Cabe uma retratação

O secretário de Saúde, Carlos Lula, é um dos melhores gestores do governo Flávio Dino (PCdoB).

Durante a pandemia do novo coronavírus ele tem feito o bom combate, em sintonia com as orientações das autoridades sanitárias, trabalhando com seriedade no enfrentamento da doença.

Porém, na convenção partidária governamental em Coroatá, Carlos Lula fez discurso sem máscara e até dançou com os seus correligionários no palanque, vendo na plateia um ambiente aglomerado e perigoso.

Não adianta usar o argumento de que o cidadão Carlos Lula é uma pessoa; e o secretário, outra. Ambos estão na mesma humanidade, falível.

O secretário errou e deveria fazer uma retratação.

Outros políticos e candidatos fizeram convenções aglomeradas atropelando as recomendações médicas.

A convenção do candidato a prefeito de São Luís, Duarte Junior, ex-comunista e atualmente no Republicanos, foi um exagero de aglomeração.

O que ele fez depois? Gravou e divulgou um vídeo pedindo desculpas.

O secretário de Saúde poderia tomar uma atitude semelhante. Na condição de autoridade referência no combate à pandemia é até pedagógico ele vir a público explicar a falha e reforçar os cuidados com a vida.

Basta um gesto simples e didático, com uma pequena dose de humildade.

Com que máscara?

Eloy Melonio

“Cadê a máscara?” Cansei de ouvir esse grito sempre que me preparava para ir à farmácia ou à padaria. Voltava correndo para reparar o descaso. Nem tanto pela obediência, mas para não contrariar minha mulher.

Quem diria! De repente “estamos todos de máscara”!

E ai de quem não usá-la. Primeiro porque, neste momento, seu uso é obrigatório (equipamento de proteção individual – EPI). Segundo, ― e aí entra o bom senso ― as pessoas podem pensar que você é um louco ou um tremendo irresponsável.

Foi isso o que me fez levar as máscaras mais a sério. Não apenas por causa da minha mulher, nem das pessoas, mas para me ajustar a essa nova realidade. E, por falar em todos, lembrei a famigerada frase de Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra”. Só que nessa questão, acho que o Nelson não tem lá muita razão.

Em seguida, recorri ao Google. E de tanto querer saber, vi e aprendi muita coisa interessante. Não apenas sobre o artefato usado para cobrir o rosto, mas sobre nós mesmos, presunçosos descendentes do Homo Sapiens. E descobri que elas já estão por aqui desde os primórdios da humanidade. Em rituais religiosos, festas, no teatro… e até prestando serviço a grupos clandestinos! Mas como proteção contra vírus, é coisa recente.

Quando se fala em máscara ― e é só do que se fala ultimamente ― o que vem à sua cabeça? Os bailes do carnaval do Rio de Janeiro? Os super-heróis dos quadrinhos e do cinema? As festas de Halloween? Ou as máscaras dos apicultores e dos lutadores de esgrima?

Da minha adolescência recordo-me do Zorro, do Cavaleiro Negro, e dos bandidos que assaltavam bancos no velho oeste americano.

Sem nenhum recato, o verbete “máscara” exibe-se nas tramas dos romances, nos versos dos poemas e ― pasme! ― até no noticiário de cada dia, especialmente o do mundo político. De tão descaradas, as máscaras não se escondem de ninguém. As pessoas é que se escondem (ou se protegem) por detrás delas.

As da moda não servem exatamente à moda, mas às medidas preventivas dos órgãos de saúde por causa do novo Coronavírus. Nessa agitação toda, nunca tinha visto tanta divulgação dessas máscaras de tecido. Os modelos são os mais atraentes e esquisitos ― alguns, dignos de uma boa risada. Tem de tudo nas redes sociais. Uns fazendo e vendendo máscaras, outros exibindo máscaras impagáveis, e ― acredite ― gente se negando a usá-las.

Quando uma “autoridade” ou pessoa comum aparece na tevê, inevitavelmente a gente presta mais atenção às máscaras, depois ao que ele ou ela está dizendo.

