Enredo da Tuiuti (RJ) traz encantaria da Ilha dos Lençóis, no Maranhão

A escola de samba Paraíso do Tuiuti, do Rio de Janeiro, apresentou no Carnaval de 2020 o enredo “O santo e o rei: encantarias de Sebastião”, do carnavalesco João Vitor Araújo.

Na composição constam duas referências a São Sebastião: uma no Rio de Janeiro e outra no litoral do Maranhão.

Padroeiro dos cariocas, o santo é referenciado especialmente pela comunidade Tuiuti, que também apadrinha a escola de samba.

O enredo é alusivo à lenda de Dom Sebastião, cultuada na Ilha dos Lençóis, localizada no município de Cururupu, no litoral ocidental do Maranhão.

Destaque da Tuiutí /
Foto: Alexandre Mourão G1

A ilha é povoada pelas encantarias originárias da saga do rei português Dom Sebastião, morto no século 16, na batalha de Alcacer-Quibir, no Marrocos, quando tentava reconstruir a pujança econômica de Portugal.

Diz a lenda que nas noites de lua cheia Dom Sebastião renasce em uma aparição, montado em um touro adornado por joias e cavalgando sobre os imensos morros de areia branca da Ilha dos Lençóis.

Devido a incidência do albinismo em uma parte dos moradores da ilha, as pessoas de pele clara são denominadas “filhos da lua”, de certa forma colaborando para o imaginário das encantarias em Lençóis.

Entenda a Geografia

Muitos maranhenses e turistas ainda confundem a região dos Lençóis Maranhenses com a ilha de Lençóis.

A primeira está situada no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses,  uma extensa área que compreende os municípios de Barreirinhas, Paulino Neves, Primeira Cruz e Humberto de Campos.

Essa região é bastante divulgada no trading turístico internacional pelas belezas naturais do rio Preguiças e o conjunto de dunas e lagoas, além das praias que formam um complexo de atrativos até mesmo para a prática de esportes náuticos, como o kitesurf, na localidade Atins.

O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses está localizado no percurso da Rota das Emoções, estendendo-se pelo litoral do Maranhão, Piauí e Ceará.

Já a ilha dos Lençóis está localizada no litoral ocidental do Maranhão, em direção oposta ao Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.

Moradora da ilha dos Lençóis, Helena fala sobre a encantaria de Dom Sebastião. Vídeo: Marizélia Ribeiro

Para você se localizar melhor no mapa do Brasil, posicione o dedo no Maranhão. Se você mover em direção ao Ceará indica que está a caminho do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, que tem como principal referência a cidade de Barreirinhas.

Veja o visual da Ilha dos Lençóis, em Cururupu, no litoral ocidental do Maranhão. Vídeo: Marizélia Ribeiro

Se mover o dedo em direção ao Pará vai encontrar o litoral ocidental e nessa direção segue para o município de Cururupu (cerca de 300km de São Luís), onde está localizada a famosa ILHA DOS LENÇÓIS.

Ouça aqui o samba da Paraíso do Tuiuti

Compositores: Moacyr Luz, Cláudio Russo, Aníbal, Júlio Alves, Pier e Tricolor Intérpretes: Celsinho Mody e Nino do Milênio

Veja no vídeo abaixo o comentário sobre a Ilha dos Lençóis.

Energia solar e eólica: moradores das ilhas de Cururupu utilizam os recursos naturais para o cotidiano e turismo

Nos lugares distantes dos grandes centros urbanos, isolados pelas condições geográficas, o uso do sol e do vento pode ser alternativa para a geração de energia e melhoria na vida de pescadores, moradores em geral, do comércio e outras atividades como o turismo.

É o que acontece em duas ilhas da Reserva Extrativista Marinha (Resex) de Cururupu, composta por 17 unidades insulares no litoral ocidental do Maranhão.

Na ilha de Lençóis, famosa pela lenda do sebastianismo, um projeto da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) utiliza a energia do sol e do vento para iluminar as casas, ligar aparelhos eletrodomésticos e até mesmo para a iluminação das poucas ruas da vila.

