles Pelo avesso (1985); Persona non grata (1990); XXI (2000), Música (2006), Belle Époque (2010) e O futuro tem o coração antigo (2013). Vem publicando desde 2016 a série Poéticas Afetivas, títulos em formatos menores e tiragens pequenas. Dentro desse projeto estão os livrinhos Poemas delicados, A árvore envenenada, Carimbo Carinho e Visão todos em parceria com artistas visuais, entre eles Claudio Lima e Márcio Vasconcelos. 

Desde 2005, o artista desenvolve projetos de poesia falada no palco, utilizando referências que vão da música popular brasileira às experiências sonoras de vanguarda e cultura popular. Como resultado desse trabalho fez Poesia Dub, com o jornalista Otávio Rodrigues; A Posição da Poesia é Oposição, com o guitarrista Christian Portela e o percussionista Luiz Claudio; e Sarau Cerol com o compositor Beto Ehongue.

Celso Borges tem poemas publicados nas revistas Coyote e Oroboro, Poesia Sempre, Germinal etc e foi co-editor das revistas culturais Guarnicê (1983/1986), Uns & Outros (1984/1987) e Pitomba! (2011/2014). Com Zeca Baleiro co-produziu o CD A Palavra Acesa de José Chagas (2013). Quatro anos depois, homenageou outra poeta maranhense, Bandeira Tribuzi, produzindo Pão Geral – Tributo a Tribuzi. Os dois discos tiveram a participação de vários artistas brasileiros.

Evento: Diálogos Insurgentes com Frédéric Pagès e Celso Borges

Quando: 05 de março (quinta-feira)

Hora: 17h30 

Onde: Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa Filho)

Inscriçãoparticipa.ma.gov.br (vagas limitadas)

Lances de Agora: personagens e bastidores

O jornalista e poeta Celso Borges publica o terceiro artigo da série de escritos sobre o disco “Lances de Agora”, obra marcante na música brasileira. Os artigos celebram os 40 anos do álbum

O instrumentista Zezé Alves estava começando a aprender flauta na época da gravação do Lances de Agora e era aluno de Sérgio Habibe. Não tocou no disco, mas acompanhou as sessões na sacristia da Igreja do Desterro, entre 22 e 25 de junho de 1978. Zezé lembra-se de pouca coisa: “O que vem à tona agora, de repente, são os sons da vassoura com que o percussionista Rodrigo varria o chão para servir de fundo na música Vassourinha meaçaba,além de um gravador suíço usado na captação do som ao vivo”. Outra lembrança do flautista é que num dos dias de gravação, os músicos saíram pra ver um jogo da copa do mundo: “acho que Brasil x Itália, na disputa pelo terceiro lugar, ou Argentina x Holanda, a final, no dia 25 de junho. Depois, fomos tomar cerveja num barzinho em frente à Igreja do Desterro”.

Músicos que participaram das gravações do disco Lances de Agora, de Chico Maranhão, em junho de 1978, na porta da Igreja de São Pantaleão

O percussionista Rodrigo Castello Branco também se recorda da história da vassoura: “Muita gente estranha o barulho excessivo do ‘chep, chep’ da vassourinha no disco. Mas é que Chico pediu que eu colocasse uns pregos no chão para que o efeito ficasse mais verdadeiro”, afirma. Rodrigo dividiu a percussão com Arlindo Carvalho e o sambista Antonio Vieira. A ele coube fazer as percussões menores do disco.

Amigo de Sérgio Habibe, Rodrigo começou a tocar na segunda metade da década de 1970. Foi um dos integrantes da formação original do Rabo de Vaca, em 1977, quando o grupo, liderado por Josias Sobrinho, fez Saltimbancos, com direção de Aldo Leite. Em 1979 já estava no Rio de Janeiro tentando sobreviver com música, mas menos de 10 anos depois voltou pra São Luís, deixando a percussão pelo meio do caminho.

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Imagem destacada / divulgação: da esquerda para a direita: Zezé Alves, Rodrigo Castelo Branco (percussão), Ronald Pinheiro (bandolim), Sérgio Habibe (flauta) e Ubiratan Sousa (violão e arranjos)