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Carta em defesa do Estado Democrático de Direito supera meio milhão de adesões

Já passa de 500 mil assinaturas a “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito”

A iniciativa do movimento ‘Estado de Direito Sempre!’ foi criada na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. É inspirada na Carta aos Brasileiros de 1977, um texto de repúdio ao regime militar, redigido pelo jurista Goffredo Silva Telles e lido também na faculdade do Largo de São Francisco.

O documento defende o sistema eleitoral e o respeito ao resultado das eleições de outubro e condena “as ameaças aos demais poderes e setores da sociedade civil e a incitação à violência e à ruptura da ordem constitucional”.

A carta e os seus apoiadores e apoiadoras reúnem pessoas públicas, organizações corporativas, movimentos sociais diversos, magistrados e parlamentares, professores, lideranças populares, entidades dos direitos humanos e afins.

Você pode ler e assinar aqui

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Achados e perdidos

Eloy Melonio

“Amigo é aquele que, antes do ombro, dá o coração.”

(Mhario Lincoln)

Para anunciar a escalação do nosso timaço ― da forma como ele realmente merecia ― só mesmo chamando Galvão Bueno, com sua voz inconfundível. Não sem antes impor uma condição: ele deve anunciar seus nomes como se fossem os craques da Seleção Brasileira.

E, se quiser, pode consultar seu “VAR” particular, ou seja, “o Velho Arnaldo”, para uma consideração técnica (Pode isso, Arnaldo?).

Esse “isso” não tem nada a ver com as posições ou qualidades dos “jogadores”, mas com os nomes pelos quais eram chamados quando estavam no campinho de peladas onde nos encontrávamos quase todas as tardes.

Então, vamos lá! Imagine-se agora ouvindo a narração de Galvão Bueno: O time da COHAB-Anil vai de Farinha, Magriça, Pé de Bicho, Maguari, Maior, Dentadura de Galinha, Gringo, Elefante, Natal, Via e Bombom.

Não são nomes tão estrambóticos assim, não é mesmo? Eram, na verdade, apelidos que nasciam de flagrantes inusitados que a galera não deixava escapar. E, raramente, alguém se chateava com isso. Apenas uma explicaçãozinha para sustentar a leveza das nossas intenções: “Via” era o apelido de um “estrábico” do elenco. Os outros deixo por conta da imaginação de vocês. Ah, e vou logo avisando: não vou revelar o meu.

Espero que não se decepcionem com esta informação: esse time nunca existiu no sentido de agremiação futebolística. Podia ser esse ou outro qualquer. Ou seja, era mais que um time de peladeiros dos primeiros anos da COHAB-Anil (conjunto residencial de classe média baixa, entregue em 1967). Era um time de amigos. Amigos que eu não vejo há muito, muito tempo. Amigos que inscreveram seus nomes nos anais de minha saudade. E que talvez já não estejam mais neste nosso mundo.

Esta conversa toda só para falar ― isso mesmo! ― sobre “amizade”. De amigos que se perdem e que se acham. E também por causa dessa “roda viva” de que nos fala Chico Buarque: “Tem dias que a gente se sente/ Como quem partiu ou morreu”. Nessa canção, as estrofes sempre terminam com os versos: “Mas eis que chega a roda-viva/ E carrega (destino/saudade) pra lá”.

Em se tratando de amizade, a “roda-viva” ― sem aviso prévio ― pode “trazer ou levar” as pessoas a quem nos ligamos pela afeição, simpatia, estima. Como disse antes, imagino que a galera do time anunciado por Galvão Bueno já está (quase) toda “perdida”.

Mas eis que ― depois de cerca de vinte anos ― chegou o Ricardo para entrar no time dos “achados” (ou “reencontrados”) na curva do vento. Um amigo com quem convivi por cerca de oito a dez anos. E com ele, a inspiração para esta crônica. Eita roda-vida danada!

