Poesia em convulsão: livro reúne 70 autores brasileiros contemporâneos

Organizado pelo poeta e ensaísta Manoel Ricardo de Lima, Uma pausa na luta traz poemas dos maranhenses Celso Borges e Josoaldo Lima Rêgo, além de Ricardo Aleixo, Thiago E, Micheliny Verunschk, Júlia Studart, Fabiano Calixto, Ruy Proença, Anitta Costa Malufe, Ramon Nunes Mello, Tarso Melo e Heitor Ferraz, entre outros. 

A partir da reflexão de Pasolini, de que “uma pausa na luta” é também a possibilidade de “reavaliação da luta”, este ajuntamento de poetas e poemas se propõe a reinventar a luta, como uma deriva suspensa do tempo e da história, tentando dizer outras coisas, algumas esperanças contra o diletantismo das circunstâncias atuais. 

“Como reavaliar a vida com força e sem tanto luto, propondo apenas uma filigrana de pausa na luta?” é uma das perguntas que o organizador do livro, Manoel Ricardo de Lima, faz no prefácio da obra, que ele faz questão de afirmar que não é uma antologia, mas uma convulsão.

Uma pausa na luta sai pela Mórola Editorial e está à disposição para download gratuito pelo link  https://morula.com.br/produto/uma-pausa-na-luta/

Manoel Ricardo de Lima é professor da UNIRIO e publicou, entre outros, Falas Inacabadas [com Elida Tessler], Pasolini: retratações [com Davi Pessoa] e Geografia Aérea. Organizou A visita [com Isabella Marcatti] e A nossos pés.  Coordenou a edição da obra completa do poeta português Ruy Belo no Brasil [7Letras] e coordena a coleção Móbile de mini-ensaios [Lumme Editor]. 

pausa

drible no grito

quase

matar o corpo osso a osso

pele a pele

músculos no exílio

nus nós cegos

e desatarmo-nos em praça pública

depois de pendurados

nas agonias do limbo


pause

imagens perdidas do último capítulo da série de sucesso

amarrar o voo das abelhas inclusive o mel

pisar no eco, talvez

o ovo em pé inevitável

quebrá-lo no ar

e refletir

onde se aloja o amado medo

marcado pelo suor de deus


fuga do front

embrulhar com zelo o pacote da pancada futura

pensar que seria um erro fazê-lo agora

sim ao pouso do pássaro acima do chão

por enquanto

não tremer


trégua sem trégua


rigidez e leveza

aceitar que o poema pode ser inútil

intervalo para o último assalto

tomar de assalto o ventre do ringue

antes do nocaute

pensar melhor fora da cabeça

peixe fora do aquário

quase

respiração suspensa

até o segundo final

antes de subir à tona

e soprar o pulmão do mundo

                                   celso borges


Quase a forma

não escrita

A voz

disposta na calçada

e esquecida


Vida pra quem respira

nos intervalos

josoaldo lima rego

Literatura para ouvir: a encantaria de “Remédios, a Bela”

Das entranhas do clássico “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez, a personagem Remédios, a Bela é apresentada em três narrativas na voz do poeta Celso Borges.

No primeiro áudio o trecho do livro discorre sobre a beleza deslumbrante de Remédios, a Bela, a ponto de levar os homens à igreja com o único propósito de ver o rosto dela, que fora proclamada rainha.

Em seguida a narrativa avança sobre a repulsa da personagem diante dos ditames da moda. Enquanto as mulheres “normais” se preocupavam com vestidos e espartilhos, Remédios, a Bela costurou uma batina de estopa “sem abandonar a impressão de estar nua”.

Deixo para a sua audição o detalhe sobre os cabelos da personagem e o seu perfume natural…

A terceira gravação acompanha a evolução de Remédios, a Bela para outra dimensão da realidade, quando ela em carne e osso passa por uma transmutação.

Essa é a segunda série de gravações da obra “Cem anos de solidão” na voz do poeta Celso Borges. Ouça a primeira no link abaixo.

