A RETÓRICA E O GOLPE

Eloy Melonio

Foi ou não foi um “golpe”? Essa pergunta já deu muita discussão, especialmente quando se fala do universo político-constitucional.

Felizmente o golpe de que trato aqui não tem nada a ver com a política. É coisa da vida comum mesmo. E, infelizmente, tem tudo a ver comigo.

Era uma bela manhã de domingo, com sol e vento típicos do mês de setembro. Um homem branco, de idade e estatura medianas, usando uniforme de uma empresa de refrigeração, parou sua moto na pracinha onde eu e o vigia da rua estávamos sentados. Pediu uma informação que não soubemos dar.

Da moto, falava ao telefone. Em três minutos, recebeu umas três ligações. Em todas, referia-se a ar-condicionado e geladeira, e demonstrava profundo conhecimento técnico.

Atento ao que dizia, perguntei-lhe se tinha cartão de visita, e se atendia fora do horário de trabalho. Não tinha cartão, mas me passou o número do seu celular.

A isca estava lançada. E o peixinho parecia disposto a mordê-la.

Falei de uma geladeira que me dava muita dor de cabeça. E perguntei-lhe se podia dar uma “olhadinha”, aproveitando que já estava ali. Hesitou, mas terminou atendendo ao meu pedido.

Em suas conversas, o assunto era a “conta de energia”, exageradamente alta, que os aparelhos de seus interlocutores estavam causando. E foi esse detalhe que me despertou o interesse. Ele enfatizava que a culpa não era da fornecedora de energia, mas dos técnicos que não faziam seu serviço direito.

E assim terminei apresentando-o à famigerada geladeira. Rapidamente examinou o motor e me mostrou alguns probleminhas. Com uma comunicação fácil, logo ganhou minha confiança. Permaneci ao seu lado o tempo todo, exceto quando me pediu uma palha de aço. Disse-lhe que ia ver na cozinha do quintal. Fui, e logo voltei com o produto de “mil e uma utilidades”. Compenetrado no que fazia, o rapaz cortava fios, trocava peças, e me explicava cada procedimento.

Terminado o serviço, perguntei-lhe quanto lhe devia, e paguei-o prontamente. Antes, porém, o bom rapaz me disse que se eu não tivesse o dinheiro, poderia pagá-lo depois.

Antes de sair, pediu-me para ligar a geladeira somente dali a 30 minutos. E que tivesse cuidado com choque elétrico. Agradeci-o, e ainda lhe dei uma gorjeta.

Passados uns dez minutos, minha esposa não conseguia encontrar seu celular recém-comprado para fazer uma ligação. Procuramos por toda a casa, e nada. Liguei para seu número, e só dava caixa postal. Liguei para o número do técnico, e ouvi a mensagem: “Não foi possível completar sua ligação…”.

Foi aí que a ficha caiu. Quem sabe o rapaz da geladeira?!

Voltemos ao início de nossa história. O suposto técnico era um cara atencioso, bom de papo, do tipo “gente boa”. Chegou a dizer que se fosse “coisa simples”, eu não precisava pagar nada. Enquanto executava o serviço, conversamos sobre amenidades e coisas sérias. Falamos de viagens, do nosso medo de viajar de avião, da Bahia (seu estado natal), de um treinamento que fez em Rosário, pois na época trabalhava para uma empresa da Argentina. Citou nomes de clientes importantes. Disse-me, com certa inveja no olhar, que eu parecia ser uma pessoa feliz. E quando soube da minha idade, desconfiou, pois me achava uns 15 anos mais novo.

Mesmo depois de confirmado o golpe, eu não queria acreditar. Não, não aquele rapaz! Qualquer outra pessoa, menos ele! Torcia para acharmos o celular e acabar com nossa desconfiança. E confirmei ali, para mim mesmo, o que venho ensinando a vida inteira: em seu sentido pejorativo, a “retórica” é uma arma perigosíssima.

Já ouvira histórias de golpes desse tipo contadas por amigos, e de muitas outras, mostradas na TV. Achava graça ou debochava dos “otários” que caíam nessas ações ardilosas.

Sem dúvida alguma fui vítima de um golpe espetacular, digno de uma série de TV (ou de uma crônica!). E como nunca antes na minha vida, senti-me, no dizer do nosso querido Tiririca, um tremendo “abestado”.