Amigos, todos os temos. E o bom da vida é que temos todos os tipos de amigos. Generosos, confiáveis, amáveis, problemáticos. Um sem-número de adjetivos se aplica a essa categoria social. Temos o “médico-amigo” das campanhas eleitorais. Os best-friends das redes sociais. Já tivemos até “O Amigo da Onça”, um típico malandro brasileiro criado pelo cartunista Péricles de Andrade, que foi sucesso na Revista O Cruzeiro (1928–1975).

A arte sempre reserva um cantinho para a amizade. Milton Nascimento, por exemplo, revela o melhor lugar para se guardar os amigos. O grupo Fundo de Quintal achou os versos mágicos para amplificar esse lado bonito da vida: “A amizade/ Nem mesmo a força do tempo irá destruir / Somos verdade / Nem mesmo este samba de amor pode nos resumir”. Um hino cristão, aproveitando a sabedoria do provérbio 18:24, refere-se a Jesus como “um amigo mais chegado que um irmão”.

Hoje os meus amigos são outros. Outros senhores, outros perfis, outros humores. Igual mesmo só o “laço” que nos une. E, entre “achados e perdidos”, a galera da COHAB-Anil sempre estará guardada no lado esquerdo do meu peito.

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Eloy Melonio é contista, cronista, ensaísta, letrista e poeta.

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Movimento BATISTAS POR PRINCÍPIOS repudiam manifestações antidemocráticas do 7 e setembro

Nota desconvite ao 07/09

Diante da convocação feita às igrejas evangélicas, por diversas lideranças, para saírem às ruas em apoio às manifestações do próximo dia 7 de setembro, fazemos as seguintes considerações:

1. Defendemos e propagamos a liberdade de expressão e opinião, garantidas pela Constituição Brasileira, na convicção de que nenhum cidadão do nosso país está acima das normas constitucionais;

2. Estranhamos o lamentável fato de que pastores, embora ensinem em suas igrejas uma eclesiologia democrático-congregacional, expressem sua solidariedade a uma manifestação de claro apoio a iniciativas autoritárias e pouco democráticas do atual Presidente da República;

3. Denunciamos, com perplexidade, o evidente caráter contraditório da manifestação, uma vez que — em nome da defesa da liberdade — faz a apologia inconstitucional do fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal;

4. Expomos nossa desconfiança em relação a um movimento que pretende dar salvo-conduto a um presidente que, juntamente com seus filhos, ainda deve explicações a sérios e graves indícios de corrupção e uso indevido de verbas de gabinete constituídas por dinheiro público — indícios que estão sendo investigados e, por si, revelam situações que parecem desmontar discursos hipócritas contra a corrupção;

5. Discordamos de todo e qualquer apoio acrítico ao atual governo — bem como à voluntária submissão ao papel de massa de manobra que se tem visto em vários setores da sociedade, em especial no ambiente evangélico — tendo em vista:
a) o fracasso na condução da crise de saúde no país como resultado da pandemia do Coronavírus;
b) o fracasso da política econômica, que se confirma pelo aumento do desemprego, da fome e da miséria, bem como de outras diversas maneiras, inclusive no crescente abandono do país por multinacionais muito conhecidas e aqui presentes há várias décadas;
c) o fracasso no controle inflacionário, resultando no absurdo e crescente aumento de preços, cujos mais notórios são dos alimentos, gás de cozinha e combustíveis, situação que deixa ainda mais vulneráveis aqueles que, de alguma forma, já se encontram prejudicados pela pandemia;
d) o fracasso no prometido combate à política predatória do chamado Centrão, cujo maior representante está hoje assentado num dos gabinetes do Palácio do Planalto, na qualidade de Ministro da Casa Civil;
e) o fracasso na estabilização política;
f) o fracasso nas políticas educacionais;
g) o fracasso no plano de prevenção à crise hídrica e de energia elétrica que, depois de claros sinais, agora se avizinha.

