Documentário inédito por 38 anos revela censura na UFMA e resistência dos estudantes na década de 1980

Por João Ubaldo Moraes (jornalista e documentarista)

Texto publicado originalmente no site Agenda Maranhão

Este ano, lamentavelmente, perdemos para a Covid-19, o amigo Roberto Fernandes, um dos mais completos jornalistas de nossa geração.

Impactados pela sua partida repentina, os colegas da turma de Comunicação Social de 1985, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), prestaram uma homenagem, através do compartilhamento de lembranças comuns vividas em sala de aula, nos corredores do Pimentão e em outros espaços do Campus do Bacanga, em São Luís.

Sugeri, na oportunidade, disponibilizar na internet, por meio da plataforma do Promem,(www.promem.org.br ou https://youtu.be/EP0AkHCep6g), criado pelo jornalista e cineasta Luis Fernando Baima, a exibição do documentário Sem Censura (João Ubaldo de Moraes – 1984), que tinha sido telecinado e digitalizado recentemente.

No filme, o Roberto aparece como liderança estudantil, na luta contra a Ditadura Militar, e mostra sua versatilidade como narrador, roteirista, além de fazer a interpretação da fala de um “foca” do jornalismo impresso.

Na semana passada, recebi o convite do site Agenda Maranhão, por meio dos jornalistas José Reinaldo Martins e Ed Wilson Araújo, para falar um pouco mais da realização do documentário Sem Censura e sobre o projeto de digitalização dos filmes integrantes do “Ciclo Super 8mm”.

Filme Sem Censura

Sem Censura é um documentário, realizado em 1984, que permaneceu inédito por 38 anos. Filme de curta metragem, com 6,28m de duração, registra os principais momentos da preparação e realização da passeata de protesto de estudantes da UFMA, liderados pelo Diretório Acadêmico de Comunicação Social e Diretório Central dos Estudante (DCE), contra a censura e interferência da direção do curso, nas matérias produzidas pelo Jornal Laboratório de Jornalismo.

Ao fazer um protesto público, os estudantes, além de reivindicar o direito à liberdade de expressão, desafiavam as regras do governo militar e as orientações seguidas pela reitoria do professor José Maria Cabral Marques.

O inusitado movimento dos estudantes, surpreendeu a comunidade universitária que, há mais de uma década, deixara de conviver com atos de protesto. Os alunos dos outros cursos, funcionários da administração e a segurança privada, atônitos e sem saber que atitude tomar, apenas olhavam a passagem dos manifestantes.

A passeata, realizada sob um clima de muita tensão, aconteceu de forma pacífica e sem qualquer incidente, ao som de um “bumbo” solitário, que marcava o compasso da caminhada dos estudantes pelas salas de aulas e prédios.

Situando o filme no tempo e no espaço

Mais de duas décadas de exceção política, distanciou a UFMA dos interesses da comunidade estudantil e maranhense. Durante esse período aconteciam repressões aos movimentos reivindicatórios de estudantes e o corpo docente desestimulava qualquer contato dos alunos com as “cabeças pensantes” de fora dos muros da UFMA.

Nas salas de aulas, a desconfiança era nota dissonante entre os jovens alunos. Havia um permanente patrulhamento ideológico e qualquer acusação contra “elementos” apontados como “subversivos aos ideais revolucionários”, era levada à sério e apurada com rigor.

Em 1984, data da realização do filme, atravessavamos os últimos anos do governo do Presidente da República, general João Batista de Figueiredo. A estratégia dos militares para se manter no poder derretia a olhos vistos, exaurida e contaminada pela presença ostensiva dos políticos tradicionais, fisiologistas, viciados em clientelismo e troca de favores. A situação se apresentava insustentável.

O sistema mostrava sinais evidentes de desgaste nas áreas política, social e principalmente econômica. Avesso ao diálogo com a sociedade, o general Figueiredo foi um presidente burocrático, que cumpriu as ordens do quartel, com a rispidez que lhe era peculiar: garantiu a continuidade da abertura política iniciada no Governo Geisel e assinou a anistia geral aos militares acusados de tortura e civis exilado e perseguidos pelo regime.