* Eloy Melonio é professor de inglês, escritor, poeta e compositor

Meninas da Ilha: show de pré-lançamento do CD com canções de Luís Lima

A música “Meninas da Ilha” dá título ao CD que será lançado em breve nas principais plataformas digitais. O disco é uma ode ao talento feminino que ladeia a Ilha do Maranhão. Luís Lima, cantautor maranhense, convida o sagrado feminino que habita e (re)cria na Ilha a interpretar e dançar suas poesias-músicas.

Sob direção musical de João Simas e acompanhamento de João Simas e Thierry Castelo, cinco mulheres intérpretes e uma bailarina personificam e materializam as “Meninas da Ilha”. São elas: Tássia Campos, Dicy Rocha, Camila Reis, Luciana Pinheiro e Helyne, na voz, e Calina Rubim, na dança.

O disco foi todo gravado, mixado e masterizado no estúdio Deu na Telha Audiolab, em São Luis, Maranhão. No roteiro musical, uma seleção de poemas-músicas de várias fases do autor e suas parcerias com Rozalia Milsztajn, Helena Hortiz, Mário Chagas e Fernando Magdanello. A produção artística do Show é de Wagner Heineck.

Luis Lima – Cantor, compositor e poeta. Gravou dois CDs: “Palavrando” (2007) e “Expresso de Letras” (2010), ambos com arranjos do maestro Henrique Duailibe; e lançou dois livros de poesias: “Arrumador de palavras” (2012) e “Mente de Giração” (2016). Tem sua trajetória vivenciando a poesia música da Bahia, Rio de Janeiro, São Luis, e Santiago, no Chile. Ora em carreatas culturais, ora em festivais e mostras de música e poesia, ora em poesias no poste, ora como colunista de blog e site de cultura e arte. Em busca de fortalecer o ativismo cultural no Estado é associado do Instituto Maranhão Sustentável e é idealizador do Casa d’Arte Centro de Cultura. Sobre ele mesmo, falando em seu “pretexto” no livro “Arrumador”: … “sou filho do tempo e pelo tempo afora me debrucei na construção da minha coleção de letras. letra a palavra pela mente de giração… sou simplesmente lírico, amador poético, feitos em poesia somos todos nós. aprendi a fazer, desfazer e a refazer músicas, num instante tive medo de cantar… me descobri arrumador de palavras, o meu melhor ofício nesse tear chamado arte…”

E ainda para completar a noite, Vanessa Serra com sua incomparável discotecagem em vinil! E a Exposição “Eu sou mulher” do Coletivo de Mulheres com deficiência.

Para ficar mais completo, escolhemos esse sábado, porque é antevéspera da entrada da primavera, a estação mais feminina do ano! Tá bom pra você? Então vem, que será lindx!!!

Dia: 21 de setembro, às 20h

Entrada Franca – Cachê colaborativo (doe quanto quiser/puder)

Local: Casa d´Arte Centro de Cultura. Rua do Farol do Araçagy, nº 09 – Raposa / MA (Rua em frente à clínica Ruy Palhano).

Informações: www.casadarte.art.br / (98) 98160-9188 / (98) 99974-9366

Fome e sede de justiça é o tema do 1º Encontro de Evangélicos

Será realizado nos dias 4 e 5 de outubro, em São Luís, o 1° Encontro de Evangélicos. O tema central é “Fome e sede de justiça”. O evento acontecerá no Gran Hotel (antigo Vila Rica), ao lado da igreja da Sé.

Um dos palestrantes é o pastor e professor do Curso de História da UFMA, Lyndon Santos, âncora do programa Papo de Crente, apresentado aos sábados, das 9h às 10h, na Rádio Web Tambor.

Segundo os organizadores, o encontro será um momento de ousar falar de paz, de pão, direito e justiça, de ressignificar e dar sentido à missão de ser cristão.

O encontro é a uma realização do programa Papo de Crente, com apoio da Agência Tambor.

A inscrição pode ser feita no telefone 98222-2771.

Memórias futebolísticas do Apeadouro: Célio “Batata”, o craque do Maranhão ao Piauí

Na rua Padre Manoel da Nóbrega, uma das principais vias do Apeadouro, mora um dos maiores craques do futebol do Maranhão: Célio Rodrigues, conhecido nos campos e na torcida como Célio “Batata”, apelido vinculado à panturrilha avantajada.