6. Afirmamos com ênfase que a convocação para tal manifestação pública, embora exiba como fachada a defesa da liberdade e da democracia, na verdade se revela como astuta tentativa do atual governo de provocar rupturas institucionais e criar ambiente favorável a instalação de um governo autoritário e personalista.

Sendo assim, conclamamos aos irmãos e irmãs, especialmente aos batistas que sempre defenderam princípios de verdadeira democracia e separação entre Igreja e Estado, a não comparecerem às ruas na próxima terça-feira, dia 7 de setembro, aproveitando melhor o seu tempo com outras atividades mais recompensadoras e que, ao fim e ao cabo, demonstrem o autêntico respeito que temos pelo Dia da Independência.

MOVIMENTO BATISTAS POR PRINCÍPIOS

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A terra redonda na Macondo de Gabriel García Márquez

Relendo “Cem anos de solidão”, eis que numa passagem da obra fui remetido ao cenário contemporâneo do terraplanismo e de outras derivações do obscurantismo.

O trecho abaixo é o desdobramento de várias visitas do cigano Melquíades a Macondo, a cidade imaginária de Gabriel García Marquéz.

Melquíades já havia impressionado a vila com a apresentação do gelo e do imã. As constantes visitas do cigano eram sempre apreciadas por José Arcádio Buendía, até que um dia…

Finalmente, numa terça-feira de dezembro, na hora do almoço, soltou de um golpe só toda a carga de seu tormento. As crianças haveriam de recordar pelo resto de sua vida a augusta solenidade com que seu pai sentou-se à cabeceira da mesa, tremendo de febre, devastado pela prolongada vigília e pela ferida aberta de sua imaginação, e revelou a elas sua descoberta:

– A terra é redonda feito uma laranja.

Úrsula perdeu a paciência. “Se é para ficar louco, pois que fique você sozinho”, gritou. “Não trate de pregar nas crianças suas ideias de cigano.” José Arcádio Buendía, impassível, não se deixou amedrontar pelo desespero da mulher, que numa explosão de cólera estraçalhou o astrolábio no chão. Construiu outro, reuniu no quartinho os homens da aldeia e demonstrou a eles , com teorias que para todos eram incompreensíveis, a possibilidade de regressar ao ponto de partida navegando sempre rumo ao Oriente. A aldeia inteira estava convencida de que José Arcádio Buendía havia perdido o juízo, quando Melquíades chegou para pôr as coisas em ordem. Ele exaltou em público a inteligência daquele homem que através de pura especulação astronômica havia construído uma teoria já comprovada na prática, embora até então desconhecida em Macondo, e como prova de sua admiração deu a ele um presente que haveria de exercer uma influência decisiva no futuro da aldeia: um laboratório de alquimia.

Fonte: Cem anos de solidão (p. 10 – 11). Editora Record, 2015

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Ana Jansen: a rainha em carne e osso e as lendas sobre a poderosa líder política do Maranhão no século 19

Uma versão sintética dessa reportagem foi publicada no TAB Uol.

Motivado por um ódio incomensurável, o comendador e negociante Antonio José Meireles importou da Inglaterra centenas de penicos de louça, tendo ao fundo a fotografia da sua maior desafeta, de tal modo que os usuários pudessem defecar e urinar sobre a imagem dela.

A venda dos urinóis no armazém do comendador foi um sucesso. Entusiasmado com a empreitada, Meireles só não contava com a peripécia da sua algoz. Ela própria acionou emissários para comprar todos os penicos. E quando não restava nenhum exemplar, mandou um grupo de 30 escravos à porta do comendador e, armados com potentosas estacas de pau, estraçalharam os urinóis até virarem pó.

O episódio real, contado na obra “Os tambores de São Luís”, de Josué Montello, é um entre tantos conflitos em que Ana Joaquina Jansen Pereira (1787 – 1869) triturou adversários até a humilhação.

