Globo & Bolsonaro: entre tapas e beijos

Ed Wilson Araújo

As Organizações Globo estão mesmo atritadas com Jair Bolsonaro?

Aparentemente, sim.

Mas, se você atentar bem, a rixa entre eles é limitada às questões morais e comportamentais do presidente em relação à pandemia covid19.

Afinal, uma dama fina da burguesia midiática não consegue conviver bem com um homem grosseiro, que despreza a vida, ignora a pandemia, agride jornalistas e chama de lixo a nossa senhora da tela brasileira.

Fora o atrito moral com o presidente, as Organizações Globo estão de paz e amor com a agenda econômica ultraliberal do bolsonarismo, tocada a ferro e fogo pela equipe econômica de Paulo Guedes, com apoio do velho Centrão no Congresso Nacional.

Veja, por exemplo, como o Jornal Nacional e os outros conteúdos noticiosos abordam as privatizações e as reformas previdenciária, trabalhista e administrativa?!

Durante todo o processo de tramitação da reforma da Previdência os telejornais globais trataram Paulo Guedes como o príncipe do capitalismo “moderno”. O ministro não era apenas exposto exageradamente nas matérias. Ele era louvado como um garoto propaganda dos banqueiros interessados em destruir a Previdência Pública e a Assistência Social para implantar o regime de capitalização.

“Precisamos economizar R$ 1 trilhão”, dizia o globalíssimo Paulo Guedes no famoso bordão sobre a reforma previdenciária, enquanto seu chefe Jair Bolsonaro tocava a boiada no parlamento.

Aquilo não era jornalismo e sim uma campanha publicitária contra a Previdência pública.

Na Globo News, todos os programas de análise política e econômica sincronizam o mesmo discurso: “é preciso reduzir o Estado”, “as reformas são urgentes e inadiáveis”, “o Brasil vai quebrar se não fizer as reformas” e por aí vai.

Miriam Leitão é a principal representante da catilinária ultraliberal de Paulo Guedes. Ela é a mesma jornalista que dinamitava a política econômica do PT. Você lembra?

Leia mais sobre Miriam Leitão em “Detalhes tão pequenos de nós três”

Então, é assim. As Organizações Globo implicam com Jair Bolsonaro porque ele não usa máscara de proteção, mas se lixam para a perda de proteção dos direitos trabalhistas e previdenciários do povo brasileiro.

Muita gente boa anda encantada com os editoriais do Jornal Nacional e aquelas interpretações sentimentais de William Bonner e Renata Vasconcelos nas rixas com o presidente.

Ele merece sim ser repudiado por todas as atrocidades cometidas desde a campanha eleitoral e até o presente momento da pandemia. Não há dúvidas de que Jair Bolsonaro é desumano e deve ser combatido.

Porém, não esqueçamos que o bolsonarismo é um subproduto do golpe contra a democracia orquestrado com a participação de uma parte do sistema de Justiça, do parlamento mercenário e das Organizações Globo liderando uma campanha contra o PT, as esquerdas em geral e as instituições.

É sempre bom lembrar que as peças jornalísticas globais movimentaram o xadrez político para criar uma corrente de opinião majoritária e avassaladora que acusou, julgou e condenou a democracia no Brasil.

As Organizações Globo integram o consenso hegemônico da elite econômica e política em todos os governos. Ela funciona como o partido único do capital. Se os interesses dessa casta forem afetados, haverá reação.

Sabemos que a hegemonia é um processo atravessado por contradições e a mídia de mercado opera na movimentação das forças políticas entre a dominação e a emancipação, sempre optando pelo lado da elite opressora.

O jornalismo global torcia o nariz até mesmo no cenário da política econômica do PT que privilegiava a burguesia e fazia algumas concessões aos pobres.

Então, quando a elite econômica percebeu que o PT ficaria uma longa temporada no poder e não dava sinais de radicalizar a política econômica no caminho ultraliberal, veio o golpe com a participação expressiva do espírito de Roberto Marinho.

Agora o cenário é ideal. Paulo Guedes é o garoto propaganda e o operador agressivo das privatizações, das reformas e de toda a agenda radical do bolsonarismo contra o Brasil.

É assim mesmo, passando o trator e a boiada. Afinal, o agro é pop, o agro é tech, o agro é tudo.