Celio Rodrigues iniciou a carreira aos 16 anos de idade, no juvenil do Esporte Clube Nacional, time da rua do Norte, no Centro de São Luís. Depois jogou no extinto Vitória do Mar (1967); Sampaio (1968); Tiradentes, do Piauí (1973); e Moto (1977). Ele foi campeão maranhense pelo Sampaio, Moto e MAC e tricampeão pelo Tiradentes. Ganhou também vários torneios locais e interestaduais.

Atualmente Celio Rodrigues é vice-presidente da Escolinha de Futebol Associação Ponte Preta, localizada na comunidade Bob Kennedy, no Araçagi, em São José de Ribamar, onde atua como técnico de futebol na preparação de adolescentes e jovens.

Na sua coleção de títulos está o Campeonato Brasileiro da Série B, em 1972, pelo Sampaio Corrêa.

Uma das principais conquistas de Batata foi pelo Sampaio Corrêa

Batata jogou no antigo estádio Santa Izabel e no Nhozinho Santos. Atuando pelo Moto, o lateral protagonizava duelos memoráveis contra o ponta “Bimbinha”, atacante do Sampaio Correia.

Naquela época os carrinhos de Batata faziam o pequeno veloz “Bimbinha” voar, como se fosse um malabarista de circo.

Em 1967 Célio Rodrigues ingressou no extinto Vitória do Mar e em 1968 já estava jogando no Sampaio. Célio Rodrigues era soldado do Exército (servia no 24º Batalhão de Caçadoes) e compatibilizava a vida militar com os gramados.

Célio Batata curtindo um passeio de parco em Belém do Pará

Posteriormente, ingressou em outros times “grandes” como Moto, Maranhão Atlético Clube (MAC) e Tiradentes, do Piauí. Colecionador de vários títulos, Célio Rodrigues parou de jogar no início da década de 1980. Hoje vive com a família na mesma rua do Apeadouro, onde é sempre lembrado pelos vizinhos e para dar entrevistas sobre os bons tempos da sua atuação no futebol.

Imagem destacada: time do Moto Club campeão maranhense em 1977. Em pé: Cenilson, Vivico, Irineu, Tião, Célio Rodrigues e Beato. Agachados: Paulo Cesar, Adãozinho, Toninho Abaeté, Edmilson Leite e Léo.

Imagens capturadas neste site (Futebol Maranhense Antigo)

Joãozinho Ribeiro celebra 40 anos de carreira com show no Teatro Arthur Azevedo

Apresentação em São Luís integra a turnê nacional
“Milhões de uns” e terá convidados especiais

No ano em que se celebram os 40 anos de carreira musical de Joãozinho Ribeiro – contados a partir da estreia em um festival universitário de música em 1979 – o Brasil tem a oportunidade de conhecer melhor um dos maiores compositores já surgidos no Maranhão, onde é bastante requisitado pelo repertório de diversos intérpretes.

“Milhões de uns”, título de sua mais conhecida composição, premiada desde 2001, ano em que foi lançada por Célia Maria, considerada a “voz de ouro” do Maranhão, empresta o nome à turnê com que Joãozinho Ribeiro está percorrendo alguns palcos brasileiros, com patrocínio do Supermercado Mateus, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Joãozinho canta quatro décadas de palco.
Foto: Nem Queiroz

Durante o espetáculo, Joãozinho Ribeiro passeia por diversas fases de sua carreira e por diversos estilos que marcam sua atividade de compositor: samba, choro, marchinha, forró, cacuriá, tambor de crioula, bumba-meu-boi, blues. O repertório é cerzido por temas diversos, com pitadas de amor, eterno pano pra manga na obra de nossos melhores compositores, e crítica social, assunto do qual o artista nunca fugiu.

Com apenas um cd lançado, também intitulado “Milhões de uns”, Joãozinho Ribeiro sempre foi pautado por um exercício agregador, ao longo de sua carreira. O disco traz várias participações especiais, de intérpretes e parceiros, algo que também está sendo visto nas apresentações da turnê homônima.

“A gente vinha ensaiando essa celebração há algum tempo. Com formações reduzidas vínhamos passando por diversos projetos e casas na noite de São Luís. Mas em se tratando de 40 anos de carreira, fui provocado pelos amigos a ultrapassar o Estreito dos Mosquitos e mostrar um pouco destas décadas de arte em municípios do interior do Maranhão e em outras capitais brasileiras”, declara Joãozinho Ribeiro, protagonista desta bela festa.