Donana Jansen, Dona Ana Jansen, Donana ou Nha Jança, batizada Ana Joaquina de Castro Jansen, nasceu em São Luís e tinha ascendência nobre de uma família que entrou em decadência.

Herança, prole e poder

Pobre, já era mãe solteira antes do primeiro relacionamento com o coronel português Isidoro Rodrigues Pereira – o homem mais rico do Maranhão. Com ele, na condição de amante, teve cinco filhos antes de casar e mais uma depois do matrimônio.

Quando o coronel faleceu, deixou para Ana Jansen um grandioso patrimônio em terras, dinheiro, imóveis e escravos. Afortunada, ela virou uma personagem central no cenário político e econômico do século 19 na Província do Maranhão.

Habilidosa nos negócios, soube multiplicar a riqueza e associar o dinheiro à política, impulsionando sua família ao núcleo da elite local. Durante quase 40 anos exerceu influência total sobre escravos, desembargadores, chefes de polícia, cobradores de impostos, intelectuais, jornalistas e parlamentares.

Imponente sobrado era o QG da matrona. Foto: Adriano Almeida

O local privilegiado para a tomada de decisões era o suntuoso palacete da rua Grande, no Centro de São Luís, em eventos regados a música e banquetes. “Dia e noite ferviam ali dentro as tricas políticas e os enredos privados da terra”, registrou Jerônimo de Viveiros (p. 80) na obra “Ana Jansen, Rainha do Maranhão”.

Conservadora na política, subversiva nos costumes

Na memória coletiva, o imaginário sobre Ana Jansen está povoado de relatos sobre uma mulher perversa que mandava torturar e matar seus escravos e cometia atrocidades contra os seus inimigos.

A doutora em História Econômica (USP), Marize Helena de Campos, compreende Ana Jansen além do maniqueísmo. “Ela atravessa a história como uma mulher que desafiou regras, lugares, modelos e discursos. Considero um erro qualificá-la como vilã ou heroína. Há que se considerar o contexto em que Ana Jansen viveu e vivenciou seu poder, ideias e práticas”, enquadra.

Ao ficar viúva, antes dos 30 anos de idade, foi companheira do desembargador Francisco Carneiro Pinto Vieira de Melo, gerando mais quatro filhos, sem casar.

Do segundo casamento, com um negociante sediado em Belém do Pará, Antonio Xavier da Silva Leite, não teve descendentes.

Para a doutora em História e professora da Universidade Estadual do Maranhão (Uema), Elizabeth Abrantes, a liderança política e o poder econômico de Ana Jansen incomodavam os homens no contexto de uma sociedade patriarcal, misógina e escravista. “Ela exerce papéis não previstos para o sexo feminino e por isso vai ter muitos opositores, sendo alvo de uma série de boatos, intrigas, calúnias e difamações que vão contribuir para a construção do imaginário negativo que se tem até hoje”, explica.

As lendas e a política real

Não há registros de processos judiciais contra Ana Jansen por morte ou tortura de escravos, diferente do rumoroso julgamento da baronesa Ana Rosa Viana Ribeiro, acusada de torturar e matar um menino negro de oito anos de idade, em 1876.

“As violências do escravismo são injustificáveis, embora fossem parte do sistema. Por isso, algumas histórias atribuídas a Ana Jansen sequer têm racionalidade, como por exemplo mandar matar e jogar os escravos em um poço. Ela era uma comerciante e empresária muito perspicaz e jamais iria ‘jogar dinheiro fora’ ou desperdiçar um patrimônio”, pondera Abrantes.

Computa-se à influência de Ana Jansen a decisão do coronel Isidoro Pereira de doar 2.000$000 (dois contos de réis) à Santa Casa de Misericórdia para criar a Roda dos Enjeitados ou Casa da Roda, projeto filantrópico de acolhida dos bebês de mulheres pobres ou que não podiam fazer o reconhecimento da maternidade porque seriam concebidas fora do casamento.