Bolsonaro faz recuo tático no Renda Brasil

Durante o período mais forte da pandemia do novo coronavírus o Auxílio Emergencial passou a ser um ativo importante nos índices de aprovação e popularidade do governo Jair Bolsonaro.

O presidente sentiu nas pesquisas o efeito da injeção do dinheiro no bolso da população pobre. Somado ao Bolsa Família, o Auxílio Emergencial acendeu a luz verde para a reeleição de Bolsonaro em 2020.

Falta, apenas, rebatizar o Bolsa Família e transformá-lo no Renda Brasil, apagando a marca tucano-petista para criar um novo mote publicitário de ajuda aos pobres, sob a insígnia nacionalista e uma provável paleta de cores verde e amarela.

Momentaneamente há um conflito entre a sedução eleitoreira de Bolsonaro e as restrições orçamentárias somadas à antipatia pelos pobres do ministro da Economia Paulo Guedes.

Para evitar um desgaste maior com a equipe econômica, o presidente faz um recuo tático no Renda Brasil, mas na virada de 2021 para 2022, ano eleitoral, o tema voltará à pauta com todo vigor.

O bolsonarismo, que odeia os programas sociais pejorativamente denominados “esmola para os pobres”, vai mudar de opinião em nome da reeleição do presidente.

Espelhado no PSDB e no PT, pai e mãe dos programas sociais recentes, Bolsonaro vai manter e aperfeiçoar tudo aquilo que condenava.

Assim, o Renda Brasil tende a ser o maior cabo eleitoral de 2022.

Os cachorros da era Bolsonaro & Guedes

Os efeitos agressivos da política econômica liderada por Paulo Guedes são percebidos de várias maneiras na vida comum das pessoas e dos bichos. Basta observar como estão os cachorros nas periferias das cidades e na zona rural: tristes e esqueléticos.

Quando o pobre comia carne, os cachorros roíam os ossos. Essa síntese traduz a importância do programa de segurança alimentar e nutricional implantado nas últimas duas décadas, que proporcionou a inclusão de milhões de brasileiros em padrões civilizatórios.

Fazer três refeições por dia, comer proteína, beber leite, ter direito a uma sobremesa de goiabada e levar a família a um restaurante uma vez por mês passaram a fazer parte da vida dos mais pobres. Os cachorros e as galinhas nos quintais saboreavam as sobras da comida farta na mesa do povo.

Uma série de políticas transversais viabilizou a chegada do capitalismo aos grotões. O dinheiro do Bolsa Família aqueceu a microeconomia no Brasil profundo. O Luz para Todos proporcionou um insumo fundamental – energia – para os pequenos e médios produtores e ao comércio.

Assim, o dono da quitanda na zona rural comprou o sonhado freezer para armazenar carne, leite e outros produtos porque havia consumo. Esses princípios básicos da economia fizeram girar a roda da indústria e dos transportes vinculados ao comércio de bens e serviços.

Os cachorros também foram beneficiários dos programas sociais com as sobras da mesa farta do povo.

Dessa forma, a prosperidade chegava ao Brasil profundo.

Mas, o preconceito de classe das elites nacionais, submissas ao capital internacional, impediram a escalada de desenvolvimento humano vivenciada no Brasil.

O golpe de 2016 e na sequência a radicalização do modelo ultraliberal, sob a chibata de Paulo Guedes, decretaram guerra aos direitos trabalhistas, à previdência e o extermínio da assistência social.

Somado ao preconceito, o ódio disseminado nos meios de comunicação e nas redes sociais tratou de estigmatizar o Bolsa Família como esmola aos pobres parasitas ou um programa de inspiração comunista (!).

De maneira subliminar, esse discurso já vinha sendo fartamente pronunciado pela boca de personagens como Caco Antibes, interpretado por Miguel Falabela, na série televisiva Sai de Baixo, da TV Globo.

A eleição de Jair Bolsonaro ampliou a discriminação e o preconceito contra os pobres, transformados em um dos principais alvos do Gabinete do Ódio.

Vieram, nessa perspectiva, uma série de medidas ultraliberais para impedir qualquer mobilidade social no Brasil.

A tirania econômica de Paulo Guedes vem tirando não só os empregos e os direitos do povo. Algo mais grave e violento acontece: corta da mesa dos mais pobres a o leite e a carne, deixando os cachorros sem o direito de roer os ossos.