A cada show, Joãozinho Ribeiro tem recebido convidados especiais e em São Luís não será diferente. No palco do Teatro Arthur Azevedo, nesta sexta-feira (13), às 20h, com o compositor anfitrião estarão o Coral São João, Anna Cláudia, Alexandra Nícolas, Fátima Passarinho, Juliana Cutrim, Lenita Pinheiro, Célia Maria, Milena Mendonça e Adler São Luís. A apresentação acontece dia 13 de setembro (sexta-feira), às 21h.

A banda que acompanha Joãozinho Ribeiro é formada por Luiz Jr. Maranhão (violão, guitarra, viola caipira e direção musical), George Gomes (bateria), Marquinhos Carcará (percussão), Arlindo Pipiu (contrabaixo e cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Danilo Santos (flauta e saxofone) e Hugo Carafunim (trompete). A produção executiva é de Lena Santos e a coordenação geral de Josias Sobrinho.

SERVIÇO

O quê: show da turnê nacional “Milhões de uns”

Quem: Joãozinho Ribeiro e convidados

Quando: 13 de setembro (sexta-feira), às 20h

Onde: Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro)

Quanto: os ingressos serão trocados por 1kg de alimento não perecível. A troca pode ser realizada antecipadamente no Convento das Mercês (no dia do show na bilheteria do teatro, mediante disponibilidade)

Patrocínio: Supermercado Mateus, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão

Imagem destacada / divulgação: Coral São João é um dos convidados do show

Sergio Frota agradece Fernando Sarney por “arbitragem neutra” no jogo de acesso do Sampaio

Segundo Frota, “Fernando faz muito pelo futebol maranhense”

O presidente do Sampaio Correa e ex-deputado estadual Sergio Frota (PSDB) concedeu entrevista hoje pela manhã na TV Mirante e avaliou o desempenho do Sampaio Correa na temporada que levou o time à série B da temporada 2020.

O Sampaio derrotou o São José por 3 x 2 no jogo de volta, no Castelão, em São Luís. Na primeira partida, realizada em Porto Alegre, os times empataram sem gols.

Durante a entrevista Frota revelou que ao final do jogo na capital gaúcha ele conversou com o vice-presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Fernando Sarney, e pediu ao cartola uma “arbitragem neutra” para a partida de São Luís. A solicitação, segundo o presidente do Sampaio, foi atendida.

“Eu falei para o Fernando depois jogo em Porto Alegre, onde nós fomos prejudicados, teve um gol legal que foi anulado, e eu falei ‘Fernando eu preciso de uma arbitragem neutra’ e ele fez tudo. Então meu muito obrigado, já que muita gente diz que Fernando não faz nada e eu quero dizer para você que ele faz muito pelo futebol maranhense”, destacou o presidente do Sampaio.

Assista à entrevista aqui

Além de vice-presidente da CBF e conselheiro da Fifa, Fernando Sarney é o principal executivo do Sistema Mirante de Comunicação, maior conglomerado de mídia do Maranhão.

Tapas e beijos

No balanço da temporada, Frota elogiou a equipe e o técnico do Sampaio, mas voltou a lamentar o baixo investimento da iniciativa privada e dos próprios torcedores que comparecem pouco ao estádio e não se engajam suficientemente nos programas de incentivo financeiro do clube.

O presidente comparou o futebol maranhense com o paraense e citou como exemplos as torcidas do Remo e Paissandu, bem mais participativas e solidárias que a boliviana.

Ele mencionou também a adesão dos empresários e da torcida do time do Imperatriz em campanhas colaborativas para ajudar financeiramente o clube tocantino.

Imagem destacada / Flora Dolores: Fernando Sarney dá aquele abraço no medalhado Sergio Frota

As mortes no Jaracaty, os vereadores e o Plano Diretor de São Luís

Uma das maneiras de conhecer São Luís é navegando fora das avenidas principais. Além das belezas naturais, do Centro Histórico exuberante e do alto astral, a cidade parece ter sido feita a facão.

É como se a capital fosse um garimpo. Cada dono de barranco ergue sua construção sem lei nem ordem. E nas sobras dos terrenos a cidade vai se fazendo.

Muitas áreas nobres em São Luís foram griladas pelos endinheirados. A cidade ficou o caos e vai se agravando a cada dia, priorizando a especulação imobiliária, os carros e as empreiteiras.

