Luto no Apeadouro: pandemia leva vizinhos históricos do bairro

O bairro do Apeadouro, um dos mais tradicionais de São Luís, perdeu hoje o aposentado José Braga Cantanhede, o popular “Caju” ou “Seu Braga”, aos 87 anos de idade.

Morador da rua Sousândade, era um assíduo leitor de jornal impresso e ouvinte de rádio AM, flamenguista roxo e torcedor do Maranhão Atlético Clube, o MAC, em São Luís.

“Seu Braga” era leitor assíduo de jornais e admirava a “Coluna do Sarney”

“Seu Braga” trabalhou durante muito tempo na Oleama (Oleaginosas Maranhense SA). Deixa filhos, esposa, netos e uma saudade imensa.

Um dos seus assuntos prediletos era a política. Antes da pandemia, foi entrevistado pelo repórter Thiago Bastos, do jornal O Estado do Maranhão, para a produção de uma das suas belas reportagens especiais sobre memórias de São Luís.

A família Braga é muito querida no Apeadouro, território afetivo de São Luís, visitado em 2020 para uma das produções do teatro multimídia “Pão com Ovo”. Durante o bate-papo com os moradores, os artistas conheceram “Seu Braga” ou “Caju” e o primogênito José Braga Cantanhede Filho, o também popular “Braga” ou “Braguinha”.

A pandemia covid19 já fez várias vítimas no bairro. No primeiro semestre do ano passado faleceram, na mesma rua Sousândrade, o querido casal Norberto Guimarães (89 anos) e Maria da Conceição Ferreira Guimarães (89 anos), muito conhecidos, respectivamente, como ‘O Bala” e “Dona Cocota”, moradores lendários que deixam filhos e netos com raízes no Apeadouro.

Dona Cocota e “O Bala”, duas lendas no Apeadouro

Perdemos também Terezinha de Jesus Coutinho, aos 82 anos, uma das moradoras igualmente querida e antiga, ainda com familiares morando na mesma rua.

Terezinha Coutinho deixa saudades

Todos os óbitos mencionados acima foram por covid19 de moradores da mesma rua Sousândrade.

Em janeiro de 2020 foi a óbito a minha mãe, Terezinha Ferreira Araújo, aos 89 anos. Ela não foi vítima de covid19, mas era uma das residentes mais antigas do bairro, na famosa Sousândade, juntamente com meu pai, Raimundo Nonato Araújo, falecido em 2002.

Em outras vias do bairro tivemos perdas muito sentidas. Nas ruas Astolfo Marques e Manoel da Nóbrega perdemos “Zé do Bar”, proprietário de um dos botecos mais frequentados no bairro e ainda hoje em funcionamento.

A pandemia covid19 tem sido devastadora no Apeadouro, ficando nas nossas lembranças os bons tempos da convivência que atravessaram a infância, juventude, maturidade e as atualidades tristes.

Terezinha Araújo e “Dona Cocota”, amizade da vida inteira, agora no céu

Vamos rezar pelos entes queridos perdidos e pedir mais proteção, saúde e esperança de reencontro para que possamos nos encontrar quando tudo isso passar.

Leia mais sobre o Apeadouro aqui, aqui e aqui.

Imagem destacada: turma do Apeadouro na porta da antiga quitanda do Bala. Na sequência da esquerda para a direita: Bala, Eduardo, Maria, Cocota, Neilma, Ernildo, Solange, dona Silvia, Apolo e Lady Laura. Ao fundo: Benigno, Gugu, Guimarães e Danilo.

Brasil é o país com maior número de jornalistas mortos por Covid-19

A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) divulga nesta terça-feira, 6 de abril, véspera do Dia do Jornalista, novos dados do dossiê “Jornalistas vitimados por Covid-19”, referentes ao primeiro trimestre de 2021, colocando o Brasil como o país com o maior número de mortes pelo novo coronavírus no mundo.

De acordo com levantamento elaborado pelo Departamento de Saúde da FENAJ, a partir de notícias e de acompanhamento pelos Sindicatos da categoria no país, 169 jornalistas morreram entre abril de 2020 e março de 2021. O dossiê também mostra que, em três meses de 2021, o número de mortes supera todo o ano de 2020, quando foram registradas 78 mortes de abril a dezembro. Este ano, são 86 vítimas, percentual 8,6% maior que no total de 2020.

Conforme Norian Segatto, diretor do Departamento de Saúde da FENAJ e responsável pela sistematização do dossiê, no primeiro trimestre de 2021 a média é de 28,6 mortes de jornalistas por mês. “Os 169 casos apurados até agora são resultado da necropolítica do governo federal. Os números mostram a urgência de a sociedade se posicionar contra o governo genocida de Jair Bolsonaro”, afirma o dirigente.

Os estados com maior número de mortes de jornalistas são Amazonas, Pará e São Paulo, com 19 ocorrências cada, seguido do Rio de Janeiro (15) e Paraná (13). Na categoria, a maioria dos casos é na faixa etária dos 51 a 70 anos (54,9% das mortes) e entre homens, sendo que entre as vítimas fatais da doença, 9,8% são mulheres jornalistas.

“Assim com os profissionais da saúde, a categoria dos Jornalistas também está se sacrificando para garantir informação de qualidade para a população brasileira. Os números são alarmantes, mas vamos continuar cumprindo nosso papel, porque informação verdadeira também ajuda a salvar vidas”, afirma Maria José Braga, presidenta da FENAJ.

A FENAJ alerta que os dados podem estar subnotificados e que o dossiê é atualizado de maneira constante.

Desde o início da pandemia, a FENAJ atua em diversas frentes para orientar e organizar a ação dos Sindicatos, de forma a garantir condições adequadas de trabalho, denunciar junto aos órgãos fiscalizadores quando as medidas sanitárias são desrespeitadas e, ainda, denunciar à sociedade os ataques sofridos pelos profissionais jornalistas, que também contribuem pelo combate à pandemia com a produção de informação.

