Horror e esplendor nas caminhadas de Walt Whitman pela América

Para ler e ouvir. O poeta Celso Borges resenha e interpreta trechos da obra Dias exemplares, do escritor Walt Whitman, fundador da poesia moderna americana com Folhas de relva. Ao navegar na leitura de Dias exemplares, Borges encontra a catarse de WW nas páginas de um livro em que o autor relata os horrores da Guerra de Secessão e posteriormente as belezas naturais dos Estados Unidos

Veja abaixo a resenha e ouça os trechos de Dias exemplares

Celso Borges

Andei tateando esperança nos últimos dias e a encontrei depois de um café com afeto na casa do amigo Fernando Abreu. Ela estava num pequeno livro que ele me emprestou, Dias exemplares, reunindo os diários de Walt Whitman (1819-1892) sobre suas caminhadas pela América do Norte no século 19, entre 1863 e 1882. A radiografia telúrica dos passos do bardo libertário pelos Estados Unidos está numa linda edição numerada, de 2019, da editora Carambaia, com tradução e posfácio de Bruno Gambarotto.  

Na época em que esses diários foram lançados pela primeira vez, em 1882, eles foram recebidos como um volume gêmeo de Folhas de relva, obra fundadora da poesia moderna americana, que Walt Whitman praticamente reescreveu durante toda a vida. Publicado inicialmente em 1855, Folhas de relva teve outras seis edições, a última delas em 1881.

Dias exemplares começa em 1863 como um projeto de narrativa sobre a Guerra da Secessão (1861-1865), que aboliu a escravatura nos Estados Unidos, mas matou milhões de americanos. Naquele momento, Whitman é, nas palavras de Bruno Gambarotto, “o enfermeiro (wound-dresser), bardo instalado no coração do país dilacerado para cuidar de suas chagas, que substitui o poeta provocador de 1855, o sábio de 1856 e o dândi desiludido de 1861”.

Livro traduz guerra e paz na escrita de Walt Whitman

A guerra devastou o país. Whitman percorre acampamentos, hospitais e enfermarias, de norte a sul, visitando e conversando com os soldados, muitos deles próximos da morte. Quase toda a primeira parte do livro relata esses dias dolorosos e posso, por isso, chamá-los de Diários de Guerra. A forma como o poeta trata e acompanha os americanos feridos é comovente. Whitman fala com ternura com alguns deles, leva-lhes conforto, às vezes um pedaço de biscoito, uma flor, frutas, doces. Outras vezes escreve para os parentes dos soldados. Todo esse sentimento se transfere para a prosa demasiadamente humana, que percorre as páginas do diário.

A verdadeira guerra nunca entrará nos livros, anuncia o poeta na página 139:

Os anos do futuro jamais conhecerão o inferno fervilhante o negrume do pano de fundo infernal das incontáveis cenas menores e interiores da Guerra da Secessão; e é melhor que não o conheçam – a guerra real nunca entrará nos livros. Nas influências piegas dos tempos atuais, também, a atmosfera nervosa e os eventos típicos daqueles anos correm o risco de ser totalmente esquecidos. Passei noites em vigília ao lado de um homem doente no hospital, alguém que não sobreviveria muitas horas. Vi seus olhos brilharem e arderem enquanto se levantava e recobrava as crueldades infligidas ao seu irmão rendido e as mutilações do cadáver depois…….

Essa foi a guerra. Não foi uma quadrille em um salão de baile….

Whitman adoece durante a secessão, tem crises de fraqueza, tontura. Isso se intensifica nos anos seguintes, culminando com um derrame cerebral, em 1873, que o deixa coxo. 1874 e 1875 são dois anos difíceis, de recuperação lenta, mas que traz bons resultados. O poeta passa semanas a fio, meses inteiro no campo, num local recluso e rural ao longo do riacho Timber, afluente do rio Delaware. Ali fica na casa dos amigos Stafford, entre o riacho, campos e trilhas próximas.

Do horror ao esplendor

Whitman não voltará a se locomover como antes, mas retoma, em 1876, suas caminhadas e, com ela, a segunda parte dos Dias exemplares, que nomeio como Diários da Natureza. Neles, saúda a exuberância da paisagem americana, viajando e passeando nos seis anos seguintes, entre lagos, montanhas, vales e pradarias. A pé, de barco ou de trem, atravessa a América com seus rios volumosos, entre eles o Mississipi e o Delaware, sob o manto de estrelas cintilantes em meio às constelações de Orion, Ursa maior, Escorpião, Touro, a Aurora Boreal, a rubra Aldebarã e outros quadrantes de luz.