No Brasil do século 19 só havia dos partidos: o liberal Bem-te-vi e o conservador Cabano.  À época, para alcançar os seus objetivos, as elites lançavam mão dos métodos usuais em uma província escravocrata do Brasil imperial, quando o poder era exercido mediante chantagens, coações, violência física, fraudes eleitorais e corrupção generalizada.

Uma frustração marcante

Embora fosse fiel ao império, a matrona sofreu um revés na sua maior pretensão.

Acostumada a colecionar vitórias contra políticos, homens ricos e intelectuais, Ana Jansen engoliu uma derrota amarga quando teve negado o pedido para obter o título de Baronesa de Santo Antônio junto ao imperador D. Pedro II, em 1843. Entre os argumentos e documentação apresentados no pleito, ela demonstrou a sua atuação para sufocar os rebeldes da Guerra da Balaiada (1838 -1841), o maior levante popular da Província do Maranhão, e a contribuição junto às forças do império na Revolução Farroupilha (1835-1845), no sul do Brasil.

Ela não foi baronesa de direito, mas de fato era a “Rainha do Maranhão”, exercendo o matriarcado em uma sociedade patriarcal.

Entre as suas vítimas constou ainda o político e intelectual Candido Mendes de Almeida, tirado à força de um navio quando tentava largar para o Rio de Janeiro, onde tomaria posse na Assembleia Geral Legislativa. Ele fora ainda desafiado para um duelo à bala pelo filho da matrona, o comandante da Guarda Nacional Isidoro Jansen Pereira. Mendes compareceu ao desafio, mas o adversário, ausente, mandou um recado avisando que o conflito seria resolvido “no cacete” em outro momento.

A vida transborda para os jornais

Em 1843 ela retaliou o ilustrado escritor e professor de grego Francisco Sotero dos Reis, demitindo-o da direção do tradicional Liceu Maranhense. Reis era articulista do periódico “A Revista”, gazeta cabana, adversário do jornal “O Guajajara”, controlado pela família de Ana Jansen.

Não satisfeita, estendeu a perseguição a Nunes Cascais, dono da tipografia onde “A Revista” era impressa. Ele foi sabotado por diversos métodos até ser despejado do sobrado onde funcionava a oficina do jornal. “Na época, era desgraça ser parente de Cascais”, registrou Viveiros (p.42)

Na percepção do doutor em História (Universidade Federal Fluminense) e professor da Universidade Estadual do Maranhão, Marcelo Cheche Galves, os jornais da época representavam a imprensa artesanal e pré-capitalista. “As publicações viviam da política, não se pagavam com as tiragens ou anúncios e tinham vida efêmera. Eram engajados e defendiam abertamente as suas posições sem a preocupação com a ideia de neutralidade”, especifica.

A edição de 6 de junho de 1840 o jornal “O Guajajara” estampava na primeira página: “…na sua decima taquarada fez huma fala energica contra os dezordeiros e insurreição dos pretos, e expendendo fortes razões, concluio sem rebuço: Guerra e mais guerra, aos rebeldes e pretos levantados.”

O alvo do ataque eram os “balaios”, referência ao apelido de um dos líderes da Guerra da Balaiada, Manoel Francisco dos Anjos Ferreira, artesão que fabricava um tipo de cesto de palha denominado “balaio”.

A guerra da água

A “Rainha do Maranhão” monopolizava a distribuição de água na capital da província, em sociedade com o empresário espanhol Santos José da Cunha. Seus escravos coletavam nas fontes ou chafarizes e vendiam o líquido de casa em casa, em pipas sobre carroças puxadas a burro.

Na época retornava de Paris o recém-formado engenheiro Raimundo Teixeira Mendes e logo vislumbrou um projeto de canalização da água em São Luís. Seu empreendimento visava ao lucro e oferecer o serviço mais ágil e higiênico.