Acesse aqui o dossiê.

Dia do Jornalista

Nessa data especial – 7 de abril – quero reverenciar especialmente as reportagens do The Intercept Brasil sobre o submundo da Lava Jato.

As revelações da Vaza Jato mudaram o curso do golpe no Brasil e trouxeram a público as fraudes do ex-juiz Sérgio Moro e do procurador Deltan Dallagnol com o objetivo de condenar sem provas e prender o ex-presidente Lula, impedindo-o de concorrer nas eleições de 2018.

Viva o Jornalismo!

Vacinação chega aos servidores do Sistema Penitenciário do Maranhão

O Governo do Estado iniciou, na segunda-feira (5), das 8h às 16 horas, a vacinação contra a Covid-19 para os servidores da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP), que possuem 50 anos ou mais e que estejam no exercício da função.

Esta primeira etapa de vacinação é destinada aos servidores penitenciários e aos demais servidores do sistema de segurança pública do Estado, incluídos nessa faixa etária e quem trabalha nos municípios contemplados. 

A vacinação para este público acontecerá até esta terça-feira (06), em sistema drive-thru, no estacionamento do São Luís Shopping e, em Imperatriz, ocorrerá no Imperial Shopping.

“A expectativa é que possamos vacinar os quase 4 mil servidores da SEAP, principalmente os que atuam na linha de frente das 45 unidades prisionais do Estado”, explicou o secretário de Estado de Administração Penitenciária, Murilo Andrade.

Os servidores que já puderam ser vacinados ficaram gratificantes ao receber a primeira dose, principalmente a agente administrativa da SEAP, Magnólia de Fátima Luzeiro Pimentel, primeira servidora da SEAP em São Luís a ser imunizada. “Ficarei no aguardo da segunda dose e, agora, estou mais tranquila ao retornar ao trabalho e saber que iniciei minha imunização”, disse a servidora, de 62 anos, agente administrativa da SEAP na Unidade Prisional do Olho d’Água (UPODA).

Neste momento estão sendo disponibilizadas, no drive-thur, 2.500 doses da vacina CoronaVac, por meio do plano estadual de vacinação da Secretaria de Estado de Saúde (SES), provenientes do PNI (Programa Nacional de Imunizações).

Nesta primeira etapa, serão vacinados 564 em São Luís e 34 na cidade de Imperatriz.

Para concretizar a vacinação é importante levar todos os documentos necessários. Os servidores efetivos e comissionados devem apresentar documento com foto, CPF e contracheque atualizado. Para os servidores terceirizados, além destes documentos devem levar ainda declaração emitida pelo setor de Supervisão de Gestão de Pessoas (SGP) da SEAP.

A vacinação conta com a participação direta de 62 servidores da área da saúde da SEAP, que estão atuando diretamente na campanha entre enfermeiros, técnicos de enfermagem e administrativos.

MPT cadastra entidades para receber bens e recursos oriundos da atuação da Procuradoria do Trabalho

O MPT-MA abriu cadastro para entidades e órgãos públicos ou privados, sem fins lucrativos, que promovam direitos sociais e tenham interesse em receber bens e recursos decorrentes da atuação do MPT-MA.

Uma das exigências para compor o cadastro é que a entidade não seja dirigida, coordenada ou vinculada a partidos políticos ou a sindicatos. Também é vedada a inclusão de entidade que possua diretor, administrador, representante legal ou empregado na condição de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até terceiro grau, de qualquer membro ou servidor do MPT.

Para participar, os interessados devem requerer a inscrição por meio de peticionamento eletrônico no site protocoloadministrativo.mpt.mp.br/login, direcionado ao Procedimento de Gestão Administrativa nº 20.02.1600.0000220/2021-54.

É necessário, também, anexar o formulário preenchido e assinado por representante legalmente habilitado, bem como apresentar cópias com autenticação de seis documentos.

O edital completo pode ser acessado no site www.prt16.mpt.mp.br.

FENAJ apoia pesquisa da USP sobre o trabalho de comunicadores após um ano de pandemia

Levantamento quer saber como estão as condições de trabalho de profissionais para atualizar cenário da primeira fase do estudo, promovido no início do distanciamento social.

Formulário fica disponível para preenchimento entre 5 e 30 de abril  

Compreender a situação de trabalho dos comunicadores brasileiros após um ano de enfrentamento da Covid-19 no país é o objetivo dos pesquisadores do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT) da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

O estudo, que tem apoio da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), ocorre exatamente um ano após a realização de investigação inicial, que diagnosticou o momento vivido pelos comunicadores ainda no começo da pandemia. O relatório desta pesquisa, feita no primeiro semestre de 2020 e transformado em e-book, pode ser consultado aqui.

“Queremos verificar nesse momento, passado um ano em que o Brasil sofre com o agravamento cada vez maior da Covid-19, como está a situação de trabalho dos comunicadores que, muitas vezes, a exemplo dos jornalistas, ocupam o pelotão de frente do combate à doença ao assumir o árduo papel de informar corretamente a sociedade sobre os riscos e tentar dissimular, infelizmente, as fake news e o negacionismo que ainda perduram nessa terrível fase da doença”, afirma a professora Roseli Figaro, coordenadora do CPCT.

O formulário da pesquisa Como trabalham os comunicadores no contexto de um ano da pandemia da Covid-19?, que pode ser acessado aqui, estará disponível para preenchimento entre os dias 5 e 30 de abril no site do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (www.eca.usp.br/comunicacaoetrabalho) e de outras entidades parceiras, como a FENAJ. Os respondentes poderão participar anonimamente, de modo a ter seu sigilo preservado.

