O naufrágio do poeta Gonçalves Dias no Atins de Guimarães

Praias de Barreirinhas e Guimarães são referências para o turismo e uma tragédia na Literatura. Na costa do Atins vimarense desapareceu o poeta Gonçalves Dias, em 1864, vítima de um naufrágio 

O Blog do Ed Wilson já detalhou em outro texto as diferenças entre Ilha dos Lençóis e os Lençóis Maranhenses.

Nessa postagem vamos discorrer sobre Atins, designação para dois territórios posicionados em áreas geográficas distintas: Barreirinhas e Guimarães.

Devido a facilidade de acesso e impulsionado pelo turismo, Atins é bem mais conhecido na região dos Lençóis Maranhenses, no litoral oriental, pertencente ao município de Barreirinhas.

Vista aérea do litoral Atins, em Barreirinhas. Imagem capturada aqui

Esse Atins é um lugar bucólico, cheio de pousadas rústicas e sofisticadas, visitado por  turistas de todo o mundo e propício aos esportes náuticos como kitesurf.

A tragédia com o poeta Gonçalves Dias

Já o Atins de Guimarães está posicionado no litoral ocidental, na região denominada Floresta dos Guarás, um vasto território que compreende praias, ilhas, manguezais, dunas, lagoas, campos e lagos nos municípios de Guimarães, Cururupu, Porto Rico, Bequimão, Mirinzal, Apicum-Açu, Central do Maranhão e outros como Bacuri e Serrano.

Guará é o nome de um pássaro de plumagem vermelha muito comum na região.

Pássaro de plumagem vermelha é atrativo na Floresta dos Guarás.
Imagem capturada aqui

O Atins de Guimarães fica localizado na baía de Cumã. Além do belo visual, a praia é lembrada como referência do naufrágio que levou à morte o poeta Gonçalves Dias, na segunda metade do século 19.

Em 1862, o poeta maranhense viajou à Europa para um tratamento de saúde, mas não obteve melhoras e decidiu voltar ao Maranhão, já debilitado. Em 9 de julho de 1864 Gonçalves Dias embarcou na França, no vapor Ville de Boulogne, com destino à sua terra natal.

Vista das barreiras na praia de Atins, em cujas águas morreu Gonçalves Dias. Provavelmente, foi uma das últimas visões do poeta antes de falecer

Na noite de 3 de novembro o navio naufragou nos baixos dos Atins, perto da vila de Guimarães. Constam nos relatos que apenas o poeta faleceu, em condições de saúde muito precárias. Seu corpo nunca foi encontrado. Todos os tripulantes (marinheiros) sobreviveram.

Veja aqui um relato mais completo sobre a viagem.

Há controvérsias

As fontes pesquisadas para a produção desse texto dão conta da fragilidade física do poeta, acometido de enfermidades, além do longo tempo da viagem de mais de 50 dias. Segundo os pesquisadores e biógrafos, Gonçalves Dias não tinha sequer condições físicas para nadar quando o Ville de Boulogne bateu em um banco de areia e naufragou nas proximidades da praia de Atins, em Guimarães.

O ponto vermelho indica a baía de Cumã, onde o navio naufragou

No entanto, apesar de todos os registros biográficos sobre a morte do poeta e dos mapas que demonstram a proximidade entre as baías de Cumã e São Marcos, um jornalista e pesquisador de História contesta o caminho do vapor onde viajava Gonçalves Dias. Segundo o historiador, que preferiu não ser identificado, Guimarães “não é a rota” das embarcações que fazem o deslocamento da Europa para São Luís.

Segundo esse raciocínio, é pouco provável que o navio tenha naufragado nas águas da baía de Cumã. “Acho estranho que o navio em que Gonçalves Dias vinha tenha naufragado em Guimarães, uma área fora da rota Europa-São Luís. Teria acontecido um desvio? Outro fato estranho é que somente o poeta morreu no naufrágio”, ponderou.

Memórias literárias

A tragédia é lembrada na obra do escritor vimarense (nome gentílico para os nascidos em Guimarães) Paulo Oliveira, intitulada “Gonçalves Dias e o mistério de sua morte nos Atins”.

As memórias sobre o desaparecimento do escritor estão presentes também nos versos da escritora vimarense Ananda Campos, no poema Crepúsculo em Ponta dos Atins:

Prestes a beijar o horizonte
O sol desce lentamente,
O arrebol tinge o céu com esplendor
Nuvens são desfeitas calmamente.


Sobre a nívea areia,
Pedras como ouro cintilam.
Vejo as belas palmeiras
Que os olhos do poeta viram.
Atins te sobrevoam, oh mar
E com ondas calmas a orla beijas
Em teu seio, guardas Gonçalves Dias,
Em tua dor, saudades gotejas.


Seria presságio?

O desaparecimento do poeta na costa de Guimarães gera algumas especulações, como a de que ele teria tido uma espécie de presságio no poema “Adeus aos meus amigos do Maranhão”, escrito em 1845, antes de viajar para o Rio de Janeiro. Os últimos versos dizem:

Tal parte o desterrado: um dia as vagas
Hão de os seus restos rejeitar na praia,
Donde tão novo se partira, e onde
Procura a cinza fria achar jazigo.

No hino do município de Guimarães constam versos emblemáticos sobre o simbolismo do desaparecimento do poeta nas águas vimarenses, no trecho:

“O vate dos timbiras, voltando à terra irmã,
Beijou, morrendo, a pátria, nas águas de Cumã.
De Guimarães foi dádiva o abraço do Brasil.”


Texto integral do Hino de Guimarães

Hino tem alusão ao poeta Gonçalves Dias

Letra: Padre Pedro Tidei
Melodia: Pedro Gronwell

Ao verde brilho infindo do virgem palmeiral
Desposa-se profundo o azul bravio do mar.
Ao flutuar das ondas, do vento o sibilar.


Oh! terra amada, ó Pátria,
Duas vezes secular
Vivo farol de glória,
Estremecido lar.


Zarpam teus barcos leves que destemidos vão
Levar teu nome às praias de todo Maranhão.
E de tua gente intrépida leva-se o canto ao mar.


Oh! terra amada, ó Pátria,
Duas vezes secular
Vivo farol de glória,
Estremecido lar.


O vate dos timbiras, voltando à terra irmã,
Beijou, morrendo, a pátria, nas águas de Cumã.
De Guimarães foi dádiva o abraço do Brasil.

Oh! terra amada, ó Pátria,
Duas vezes secular
Vivo farol de glória,
Estremecido lar.


Pelo Brasil, imenso, raios de claro sol
Brilharam já teus filhos, qual fúlgido arrebol
Sotero, Urbano Santos, fizeste deslumbrar.


Oh! terra amada, ó Pátria,
Duas vezes secular
Vivo farol de glória,
Estremecido lar.

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