Diante da ameaça do concorrente, Ana Jansen armou o combate, narrado por Viveiros: “Ainda não tinham decorridos oito dias da inauguração da Companhia de Águas do Rio Anil, e aparecia boiando nas águas do depósito do Campo do Ourique um gato morto, já em putrefação. Os negros da Rainha espalhavam a notícia – gato morto na caixa d’água -, que o povo repetia pelas ruas da cidade.” (p. 49).

Chafariz no Palácio Cristo Rei, no Largo dos Amores, remonta à época em que não havia água encanada na cidade. Foto: Adriano Almeida.

Depois do gato sucederam outras sabotagens. Enquanto a água encanada faltava, as carroças seguiram abastecendo a população por mais 15 anos. Teixeira Mendes faleceu e o empreendimento faliu. Só em 1874 uma nova empresa assumiu o projeto e conseguiu distribuir água encanada para a cidade.

E quando a serpente acordar…

Ana Joaquina Jansen Pereira Leite morreu aos 82 anos, em 11 de abril de 1869. Foi sepultada no cemitério dos Passos (hoje Estádio Municipal Nhozinho Santos). Deixou em testamento a recomendação para celebrarem 200 missas de corpo presente. Sua vida marcante foi adaptada para o teatro na peça “Ana do Maranhão”, da escritora Lenita Estrela de Sá, e ganhou versões para leitores infantis dos autores Beto Nicácio e Wilson Marques.

A serpente na Lagoa da Jansen é uma das marcas da cidade. Foto: Adriano Almeida

Dos seus 11 filhos, dez foram concebidos sem casamento. A prole computa ainda 53 netos e 14 bisnetos. Uma das suas descendentes, Terezinha Jansen, destacou-se no cenário da cultura popular do Maranhão.

Entre fatos, lendas e mistérios, a Rainha do Maranhão vive no imaginário da população. Uma das fabulosas histórias remete à “carruagem fantasma” de Ana Jansen, que altas horas da noite parte de um cemitério puxada por mulas sem cabeça, guiada por um cocheiro negro decapitado. Esse arquétipo seria a expiação dos pecados da matrona pelas supostas maldades praticadas em vida.

Centro Histórico de São Luís é cenário de lendas. Foto: Adriano Almeida

Na famosa Lagoa da Jansen, cartão postal de São Luís, flutua a grandiosa escultura de 74 metros da “serpente encantada”, ilustrando uma cobra gigante que cresce ao longo dos séculos nos subterrâneos da cidade. No imaginário das lendas, a serpente remete ao sebastianismo.

O rei de Portugal, Dom Sebastião, desaparecido em 1578, no Marrocos, ressurge nas noites de lua cheia na forma de um touro encantado com uma estrela na testa, cavalgando sobre as dunas da Ilha dos Lençóis, em Cururupu, a 200 km da costa ocidental do Maranhão. Se alguém tocar na estrela, a serpente acorda em São Luís e a cidade desaparece tragada pelas águas.

Presente na obra do padre Antônio Vieira, o sebastianismo transborda para os cantos ritualísticos do tambor de mina (ouça aqui):

Rei, ê Rei
Rei Sebastião,
Rei, ê Rei
Rei Sebastião,

Quem desencantar Lençóis
Vai abaixo o Maranhão

IMAGEM DESTACADA: Imagem do livro ‘Perfil de Ana Jansen’ (1985), de Waldemar Santos / Imagem: Reprodução.

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A ditadura do corpo perfeito e os distúrbios alimentares

A hiperexposição das imagens no ambiente digital impacta diretamente na relação das pessoas com o espelho.

Um dos efeitos da nova forma de conviver em sociedade, através da visibilidade na internet, diz respeito aos padrões do corpo.

Não basta apenas ser visto, é preciso ter a aprovação daquele que vê.

Essa percepção do público implica em ter uma aparência exigida como belo e perfeito.