Celso Borges na companhia de García Márquez

Imagem destacada / capa do livro Cem anos de solidão capturada neste site

Livrinho ouve o silêncio do BOI

BOI reúne poemas e letras de música que o poeta Celso Borges escreveu, principalmente, nos últimos dez anos. Obra tem o projeto gráfico de Isis Rost e faz parte da coleção Livrinho também é livro, da editora Passagens.

O poeta e letrista Celso Borges homenageia o boi do Maranhão no primeiro ano em que essa manifestação não estará nas ruas e arraiais da cidade, por causa da pandemia do corona vírus.

“Este livrinho nasce dessa não voz, ou da poesia dessa voz na memória, ou do afeto que vislumbro a partir da falta do boi e suas zoadas essenciais”, afirma o escritor que tem ligação com o bumba-meu-boi desde criança, quando via e ouvia os grupos se apresentarem em frente à sua casa, no Largo de São João, centro da cidade.

BOI é o terceiro trabalho da coleção Livrinho também é livro que estreou com A rua morta (Luís Inácio Oliveira), seguido de O declínio da narrativa (Isis Rost). Assim como os dois primeiros livrinhos, BOI vai sair também no formato digital.

“É claro que a gente quer publicar esses trabalhos no papel, mas por enquanto eles estão disponíveis de forma gratuita apenas virtualmente”, afirma Isis Rost, da editora Passagens, que já publicou, além das obras dessa coleção, quatro outros livros: Penúltima Página (Zema Ribeiro); O Risco do Berro – Torquato, neto, Morte e Loucura (Isis Rost), Vaia de Bebo Não Vale (Helen Lopes) e Ruminações – cultura e política (Flávio Reis), todos em 2019.

A capa de BOI foi feita a partir de um quadro do pintor Ciro Falcão, da geração de artistas plásticos maranhenses que começou a expor nos anos 1970. As outras páginas do livrinho trazem ilustrações, quadros e fotos de vários artistas nacionais e internacionais, entre eles Pablo Picasso, Cícero Dias, Aldemir Martins, Marcos Palhano, Ribamar Rocha, Militão dos Santos e J. Borges.

BOI

Livro de Celso Borges

Projeto gráfico de Isis Rost

56 páginas, editora Passagens

A partir do dia 20 de junho, disponível gratuitamente

No site da editora: https://editorapassagens.blogspot.com/

O bloco de Sérgio Sampaio ainda está na rua

Texto de Celso Borges, poeta e jornalista

São Paulo, primeiro semestre de 1994. Subo a Rua Abílio Soares, no bairro do Paraíso, em direção à Avenida Paulista. Passo na porta do Café Paris, ou seria o Barnaldo Lucrécia? A memória falha, mas isso não tem importância, porque lembro perfeitamente o cartaz na porta: “Sérgio Sampaio, show dia 14 de abril”. Seria dali a duas semanas. Meu coração bateu no brilho dos olhos. Finalmente poderia ver um cara que eu amava apenas no radinho de pilha. Queria chegar perto dele depois do show, talvez, e pedir um abraço. Não aconteceu. Na semana seguinte fui comprar o ingresso e o show tinha sido transferido, sem previsão de data.

A verdade do adiamento é que Sérgio Sampaio estava morrendo. Um mês depois, em 15 de maio, foi embora, vítima de cirrose hepática. Ficou um vazio duplamente presente pelas duas ausências. O show e o abraço que não tive, além do silêncio do corpo do artista para sempre.

Essa tristeza foi substituída poucos anos depois pela enorme alegria ao ouvir Zeca Baleiro cantando Tem que acontecer, uma canção belíssima que invadiu deliciosamente rádios do Brasil inteiro e trouxe de volta a alma e a voz do compositor popular.