COVID-19 EM 2020 – O estudo inicial do CPCT sobre o tema foi promovido no começo do distanciamento social e reuniu 557 participantes de todo o país e do exterior. O relatório final evidenciou o aumento da jornada e do volume de trabalho, que tornou bem mais estressante a rotina dos comunicadores, que tiveram de conciliar a profissão com os cuidados da casa e dos filhos.

“A isso se soma também a sensação de cansaço sentida diariamente por esses trabalhadores, que ainda tinham de usar, na maioria das vezes, seus próprios instrumentos para trabalhar, como computador, celular e conexão à internet”, aponta Roseli Figaro.

Na ocasião, 70% dos profissionais reclamaram que o ritmo de trabalho estava bem mais intenso tanto para quem atuava na modalidade home office quanto para quem se mantinha em atividade presencial. Além disso, a pesquisa também destacou que as rotinas de produção sofreram muito com o distanciamento social, já que o contato com as fontes de informação, empresas e clientes ficou limitado, o que exigiu mais atenção e rigor na organização do trabalho.

“Pelo modo totalmente errático com que o governo federal tratou e vem tratando a pandemia, cujos casos de contaminação e de mortes só vem aumentando, nossa suspeita é a de que as condições de trabalho dos comunicadores pioraram, haja vista a grande quantidade de pessoas sem trabalho no país. Entender a situação desses trabalhadores, passado um ano da chegada da Covid-19 ao Brasil, ainda mais nesse momento de agravamento, pode auxiliar a diagnosticar os problemas advindos do quadro de precarização do trabalho e, a partir disso, cogitar possíveis alternativas para combater os graves impactos na área da comunicação”, conclui Roseli Figaro. Mais informações sobre a pesquisa atual podem ser obtidas pelo e-mail comunicacaoetrabalho@gmail.com

Testamento do Judas, de Cesar Teixeira, traz crítica a Bolsonaro logo nos primeiros versos

Outra vez sou enforcado
num tribunal ignaro,
mas meu crime prescreveu,
diz um pergaminho raro.
Quem exterminou Jesus
e botou culpa no SUS
foi Messias Bolsonaro.

Quando chegar no Inferno
ele não terá guarida,
pois o Diabo não aceita
gente de língua comprida
com barriga de jumenta,
cabelo de cu na venta
e fama de genocida.

Deixo ao Profeta do Caos
bula do Billy the Kid,
pois, quando bota ministro
na Saúde, há quem duvide:
– Será Marcelo Queiroga
um novo tipo de droga
que vem no Kit-Covid?

O tratamento precoce
é fim que não principia,
mais parece uma garrafa
de aguardente vazia.
Só traz insuficiência
renal e resiliência
da alma em hemorragia.

Deixo pro Ricardo Salles,
que a natureza atazana,
os restos mortais do gado
que acreditou no sacana.
Jogou no abismo a boiada,
que passa, desgovernada,
achando que a Terra é plana.

Para a ministra Damares,
que só trepa em goiabais,
vou deixar o Kama-Sutra
dos traumas celestiais.
Pra massagear o ego
de um pobre Judas cego,
deixo os órgãos genitais.

Deixo na Universidade
o cordel do ABC.
Hoje em dia estudante
só consegue o que dizer
na voz dos mestres Foucault,
Walter Benjamin, Nivô,
Apolônio e Bordieu.

Antes que o Testamento
se torne monografia,
uma camisa-de-força
deixarei para o Messias,
pois agora o rei está nu
entubado pelo cu,
de onde caga ideologia.

Vou deixar uma vacina
de cereais e verduras
pro nosso Mao-Tsé-Tung
não desabar das alturas
ao subir no Sputnik,
depois de um piquenique
com muito doce e gordura.

Para não cair partido
em Rocha capitalista
deixo a foice e o martelo
de cravar nazifascista
e, sem disparar um tiro,
enterrar mais um Vampiro
da corte terraplanista.

Pro ex-ministro Sérgio Moro
da Lawfare se salvar
eu vou deixar o triplex
com sua “conge” em Guarujá.
Pato já virou boneco,
agora é a vez do marreco
cantando Edith Piá.

Deixo para o Presidente,
doutor em Necrofilia,
o cadáver da Amazônia
cujos pulmões esvazia.
E o verde, se despindo,
de luto vai se vestindo,
numa triste asfixia.

Pagar na mesma moeda
em Aurizona eu pretendo,
pois lá a Equinox Gold
o terror vem promovendo.
Leva o ouro pra Gaudéria,
deixa a lama da miséria
em cada cova escorrendo.

É preciso demarcar
nossa herança por inteiro,
interditar o garimpo
e algemar fazendeiro.
A Funai não auxilia,
é pior que epidemia
para o índio brasileiro.

Deixo a Flávio Bolsonaro
a mala de um mascate
para esconder a grana,
sem que Queiroz o delate
por crime de peculato,
lavando dinheiro a jato
em pia de chocolate.

Na Assembleia deixarei
emenda legislativa
que impede o deputado,
em corrupção ativa,
pular cerca da vizinha
pra comer a rachadinha
da amiga Patativa.

Pois cabaço, meus amigos,
hoje é sigilo fiscal
que no Brasil ninguém quebra
se for presidencial,
por isso a mulher do Arruda
vai proteger a Papuda
do governo federal.

Deixo pras Forças Armadas
a batina dos vigários.
Não há generais rebeldes,
pois, muito pelo contrário,
a velada demissão
é a farsa do escorpião
no cangote de otário.

Assumiram Três Patetas,
no cinema um sucesso.
Para o filme “Bolsotralha
e os Três Porquinhos Perversos”
deixo esquadras de papel,
caminhões de carretel
e uma FAB de processos.

Para Kátia Abreu entrego
um cabresto em Testamento
pra botar o ex-chanceler
Ernesto pastando ao vento.
Nos restaurantes da China
carne que tem vitamina
é a carne de jumento.