Em sua função metafórica, “disfarçam ou camuflam” quase tudo o que se pode imaginar: ações, ideias, atitudes, intenções. Na linguagem popular, dão uma lição de moral: “Em gente falsa, até o olhar é mascarado”. Dizem até que, se um dia as máscaras caírem, ― juntando aí metáfora e sabedoria popular ― sobraria pouca gente nas superlotadas arenas políticas de Brasília.

A máscara não esconde tudo. Um bom exemplo é a expressão “eu te conheço, carnaval!”, típica do nosso maranhês, quando alguém diz saber a identidade do “fofão” (fantasia de carnaval que esconde o corpo inteiro). Minha mãe gostava muito desse ditado. Infelizmente o fofão já não é tão popular, e a expressão acabou perdendo a sua graça.

Mesmo assim, vale lembrar a música do compositor Gerude para a “Esbandalhada” (2000), bloco pré-carnavalesco comandado por Alcione, que animou nossas ruas, praças e avenidas por cerca de cinco anos:

Eu te conheço carnaval, eu te conheço carnaval

Não adianta tirar a máscara

Se queres saber quem eu sou, me diga quem tu és

Confesso que a máscara é sufocante. Causa-me certa fadiga, cansaço, incômodo à livre respiração. Tanto que, assim que posso, arranco-a da cara, e sinto-me a “pessoa mais livre do mundo”. E aí também me lembro de Vinicius de Moraes, que não gostava de nada que lhe oprimisse, “inclusive a gravata”. Com toda a certeza, hoje ele preferiria a gravata à máscara.

Por fim, acredito piamente nos versos de Cazuza, quando diz que “o tempo não para”, esperando que “o futuro repita o passado”. E nessa vibe, não vejo a hora de voltarmos todos ― unanimemente ― às caras-limpas de antigamente.

Quanto à minha mulher, agradeço-lhe os gritos, sabedor de que a “máscara é a minha própria sobrevivência”.

** Eloy Melonio é professor, escritor, compositor e poeta

Imagem destacada / Máscaras de teatro grego. Imagem: A.B.G. / Shutterstock.com / Fonte: site InfoEscola

Condomínio da Península tem síndico bolsonarista e porteiro sem máscara

Discreto morador de um prédio localizado no cobiçado reduto imobiliário de São Luís segredou ao blog uma situação inusitada.

Apesar de todas as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e das diretrizes do Governo do Maranhão para o uso de máscaras, um dos funcionários do referido condomínio trabalha durante os seus turnos sem o equipamento de proteção.

Evangélico sectário, o porteiro está sempre acompanhado de uma bíblia enorme e ouve com frequência os programas de rádio da Igreja Universal do Reino de Deus.

O síndico do prédio, bolsonarista dos mais radicais, até agora não tomou providências para adequar o funcionário às orientações da OMS. Vez por outra, o gerente do condomínio, no alto do seu apartamento, solta da sacada o berro “mito” quando o presidente Jair Bolsonaro faz pronunciamentos em rede nacional de rádio e TV.

As fontes serão mantidas em sigilo, principalmente para proteger o emprego do funcionário da portaria, que pode sofrer represálias.

A Península, que na Geografia é rigorosamente a Ponta d’Areia, reúne os condomínios de apartamentos mais caros do Maranhão, com preços exorbitantes até mesmo se comparados à realidade do mercado imobiliário nacional.

Para lá houve a transferência dos chamados “novos ricos”. Embora seja o lugar mais caro e luxuoso de São Luís, a Península vive as contradições da cidade: esgotos transbordantes, ruas esburacadas e os carros-pipa socorrendo a falta d’água.

Nesse lugar exótico o deputado federal Edilázio Junior (PSD) proclamou com bastante antecedência o isolamento social da elite ludovicense, ao se contrapor de forma sórdida ao projeto de um porto que ligaria a Ponta d’Areia à Baixada Maranhense (reveja aqui).

O que interessa?

Indo além dos aspectos pitorescos do fato, o que mais importa é analisar como os tons do fascismo reúnem pessoas de classes sociais distintas e vidas economicamente opostas.

