Não desistas

Mario Benedetti

Suporta, ainda há tempo

Para alcançares e começares de novo,

Aceita tua sombra,

Sepulta teus medos,

Liberta o lastro,

Retoma o voo.

Não desistas porque a vida é isso,

Continua a viagem

Persegue teus sonhos,

Liberta o tempo

Contorna as ruínas,

E descobre o céu.

Não desistas, por favor, não cedas,

Ainda que o frio queime,

Ainda que o medo corroa,

Ainda que sol se esconda,

E se cale o vento,

Ainda há fogo em tua alma

Ainda há vida em teus sonhos.

Porque a vida é tua e é teu também o desejo

Porque tu tens amado e porque te amo

Porque existe o vinho e o amor, com certeza.

Porque não há feridas que não se curem com o tempo.

Abre as portas,

Remove os ferrolhos,

Abandona as paredes que te protegem,

Vive a vida e aceita o desafio,

Recupera o sorriso

Ensaia uma canção,

Baixa a guarda e estende as mãos

Abre as asas

E tenta novamente

Celebra a vida, recupera o paraíso.

Não desistas, por favor, não cedas,

Ainda que o frio queime,

Ainda que o medo corroa,

Ainda que o sol se ponha e se cale o vento,

Ainda há fogo em tua alma,

Ainda há vida em teus sonhos

Porque cada dia é um novo começo,

Porque esta é a hora e o melhor momento.

Porque tu não estás só, porque eu te amo.

Imagem destacada: Benedito Lemos Junior

Poeta de Barra do Corda lança novo livro em São Luís

Kissyan Castro lança O Estreito do Éden, seu quinto trabalho de poesia, dia 27 de março no projeto Vozes Vinhos e Vinis, livraria Poeme-se

O Estreito de Éden (editora Penalux, 85 páginas) tem 50 poemas divididos em três partes: O Estreito de Éden, que dá título ao livro, Deambulário e Melopeia dos Ossos. É o quinto livro de poesia de Kissyan Castro, que além de escritor é técnico em enfermagem. Lançamento acontece no projeto Vozes, Vinhos e Vinis, que a livraria Poeme-se realiza mensalmente na Praia Grande desde meados de 2017.

Segundo o escritor, o novo trabalho é um desdobramento do livro anterior, Bodas de Pedra, que ele considera sua estréia de fato. “O livro traz alguns poemas em que predominam as indagações metafísicas sobre a efemeridade da vida, o estar no mundo, a ânsia de durar, que são temas que me perturbam desde a infância, além de alguma iconoclastia do legado das religiões. O mais é a tentativa de construir um objeto, uma coisa, ‘um artefato’, como diria Ferreira Gullar, que fique, antes que o punho trema, a palavra caduque e o presente não seja mais que um batuque”.

Atualmente, Kissyan Castro (foto) está trabalhando numa biografia de Maranhão Sobrinho, “O Poeta Maldito de Atenas”, como ele mesmo se autointitulava. O projeto nasceu de uma pedido do escritor Jomar Moraes, ele mesmo autor de uma biografia sobre o poeta simbolista.  Sobrinho é um dos escritores preferidos de Kissyan Castro, que tem ainda no seu cânone literário, Ferreira Gullar, Nauro Machado, Drummond, Pessoa, Murilo Mendes, Rilke, Sofia de Mello Breyner Andresen, João Cabral, Orides Fontela, Hilda Hilst, Kaváfis, Rimbaud, além dos prosadores Graciliano Ramos, Machado de Assis, Hermann Hesse, Dostoiévski e Tólstoi, entre muitos outros.

Perfil

Poeta e pesquisador maranhense (Barra do Corda/MA, 1979). Autor dos livros Vau do Jaboque (2005), Bodas de Pedra (2013), Maranhão Sobrinho – Poesia Esparsa (2015) e Rio Conjugal (2016). Tem poemas publicados em vários sites e revistas, entre as quais Germina e Portal de Poesia Ibero-Americana, de Antonio Miranda. Atualmente colabora no site www.barradocorda.com. Formado em Teologia, servidor público, membro efetivo da Academia Barra-Cordense de Letras e, nas horas vagas, professor de grego clássico.

O ESTREITO DO ÉDEN

Livro de poesia de Kissyan Castro

Lançamento dia 27 de março, às 19h

Projeto Vozes, Vinhos e Vinis

Livraria Poeme-se – Praia Grande, Centro

Preço do livro: R$ 35,00

Três poemas do novo livro

Inventário

Não tive ouro ou gado que me valha
neste pasto-imposto
cobrado à sanha de metralha.

(em vez de dólar, dolo,
o duplo das vezes, fezes)

Não tive ouro ou gado que me valha
neste pasto feito excremento.

O silêncio atroz que me navalha

é tudo o que hoje ostento.

Ala obstétrica

Sem centro ou cohab onde habite,
vivo a guitarrear teu sexo
como um pássaro hemorrágico.

Palavra de um só cadáver
para a selfie que é de dois
no céu inverso do umbigo.

Eternidade – este biombo
da garganta até o Hades
do vocábulo por dentro.

Eternidade – esta maca
no vazio a ser dos ossos
um deus nascendo da cloaca.

Poda à maneira de Herodias

Perfilado a pregos no esquecimento,

o instante supremo do último ato.

A terra já não nos pertence. Ó Vida –

inacabada contagem de estrelas –,

ninguém que me apanhe a espada caída

ou sequer diminua o passo esquivo.

Removido o traje, a cabeça dos ombros,

o olho o tronco as tripas o umbigo extinto,

restará de mim o apetite assíduo

entregue ao Nada numa bandeja.