Não fui eu nem Deus

Não foi você nem foi ninguém

Tudo o que se ganha nessa vida

É pra perder

Tem que acontecer, tem que ser assim

Nada permanece inalterado até o fim

Foi Zeca, sem dúvida, o grande responsável pela valorização de Sampaio. Pouco tempo depois, Mazolla produziria o CD Balaio do Sampaio, uma coletânea de suas músicas cantadas por vários artistas da MPB. Foi ali que ouvi pela primeira vez Meu pobre blues, composição de Sérgio em “homenagem” a seu conterrâneo de Cachoeiro do Itapemirim, Roberto Carlos. Sampaio sempre tentou, em vão, que Roberto cantasse uma música dele, mas o rei do iê-iê-iê não tinha olhos para ver e ouvir as verdades de quem teve coragem de dizer versos tão comoventes, ironicamente interpretados no disco pelo parceiro Erasmo Carlos.

Meu amigo,

Foi inútil…

Eu juro que tentei compor

Uma canção de amor

Mas tudo pareceu tão fútil

E agora que esses detalhes

Já estão pequenos demais

E até o nosso calhambeque

Não te reconhece mais

Eu trouxe um novo blues

Com um cheiro de uns dez anos atrás

E penso ouvir você cantar

Mesmo que as mesmas portas

Estejam fechadas

Eu pretendo entrar

Mesmo que minha mulher

Depois de me escutar

Ainda insista

Que você não vai gostar

Mas a homenagem mais importante viria em 2010, quando Zeca Baleiro produziu e lançou o disco Cruel, reunindo oito canções que Sampaio tinha registrado em voz e violão num estúdio em Salvador pouco tempo antes de morrer, além de outras composições resgatadas de uma velha fita cassete. Baleiro colocou uma banda acompanhando o artista, um trabalho arriscado e difícil de fazer, mas cujo resultado final valeu a pena.

Semana passada recebi a mensagem de um amigo do Rio de Janeiro, o poeta e diretor de teatro, Sidnei Cruz, sugerindo um vídeo com o último show gravado de Sérgio Sampaio, em 1993, na Universidade Federal do Espírito Santo. Não tenho palavras. Vê-lo cantar me passa uma verdade tão grande, que compreendo claramente porque Eu quero botar meu bloco na rua, sua composição mais conhecida, sempre me causou tanta emoção desde a primeira vez que a escutei num radinho de pilha no programa Quem manda é você, de Zé Branco, na Difusora AM, em 1972.

Essa canção me joga em outras imagens, que também me atravessam e me comovem. Um pequeno trecho de um show de Sérgio Sampaio, em maio de 1993, organizado pela gravadora Phonogram, no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo. O compositor capixaba se apresenta de cabelos compridos, veste uma espécie de tapete colorido como casaco, calça boca de sino e uma faixa amarela na cintura. Como um dândi, um arlequim, um antibobo da corte, corpo e alma sentindo a vida com a profundidade dos grandes artistas. Canta e toca sentado, passa a mão nos olhos, levanta em transe, continua cantando, dança, se contorce e bota o bloco na rua. Há algo ali maior que tudo.

Fotos/Divulgação (selecionadas no Google por Celso Borges)

Literatura para ouvir: fragmentos de García Márquez em áudio

Tudo começou quando o poeta Celso Borges postou em uma rede social que começaria a reler “Cem anos de solidão”, obra clássica do escritor colombiano Gabriel García Márquez.

Eu também queria revisitar a obra, mas estava impedido pela pandemia de buscar meu livro na antiga casa da minha família, no bairro Apeadouro, guardado em alguma caixa ou armário que eu demoraria a encontrar.

Ainda sou do tipo fissurado em livro de papel e não tenho o hábito de ler grandes obras literárias em pdf nos dispositivos móveis.

Então pedi a Celso que gravasse alguns trechos em áudio e enviasse por WhatsApp. Aos poucos ele está me abastecendo com passagens de um livro marcante para toda a minha vida.