Colado ao shopping São Luís ergueram várias torres e o trânsito foi modificado para facilitar a entrada e saída dos carros.

Os moradores do Jaracaty, imprensados entre a avenida e a maré, não têm sequer o direito de atravessar a pista. E mesmo quando estão em suas casas, à noite, celebrando um aniversário, são vítimas da cidade que oprime e mata os pobres para beneficiar os grandes empreendimentos comerciais e imobiliários.

Os transeuntes em geral são excluídos da cidade onde não tem uma ciclovia decente e as faixas de pedestre são marcas de giz nas avenidas mal cuidadas, cheias de ondulações ou buracos.

Já são 30 anos do mesmo grupo político controlando a Prefeitura de São Luís e nem as avenidas principais têm a aplicação dos conceitos básicos da Engenharia.

No aniversário de 407 anos da cidade houve muita festa, deslumbramentos, celebrações e bajulações, mas existe outra São Luís que vive na barbárie.

Domingo morreram 4 pessoas e 5 ficaram feridas. As famílias estão dilaceradas.

Breve chegará na Câmara dos Vereadores a proposta de revisão do Plano Diretor. A maioria da população nem sabe do que se trata porque a Prefeitura escondeu o debate de alto interesse público.

A proposta de revisão do Plano Diretor vai tornar a cidade ainda mais cruel, desumana e excludente. Só para ter uma ideia, 40% da zona rural serão eliminados, caso o pacote seja aprovado na Câmara dos Vereadores.

Entre os 31 parlamentares pouco se fala sobre o Plano Diretor. Embora tenhamos edis atuantes nas suas bases, focados no varejo eleitoral, quase nada existe de debate sobre a legislação urbanística que vai interferir diretamente na vida de mais de 1 milhão de pessoas.

Enquanto as famílias do Jaracaty enterram seus mortos e sofrem nas portas dos hospitais com os feridos, as lideranças da Câmara dos Vereadores celebram um grande feito – a construção da nova sede do Legislativo Municipal.

Isso mesmo! Em meio a essa crise braba, nós, contribuintes, vamos bancar uma fortuna para a construção da nova sede da Câmara dos Vereadores de São Luís, a ser implantada na antiga Fábrica das Artes, perto do Ceprama.

A construção vai custar uma fortuna.

Ninguém pode negar que a obra vai trazer benefícios para o esplendoroso e encantador Centro Histórico, tão amado por todos nós.

Mas, em meio à crise econômica e na iminência de mudanças profundas na legislação urbanística, seria melhor converter essa montanha de dinheiro pelo menos para pintar uma faixa ou construir uma passarela no Jaracaty.

Já seria uma grande coisa.

Comunicação, democracia e desigualdade social será tema de debate na UFMA

Em meio à situação política conturbada por qual passa a sociedade brasileira – com fake news, ódio e desqualificação do jornalismo – torna-se fundamental pensar os próximos passos a serem tomados por organizações de trabalhadores, movimentos populares, coletivos e comunicadores sociais. Por conta disso, os tópicos “Comunicação, democracia e desigualdade social” serão os pilares de um debate que está marcado para acontecer na Universidade Federal do Maranhão, na próxima quinta-feira (12 de setembro), às 17h, no Auditório Central. A organização é da Agência Tambor.

O debate reunirá três figuras para discorrer sobre as diversas facetas do tema: uma das editoras da revista Brejeiras, Cristiane Furtado, feminista carioca que pelo seu trabalho busca dar voz e espaço às mulheres lésbicas; a quebradeira de coco Rosa Gregório, uma das fundadoras do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB); e o historiador e pastor evangélico Lydon de Araújo Santos, autor de diversos livros que tratam da história do protestantismo no Brasil.

O evento tem mais de 50 entidades apoiadoras, dentre coletivos, movimentos, sindicatos, pastorais, comunidades evangélicas e outras organizações. A entrada é totalmente gratuita e os participantes têm direito a certificado. Para adquiri-lo, basta se inscrever com antecedência no site agenciatambor.net.br. (É só ir no menu e achar “inscrições”).

Fonte: Jornal Vias de Fato.

Quando os bois morrem eu me sinto mais forte

Ed Wilson Araújo

De tudo que foi dito e feito até agora pela velha política, galopando na besta fera da onda obscurantista, uma das instituições mais aviltadas é o Jornalismo. Basta ver o recente paredão montado no programa Roda Viva (TV Cultura!) para encurralar o diretor do The Intercept Brasil Glenn Greenwald.