Após a rejeição da emenda das Diretas Já, no Congresso Nacional, o general Figueiredo teve o mérito de dar um passo importante na redemocratização do país. Extinguiu o bipartidarismo, o que permitiu a coalizão das forças democráticas, que acabaram elegendo, indiretamente, no Colégio Eleitoral, Tancredo Neves, à Presidência da República.

Essa sequência de acontecimentos culminou com a explosão da bomba, por militares terroristas, no estacionamento do Riocentro, no Dia do Trabalho. O desgaste do sistema e o clima de insubordinação política e popular, que tomava conta do país, era refletido no ambiente universitário, que ansiava pelo retorno à normalidade democrática.

O documentário

O documentário Sem Censura faz parte do denominado “Ciclo do Cinema Super 8”, um movimento cinematográfico iniciado pela Coordenação de Assuntos Estudantis da UFMA, com a fundação do Cineclube Universitário (depois UIRÁ) e liderado por estudantes universitários e jovens da comunidade ludovicence.

No período de 1974 a 1985, parte dos cineclubistas, cansados de apenas verem e discutirem filmes que quase nada lhe diziam, se apropriaram dos meios de produção disponíveis e passaram a realizar filmes na única bitola possível para nossa realidade: o Super 8mm.

Essa virada incomum no cineclubismo brasileiro tradicional permitiu que fossem produzidos, entre nós, mais de 140 filmes de curta e média metragens, nos mais variados gêneros, envolvendo mais de 30 diferentes diretores e outras tantas dezenas de colaboradores nas atividades cinematográficas.

A produção maranhense em cinema Super 8mm é considerada uma das mais importantes do país em qualidade e número de filmes. Entre os realizadores da época, podemos destacar, entre outros: César Curvelo, Carlito Silva, Djalma Brito, Euclides Moreira Neto, Ivan Sarney, João Mendes, José Filho, João Ubaldo de Moraes, Murilo Santos, Nerine Lobão, Newton Lílio e Nonato Medeiros.

Em 2014, iniciei uma parceria com o cineasta e produtor de cinema, Joaquim Haickel (Mavam – Museu Audiovisual do Maranhão), para recuperar os nossos ativos cinematográficos. O projeto vai identificar, resgatar, digitalizar, restaurar e divulgar, não só o acervo de filmes do “Ciclo Super 8mm”, como outros acervos importantes, tais como: os filmes originais, em 16mm, produzidos para o telejornalismo maranhense, dos jornalistas Lindenberg Leite, Murilo Campelo e TVE do Maranhão.

O acervo, constituído pela maioria dos filmes produzidos durante o “Ciclo de Cinema Super 8”, já está telecinado, digitalizado e se encontra depositado nos computadores do Mavam, inclusive o meu acervo pessoal. Todo esse conteúdo, está à disposição da nova geração de cineastas e pesquisadores maranhenses, que inclusive já deram vários usos em produções cinematográficas recentes, como é o caso do documentário média metragem, Maio Oito Meia, dos cineastas Beto Matuck e Félix Alberto, (www.youtube.com/watch?v=Y53WI0h9IAc) lançado recentemente. Este filme reproduziu mais de um minuto do conteúdo do Sem Censura.

Documentário desmascara ideia de que corrupção na Petrobras foi inventada pelo PT

Ivan Longo: jornalista e repórter especial da Revista Fórum.

Se atualmente a mídia tradicional, impulsionada pela narrativa da operação Lava Jato, apelidou os esquemas ilegais de contratos da Petrobras no século 21 de “petrolão” e se refere a ele como “o maior escândalo de corrupção da história do Brasil”, em 1988 o jornal O Globo estampava em sua capa que a Petrobras “passa pelo maior escândalo de corrupção de sua história”.