Nas três gravações já enviadas você pode ouvir um trecho descritivo sobre Macondo, a morte do coronel Aureliano Buendía e a reação irada de Aureliano Segundo.

Ando ansioso para o poeta enviar algum trecho da personagem “Remédios, a Bela”

Já que não me interessei em fazer o download do livro de Márquez, fiz o upload dos fragmentos da obra enviados por áudio para a minha nuvem no Soundcloud. Obrigado, Celso.

A pandemia tem dessas coisas. Nós estamos isolados, mas não solitários. Viva a solidariedade.

As músicas desconhecidas de Belchior e Frédéric Pagès

Ed Wilson Araújo

Os alunos têm sempre algo a ensinar para os professores. Esse é o principal sentido de Paulo Freire. E foi assim na primeira aula da disciplina Roteiro para Rádio de 2020. Durante a interação com os estudantes, informei a turma sobre o evento “Diálogos Insurgentes”, que teria a participação dos artistas Frédéric Pagès e Celso Borges.

Ao anunciar o evento contei aos alunos que Pagès, quando jovem, participou ativamente do movimento Maio 68. Logo depois o aluno Ailton Lima sacou uns versos da música Os profissionais, de Belchior, cuja letra é uma crítica ácida aos jovens rebeldes que se converteram em yuppies.

Eu nunca tinha ouvido Os profissionais e fiquei impressionado diante da inventividade do saudoso Belchior com aquela música cantada em um ritmo totalmente estranho ao seu estilo. Isso, por si só, já seria uma provocação?!

Logo na primeira estrofe, ele pergunta e responde:

Onde anda o tipo afoito
Que em 1-9-6-8
Queria tomar o poder?
Hoje, rei da vaselina,
Correu de carrão pra China,
Só toma mesmo aspirina
E já não quer nem saber.

A música é atualíssima para entender os recuos de alguns rebeldes que se entregaram ao sistema, convertidos aos seus próprios interesses, ajoelhados diante da luz feiticeira do vil metal. Na vasta floresta dos idealistas, Belchior distingue os revolucionários dos “yuppies sabor baunilha”, parâmetro para o “herói de boutique / dos chiques profissionais”.

Realizado pelas secretarias de Direitos Humanos (Sedihpop) e Ciência e Tecnologia/Inovação (Secti), os “Diálogos Insurgentes” das águas de março trouxeram ao palco o tema “arte e resistência”, abordados por Frédéric Pagès e Celso Borges em um animado bate-papo com a plateia, no teatro Alcione Nazaré.

Em tempos de avanço das forças conservadoras e do obscurantismo, a dupla palestrante colocou a arte em seu devido lugar, ou fora de qualquer enquadramento, visto que na interpretação de Borges e Pagès a criação estética é visceral e transgressora. Quando age, engendra sedução, inquietude e subversão, carregando a imensurável força de reencantar a realidade. Em tudo isso, arte tem poder!

No dia seguinte aos “Diálogos Insurgentes”, Frédéric Pagès participou da roda de conversa “Literatura (en)cantada: empoderar-se da língua”, juntamente com a professora Joelma Correia (UFMA) e o músico Wesley Sousa. O trio tratou com carinho as relações entre Pedagogia e arte para um auditório lotado e perseverante, no campus do Bacanga.

Pagès relatou sua afinidade com o pensamento de Paulo Freire e Darcy Ribeiro, sintetizando a longa jornada do processo de formação do ser humano: “Educação é tarefa para a vida inteira”, cravou.

Em Diadema, na grande São Paulo, o francês desenvolveu um projeto com jovens da periferia, construindo junto com rappers o protagonismo de um refinado material didático sobre Literatura, envolvendo texto, música e performance.

No experimento de Diadema, a pedagogia sonora é o esteio da Literatura que, cantada, encanta. Assim, um texto Machado de Assis ganha vida na música. Esse trabalho de transposição passa por um navegar de corpo e alma no universo das palavras corporificadas na voz dos intérpretes rappers.