Bolsonaro é repetente
desde seu Grupo Escolar,
e foi gazeando aula
que se tornou militar.
No quartel só lhe convinha
brincar de explodir bombinha,
e acabou por se queimar.

Na defesa, Braga Netto,
Paulo Guedes, o zagueiro;
no ataque, Bolsonaro,
Augusto Heleno, goleiro.
Com esse time oficial,
que só tem perna-de-pau,
o Brasil tá no atoleiro.

Ele não toma vacina
nem bota anel de tucum.
Na mão de Chico Gonçalves
não terá Direito algum.
Bozo tem medo é de agulha,
da seringa que borbulha
apontando o seu bumbum.

Deixo pro Fernando Cury
um sutiã de mamão
para ficar apalpando
seis meses de suspensão.
Essa pena é pequena,
em respeito a Isa Penna
caberia a cassação.

Para a amiga Rosa Reis
entrego meu borderô,
mantendo o Cacuriá
na UTI do Labô.
Messias pode surtar,
mas temos que vacinar
nosso Jacaré Poiô.

Vou deixar no Laborarte
minha máscara de linho.
No Inferno não tem vírus,
mas o Cão não tá sozinho.
Lá já se espalhou o mito
da língua do Nélson Brito,
herdada pelo Nelsinho.

Deixo para Joãozinho
enfrentar o lockdown
um litro de catuaba
pra de mim não falar mal.
Também deixo um ingresso
pra ele fazer sucesso
dançando no Xirizal.

No Planalto já deixei
a ceia do Capitão:
patê de ivermectina,
azitromicina, pão,
cloroquina e Leite Moça.
Já lavaram até a louça,
que não tem licitação.

Deixo orelhas de burro
nessa ave de rapina,
que negou o Butantan
por causa de uma vacina.
Fez do Brasil um velório
pra vender supositório
de hidroxicloroquina.

Insumos quero deixar
pra ajudar a Fiocruz,
oxigênio em Manaus,
farinha d’água e cuscuz.
Mas, para o mito bandido
deixo um pequi roído
no cocho dos urubus.

O curral não quer tomar
a vacina comunista.
Vitor Hugo e Zambelli
fazem parte dessa lista.
Por isso, deixo a mimosa
vacina de aftosa
pro gado bolsonarista.

A imprensa, que viveu
no AI-5 amordaçada,
por um louco outra vez
está sendo censurada.
Vou botar uma chupeta
com remédio tarja preta
nesse Boca de Privada.

Vou deixar na CCJ
da Câmara Federal
um despacho pra afastar
o atraso, a dor e o mal.
Incentivando motim,
Bia Kicis é pra mim
um verme no lamaçal.

Se há um ministro escroto
é o da Tecnologia,
viu que a Terra é redonda
sem informar a Chefia.
Deixo um foguete da Nasa
pra bem longe desta casa
despachar Jair Messias.

Nas paredes de Alcântara
já colei o personagem,
com o chapéu do Tio Sam
Bolsonaro fez chantagem.
A distribuição de título
foi mais um falso capítulo,
a mais pura maquiagem.

Deixarei a própria corda
que hoje me decide a sorte
de herança aos editores
que publicam minha morte.
Ganhando dinheiro fácil,
me esculhambam no prefácio
sem me dar vale-transporte.

Auxílio Emergencial
deixo até o fim do ano
para os artistas da Feira
que estão se esforçando,
fazendo até hora extra
entre a segunda e a sexta
no bar do Corinthiano.

Em ano de lockdown
e quarentena de Judas
todos querem fazer live,
virou um “deus nos acuda”.
Mire o seu QR Code,
ou então me compre um bode,
no final tudo é ajuda.

Pra acabar com a pandemia
temos que participar
das batalhas contra o golpe
que espalha cepas no ar.
Contra a fome e a impunidade,
o manjar da liberdade
é o Impeachment, Já!

FIM?

*César Teixeira é jornalista, poeta e compositor. 

O Cristianismo e o comunismo primitivo

AUGUSTO C. BUONICORE*

Texto publicado originalmente no site da Fundação Mauricio Grabois

“Hoje sois vós, com as vossas mentiras e ensinamentos, que sois pagãos, e somos nós quem traz aos pobres, aos explorados, as novas da fraternidade e da igualdade. Somos nós quem está a marchar para a conquista do mundo como fez aquele que outrora proclamou que é mais fácil a um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que a um rico entrar no reino do céu”. Rosa de Luxemburgo, revolucionária comunista alemã.

“Se quiserem fazer uma ideia das primeiras comunidades cristãs, observem uma seção local da Associação Internacional de Trabalhadores”. Ernest Renan, historiador alemão do século XIX autor de A vida de Jesus e um dos principais estudiosos do cristianismo.

“E perguntou-lhe (a Jesus) um aristocrata. Bom, mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna? (…) Ainda te falta uma coisa. Vende o que tens, dá aos pobres e terás tesouros no céu; então, vem e segue-me. Então, ao ouvi-lo, ficou muito triste porque era muito rico”. Novo Testamento.  

Um cristianismo proletário e comunista

Um anticomunismo atávico ganhou nova força no interior das cúpulas de algumas igrejas ditas cristãs. Nesse processo não se incluem apenas os pastores pentecostais, mas também setores do clero católico. Estranhamente, apareceu até uma exótica “teologia da prosperidade”, cujo espírito é: enriquecei-vos (e não no sentido espiritual, como prevê os Evangelhos). O objetivo das preces é nos tornar mais prósperos materialmente. Ganhar na loteria passou a ser a maior graça possível a ser alcançada. Igualmente há uma perigosa aproximação desse clero reacionário com políticos e governos que negam os direitos humanos e até admitem práticas abomináveis, como a tortura e genocídio. Algo que teria sido veementemente condenado pelos primeiros cristãos.  Tela de Cândido Portinari

De fato, o processo de enfraquecimento do comunismo original junto às cúpulas das igrejas cristãs é antigo e não se deu sem contradições. Ele teve como um dos marcos fundamentais a fusão Igreja-Estado durante o reinado de Constantino, que viveu entre 272-337. Até meados do século III o comunismo era uma das bases ideológicas do cristianismo. Os exemplos se multiplicam nos próprios textos do Novo Testamento e dos primeiros teólogos cristãos. E estão presentes em escritos pagãos do Império Romano. O historiador alemão Max Beer no seu clássico História do socialismo e das lutas sociais escreveu: “Nos anos seguintes ao martírio de Jesus, as primeiras comunidades, compostas quase que exclusivamente de judeus proletários, viveram ou de acordo com o sistema comunista ou no espírito do ideal comunista”. 