É o que mostra, em detalhes, o primeiro episódio do documentário Lava Jato Entre Quatro Paredes, produzido pelo canal Normose em parceria com o Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF), já disponível no youtube.

O filme será dividido em quatro episódios e foi produzido ao longo de 10 meses com base em pesquisas de materiais da imprensa, livros, entrevistas e outros materiais que compõem um rico acervo para sustentar o roteiro, que visa desmistificar a ideia de que a corrupção na Petrobras é algo recente e ainda destrinchar os reais interesses por trás da espetaculosa operação Lava Jato.

O primeiro episódio, já assistido pela reportagem da Fórum, faz um retrospecto da importância da indústria petrolífera no mundo, partindo pela perfuração do primeiro poço nos Estados Unidos, ainda no século 19, passando pela formação de cartéis e monopólios, a influência do liquido na Segunda Revolução Industrial e detalhando como a indústria petrolífera se estabeleceu no Brasil.

Para isso, o documentário recorre a arquivos históricos que jogam luz à discussão sobre os interesses estrangeiros no petróleo brasileiro ainda antes da criação da Petrobras, que se deu em 1953.

Avançando na linha do tempo, o primeiro episódio do documentário mostra como o petróleo foi se estabelecendo como importante base da indústria nacional e como esse setor se desenvolveu rapidamente, logo nos primeiros anos de atuação, envolvendo muito dinheiro, poder e interesses – fórmula básica para qualquer esquema de corrupção.

Em 1958, apenas cinco anos após a criação da Petrobras, o jornal O Globo já noticiava corrupção na estatal. O filme nos revela, a partir de então, como a ditadura militar, implementada através do golpe de 1964, serviu como um grande motor para o crescimento de empreiteiras brasileiras, que já naquela época passaram a atuar em obras da petrolífera e constituíram um esquema sistemático de propinas, chantagens e corrupção que perdura até os dias de hoje.

“A ditadura foi fundamental para o crescimento das empreiteiras. São empresas de perfil familiar com laços de inserção política. O golpe de 64 alegava que combatia a subversão e a corrupção. Tinha esse discurso moralista, sendo que na ditadura se forjou o cenário ideal para as práticas corruptas – apropriação do estado para interesses privados”, afirma em entrevista ao documentário Pedro Henrique Pedreira Campos, autor do famoso livro “Estranhas Catedrais”, que narra a história de grandes empreiteiras brasileiras e suas relações com os anos de chumbo.

O primeiro episódio de “A Lava Jato Entre Quatro Paredes” fornece uma robusta introdução para se entender o que viria a ser a operação midiática que tem como um de seus heróis o ex-juiz Sérgio Moro. Os reais interesses por trás da força-tarefa, o modus operandi das delações premiadas, a influência e orientação de estrangeiros na política brasileira, bem como tudo o que envolve a operação e a Petrobras, se a empresa é “vítima” ou “ré”, serão destrinchados nos três episódios seguintes do documentário.

A segunda parte estará disponível a partir da próxima terça-feira (29).

Cine Praia Grande vai exibir documentário sobre zeladoras e encantados

Será lançado no dia 12 de julho, às 20h, no Cine Praia grande, em São Luís, o documentário Zeladoras e Encantados, dirigido pela professora da Universidade Federal do Maranhão Ilka Pereira e pelo documentarista Paulo do Vale.

Aprovado pelo 2º edital de audiovisual do Maranhão, lançado pelo Governo do Estado, o projeto de pesquisa já vinha sendo realizado desde 2013, através da realização de pesquisas e registros dos trabalhos afrorreligiosos realizados pelas Zeladoras na cidade de Codó.

O documentário foi filmado no Quilombo de Santo Antônio dos Pretos e registra através das narrativas de sete zeladoras, das filmagens dos festejos das suas casas e dos seus ritos, os saberes e os fazeres de cada casa e cada Zeladora na manutenção da tradição, bem como a relação que estabelecem com os seus encantados.