Nada até hoje foi tão demolidor para a operação Lava Jato e o bolsonarismo como as revelações da Vaza Jato. Sergio Moro e Deltan Dallagnol enterraram na lama o Estado Democrático de Direito e jogaram na vala comum até mesmo os probos e republicanos juízes e procuradores.

O Jornalismo e a Ciência, na sua caminhada institucional, tiraram parte do poder da Igreja Católica sobre os documentos secretos mantidos em mistério pela guarda silenciosa dos monges. Nas páginas dos jornais, o poder sobre o conhecimento e o saber, há tempos restrito aos mosteiros, veio à luz nas manchetes e fotografias.

Por isso as conversas privadas de agentes públicos interessam à sociedade. O leitor, ouvinte, telespectador, internauta etc têm o direito de acessar alguns conteúdos secretos transitados entre juízes e procuradores, quando o interesse público está em jogo.

A justificativa é simples: certas conversas e as decisões ali tramadas são de amplo interesse coletivo, dizem respeito às reputações e decidem sobre a liberdade das pessoas, interferem na Economia e nas medidas sobre temas diretamente relacionados ao cotidiano de cada brasileiro.

Algumas deliberações tomadas pela operação Lava Jato incidiram concretamente na vida de milhões de brasileiros: fizeram um julgamento partidário de Lula, destruíram em parte as instituições, macularam famílias, debocharam da morte de entes queridos e mancharam a imagem da Justiça e do Ministério Público por inteiro, até mesmo dos operadores do Direito não incorporados ao lavajatismo.

Onde não há instituições brota a barbárie.

Quando Sergio Moro e Deltan Dallagnol tiveram as conversas reveladas houve várias reações, até acertarem o foco – atacar o Jornalismo.

Por isso o paredão contra Glenn Greenwald no Roda Viva e o foguetório na Feira Literária de Paraty. Agiram até mesmo contra Miriam Leitão, uma jornalista conservadora e expoente do liberalismo na mídia.

Trata-se de uma ofensiva não só contra o The Intercept Brasil e os seus parceiros, mas uma guerra declarada a um campo estratégico no contexto das mediações sociais – a Comunicação, em especial, o Jornalismo.

Após o aparelhamento de parte do Ministério Público e do Judiciário em conluio para sufocar a democracia no Brasil, a cúpula da operação Lava Jato está desmoralizada, exalando entre os corredores dos tribunais o enxofre do golpe.

Moro e Dallagnol ofenderam de modo vil os bons e honestos procuradores, juízes, ministros, desembargadores, promotores, delegados e outros servidores do Ministério Público e da Justiça do Brasil ciosos das suas funções republicanas.

Não por acaso o espírito lavajateiro cresceu junto com a onda bolsonarista embalada na mentira.

Os movimentos de contornos fascistas repetem uma tragédia anunciada. A ciência, a política e a estética livre são inimigos primordiais dos intolerantes, avessos à verdade e ao encantamento.

O espelho deles quebra quando encaram os fatos concretos da realidade.

Assim, fizeram campanha disseminando fake news. É uma forma de piorar as coisas. Se outrora manipulavam os fatos para distorcer os enredos, agora retrocedem ao nível da mentira deslavada.

A onda obscurantista é desumana. Os propagandistas de fake news, do terraplanismo e de outras aberrações como a ineficiência da vacina são capazes de negar até a própria existência, embora haja testemunhas oculares do parto e o registro do nascimento em cartório. Contra Descartes, diriam: “minto; logo, não existo”.

Vem daí o ataque à Ciência, campo de trânsito permanente do Jornalismo. Fascistas detestam a ordem lógica das narrativas.

Os movimentos de inspiração fascista são um terreno infértil, onde só brota o ódio e a intolerância. A verdade é uma ofensa. Eles não conseguem sequer lidar com um princípio básico do Iluminismo aplicado ao Jornalismo – a transparência, uma conquista da Modernidade no curso das revoluções burguesas.

Apesar de tudo isso, temos resistência! Vejamos, por exemplo, como se ergue e consolida a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD), uma auspiciosa organização de operadores do Direito focada em princípios republicanos.