Walt Whitman pousa o corpo e os olhos na América rural. No contato com a natureza, busca recuperar o vigor perdido nos anos anteriores. O que tem à frente durante os longos passeios é o espetáculo maior da mãe terra com suas revelações de luz, brisas de setembro roçando as copas das arvores. Ora ouve um passarinho cantando ao longe embalado pelo silêncio ao redor, ora vê deslumbrado um arco-íris se levantando no fundo do céu quando o vento mudou de direção e as nuvens rapidamente se abriram como cortinas.

Tudo parece divino nesses dias exemplares. Deslumbrado, o poeta é capaz de ouvir grilos e gafanhotos a 200 pés de distância, enquanto se veste de sombras entre álamos, nogueiras e carvalhos no exercício de sua prosa diária. Toma banhos nus e solitários e enumera listas de flora e fauna, que ouve e vê no corpo colorido e libertador da natureza que o cerca. Na página 214 saúda as flores silvestres:

… oceanos delas dão contornos às estradas através dos bosques, demarcam os limites dos cursos d’água, crescem ao longo das antigas cercas e espalham-se em profusão sobre os campos. É muito comum ver uma flor de oito pétalas amarelo-ouro, clara e brilhante, com um tufo marrom no centro, quase tão grande quanto um meio dólar de prata; ontem em um longo percurso, observei que elas ocupavam densamente as margens dos riachos por toda a parte. Há também um lindo mato coberto de flores azuis (o azul das velhas xícaras chinesas bastante estimadas por nossas tias-avós), que sempre paro para admirar… Deixe-me dar os nomes de algumas dessas flores perenes e ervas amigáveis que conheci por aqui em uma ou outra estação em minhas caminhadas:

Azaléia silvestre, madressilva silvestre, rosas silvestres, varas-de-ouro, erva piolheira, açafrão da floresta, lírio do charco, trombeta, manjerona cheirosa, ageratina, selo-de-salomão, erva cidreira, hortelã, gerânio silvestre, heliotrópio silvestre, bardana, dentes-de-leão, feiterinha, coreópsis, ervilha silvestre, madressilva, sabugueiro, caruru-de-cacho, girassol, camomila, violetas, clemátis, sanguinária, magnólia, asclépia, margarida silvestre, crisântemo silvestre.

Enquanto lia as páginas desse Dias Exemplares, tentei de alguma forma me transportar para a exuberância daquela luz que aquece o corpo do poeta enquanto ele ouve os assovios que o circundam e o embalam e sente na pele os ventos americanos. A intensidade dessa percepção, tanto da guerra quanto da natureza, me levou a gravar algumas páginas desse diário, me aproximando mais uma vez do espírito poético desse artista que descobri no começo dos anos 1980, traduzido por Geir Campos, num pequeno volume da coleção Cantadas Literárias, da editora Brasiliense.

A partir desse encontro, WW tornou-se para mim uma referência cada vez mais libertadora do verso livre que ele inaugura e que se seria um instrumento importante e definitivo para a poesia que se espalhou pelo mundo no século 20.

Áudios do horror: Diários da Guerra

Um soldado de Nova York

A morte de um herói

Um soldado ianque

Áudios do esplendor: Diários da Natureza

Pequenas cenas de outono

O céu – dias e noites – felicidade

Dias e noites do verão maduro

Melhor vista das cataratas do Niágara

Calor em Nova York

Imagem destacada / divulgação / Walt Whitman / capturada neste site

3 comentários em “Horror e esplendor nas caminhadas de Walt Whitman pela América”

  1. Me lembra a tua poesia de vida, velho amigo.
    Enfermeiro branco de palavra que numa guerra furiosa tenta arrancar o câncer de corações com dias contados e cansados…e resignado de tanta doçura e bondade, amigo, divides conosco pérolas de esperança até o último suspiro do sol que descansa no final da tarde na ponta da areia..
    E mais uma vez sorrimos, meu catador de palavras voando…
    Hoje, no interior em que vivo, certamente te alegrarias com tua admiração de menino, em ver o que vi..dois automóveis parados, para a passagem do arriscado cortejo de passagem de uma patinha e seus 5 filhotinhos em direção ao açude de Olinda Nova do Maranhão… nunca mais verei esta passagem..
    Obrigado e Deus te abençoe querido.

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