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#tbt do artigo “Precisamos ouvir os tambores e os orixás”

Por Ed Wilson Araújo
Texto publicado originalmente no jornal Vias de Fato, ano VIII, edição 68, São Luís dez/2017 – jan/2018

A tarde de 25 de outubro de 2017, no auditório central da UFMA, tem de ser contada e recriada em muitas narrativas, como faziam os antigos em volta da fogueira. Eu vou contar o que vi e ouvi, ainda no calor da emoção das palestras da quebradeira de coco Rosa Gregório e do índio Kum’Tum Akroá Gamela, na mesa de encerramento do I Seminário Comunicação e Poder no Maranhão.

A palestra formal começou por volta das 4 horas da tarde, quando Gregório e Gamela começaram a falar no palco principal. Se eu fosse escrever uma notícia, a regra jornalística manda disciplinar o tempo. Mas, olhando atentamente, percebi que eles iniciaram a palestra muito antes da cronologia fixa do evento.

No final da manhã, Kum’Tum Akroá Gamela empunhava o seu maracá e cantava e dançava com seus parentes no hall do auditório. A palestra já havia começado ali, naquele ritual dos ancestrais, invocando os espíritos das florestas e das águas e dos ventos.

Naquele momento, sintonizados no sacolejo do maracá e no movimento dos corpos, havia uma comunicação intensa, em alta voltagem, produzida pelo som do instrumento e do coro de vozes que acompanhava o canto guerreiro.

Aquilo para mim já era o rádio ao vivo, sintonizado em uma frequência não autorizada pela burocracia governamental do pomposo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Estavam reunidas magia e técnica, de tal forma que maracá virou microfone e coro de vozes se transformou em amplificador.

Em um dos momentos da sua palestra, Kum’Tum Gamela disse que na maioria dos protestos e manifestações realizados pelos povos e comunidades tradicionais eles usam, no máximo, o carro de som, mas o que dá a tônica da luta são os próprios dispositivos rústicos que de fato conseguem agregar, convocar e comunicar os indígenas, quilombolas e quebradeiras de coco.

Eu vi, também, no momento presente da fala de Kum’Tum Gamela, um garotinho de cocar na cabeça empunhando um tablet e filmando a palestra. O tambor tribal conectava-se à aldeia da aldeia global. Aquela cena ilustrou uma visada sobre como as tecnologias podem dialogar no ambiente da convergência de saberes e ideias.

Para além do bem e do mal, o tambor e a internet são duas plataformas de comunicação que reúnem distintas potencialidades. Penso que nesta fronteira está um ponto de convergência do I Seminário Comunicação e Poder no Maranhão, no que toca aos desafios da comunicação popular.

Não tenho receita pronta, mas algumas pistas. Cabe aos movimentos sociais do campo e da cidade construir uma expertise para usar os dispositivos antigos e as novas tecnologias a favor das narrativas dos invisíveis e oprimidos. Na melhor tradução de Kum’Tum Gamela, “o tambor é a voz dos orixás”, a fonte de conhecimento essencial na comunicação dos povos e comunidades tradicionais.

Alinhada a esse pensamento, a quebradeira de coco e líder sindical Rosa Gregório foi direto ao ponto: “os nossos encantados nos inspiram”. Na prática, esta sacada teórica se materializou em uma aula exemplar de edição jornalística.

Ela contou que a cobertura dos meios de comunicação sobre os povos do campo não foca o essencial – a cerca e o latifúndio. Os relatos jornalísticos, no geral, enquadram a mulher da roça na perspectiva do sofrimento. “Quebradeira de coco não é coitadinha”, frisou.

A fala de Rosa Gregório incorporou o sentido pleno da comunicação como direito humano fundamental e, dialeticamente, reivindicou o direito de informar e ser informada. No entendimento dela, as coberturas jornalísticas precisam “saber o que é o quilombola de verdade”, embalada na ideia de que as comunidades tradicionais precisam contar a sua própria história, a partir dos seus saberes e práticas culturais.