O síndico com espírito burguês está sintonizado nos mesmos ideais do evangélico da Universal do Reino de Deus que nos seus dias de turno pega ônibus, sem máscara, para se deslocar entre o condomínio de luxo onde trabalha e a sua casa na periferia de São Luís.

Do topo ao teto, as ideias fascistas encontram abrigo em diferentes classes sociais mediante discursos e práticas antigas sempre renovadas, fazendo eco nas novas gerações: (1) a volta ao passado de respeito aos valores e às tradições da família ocidental cristã; (2) a ideia fixa de construir um inimigo que precisa ser destruído – o comunismo; e (3) a perspectiva de futuro – o Brasil voltará a ser grande novamente.

Tudo isso sistematizado em dois bordões encaixados na promessa de que a vida será melhor no reino do bolsonarismo. Na campanha eleitoral bradavam “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”; na gestão, “Pátria amada Brasil”.

Apesar do tom nacionalista, os contornos do fascismo à brasileira incorporam um severo grau de submissão geopolítica, principalmente em relação aos Estados Unidos e Israel, no processo de alinhamento à onda conservadora que varre o mundo.

Para Trump é preciso destruir os mexicanos invasores e o terrorismo islâmico. Bolsonaro mira suas armas nos comunistas e na esquerda em geral; ou seja, o inimigo revisitado que já estava presente na Doutrina de Segurança Nacional, um dos pilares do golpe militar de 1964.

A ideia de criar um inimigo (e eliminá-lo!) serve para manter o clima de guerra necessário à alimentação ao fascismo. Vem daí o interesse pela flexibilização do uso de armas para abastecer a indústria bélica na esteira da aproximação da família do presidente com as milícias.

É, pois, esse caldo cultural que fascina tanto o síndico quanto o porteiro. Eles se encontram no ódio às mulheres libertárias, aos artistas, pobres, negros, índios, ambientalistas, gays em geral, a China etc. Todo esse conjunto de personagens é julgado e condenado à eliminação.

Correlato ao governo autoritário, o bolsonarismo referenda no seu protótipo de família a base da tirania: o pai opressor, a mulher submissa e os filhos obedientes.

Nas madrugadas, quanto todos nós estamos dormindo, o porteiro ouve no rádio repetidas vezes o pastor da Universal pregar o ódio maquiado de amor. Essa mensagem chega depois em outros formatos de mídia pelo WhatApp e vai sendo compartilhado infinitamente.

Assim, o fascismo opera dentro das subjetividades, nos ambientes mais profundos do animal humano.

O porteiro e o síndico também surfam na onda obscurantista de negação da Ciência e do Jornalismo. Ambos detestam o noticiário, repudiam a verdade, têm ojeriza aos critérios objetivos e desprezam a pesquisa. De quebra, querem o SUS e a Universidade pública privatizada.

Eles preferem meias verdades e mentiras inteiras a uma reportagem com base em fatos reais. Vale a crença no lugar da notícia ou da descoberta científica.

Nessa temporalidade conservadora, a luta de classes, que teoricamente oporia o síndico de espírito burguês e o trabalhador da portaria, perde a batalha para a unidade entre ricos e pobres em nome da antipolítica materializada em vários componentes: ódio, revanchismo, descrédito nas instituições (Judiciário, Ciência, Jornalismo etc), fundamentalismo religioso,  ressentimento…

Os tons fascistas necessitam ainda de uma permanente fogueira acesa com ofensas e caricaturas proferidas pelos protagonistas do próprio governo. Essa é uma das formas de manter a resistência paralisada, presa à bolha conservadora, em especial nas redes sociais.

Aquilo que era latente em um terço da população brasileira e no espírito do síndico da Península aflora na representatividade do presidente eleito pelo voto direto. Burgueses e proletários regozijam-se no “mito” depravado que usa o nome de Deus em vão, agride, ameaça, xinga e despreza até mesmo seus aliados.

Imagem destacada / reprodução / capturada neste site /