Fernando Gonçalves fala sobre melhorias no turismo em Lençóis. Imagens: Marizélia Ribeiro

O proprietário da pousada Recando das Aves, Fernando Gonçalves, explicou que antes do sistema de energia híbrida (solar e eólica) o funcionamento da hospedagem era limitado porque não tinha o conforto pleno para os turistas.

A energia na ilha de Lençóis era originada de um motor a diesel que só funcionava em horário limitado.

Já na comunidade Taboa, localizada na ilha de Mangunça, a geração de energia solar é bem mais artesanal e as instalações foram feitas pelos próprios moradores de uma residência. O casal Nalva e Nildo vendeu um porco e com o dinheiro comprou uma placa solar, de muita utilidade para eles.

Nalva vendeu um porco e comprou a placa solar. Imagens: Marizélia Ribeiro

Taboa, onde moram apenas seis famílias, é desprovida de qualquer sistema de energia. Não tem sequer motor a diesel. Os pescadores têm de ir até a sede do município de Cururupu em uma viagem de 3 horas de barco para comprar gelo e acondicionar os produtos do mar.

Sem acesso fácil ao gelo, a maior parte da produção é colocada ao sol para secar.

A única alternativa dos moradores é a utilização de placas de energia solar adaptadas a outros equipamentos que permitem iluminar a casa e funcionar eletrodomésticos.

Controvérsias

Um dos entraves no uso dos recursos naturais para a geração de energia é a gestão e o interesse empresarial. Na ilha de Lençóis o projeto inicial era da UFMA e a taxa paga pelos moradores, simbólica. Quando passou para a gestão da Cemar, os preços foram para a estratosfera (veja o vídeo).

O crescente uso da energia solar abriu recentemente uma polêmica sobre “taxação do sol”, proposta pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

A “taxa do sol” consiste em diminuir os subsídios do consumidor que utiliza um painel fotovoltaico em casa, por exemplo. Na prática, essa medida, se aprovada em definitivo, vai tornar mais cara a energia obtida com o recurso natural do sol.

Conheça a hospitalidade em Ponta dos Almeida, um dos portos para chegar às ilhas de Cururupu

O porto e povoado de Ponta dos Almeida, também conhecido como Aquiles Lisboa, é um dos acessos às ilhas da Reserva Extrativista (Resex) de Cururupu. Nesse lugar aprazível você pode se hospedar na casa de dona Neném e seu Zé Cambeta, pessoas ilustres e receptivas que nos acolheram em mais uma viagem inesquecível pelo litoral ocidental do Maranhão.

Saindo da sede do município de Cururupu você dirige por cerca de uma hora em uma estrada rural até chegar em Ponta dos Almeida, onde pode tomar uma embarcação para as ilhas da Resex.

Nessa viagem nós fizemos o deslocamento até a ilha de Mangunça, em aproximadamente uma hora e meia de viagem, depois contornamos a ilha até chegarmos na praia da Taboa.

Não existem linhas regulares de barcos. Para fazer essa viagem você tem de juntar uma turma e alugar uma embarcação.

A viagem é mais confortável no começo do ano, quando caem as primeiras chuvas, ou após o período chuvoso, em agosto. Nesses dois períodos a estrada Cururupu – Ponta dos Almeida fica em condições razoáveis.

No período das chuvas intensas não é recomendável transitar pela estrada porque tem muitos alagamentos.

Imagens: Marizélia Ribeiro

Ilha de Mangunça e praia da Taboa: duas aventuras de barco pela Reserva Extrativista de Cururupu

Existem várias formas de acessar as ilhas da Reserva Extrativista (Resex) de Cururupu: pelo porto principal localizado na própria sede do município ou nos povoados Pindobal e Ponta dos Almeida (Aquiles Lisboa), portos secundários onde também é possível tomar embarcações e visitar lugares belos na região das Reentrâncias Maranhenses, Floresta dos Guarás ou Arquipélago de Maiaú (os três nomes designam a mesma região).