Aquele comunismo dos primeiros cristãos não é idêntico ao comunismo moderno, criação do século XIX, contudo tem algumas similitudes. Não sem razão, os fundadores do “socialismo científico” (Marx e Engels) e alguns de seus primeiros ideólogos/intelectuais, como Karl Kautsky e Rosa de Luxemburgo, se interessavam pela história desses primeiros cristãos e buscaram construir pontes entre ela e o socialismo do seu tempo. Vejamos o que diz a Apresentação ao livro A luta de classes na França de K. Marx feita por Engels: “no Império Romano atuava um perigoso partido subversivo. Esse partido minava a religião e todos os fundamentos do Estado; negava sem rodeios que a vontade do imperador fosse a lei suprema; era um partido sem pátria, internacional (…). Este partido subversivo, que era conhecido pelo nome de cristãos, tinha também uma forte representação no exército; legiões inteiras eram cristãs (…). O imperador Diocleciano já não podia assistir tranquilamente ao minar da ordem (…). Então, emitiu uma lei contra os socialistas, queria dizer contra os cristãos (…). Foram proibidas as reuniões desses subversivos, os seus locais de reunião encerrados ou demolidos, os símbolos cristãos, cruzes, proibidos, como na Saxônia são os lenços vermelhos (dos socialistas). Mas estas leis de exceção não tiveram êxito (…). Este (Imperador) vingou-se com a grande perseguição aos cristãos no ano 303 da nossa era (…). E foi tão ‘eficaz’ que dezessete anos mais tarde (…) o autocrata de todo o Império Romano, Constantino, (…) proclamou o cristianismo religião de Estado”.

Dado a importância do tema, Engels retomou o tema num pequeno ensaio dedicado ao estudo do cristianismo primitivo. Assim iniciou sua obra: “A história do cristianismo primitivo oferece curiosos pontos de contato com o movimento operário moderno. Como este, o cristianismo era, na origem, o movimento dos oprimidos: apareceu primeiro como a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens privados de direitos, dos povos subjugados ou dispersos por Roma. Os dois, o cristianismo como o socialismo operário, pregam uma libertação próxima da servidão e da miséria (…). Os dois são perseguidos e encurralados, os seus aderentes são proscritos e submetidos a leis de exceção (…). E, apesar de todas as perseguições, um e outro abrem caminho vitoriosamente. Três séculos depois do seu nascimento, o cristianismo é reconhecido como a religião do Estado e do Império romano: em menos de sessenta anos, o socialismo conquistou uma posição tal que o seu triunfo definitivo está absolutamente assegurado”. Essas seriam comprovações de que, como o cristianismo, o socialismo poderia ser vitorioso apesar da repressão e das calúnias contra os quais recaiam. Os grandes caluniadores eram justamente os membros do alto clero.

Rosa de Luxemburgo e o clero reacionárioPrimeiros Cristão

Rosa de Luxemburgo, da mesma forma, escreveu sobre o assunto, O socialismo e as Igrejas, visando ganhar para sua causa os operários católicos poloneses e isolar o clero ultrarreacionário: “Os social-democratas propõem-se a pôr fim à exploração do povo pelos ricos. Pensar-se-ia que os servidores da igreja deveriam ter sido os primeiros a desempenhar-se desta tarefa (…). Não é Jesus Cristo quem ensina que ‘é mais fácil um camelo passar pelo furo de uma agulha que um rico entrar no Reino dos Céus’? (…) Se o clero realmente deseja que o princípio ‘Ama o teu próximo como a ti mesmo’ seja aplicado na vida real, por que é que não recebe bem e com entusiasmo a propaganda dos social-democratas? Os social-democratas tentam, através de uma luta desesperada e da educação e organização do povo, subtraí-lo à opressão em que se encontra e oferecer-lhe um melhor futuro para os filhos. Todos devem admitir que, neste ponto, o clero deveria abençoar os social-democratas, pois não é ao clero que eles servem, e sim a Jesus Cristo, que diz que ‘o que fizeres aos pobres é a mim que o fazeis’?”. 

Continua Rosa: “Contudo vemos o clero, por um lado, excomungando e perseguindo os social-democratas (…). Assim, o clero, que se torna o porta-voz dos ricos, o defensor da exploração e opressão, põe-se em flagrante contradição com a doutrina cristã (…). Os padres de hoje, que combatem o comunismo, condenam, na realidade, os primeiros apóstolos cristãos, pois estes não passavam de ardentes comunistas (…). Se Cristo aparecesse na terra, atacaria com certeza os padres, os bispos e arcebispos que defendem os ricos e vivem explorando os desafortunados, como outrora atacou os comerciantes que expulsou do templo para que a presença ignóbil deles não maculasse a Casa de Deus (…). Hoje sois vós, com as vossas mentiras e ensinamentos, que sois pagãos, e somos nós quem traz aos pobres, aos explorados, as novas da fraternidade e da igualdade. Somos nós quem está a marchar para a conquista do mundo como fez aquele que outrora proclamou que é mais fácil a um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que a um rico entrar no reino do céu”. 