Escritor, cantor, compositor e produtor, Frédéric Pagès desenvolve suas atividades na música e na Literatura entre a França e o Brasil há 40 anos, período em que participou de inúmeros projetos culturais de intercâmbio entre os dois países.

Entre outras “artes”, em 2019 Pagès se autoproclamou presidente da França, inspirado no ator brasileiro José de Abreu.

Na sua estada em São Luís ele apresentou canções e poemas no pocket show “Passion Brésil”, versão sintética do espetáculo homônimo estreado recentemente, em Paris, celebrando quatro décadas de relação com a cultura brasileira, que também dá título ao seu CD lançado em 2019.

Veja abaixo vídeos do cantor.

Leia mais sobre a carreira de Frédéric Pagès aqui

Do que vi e ouvi de Pagès, deu para perceber que ele não se enquadra na crítica precisa de Belchior sobre os rebeldes que se perderam no meio do caminho.

Oh! L’age d’or de ma jeunesse!
Rimbaud, “par delicatesse
J’ai perdu (também!) ma vie!”

Em tradução direta:

Oh! A idade de ouro da minha juventude!
Rimbaud “por delicadeza
Perdi (também!) minha vida! “

O artista franco-brasileiro não parece cansado de guerra. Na sua maturidade, empunha na arte e no discurso as bandeiras do jovem ativista do Maio 68. Ele segue na marcha da utopia, encantando as pessoas com o poder mágico das palavras e dos sons.

Assim, as músicas (não mais) desconhecidas de Belchior e Frédéric Pagès (ouça aqui) agora fazem parte de um saboroso aprendizado.

Veja abaixo a letra de Belchior.

Os profissionais

Onde anda o tipo afoito
Que em 1-9-6-8
Queria tomar o poder?
Hoje, rei da vaselina,
Correu de carrão pra China,
Só toma mesmo aspirina
E já não quer nem saber.

Flower power! Que conquista!
Mas eis que chegou o florista
Cobrou a conta e sumiu
Amor, coisa de amadores
Vou seguir-te aonde f(l)ores!
Vamos lá, ex-sonhadores,
À mamãe que nos pariu!

Oh! L’age d’or de ma jeunesse!
Rimbaud, “par delicatesse
J’ai perdu (também!) ma vie!”
(Se há vida neste buraco
Tropical, que enche o saco
Ao ser tão vil, tão servil!)

E então? Vencemos o crime?
Já ninguém mais nos oprime
Pastores, pais, lei e algoz?
Que bom voltar pra família!
Viver a vidinha à pilha!
Yuppies sabor baunilha
Era uma vez todos nós!

Dancei no pó dessa estrada…
Mas viva a rapaziada
Que berrava: “Amor e Paz!”
Perdão, que perdi o pique…
Mas se a vida é um piquenique
Basta o herói de butique
Dos chiques profissionais.

I have a dream… My dream is over!
(Guerrilla de latin lover!)
Mire-se o dólar que faz sol
Esplim, susexo e poder,
Vim de banda e podes crer:
“Muito jovem pra morrer
E velho pro rock ‘n’ roll!”

Imagem destacada: Pagés foi ativista e escreveu livro sobre Maio 68
Foto capturada neste site

Diálogos Insurgentes: jornalista francês Frédéric Pagès e o poeta Celso Borges conversam sobre arte e resistência

Censura, resistência e arte serão novamente abordados na 16ª edição do Diálogos Insurgentes, que irá receber o cantor, ator e jornalista francês Frédéric Pagès e o poeta, letrista e jornalista maranhense Celso Borges

A 16ª edição traz a parceria inédita entre a Secretaria de Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop) e a Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia (Secti) no Diálogos Insurgentes. O tema arte e censura não é novidade no evento, que já recebeu em sua 14ª edição o ator, diretor e produtor cultural Sérgio Mamberti.