Das duas palestras, foi possível extrair uma tese corroborada pela tônica geral dos dois dias do I Seminário Comunicação e Poder no Maranhão. “A gente chegou ao poder, mas o poder controlado pelos nossos inimigos”, decifrou Kum’Tum Gamela, no contexto de que os governos petistas no Palácio do Planalto e o comunista no Maranhão ganharam eleições mas não fizeram mudanças profundas nas estruturas opressoras.

No que toca à distribuição de verbas publicitárias, o jornalista Emílio Azevedo falou direto e reto: os governos privilegiam os ricos para silenciar os pobres. Assim, comunicação é, sobretudo, uma questão de luta de classes.

O capital rentista associa-se aos conglomerados de mídia para produzir uma narrativa que garanta, acima de qualquer coisa, a reprodução do modo de produção capitalista, essencial ao abismo entre a casa grande e a senzala.

Para além dos meios e das mensagens, o ponto fixo concreto é esse: os poderes econômico, político e midiático operam a hegemonia.

Mas, longe de uma interpretação pessimista do mundo, o I Seminário Comunicação e Poder no Maranhão serviu para reunir pessoas movidas a sonhos e pautas comuns, turbinadas pela sede e fome de liberdade e democracia.

“A resistência está sendo feita, se comunicando do jeito que a gente sabe comunicar e não do jeito que os outros querem”, vaticinou Rosa Gregório. A lição mais importante contada por esta valente quebradeira de coco é a de que, no geral, ela não se sente representada na quase totalidade dos relatos jornalísticos.

Sem a necessidade dos requintes acadêmicos convencionais, o seminário também marcou pela qualidade na formação das mesas de conversa e na metodologia construída. Em um evento sobre comunicação e poder, ouvir os povos e comunidades tradicionais foi o maior ganho.

Eu não poderia chegar ao fim do presente texto sem lembrar o começo. A performance do professor de Teatro Luiz Pazzini, inspirada em Maiakóvski, serviu para abrir caminhos neste agitado mar da História que sempre haveremos de atravessar. Como diz o poeta:

 E então, que quereis?

Fiz ranger as folhas de jornal abrindo-lhes as pálpebras piscantes.

E logo de cada fronteira distante subiu um cheiro de pólvora perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos nada de novo há no rugir das tempestades.

Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?

O mar da história é agitado.

As ameaças e as guerras havemos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas.

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Carta do II Seminário Comunicação e Poder no Maranhão

Nós, organizações que participamos do II Seminário de Comunicação e Poder no Maranhão, dias 27 e 28 de julho de 2022, reafirmamos a importância do debate e da ação em torno da democratização da mídia. Trata-se de um tema fundamental no Brasil, gerando dois eventos em nosso estado, num intervalo de cinco anos.

E estamos convictos da necessidade de começar a pensar, desde já, num terceiro seminário de Comunicação e Poder no Maranhão, a ser realizado no segundo semestre de 2023. 

Ao fazer o debate, levamos em conta que o Brasil hoje é marcado por uma extrema-direita que avançou, assumindo um protagonismo num campo político conservador.  Esse avanço se deu por uma estratégia de comunicação que, a partir de modernas tecnologias e muito dinheiro investido, vem disseminando violência, incluindo ódios e mentiras.  

É uma comunicação que mobiliza parte da sociedade brasileira, atingindo questões fundamentais,  passando por todo tipo de  ataque às possibilidades democráticas, incluindo as tentativas de apagamento de uma memória dolorosa da nossa história.

Essa comunicação de extrema direita ganha força num país marcado por um cartel de comunicação empresarial, com grandes emissoras de TV, que são de direita, movidas por interesses econômicos dos ricos, que defendem privilégios, em clara oposição as pautas de cunho popular.  

E ao tratar de Comunicação e Poder, particularmente no Maranhão, apontamos algumas prioridades: 

1 – Organização e consolidação de projetos jornalísticos que possam produzir conteúdos comprometidos com a classe trabalhadora, com justiça social, direitos humanos, igualdade racial,  gênero e orientação sexual, preservação do meio ambiente e reforma agrária. Isso significa ter referências sólidas de uma comunicação contra-hegemonica.    

2 – Seguir investindo e tentando ampliar o trabalho de formação política, com a produção coletiva de conhecimento e troca de experiências, na perspectiva de formar novos e antigos comunicadores populares, para ocupação de diferentes espaços.

