Natal da discórdia no Maranhão

São Luís às vezes tem traços de Macondo e Sucupira, juntas.

O Circo da Cidade virou borboleta, o Estádio Municipal Nhozinho Santos é um cemitério de dinheiro público, o acervo do Memorial Bandeira Tribuzi está amontoado lá pras bandas do Desterro; e os portais da cidade, aprovados em um rumoroso concurso, nunca saíram do papel. Para completar, a reportagem do jornalista Silvio Martins revelou mais um funeral do erário no coração do Centro Histórico – as reformas no prédio do BEM já consumiram R$ 30 milhões.

Nesse Natal, como será a chegada de Jesus para os índios do Maranhão? E a ceia dos moradores do Cajueiro? Qual presente receberão os quilombolas de Alcântara?

Que futuro terá nossa região metropolitana com a proposta da Prefeitura de São Luís para eliminar 41% da zona rural na revisão do Plano Diretor?

Vamos às respostas.

Há um consenso sobre o extermínio dos indígenas. Bolsonaro (a política de ódio) é o culpado-mor, mas a estrutura oligárquica do Maranhão, firme e forte em todos os governos, dita a ordem da violência no campo para dizimar os povos e as comunidades tradicionais.

Não há como negar a veia progressista do governador Flávio Dino (PCdoB) e o esforço da gestão para melhorar o panorama e os indicadores locais, mas a violência no campo tem a cota de participação da direita eternamente apaixonada pelo Palácio dos Leões.

Para o pensamento político do campo conservador pouco importa se os índios vão morrer de susto, bala ou vício.

Já na dimensão geopolítica, a força do capital internacional passa o trator no Cajueiro para atender à expansão portuária e industrial. Esta, por sua vez, precisa das alterações no Plano Diretor para tirar do meio do caminho a zona rural, como se as comunidades tradicionais estivessem impedindo o “desenvolvimento” do Maranhão.

O prefeito Edivaldo Holanda Junior (PDT), no segundo mandato, opera os interesses das empreiteiras e dos lobistas do mercado de terras para fazer de São Luís um gigantesco “grilo chique”. Não há qualquer diferença entre esse projeto e o de Eduardo Braide (Podemos), deputado federal e líder nas pesquisas de opinião para prefeito de São Luís, em 2020. Ambos são filhos da mesma árvore política.

Existe portanto uma opção clara pela continuidade da modernização conservadora. Assim, os quilombolas de Alcântara podem ter o mesmo destino dos moradores do Cajueiro: tropa de choque, balas de borracha e bombas de efeito moral.

Tudo isso ocorre no mês do Natal, em meio à polêmica sobre o Papai Noel no Centro Histórico de São Luís e críticas reais acerca das políticas culturais do Governo do Estado e da Prefeitura de São Luís.

O melhor de tudo é a divergência. Como é salutar ver opiniões conflitantes sobre o velho de barba branca e roupão vermelho que emociona os ricos da ceia farta e os pobres com as suas limitações.

Jesus Cristo, o homem histórico de carne e osso, combateu os poderosos e pregou justiça. Que ele renasça nos corações e nas nossas palavras neste Natal das discordâncias saudáveis.

Nota do Editor: Texto atualizado às 20h38. Houve um equívoco ao associar o ex-prefeito de Santa Luzia do Tide, Antonio Braide, ao deputado federal Eduardo Braide.

De tempo em tempo

Eloy Melonio *

“(…) e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou.” (Ec 3.1-2)

Pela primeira vez, elas passaram a tarde brincando de montar a nossa árvore de Natal. Terminada a brincadeira, festejaram como se fosse uma obra de arte. A árvore logo estava repousando sobre uma mesinha no canto da sala. E as duas, felizes, sorriam como quem acaba de ganhar o presente de seus sonhos.

As personagens referidas são minha esposa e nossa netinha de 8 anos. E é com seu entusiasmo que quero ilustrar o assunto deste ensaio: a vida se dá em ciclos.

Tudo isso porque dezembro é o tempo das “festas natalinas”. Em cena, a árvore de Natal, o Papai Noel, brinquedos, confraternizações e a ceia em família.

Os ciclos são a repetição de fenômenos e acontecimentos culturais ou sociais que se sucedem numa ordem determinada, como um aniversário. Com eles a vida segue sua rotina virtuosa, reafirmando e celebrando épocas, datas, momentos. Sejam de ordem cívica, social, cultural, religiosa… Sempre ligados entre si.

Nas sociedades primitivas, as luas, as colheitas, as festas religiosas ditavam o ritmo da vida. No mundo contemporâneo, tudo o que se possa imaginar. Até uma tal de Black Friday!

Enquanto escrevia os parágrafos anteriores, sentado à frente da tevê, ouvi essa frase mais de vinte vezes. Acho que só funerária e cemitério ainda não usam essa promoção, ― como quase tudo que diz respeito ao marketing ― criada pelos americanos. Mas quem garante que no próximo ano isso já não esteja acontecendo! Principalmente hoje quando os custos de um funeral estão pela hora da morte.

Por falar em marketing, o comércio depende essencialmente das datas comemorativas: Dia das mães, dos pais, das crianças, dos namorados. E agora, mais uma novidade: o “mensário”. E o que é isso?! Uma festinha em que os pais celebram o nascimento do bebê a cada mês até a data oficial do aniversário de um ano.

O certo é que os ciclos nos mantêm vivos, revigorados, esperançosos. O principal exemplo é o ano do nosso calendário que marca a passagem do tempo, e cujo apogeu é a “virada”. E assim, o ano-novo começa no último dia do ano velho, e o ano velho termina no primeiro dia do ano-novo. Nesse embalo muita gente vive intensamente os dois momentos: as últimas horas de um (realizações) e as primeiras do outro (resoluções).

Entre o início e o fim de um ano, muitas datas para celebrar. Termina uma, e já sonhamos com a próxima. Depois do Reveillon, o Carnaval. E logo em seguida, a Semana Santa, o São João. Tenho uma amiga que sonha com o Halloween desde agosto. Outra, mal termina o Carnaval, já está com o pé no São João. E, dessa forma, os interesses e os apegos diferem de pessoa para pessoa, de cultura para cultura.

No meio desse fluxo não se pode esquecer as campanhas de saúde pública. Todo ano, as fachadas de alguns prédios públicos e também os profissionais (e ativistas) vestem-se de cor-de-rosa (outubro) e azul (novembro) para lembrar a necessidade de exames preventivos do câncer da mama e da próstata, respectivamente. Inesquecível, e até mesmo incômodo, é o ciclo menstrual que se repete a cada quatro semanas na rotina das mulheres.

Vale lembrar os eventos de cunho político-partidário, religioso, ideológico. Nesse cenário, destacam-se a Parada Gay (ou “do orgulho LGBT”), a Marcha para Cristo, Dia da Consciência Negra (um feriado novo em alguns estados do Brasil), entre outros.

Convenhamos: é no passar e repassar dos ciclos que o nosso espírito gregário se fortalece. Afinal, a beleza da vida está nesse vaivém dos momentos memoráveis. Quanto mais ciclos em nosso currículo de vida, mais sábios, mais felizes, e mais conscientes de nossa condição humana.

Dito isso, só tenho uma dúvida: não sei se minha netinha virá ajudar a vovó quando chegar o dia de desmontar a árvore de Natal.

*Eloy Melonio é professor, escritor, poeta e compositor.