Com o tema “Arte da resistência, Resistência da arte”, e mediação do jornalista e professor da UFMA Ed Wilson Araújo, a dupla promete aos participantes, uma viagem por meio das histórias que permeiam as lutas das atividades culturais entre Brasil e França, como a Resistência Francesa ao nazismo e o movimento Maio 68, do qual Pagès foi uma das figuras de destaque.

Frédéric Pagès, um dos convidados da edição, pontua que “a arte não é arte se não denuncia todas as formas de opressão e de aviltamento do ser humano. Se não é exigência constante de dignidade, de lucidez e de criatividade”.

O objetivo dos Diálogos Insurgentes é ampliar o debate intersetorial e transversal de temas contemporâneos relacionados aos Direitos Humanos, assim contribuindo para a disseminação da cultura e educação em direitos humanos nos diversos segmentos da sociedade.

O secretário de Estado dos Diretos Humanos e Participação Popular, Francisco Gonçalves, destacou que a 16ª Edição do “Diálogos Insurgentes” será mais uma boa oportunidade para que os maranhenses tenham acesso a um debate sobre a censura. “Não bastasse a onda de intolerância religiosa, os artistas também sofrem diferentes formas de censura, como a demonização da categoria; a disseminação de fake news sobre a Lei Rouanet e os cancelamentos de shows e exposições, por exemplo. É preciso, neste caso, defender a liberdade de pensamento e criação artística, prevista na Constituição Federal”, pontuou.

CONHEÇA OS DEBATEDORES

*Frédéric Pagès*

Cantor-viajante, Frédéric Pagès navega na fronteira da música e da literatura, lá onde dançam as palavras e onde os textos e ritmos se enlaçam, para tentar reencantar um mundo sob sombras. 

Vivendo há quarenta anos entre a França e o Brasil, concebeu e realizou incontáveis projetos culturais nos dois países, como o “Manual de Literatura Encantada”, um Livro-CD criado e gravado com dez jovens rappers profissionais da periferia de São Paulo, colocando vozes e ritmos, sob sua direção, em textos da literatura brasileira clássica e moderna.

Passion Brésil, seu último disco, é uma “revista de viagem cantada”, gravado no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Belém com alguns dos melhores instrumentistas do Brasil.

Figura de destaque do Maio 68, e também articulista na imprensa francesa e em revistas brasileiras (Cult, Bravo e no.com), Frédéric Pagès lançou na França, em 2018, junto com Jacques Brissaud e Olivier de La Soujeole, a obra “Maio 68 está diante de nós”, livro no qual rememora os eventos desse período tão marcante na história do século XX, vivido por ele tão intensamente, na perspectiva de compreender e de mensurar a sua significação nos dias atuais.

*Celso Borges*

Poeta e letrista, parceiro de Zeca Baleiro, Chico César, Criolina, Gerson da Conceição e Nosly, entre outros compositores, Celso Borges tem 10 livros de poesia editados, entre eles Pelo avesso (1985); Persona non grata (1990); XXI (2000), Música (2006), Belle Époque (2010) e O futuro tem o coração antigo (2013). Vem publicando desde 2016 a série Poéticas Afetivas, títulos em formatos menores e tiragens pequenas. Dentro desse projeto estão os livrinhos Poemas delicados, A árvore envenenada, Carimbo Carinho e Visão todos em parceria com artistas visuais, entre eles Claudio Lima e Márcio Vasconcelos. 

Desde 2005, o artista desenvolve projetos de poesia falada no palco, utilizando referências que vão da música popular brasileira às experiências sonoras de vanguarda e cultura popular. Como resultado desse trabalho fez Poesia Dub, com o jornalista Otávio Rodrigues; A Posição da Poesia é Oposição, com o guitarrista Christian Portela e o percussionista Luiz Claudio; e Sarau Cerol com o compositor Beto Ehongue.