Se você não está bem com seu corpo, essa sensação pode provocar distúrbios alimentares diretamente relacionados à apresentação do corpo.

Entre os distúrbios, destacam-se:

Anorexia: o indivíduo se vê gordo, mesmo estando magro, causando perda de apetite.

Bulimia: sentimento de culpa por comer muito e consequentemente a punição através do vômito, jejum e uso de laxantes.

Hiperfagia: comer compulsivamente na tentativa de suprir ou substituir alguma necessidade.

Ortorexia: obsessão por alimentos saudáveis e perfeitos.

Vigorexia: a pessoa tende a se ver como fraco (mesmo sendo musculoso), gerando uma insatisfação constante compensada com dietas excessivas, suplementações e exercícios físicos exagerados.

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III Conferência Gramsci, Marx e Marxismo

Está chegando a III Conferência Gramsci, Marx e Marxismo (III CGRAM), com o tema Luta por hegemonia e a formação da consciência crítica: lições de Gramsci para o Brasil hoje, a realizar-se no período de 09 a 11 de novembro de 2022, on-line.

A submissão de trabalhos para apresentação nos painéis de comunicação oral e nas mesas temáticas coordenadas ocorrerá no período de 10 de agosto a 15 de setembro/2022, por meio de formulário on-line disponibilizado no link do evento, na página do Grupo de Estudos, Pesquisa e Debates em Serviço Social e Movimento Social da Universidade Federal do Maranhão (GSERMS/UFMA).

No link estão todas as instruções para submissão e apresentação de trabalhos, o detalhamento da programação e demais informações sobre o evento.

Venha participar conosco da III CGRAM, a inscrição é gratuita com expedição de certificado de participação.

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Cinco aberrações em sete minutos

Os tipos obscurantistas e negacionistas não cansam de nos exemplificar sobre os riscos de um retorno à barbárie.

Essa semana eu tentei dialogar com um motorista de aplicativo e constatei novamente o avanço de um tipo de mentalidade perigosa para a civilização.

Como de praxe, sempre que entro no carro, fiz uma pergunta despropositada para passar o tempo:

– Bom dia. A cidade hoje está tranqüila ou agitada?

Bastou essa pergunta para o motorista despejar as seguintes aberrações:

Agitada. O Brasil está se recuperando bem. A gasolina baixou de preço e esse mês foram gerados 380 mil empregos com carteira assinada. Nosso país está crescendo e a economia cada dia melhor.

Com certeza estamos melhor que os Estados Unidos. Lá está ocorrendo uma onda de mortes por causa da vacina contra a covid. As pessoas que tomaram vacina estão tendo uma série de problemas. Eu mesmo aqui não tinha nada no coração, agora sou cardíaco porque a vacina vem com uma proteína chamada “spike” e causa esses males.

Nos Estados Unidos as grandes empresas controlam tudo e querem implantar essa política nojenta aqui no Brasil agora. As grandes empresas e os bancos querem dar um golpe no presidente Jair Messias Bolsonaro para tirar ele do poder, junto com o TSE e as urnas eletrônicas, porque ele criou o pix e deu um prejuízo de bilhões de dólares aos bancos.

Esse presidente Joe Biden é um mala. Agora tem um BO contra ele. Eu vi no maior programa de entrevista dos Estados Unidos. Biden é pedófilo.

– Mas qual é a prova de que ele é pedófilo?, indaguei.

O senhor não sabe?! Os diários secretos da filha dele contam tudo. Ele dava banho e apalpava as partes íntimas da própria filha quando ela tava ficando mocinha.

Graças a Deus, a viagem terminou em sete minutos.

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Se é news, não pode ser fake

Essa lição aprendi com o professor Marcio Carneiro dos Santos, do Departamento de Comunicação Social da UFMA, e passo adiante.

Rigorosamente, a expressão “fake news” não é adequada e pouco usual entre pesquisadores e professores de Jornalismo.