Na mídia, o The Intercept Brasil deu um cavalo de pau nos meios tradicionais e alguns deles, apoiadores do golpe, tentam refazer caminhos porque conhecem a sabedoria das audiências.

No campo da mídia alternativa a Teia de Comunicação Popular do Brasil junta gente de todo canto do país. São jornalistas, ativistas, humanistas, comunicadores e comunicadoras que se recusam a bater continência para o pensamento único.

Do Maranhão, rufam a Agência Tambor e a Rádio Web Tambor.

A juventude lota as ruas para dizer não aos cortes de gastos na Educação. Nas universidades o Future-se é negado.

Existem alguns motivos para ficarmos tristes, mas temos outros tantos para revigorar as forças e seguir em frente lutando contra essa onda de obscurantismo que tenta negar a verdade, matar o Jornalismo e silenciar a arte livre.

Pras bandas do Maranhão estamos em tempos da morte dos grupos de bumba-meu-boi. Os batuques estão prenhes de trupiadas anunciando que no próximo ano haverá batizado. Banjos, maracás, pandeirões, matracas, zabumbas e os instrumentos de sopro anunciam fertilidade. Nos terreiros onde se cultuam os rituais da morte a dialética traduz ressurreição.

Aos meus amigos tristes só tenho palavras motivadoras. Essa chuva ácida vai passar. Já estamos no tempo das floradas de caju, manga e juçara. Vamos degustar arte, botar lenha na fogueira da razão, afirmar a Ciência e o Jornalismo como formas de conhecimento da realidade.

Viva a produção acadêmica (balbúrdia!) e a poesia. Maiakóvski, sempre bem lembrado, recomenda somar forças para atravessar as ameaças e as guerras […]

“rompê-las ao meio,

cortando-as


como uma quilha corta


as ondas.”

Carpe diem, Jorge Capadócia

Era uma daquelas noites em que tudo pode acontecer, inclusive nada, como diz a música “A natureza das coisas”, letra de Accioly Neto interpretada por Flávio José.

Numa das minhas poucas idas a Brasília, nessas militâncias da vida, certa vez fui ao bar Carpe Diem, point de gente das letras e das artes ou, como se costuma dizer no jargão, lugar de encontro dos “intelectuais”.

Estava na companhia do jornalista e parceiro de lutas Marcio Jerry, ainda no PT e no movimento de rádios comunitárias, que à época convidou o então juiz federal Flávio Dino para um encontro informal.

Acho que àquele tempo Dino não pensava em ser governador do Maranhão e nem Jerry deputado federal. Mas, isso não vem ao caso agora.

Sentamos no Carpe Diem e começamos a papear. Eis que repentinamente aparece um homem negro de voz empostada, elegância nas palavras e foi logo anunciando mais ou menos assim: “eu sou a mesma pessoa, meus cabelos e minha voz são os de sempre, mas meus livros estão renovados”.

Quando viramos para mirar o pregoeiro, deparamos com Jorge Capadócia, velho conhecido da turma do movimento estudantil dos anos 1980 e 1990 no campus do Bacanga, na Universidade Federal do Maranhão.

Capadócia era o cara das grandes sacadas musicais e foi um importante agitador da cena cultural de São Luís naquelas décadas. Entre tantos shows, ele produziu o antológico Urubu GuaraniAs sete faces da canção (1987), uma referência inicial na carreira do cantor e compositor Zeca Baleiro.

No currículo de Capadócia está ainda a produção do Fump (Festival Universitário de Música Popular), em 1986 e 1987, organizado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE).

Depois, não se sabe por qual motivo, ele partiu para Brasília, onde passou a viver e vender livros nos bares e restaurantes da capital federal. Era um misto de livreiro e sebista ambulante, sempre de bom humor e com ótimos títulos de literatura, principalmente.

Nos últimos três anos ele vinha passando por problemas de saúde e faleceu na última sexta-feira, no Hospital de Base.

O nome do bar onde encontramos Capadócia, Carpe Diem, é uma expressão originária do latim, atribuída ao poeta romano Horácio e significa “aproveite o dia”, rememorada no filme “Sociedade dos poetas mortos”.

Uma das interpretações para o texto de Horácio remete à fruição intensa da vida, sem se preocupar com o amanhã. Nosso militante da música deixou a ilha de São Luís, onde era produtor cultural, para vender livros em Brasília.

Capadócia fez a sua escolha. E viveu. Carpe diem!