Rosa cita o historiador alemão Vogel que ainda em 1780 constatou: “De acordo com a regra, todo cristão tinha direito à propriedade de todos os membros da comunidade, caso quisesse, podia pedir que os membros mais ricos dividissem a sua fortuna com ele, de acordo com as suas necessidades. Todo o cristão podia fazer uso da propriedade dos seus irmãos. Assim, os cristãos que não tinham casa podiam exigir do que tinha duas ou três que os recebesse; o proprietário conservava para si próprio apenas a sua própria casa. Mas por causa da comunidade de gozo dos bens, tinha de dar-se habitação àquele que a não tinha’”. Entre os primeiros cristãos, agora segue a própria autora, “o dinheiro era colocado em caixa comum e um membro da sociedade, especialmente escolhido para esse fim, dividia a fortuna coletiva entre todos. Mas isto não era tudo. Entre os primeiros cristãos o comunismo foi levado tão longe que eles tomavam as suas refeições em comum. A sua vida familiar era, portanto, abolida; todas as famílias cristãs, numa sociedade, viviam juntas, como uma única grande família (…) Deste modo, os cristãos do I e II século foram fervorosos adeptos do comunismo”. Por isso, todos se tratavam de irmãos e irmãs.  

Essa situação não poderia durar muito tempo: “Ao princípio, quando os seguidores do novo Salvador constituíam um pequeno grupo na sociedade romana, a divisão do pecúlio comum, as refeições em comum e o viver debaixo do mesmo teto, eram praticáveis. Mas quando o número de cristãos se espalhou pelo território do Império, esta vida comunitária dos seus partidários tornou-se mais difícil. Em breve desapareceu o costume das refeições comuns e a divisão dos bens tomou um novo aspecto. Os cristãos não mais viveram como uma família; cada um tomou cuidado da sua própria propriedade e já não ofereciam o total dos seus bens à comunidade, mas apenas o supérfluo. As ofertas dos mais ricos dentre eles ao organismo geral, perdendo o seu caráter de participação numa vida comum, em breve se transformaram em simples esmolas, desde então os cristãos ricos deixaram de fazer caso da propriedade comum e passaram pôr ao serviço dos outros apenas uma parte do que tinham, parte que podia ser maior ou menor, consoante a boa vontade do doador. Assim, no coração do comunismo cristão, apareceu a diferença análoga à que reinava no Império Romano e contra a qual os primeiros cristãos tinham combatido. Em breve foram apenas os cristãos pobres – os proletários – que tomaram parte em refeições comuns”, afirmou Rosa. 

Kautsky e o cristianismo primitivo

Um dos mais importantes estudos sobre o cristianismo primitivo foi redigido por Karl Kautsky, o principal ideólogo da social-democracia pós-Engels. Para ele “a comunidade cristã abarcava em seus primórdios, quase que exclusivamente elementos proletários e era uma organização proletária. E isto permaneceu ainda durante muito tempo após sua criação”. Cita então Friedlander – autor de Vida e costumes romanos: “é certo que antes da metade ou do final do século II, só tinham uns quantos partidários isolados entre as classes superiores (…). O pobre e o humilde, dizia Lactâncio, estão mais dispostos a crer do que o rico, cuja hostilidade, sem dúvida alguma, surgiu em muitos aspectos contra as tendências socialistas do cristianismo”. Engels, por sua vez, havia escrito: “Os gentios diziam, desdenhosamente, que os cristãos só podiam converter os ingênuos, escravos, mulheres e crianças; que os cristãos eram rudes, sem educação e rústicos; que os membros de suas comunidades eram, principalmente, pessoas sem importância”. 

Kautsky constata que: “há (entre os primeiros cristãos) um selvagem ódio de classes contra o rico. Percebe-se essa condição no Evangelho de São Lucas (…). O rico é condenado pela única razão de ser rico. (…) O mesmo Evangelho faz jesus dizer: ‘Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que tem riqueza! Porque é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no reino de Deus’”. Ou seja, um rico entrar no reino dos Céus era quase uma impossibilidade para aqueles cristãos originais. Um dos primeiros grandes apologistas cristãos Tertuliano reafirmou: “Deus despreza os ricos e protege os pobres. O reinado de Deus foi feito para os pobres e não para os ricos”. 

Nos Atos dos apóstolos, descrevendo as primeiras comunidades, lemos: “E preservaram na doutrina dos apóstolo, e na comunidade e na partilha do pão e das orações (…). E todos os que acreditavam estavam juntos e tinham todas as coisas em comum; e vendiam suas propriedades e seus bens e repartiram-nas entre todos” (II,42,44,45) “e ninguém dizia ser seu algo que possuía, mas todas coisas eram comuns. Não havia nenhum necessitado entre eles: porque todos que possuíam terras e casas, vendiam-nas e traziam os valores da venda e os punham aos pés dos apóstolos e era repetido a cada um segundo tinha necessidade”. (IV. 32, 34,35). Jesus chegou a afirmar “E qualquer um de vós que não renuncia a todas as coisas que possui, não pode ser meu discípulo”. Noutra passagem está dito: “E perguntou-lhe (a Jesus) um aristocrata. Bom, mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna? (…) Ainda te falta uma coisa. Vende o que tens, dá aos pobres e terás tesouros no céu; então, vem e segue-me. Então, ao ouvi-lo, ficou muito triste porque era muito rico”.  

“Segundo São João, os doze apóstolos possuíam uma caixa comum enquanto Jesus ainda vivia. Mas Jesus também exige que todos os outros discípulos entreguem suas propriedades”. Assim, o cristianismo primitivo: “era um vigoroso comunismo, embora confuso, que prevalecia na comunidade em seus primórdios, uma condenação de toda propriedade privada, um impulso por uma ordem social nova e melhor, em que todas as diferenças de classe desaparecerem com a divisão da propriedade (…). A primeira comunidade comunista do Messias formou-se em Jerusalém (…). Mas as comunidades logo surgiram em outras partes que tinham um proletariado judaico.”  Logo surgiram entre os não judeus. 