Chegando em Cururupu, você pode acessar uma estrada rural até chegar em Ponta dos Almeida (Aquiles Lisboa), com um deslocamento de aproximadamente uma hora (de carro). No primeiro semestre a estrada fica bastante danificada devido às chuvas intensas. Por isso é recomendável fazer a viagem entre os meses de agosto até dezembro.

Veja no vídeo abaixo como é feito o percurso de barco.

Mangunça é uma ilha pouco habitada e na área do “fundo da ilha” está localizada a comunidade Taboa, onde vivem seis famílias.

Com belas paisagens de campos, mata, lagos, restinga, apicum, dunas e praia, a Taboa é um lugar desafiador para conhecer. As imagens são de Marizélia Ribeiro.

Não existem rotas convencionais de barcos nem pousadas para o eixo Mangunça/Taboa. Se você quiser desfrutar esses lugares tem de juntar uma turma corajosa e despojada, alugar uma embarcação e encarar a aventura.

Por do sol na praia da Taboa. Foto: Marizélia Ribeiro

Depois de sair da vila principal de Mangunça você segue de barco até o pequeno porto de Taboa. Chegando lá, o deslocamento até a vila de seis casas é feito de carroça e a pés.

Leve protetor solar, chapéu, repelente, saco de dormir, rede ou barraca para acampar. A culinária é farta, principalmente peixe para comer cozido, grelhado ou frito.

Esqueça o bucolismo. Na Taboa se trabalha muito, de chuva a sol, com pescaria, criação de gado, ovinos e caprinos, pequena agricultura familiar e extrativismo.

A vida é dura, mas você encontra pessoas muito agradáveis, como Dutra, Deleon, Nalva, Nildo, Louro e tantos outros que nos receberam nas suas casas.

Embora seja um lugar isolado, de difícil acesso, na Taboa os moradores fazem adaptações com placas solares para obter energia que ilumina das casas e fazem “rodar” aparelhos eletrodomésticos.

Veja como funciona o sistema de energia solar na casa de Nalva e Nildo.

O principal meio de comunicação ainda é o velho rádio AM. Sinal de celular é um sonho, mas um dia chega. Sem luz elétrica, um dos baratos em Taboa é acender uma fogueira e bater papo até tarde da noite, sob um deslumbrante céu estrelado.

Abaixo, veja como é a relação entre os moradores da Taboa e os programas jornalísticos de rádio AM.

Do mar ao cinema: a solidão de “Silicrim” e Amyr Klink

O navegador solitário Benedito Raposo Teixeira, o “Silicrim”, faleceu em 11 de fevereiro de 2018, aos 82 anos de idade, nas proximidades da ilha de São Lucas, no arquipélago de Maiaú, em Cururupu.

No final de 2016, quando tinha 80 anos, “Silicrim” recebeu uma grandiosa homenagem no filme “O Império de um Navegador”, dirigido pelo cineasta Edson Fogaça.

Ao assistir ao filme com plateia lotada no cine Praia Grande, escrevi uma crítica, publicada  em 1º de dezembro de 2016, no Blog do Ed Wilson (edwilsonaraujo.com.br). Este blog estava hospedado pela empresa SlzHost e foi “deletado” de tal forma que todo o conteúdo ficou perdido e inacessível. A SlzHost não conseguiu recuperar o Blog do Ed Wilson e o trabalho de quase dois anos foi totalmente “apagado” da web.

O artigo sobre Silicrim e o filme “O Império de um Navegador” foi salvo graças à generosidade do diretor do Estaleiro Escola, Luiz Phelipe Andrès, que à época (2016) imprimiu o texto do Blog do Ed Wilson, guardou uma cópia e digitou o texto novamente na madrugada do dia 13 de fevereiro 2018, possibilitando a republicação em meu novo blog (edwilsonaraujo.com). Veja como o papel ainda é importante em tempos de tanta tecnologia!

Deixo meu agradecimento especial a Luiz Phelipe Andrès pela recuperação do texto. Se ele não tivesse guardado uma cópia em papel, seria impossível recuperá-lo.

Abaixo, o texto original.