As filmagens foram realizadas no quilombo de Santo Antônio dos Pretos, na Tenda Santa Bárbara Glorioso Santo Antônio, com entrevistas a Sra. Vanda Moreira e a Sra. Conceição de Maria Viana (Dona Concita), a quem o filme, é dedicado in memorian. Na cidade de Codó, os registros foram feitos na Tenda Espírita Santo Antônio, cuja Zeladora é a Sra. Maria Iracema Conceição; a Tenda Espírita Santa Bárbara, cuja zeladora é a Sra. Maria dos Santos Sardinha; a Tenda Santa Helena dos Milagres sendo a Zeladora a Sra. Teresinha de Jesus Cruz e, finalizando, o terreiro Ilê Axé cuja Zeladora é Nilza Moreira Viana e a Mãe Pequena Ana Ruty Evangelista da Silva.

Para maior socialização do trabalho, o filme dispõe das formas de acessibilidade como linguagem em libras e audiodescrição. Além disso, foram feitas cópias de DVD para socialização em museus, escolas, institutos, universidades, etc.

A programação de lançamento do documentário começou pela cidade de Codó-MA, no dia 11 de junho e, agora, será exibido em São Luís. Após a exibição haverá um bate-papo entre o público e os diretores do filme.

 Sobre os diretores

Ilka Pereira é docente do Curso de Licenciatura em Ciências Humanas (Campus VII- Codó) e Doutoranda em educação pela UFF.

Paulo do Vale atua realizando documentários etnográficos, filmes, DOC.TV e projetos de capacitação de jovens na área de audiovisual. Dirigiu o documentário “Zemuishi Ohaw- Festa do Mel, Festa do Cervero, e atuou como Diretor de fotografia” no  “Tribuna do gueto “; “Dono da capoeira” (2014); “Cantiliana e os herdeiros do mal de Lázaro” (2017), dentre outros trabalhos.

Sinopse

Este documentário é fruto de um longo processo de pesquisa sobre a relação das Zeladoras com o seus encantados, no quilombo de Santo Antônio dos Pretos e na cidade de Codó – MA. Ao longo de cinco anos, frequentamos alguns salões e terreiros da cidade, documentando o fazer e o saber dessas mulheres, na manutenção das tradições afrorreligiosas que povoam o lugar.

Através das narrativas de sete zeladoras, das filmagens dos festejos das suas casas e dos seus ritos, foi possível adentrar nesses espaços sagrados e registrar particularidades de cada uma.  Acreditamos que este documentário, contrariando omissões históricas sobre o trabalho religioso de mulheres negras no nosso país, possa constituir-se em um importante instrumento de reflexão e luta contra preconceitos, infelizmente, ainda praticados na nossa sociedade.

Ficha Técnica:

Direção: Paulo do Vale e Ilka Pereira

Argumento, pesquisa e roteiro: Ilka Pereira

Direção de fotografia e câmera: Paulo do Vale

Montagem, finalização, acessibilidade, autoração e capa: Marcelo Souza

Assistente de direção: Inaldo Aguiar

Produção Executiva: Ilka Pereira

Som direto: Felinto Reis e Inaldo Aguiar

Designer cartaz: Diego L. Couto

Tradução libras: Claudiane Araújo

Tradução inglês/espanhol: Diego L. Couto

Patrocínio: Secretaria da Cultura e Turismo do Maranhão

Apoio: BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul), FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), Ancine (Agência Nacional de Cinema).

SERVIÇO

Lançamento do documentário “Zeladoras e Encantados”

Dia: 12 de julho de 2018 (quinta-feira)

Horário: 20h

Duração: 26 minutos

Local: Cine Praia Grande

Rua Rampa do Comércio, 200 – Praia Grande – São Luis -MA

Entrada Franca

Informações: (98) 98205-8919 / ilkdinizpereira@gmail.com

Imagem em destaque no topo do texto: ritual no terreiro Ilê Axé/divulgação