A explicação é simples. A junção das palavras fake = falso e news = notícia em uma expressão caracteriza um oxímoro, figura de linguagem que combina termos de sentido oposto e se excluem mutuamente.

A produção de uma notícia = news implica em uma série de procedimentos de apuração, checagem das informações, ordenamento lógico, coerência e coesão textuais onde não cabe o falseamento ou a distorção do relato com a intenção de induzir a audiência a erro.

Se a notícia é uma forma de conhecimento da realidade e tem o objetivo de aproximar o público do relato sobre o fato, não faz sentido associar o conceito de notícia = news a fake = falso.

Os dois termos “fake” e “news” se excluem, são incompatíveis, as suas definições são distintas e representam sentidos opostos.

Os professores e pesquisadores de Jornalismo preferem usar a expressão “desinformação” em vez de “fake news”.

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Fabrício Carpinejar: uma crônica sobre amizade

Fonte: Fabrício Carpinejar
http://carpinejar.blogspot.com/2019/03/feliz-dia-do-amigo.html

Os amigos não precisam estar ao lado para justificar a lealdade. Mandar relatórios do que estão fazendo para mostrar preocupação.

Os amigos são para toda a vida, ainda que não estejam conosco a vida inteira.

Temos o costume de confundir amizade com onipresença e exigimos que as pessoas estejam sempre por perto, de plantão.

Amizade não é dependência, submissão. Não se têm amigos para concordar na íntegra, mas para revisar os rascunhos e duvidar da letra.

É independência, é respeito, é pedir uma opinião que não seja igual, uma experiência diferente.

Se o amigo desaparece por semanas, imediatamente se conclui que ele ficou chateado por alguma coisa. Diante de ausências mais longas e severas, cobramos telefonemas e visitas. E já se está falando mal dele por falta de notícias. Logo dele que nunca fez nada de errado!

O que é mais importante: a proximidade física ou afetiva? A proximidade física nem sempre é afetiva.

Amigo pode ser um álibi ou cúmplice ou um bajulador ou um oportunista, ambicionando interesses que não o da simples troca e convívio.

Amigo mesmo demora a ser descoberto.

É a permanência de seus conselhos e apoio que dirão de sua perenidade.

Amigo mesmo modifica a nossa história, chega a nos combater pela verdade e discernimento, supera condicionamentos e conluios.

São capazes de brigar com a gente pelo nosso bem-estar.

Assim como há os amigos imaginários da infância, há os amigos invisíveis na maturidade.

Aqueles que não estão perto podem estar dentro.

Tenho amigos que nunca mais vi, que nunca mais recebi novidades e os valorizo com o frescor de um encontro recente.

Não vou mentir a eles “vamos nos ligar?” num esbarrão de rua.

Muito menos dar desculpas esfarrapadas ao distanciamento.

Eles me ajudaram e não necessitam atualizar o cadastro para que sejam lembrados. Ou passar em casa todo o final de semana e me convidar para ser padrinho de casamento, dos filhos, dos netos, dos bisnetos.

Caso encontrá-los, haverá a empatia da primeira vez, a empatia da última vez, a empatia incessante de identificação.

Amigos me salvaram da fossa, amigos me salvaram das drogas, amigos me salvaram da inveja, amigos me salvaram da precipitação, amigos me salvaram das brigas, amigos me salvaram de mim.

Os amigos são próprios de fases: da rua, do Ensino Fundamental, do Ensino Médio, da faculdade, do futebol, da poesia, do emprego, da dança, dos cursos de inglês, da capoeira, da academia, do blog. Significativos em cada etapa de formação.

Não estão em nossa frente diariamente, mas estão em nossa personalidade, determinando, de modo imperceptível, as nossas atitudes.

Quantas juras foram feitas em bares a amigos, bêbados e trôpegos?

Amigo é o que fica depois da ressaca. É glicose no sangue. A serenidade.

Crônica publicada em 20/7/2018