DO MAR AO CINEMA: A SOLIDÃO DE “SILICRIM” E AMYR KLINK

Ed Wilson Araujo

O menino Benedito, nascido na ilha de São Lucas, em Cururupu, era caçoado pelos colegas porque se atrapalhava no letramento de tal forma que era uma tortura, para ele, a decoreba da cartilha do ABC: “sa-la-cra”, “sa-la-cre”, “sa-la-cri”.

Benedito nunca passou das lições iniciais de alfabetização, ganhou da turma o apelido Silicrim e abandonou a escola ainda criança. Seu destino era o mar e nas últimas duas décadas a marca do navegador solitário, ativo aos 80 anos de idade.

A sua vida inteira dedicada ao mar foi contada no filme “O Império de um Navegador”, exibido no Cine Praia Grande, com plateia lotada e a presença da personagem principal do filme – Benedito Raposo Teixeira, o “Silicrim”, familiares e amigos; do navegador Amyr Klink; do diretor do Estaleiro Escola Luiz Phelipe Andrès; e do diretor do Mavam Joaquim Haickel.

Amyr Klink veio especialmente ao Maranhão conhecer o marinheiro solitário do arquipélago de Maiaú, navegaram juntos e falaram pouco, depois da seção do filme, na homenagem grandiosa a um homem simples que só precisa de vento e solidão para uma existência de plenitude.

O filme dirigido por Edson Fogaça é impecável. Da trilha sonora ao script, recorta e costura a personagem “Silicrim” com a mistura de realidade e ficção em uma sensibilidade poética e com a força narrativa tão potente quanto a quilha cortando as ondas, tal qual o poema  “E então, que quereis?”, de Vladimir Maiakóvski.

A ideia do filme surgiu quando Silicrim aportou no Estaleiro Escola para deixar o barco guardado, enquanto ele iria fazer uma cirurgia de hérnia. Phelipe Andrès ficou encantado com a saga de Silicrim e desde então foi brotando a ideia de contar a história do navegador solitário do Maranhão em um filme.

Enquanto “Silicrim” se recuperava da cirurgia, Andrès mobilizou a equipe do Estaleiro Escola para fazer outra intervenção cirúrgica , desta feita no barco “O Império de Um Navegador”, que chegara ao porto bastante avariado.

Finalmente liberado pelo médico, ele recebe o barco de volta, totalmente recuperado, e segue a sina de navegador solitário, mas sempre rodeado de amigos em todos os portos por onde passou.

Trata-se deu um filme para ser lido, porque na tela estão implícitos Gabriel Garcia Márquez, Guimarães Rosa e Fernando Pessoa.

A minha experiência de assistir ao filme remeteu Silicrim às narrativas da obra “Cem anos de Solidão” e à magia do realismo fantástico, especialmente o tempo, cravado na pele enrugada de sal e sol como se cada dobra fosse um capítulo das suas oito décadas de vida, quase todas no mar.

No filme, o tempo se arrasta carregado de nostalgia na cena do ritual de preparar o próprio café da manhã no interior do barco. O café coado lentamente duas vezes, depois bebido na fartura do olhar longínquo avistando o nada na beira da praia, ou nas caminhadas sem pressa pelas areias de encantarias da ilha dos Lençóis.

A vida de “Silicrim” é a negação do tempo presente apressado pelos motores e dispositivos móveis. Seu barco, “O Império de um Navegador”, que dá nome ao filme, é à vela. Ele é um homem movido a vento.

Guimarães Rosa está presente nos diálogos entre Silicrim e seus companheiros, demarcados por pausas, silêncios intermináveis, vazios interpretativos de uma profundidade medonha. Nesses papos despropositados, as histórias de aventuras no mar são recontadas pelos amigos das ilhas de Cururupu, parceiros de viagens, costurados aos depoimentos da personagem principal.

A poesia atravessa todo o filme, daí a presença de Fernando Pessoa na figura da personagem, naquilo que representa o ímpeto da conquista, o desejo de aventura, a constante inquietação de Silicrim com a segurança da terra firme. Ele é do mar e não enjoa, homem de alma grande, porque a vida inteira valeu a pena.

Imagem destacada / divulgação / Silicrim pilotando seu barco artesanal