Imagem destacada capturada neste site

Bolsonarista de São Pedro dos Crentes vai “descer a cachamorra” no presidente que pretende extinguir o município onde teve votação expressiva

A cidade evangélica de São Pedro dos Crentes, no sul do Maranhão, a 758 Km de São Luís, está em polvorosa com o anúncio de que o município pode ser extinto e  incorporado a outra unidade administrativa, segundo a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) apresentada pelo ministro da Economia Paulo Guedes.

Pelo menos uma pessoa pública já se manifestou contra a PEC. O maestro evangélico e radialista Jairo Maranhão, apresentador do programa Jornal do Meio Dia, na rádio comunitária Rio Farinha FM, prometeu críticas ácidas ao presidente Bolsonaro.

“Eu que sou Bolsonarista estou nervoso desde hoje (quarta-feira). Já estou avisando nos grupos das redes sociais que vou “descer a cachamorra” no Bolsonaro amanhã”, anunciou o radialista, prometendo uma edição especial do jornal nesta quinta-feira (7 de novembro) sobre a provável eliminação de São Pedro dos Crentes do mapa.

O programa pode ser ouvido aqui a partir das 12h

Cachamorra é o codinome de uma árvore rígida denominada carvoeiro, utilizada para açoitar animais. “Descer a chachamorra” no popular significa “meter o pau ou porrete”. Em sentido figurado é: fazer críticas tóxicas.

O principal motivo da revolta do radialista está relacionado à “ingratidão” de Bolsonaro em relação à expressiva votação que obteve na eleição de 2018.

São Pedro dos Crentes é uma das três cidades do Maranhão onde Jair Bolsonaro (PSL) ganhou a eleição logo no primeiro turno, com 50,93% dos votos, enquanto Fernando Haddad (PT) obteve 37,53%. No segundo turno os candidatos alcançaram, respectivamente: 57,49% x 42,51%.

Bolsonaro ganhou também nas cidades de Açailândia e Imperatriz, no sudoeste do Maranhão.

A igreja Assembleia de Deus é a principal referência política e religiosa na cidade, onde cerca de 60% da população é evangélica, incluindo Jairo Maranhão.

“Eu não vou dispensar Paulo Guedes nem Bolsonaro, ele que tá falando de visitar São Pedro”, detalhou o radialista.

O presidente demonstrou interesse em conhecer a cidade onde teve a maior votação proporcional no Maranhão em 2018 e chegou a prometer a instalação de um posto do Banco do Brasil na cidade, que está funcionando parcialmente.

Alinhado à extrema direita, o prefeito do município, Lhaesio Bonfim, trocou o PSDB pelo PSL e recentemente visitou o presidente Jair Bolsonaro, mas ainda não fez pronunciamento oficial sobre a PEC. O presidente da Câmara e os vereadores estão reticentes, mas nos bastidores e nos grupos de trocas de mensagens o debate é intenso, segundo Jairo Maranhão.

Bonfim entra no PSL quando Bolsonaro cogita sair do partido e criar uma legenda nova. O prefeito faz oposição ferrenha ao governador do Maranhão, Flávio Dino, do PCdoB.

A PEC propõe a incorporação às cidades vizinhas de municípios com população inferior a 5 mil habitantes e arrecadação própria menor que 10% da receita total.  A proposição, se efetivada, deve valer a partir de 2026.

O Blog do Ed Wilson produziu quatro reportagens especiais sobre São Pedro dos Crentes.

Veja os títulos das matérias e os links para acessar:

São Pedro dos Crentes (parte 1): cidade evangélica tem fiéis ardorosos e irmãos desviados

São Pedro dos Crentes (parte 2): cidade evangélica é o último reduto de José Sarney no sul do Maranhão

São Pedro dos Crentes (parte 3): futebol é tabu na Assembleia de Deus

São Pedro dos Crentes: cidade evangélica no Maranhão pode receber a visita de Bolsonaro

Imagem destacada capturada neste site: O prefeito de São Pedro dos Crentes Lhaesio Bonfim; o presidente do PSL no Maranhão, vereador Chico Carvalho; e o presidente Jair Bolsonaro durante encontro em Brasília.