3 – Estimular a comunicação oriunda das periferias, dos povos e comunidades tradicionais, comprometida com a diversidade da classe trabalhadora, das lutas por terra-território e bem viver, a partir de suas múltiplas organizações, movimentos e coletivos. 

4 – Avançar na ampliação de uma rede de solidariedade, com ações conjuntas de comunicação.

5 – Democratizar o orçamento público. Comunicação é um direito. E é inaceitável que o suado dinheiro do contribuinte, de um povo empobrecido, seja quase que exclusivamente destinado aos cofres de poderosos grupos comerciais, que já são naturalmente financiados pelo agronegócio, bancos privados, mineração, grandes empresas. O investimento público tem que garantir liberdade de expressão, pluralidade de vozes, possibilitando a quebra do silêncio diante das diferentes formas de violência, rotineiramente promovidas por elites econômicas, estruturas oligárquicas, latifúndio, agronegócio.

Núcleo Piratininga de Comunicação (RJ)

Agência Tambor

Associacão Brasileira de Rádios Comunitárias do Maranhão — ABRAÇO-MA

Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão

Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultoras e Agricultores Familiares do Maranhão – FETAEMA

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

Sindicato dos Bancários do Maranhão

Fóruns e Redes de Cidadania do Maranhão

Sindicato dos Urbanitários do Maranhão

Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias do Maranhão Pará e Tocantins – STEFEM

Associação Nacional de História – Sessão Maranhão

Caritas Brasileira Regional Maranhão

Movimento pela Soberania Popular na Mineração

Rede de Agroecologia do Maranhão – RAMA

Forum Maranhense de Mulheres

Carabina Filmes

Levante Popular da Juventude

Sindicato dos Servidores da Assembleia Legislativa do Maranhão – Sindisalem

APRUMA – Seção Sindical do ANDES-SN

Sindicato dos Servidores Públicos Federais no Estado do Maranhão – SINDSEP/MA

Sindicato dos Servidores do Judiciário Federal e do MPU no Maranhão – SINTRAJUF

Sindicato dos Profissionais do Magistério da Rede Pública Municipal de São Luís – Sindeducação

Sindicato dos Trabalhadores em Saúde e Previdência no Estado do Maranhão – SINTSPREV

Central Única dos Trabalhadores (CUT-MA)

Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB-MA)

CSP Conlutas

Movimento de Defesa da Ilha

São Luís, 28 de julho de 2022.

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Evento internacional debate a situação dos povos e comunidades tradicionais

Grilagem de terras, a instalação de um porto privado em São Luís, as cercas eletrificadas nos campos da Baixada maranhense e os impactos do agronegócio, entre outros temas, estarão em debate sob a lente de pesquisadores e militantes sociais em dois eventos, a partir desta terça-feira (20) até 23 de março, no Centro de Ciências Humanas (CCH) da Universidade Federal do Maranhão (Ufma).

O I Seminário Internacional Povos e Comunidades Tradicionais Frente a Projetos de Desenvolvimento e o V Seminário “Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente” são realizados em promoção conjunta do Grupo de Estudos: Modernidade, Desenvolvimento em Meio Ambiente (Gedmma), do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Questões Agrárias (Nera), do Programa de pós-Graduação em Ciências Sociais, do Departamento de Sociologia e Antropologia da Ufma e demais parceiros.

A conferência de abertura será proferida pelo professor doutor Juan Manuel Sandoval Palácios, do Instituto Nacional de Antropologia e História – Inah, México, com o tema “Espaços globais da expansão capitalista e resistências locais”, às 17h, no Centro de Convenções da Ufma.

Os dois eventos terão a apresentação de trabalhos de pesquisa e mesas redondas compostas por pesquisadores locais, de outros estados e estrangeiros, representantes de movimentos sociais e de órgãos governamentais, permitindo o aprofundamento do debate que relacione sociedade e ambiente no Maranhão, na Amazônia Legal e suas conexões com o Brasil e o mundo.

Veja mais informações e a programação completa no site do evento

Fonte da imagem: quebradeiras de coco babaçu, capturada no site Overmundo