Celso Borges tem poemas publicados nas revistas Coyote e Oroboro, Poesia Sempre, Germinal etc e foi co-editor das revistas culturais Guarnicê (1983/1986), Uns & Outros (1984/1987) e Pitomba! (2011/2014). Com Zeca Baleiro co-produziu o CD A Palavra Acesa de José Chagas (2013). Quatro anos depois, homenageou outra poeta maranhense, Bandeira Tribuzi, produzindo Pão Geral – Tributo a Tribuzi. Os dois discos tiveram a participação de vários artistas brasileiros.

Evento: Diálogos Insurgentes com Frédéric Pagès e Celso Borges

Quando: 05 de março (quinta-feira)

Hora: 17h30 

Onde: Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa Filho)

Inscriçãoparticipa.ma.gov.br (vagas limitadas)

Lances de Agora: personagens e bastidores

O jornalista e poeta Celso Borges publica o terceiro artigo da série de escritos sobre o disco “Lances de Agora”, obra marcante na música brasileira. Os artigos celebram os 40 anos do álbum

O instrumentista Zezé Alves estava começando a aprender flauta na época da gravação do Lances de Agora e era aluno de Sérgio Habibe. Não tocou no disco, mas acompanhou as sessões na sacristia da Igreja do Desterro, entre 22 e 25 de junho de 1978. Zezé lembra-se de pouca coisa: “O que vem à tona agora, de repente, são os sons da vassoura com que o percussionista Rodrigo varria o chão para servir de fundo na música Vassourinha meaçaba,além de um gravador suíço usado na captação do som ao vivo”. Outra lembrança do flautista é que num dos dias de gravação, os músicos saíram pra ver um jogo da copa do mundo: “acho que Brasil x Itália, na disputa pelo terceiro lugar, ou Argentina x Holanda, a final, no dia 25 de junho. Depois, fomos tomar cerveja num barzinho em frente à Igreja do Desterro”.

Músicos que participaram das gravações do disco Lances de Agora, de Chico Maranhão, em junho de 1978, na porta da Igreja de São Pantaleão

O percussionista Rodrigo Castello Branco também se recorda da história da vassoura: “Muita gente estranha o barulho excessivo do ‘chep, chep’ da vassourinha no disco. Mas é que Chico pediu que eu colocasse uns pregos no chão para que o efeito ficasse mais verdadeiro”, afirma. Rodrigo dividiu a percussão com Arlindo Carvalho e o sambista Antonio Vieira. A ele coube fazer as percussões menores do disco.

Amigo de Sérgio Habibe, Rodrigo começou a tocar na segunda metade da década de 1970. Foi um dos integrantes da formação original do Rabo de Vaca, em 1977, quando o grupo, liderado por Josias Sobrinho, fez Saltimbancos, com direção de Aldo Leite. Em 1979 já estava no Rio de Janeiro tentando sobreviver com música, mas menos de 10 anos depois voltou pra São Luís, deixando a percussão pelo meio do caminho.

Leia tudo no site Agenda Maranhão

Imagem destacada / divulgação: da esquerda para a direita: Zezé Alves, Rodrigo Castelo Branco (percussão), Ronald Pinheiro (bandolim), Sérgio Habibe (flauta) e Ubiratan Sousa (violão e arranjos)

Série de artigos celebra os 40 anos do disco “Lances de Agora”

O poeta e jornalista Celso Borges publicou no site Agenda Maranhão o segundo de uma série de artigos sobre o célebre disco “Lances de Agora”. A sequência de textos aborda um capítulo fundamental da música produzida por artistas do Maranhão.