O comunismo dos primeiros cristãos foi sofrendo várias modificações com o passar dos anos, mesmo no período anterior a sua transformação em religião oficial do Estado sob Constantino. A primeira delas foi o próprio aumento dos adeptos e das comunidades, distribuídas em várias regiões. A segunda foi o ingresso gradual de setores sociais mais privilegiados. “Na medida que aumentava a influência das classes educadas sobre o cristianismo, este se distancia cada vez mais do comunismo”, diz Kautsky. 

Ainda segundo esse autor, originalmente, “a comunidade cristã deve ter sido, sobretudo, uma organização de luta (…). Isso correspondia plenamente à situação histórica da coletividade judaica do seu tempo”, ocupada e oprimida pelos romanos. “Seria totalmente incrível se precisamente uma seita proletária houvesse permanecido intocada pela atmosfera geral revolucionária”. Naquela época eram comuns as revoltas individuais e coletivas contra a dominação romana. “Mas a situação mudou após a destruição de Jerusalém. Os elementos que haviam dado a comunidade messiânica seu caráter rebelde foram derrotados. E a comunidade do Messias tornou-se cada vez mais uma comunidade antijudaica, dentro de um proletariado não judaico, que não tinha capacidade nem desejo de lutar (…). O reino de Deus que deveria descer do Céu para Terra, transferiu-se cada vez mais para o Céu (…). Na medida em que a esperança messiânica no futuro assumiu cada vez mais uma forma celestial, tornou-se politicamente conservadora ou indiferente”. É claro que esse processo não se deu da noite para o dia e sem inúmeras contradições.

Começou-se a pregar o respeito cego às autoridades, sejam quais fossem. Lemos na Epístola de São Paulo aos Romanos: “Todo homem se submeta às autoridades superiores, pois não há autoridade senão de Deus, onde ela há, por Deus é ordenada. Assim, quem se opõe à autoridade resiste à ordem de Deus; e os que resistem recebem a condenação ao inferno”. Muitos afirmam que esta formulação subserviente ao poder seria uma maneira de proteger a pequena e fragilizada comunidade cristã das autoridades imperiais romanas. O problema é que muitas das práticas pagãs obrigatórias, como a veneração ao Imperador e a participação nos cultos do Estado, não eram obedecidas a contento pelos cristãos. Isso levava a uma eterna desconfiança sobre eles, por mais que buscassem demonstrar respeito aos governantes de plantão. Isso explica, em parte, as várias perseguições sofridas até o século IV.   

A mesma concessão foi feita em relação à escravidão, que os primeiros cristãos não viam com bons olhos: “O autor da Epístola de Paulo aos Colossenses (…) ordena aos escravos o seguinte: ‘servos, obedecei em tudo os vossos senhores não servindo apenas sob vigilância (…), mas com simplicidade de coração, temendo ao Senhor’. O autor da Primeira Epístola de Pedro – provavelmente escrita no tempo de Trajano – usa termos ainda mais claros: ‘Servos, sede submisso com todo temor a vossos senhores; não somente os bons e humanos, mas também os indignos’”. Isso repete-se na Primeira Epístola de Paulo a Timóteo: “E os que tem senhores fiéis (cristãos) não os menosprezem por serem irmãos; sirvam-nos com ainda melhor vontade, pois são fiéis e participantes das refeições comuns e se dedicam às boas ações”. Naquele tempo escravos e senhores chamavam-se de irmãos e compartilhavam conjuntamente da ceia cerimonial. O cristianismo era uma religião universal que buscava incluir a todos, independentemente da nacionalidade, incluindo os escravos. No entanto, não advogou a abolição da escravidão, mesmo nos seus primeiros anos. O escravismo era o Modo de Produção da época, a base econômica do Império romano. O abolicionismo, como movimento, seria algo extremamente revolucionário e perigoso.    

“Mas, para fazer com que os ricos se sentissem bem dentro da comunidade, o caráter dele tinha de mudar: ódio de classe aos ricos tinha que ser abandonado. O espirito proletário combativo da comunidade foi prejudicado por esse esforço de atrair o rico e fazer-lhe concessões, como sabemos a Epístola de Tiago às 12 tribos da diáspora (…) admoesta os membros de algumas igrejas: ‘Porque se em nossa comunidade entra um homem com anel de ouro e trajes luxuosos e também entra um pobre com roupas modestas e tratardes com deferência ao que traz as roupas preciosas e lhe disserdes: Senta-se aqui em bom lugar. E disserdes aos pobres: Fica em pé, ou senta-se abaixo do estrado dos meus pés (…). Se fazeis essa diferença entre pessoas, cometeis pecado’. Conclui Kautsky: “Na teoria, o comunismo não foi largado; e, na prática, unicamente o rigor de sua aplicação parecia ter se suavizado (…). Apesar do comunismo haver se enfraquecido muito, as refeições em comum continuaram ainda a ser vínculo firme que unia todos os camaradas”. Alguns séculos depois isso desapareceria. Das refeições comunitárias cotidianas participavam apenas os pobres. Os ricos compartilhavam a comunhão durante a missa em lugares especiais. Prática consolidada na “Idade Média”. 

Heranças do comunismo cristão

Segundo Iakov Lentman, “seria, no entanto, um erro pensar que já na primeira metade do século II o cristianismo era a religião das classes dominantes de Roma.  O reconhecimento da escravatura e o apelo à submissão dirigido aos escravos testemunham antes uma manifestação de fidelidade ao Império, e não o aparecimento nas comunidades cristãs de um contingente influente de possuidores de escravos (…). A composição social das comunidades era ainda bastante homogênea e incluía, para além dos escravos, artesãos e trabalhadores das cidades. Não é por acaso que no segundo grupo de Epístola paulinas se encontram frequentemente apelos a ‘trabalhar com as próprias mãos’ (I Tessalonicenses, IV, 11) (…). O célebre preceito: ‘Se alguém não quiser trabalhar, que não coma também’ (II Tessalonicense, III, 10) só pode evidentemente surgir num meio laborioso”. E continua: “mas, é visível que a partir da segunda metade do século II as camadas dominantes da população começam já a desempenhar um papel decisivo no seio das comunidades cristãs”.  