E começa assim:

“Há 40 anos, no mês de junho de 1978, um grupo de músicos maranhenses entrava na Igreja do Desterro para gravar uma das obras mais importantes da discografia produzida por um artista local: Lances de Agora, de Chico Maranhão. Nascido do ventre da professora e pianista Camélia Viveiros, em 1942, no centro da cidade, e batizado com o nome de Francisco Fuzetti Viveiros Filho, Chico Maranhão foi com pouco mais de 20 anos pra São Paulo. Na Pauliceia passou boa parte da década de 1960, dividindo seu tempo entre a faculdade de arquitetura e a música. Formou-se na turma que Chico Buarque abandonou e tornou-se conhecido com o frevo Gabriela, quinto lugar do 3º Festival da TV Record, em 1967, o mesmo que consagrou Ponteio (Edu Lobo), Domingo no Parque (Gilberto Gil), Alegria, Alegria (Caetano Veloso) e Roda Viva (Chico Buarque). No início da década seguinte voltou pra São Luís em busca de suas raízes musicais, principalmente àquelas ligadas à cultura popular.”

Para ler o artigo completo, clique aqui

Na segunda publicação, Celso Borges discorre sobre os diferentes caminhos tomados pelos discos “Lances de Agora” e “Bandeira de Aço”. Veja abaixo:

“Em meados dos anos 1970, o publicitário e empresário Marcus Pereira estava mais entusiasmado ainda com a música maranhense. Conhecera outros compositores locais além de Chico Maranhão e andava encantado com os sons, ritmos e melodias dos nossos artistas. A certeza disso estava no lançamento de Bandeira de Aço no primeiro semestre de 1978, pouco antes da gravação de Lances de Agora. O disco com nove canções apresentava ao Brasil, na voz de Papete (José de Ribamar Viana), parte da produção de uma geração que criava uma música diferente, com sotaque próprio. Composições de César Teixeira, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe e Ronaldo Mota.

Por diversas razões os dois discos trilharam caminhos diferentes nos anos seguintes. Enquanto Lances de Agora se tornaria uma relíquia de colecionadores e, principalmente, um disco dos admiradores de Chico Maranhão, Bandeira de Aço se transformaria, a partir de meados dos anos 1980, num fenômeno local e hoje é uma referência obrigatória, uma espécie de disco pai do que se denominou chamar MPM.”

Leia o texto integral aqui

Escritores lançam poemas pôster na noite Lula Livre, em São Luís

Evento acontece nesta quinta-feira (5), às 20h, no Chico Discos, centro de São Luís. No lançamento haverá uma leitura dos poemas pôster que Celso Borges e Fernando Abreu escreveram defendendo a liberdade de Lula, além de textos de Brecht, Maiakovski, Walt Whitman, Ezra Pound e Roberto Piva. Parte do dinheiro arrecadado com a venda dos poemas será revertido para o acampamento dos militantes em frente à Polícia Federal, em Curitiba, onde Lula está detido.

“Acredito que a liberdade de Lula é fundamental para legitimar a próxima eleição presidencial. Hoje Lula é um preso político”, diz o poeta Fernando Abreu, autor de Mesmo assim um poema, em que reafirma a palavra poética contra toda desesperança, em versos como:                                                                                                                                        mas enquanto me reviro

e me contorço

e guincho

minha alma canta

estou sem meu poema

estou sem nada quase

mas eu mordo esse canto

e mastigo esse fiapo de luz

a contragosto

“É um ato poético e político”, afirma Celso Borges, autor do poema NOW, em que imagina vários artistas do século 20 pedindo a liberdade de Lula, entre eles os pintores Munch e Frida Kallo e os poetas Ezra Pound e Roberto Piva, além do beatle John Lennon

nunca uma frase reza

nem a flor da indelicadeza

mas raduan em lavoura de cólera

frida pintando nos murais de rivera:

LULA LIVRE

porque se vomitam

a brutalidade nos tribunais

pound se ergue nos cantos da jaula

munch grita paralém da ponte:

LULA LIVRE 

contra as ruas em falsa festa

piva delira paranoia

lennon risca riffs na guitarra

we  all want to change the world

……………………………….

NOITE LULALIVRE

O que? Lançamento dos poemas pôster Now (Celso Borges) e Mesmo assim um poema (Fernando Abreu)

Onde? Chico Discos – esquina das ruas São João e Afogados

Quando? Dia 5 de julho (quinta), às 20h