Gerard Walter, por sua vez, afirma: “Teoricamente, o princípio da comunidade dos bens, tal como a abolição de toda a propriedade privada, permanecia inscrito em lugar de honra no programa da sociedade cristã primitiva. Na prática, depressa se havia regressado às formas econômicas da sociedade burguesa pagã da época. De compromisso em compromisso, de concessão em concessão, no espaço de vinte anos os preceitos igualitários ditados imperativamente pelos primeiros fundadores do cristianismo (…) tinham-se pouco a pouco transformado numa espécie de recomendação platônica que é para recordarmos, mas cuja realização integral era antecipadamente tida como impossível. (…) Mas, apesar de toda fragilidade desta tentativa (…) o simples fato da existência nos primeiros anos da era cristã de uma pequena sociedade de homens que se esforçaram por fazer durar tanto tempo quanto lhes foi possível o regime comunista no seu meio deixou um traço profundo no espírito das gerações que se seguiram (…) tiveram uma repercussão imensa através de séculos e séculos”.  

Mesmo depois de um certo acomodamento do cristianismo e o seu afastamento do comunismo, vários “padres da Igreja” continuaram denunciando o crescimento das desigualdades sociais na comunidade cristã, o privilégio dado aos mais abastados e exortando a se voltarem ao espírito do comunismo dos primeiros Apóstolos. São Basílio, ainda no Século IV, dirigindo-se aos ricos afirmou: “Miseráveis, como vos ireis justificar diante do Juiz do Céu? Vós dizeis-me: ‘Qual é a nossa falta, quando guardamos o que nos pertence’? eu pergunto-vos: ‘Como é que arranjastes isso a que chamais de vossa propriedade? Como é que os possuidores se tornam ricos, senão tomando posse das coisas que pertence a todos? Se todos tomassem apenas o que estritamente necessitam, deixando o resto aos outros, não haveria nem ricos nem pobres”. 

São João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, também pregou à volta aos Apóstolos: “E havia uma grande caridade entre eles (os Apóstolos); ninguém era pobre entre eles. Ninguém considerava como seu o que lhe pertencia, todas as suas riquezas estavam em comum (…) uma caridade existia em todos eles. Esta caridade, consistia em que não havia pobre entre eles, de tal modo que os que tinham bens apressavam-se a desprender-se deles. Não dividiam as suas fortunas em duas partes, dando uma e guardando a outra; davam o que tinham. Assim não havia desigualdade entre eles. Todos viviam em grande abundância. Tudo se fazia com o maior respeito”. Em outro momento afirmou: “Ninguém pode enriquecer honestamente. Mas, poderão objetar-me, se um homem herdar riquezas de seus pais? Pois bem, ele herdará riquezas adquiridas desonestamente”. Invertendo a lógica liberal, Santo Ambrósio afirmou: “O direito comunista foi criado pela natureza. O direito à propriedade privada foi instituído pela violência”. Assim, a propriedade privada não é um direito natural. 

Kautsky concluiu: “Se o comunismo foi admitido oficialmente como exigência fundamental da comunidade, certamente semelhante reconhecimento só foi feito porque era impossível negá-lo, porquanto a tradição nesse ponto tinha raízes demasiado profundas e era amplamente conhecida”. Durante a chamada Idade Média elementos desse comunismo primitivo renasceriam em várias comunidades cristãs (católicas e protestantes), em grande parte, consideradas heréticas e duramente perseguidas, a exemplo de Thomas Munzer, os cátaros, os hussitas, os waldenses e os diggers na Revolução Inglesa. Mais recentemente esse espírito renasceu na Teologia da Libertação, já sob influência do marxismo. Como ocorreu com aquelas correntes que buscaram reaproximar o cristianismo e o socialismo (ou comunitarismo), ela foi perseguida e calada pela alta hierarquia da Igreja Católica. O mesmo fenômeno ocorreu em relação às igrejas protestantes. Contudo, não há como impedir que os interesses e a luta dos trabalhadores empobrecidos – a velha e boa luta de classes – emerja no interior dessas igrejas que têm bases populares, ainda que colateralmente. 

De Jesus Cristo aos falsos messias

Segundo os Evangelhos, Cristo nasceu numa manjedoura, dentro de um estábulo, e era filho de carpinteiro, possivelmente profissão exercida por ele durante sua infância e adolescência, antes de iniciar suas pregações. Portanto, foi um jovem proletário. Sempre viveu entre as pessoas mais humildes, excluídas socialmente: mendigos, leprosos, prostitutas etc. Os seus primeiros seguidores eram simples pescadores. Ele não tinha propriedades pessoais e o mesmo exigia dos seus apóstolos. Não era frequentador de palácios reais, nem tinha convivência íntima com os ricos e poderosos da época. E a pobreza, inclusive, era a condição essencial para participar da sua comunidade. Protegeu a adúltera Maria Madalena quando fanáticos religiosos, seguindo à risca as leis do Templo, queriam apedrejá-la. Disse-lhes: “Quem de vós não tem pecado que atire a primeira pedra”. Hoje vemos pastores apedrejando (ainda que virtualmente) LGBTIs, feministas, petistas, comunistas e membros de religiões afro-brasileiras. Jesus expulsou os mercadores do templo em Jerusalém. Quantos templos não viraram verdadeiros mercados persas, onde os bens religiosos são vendidos e os recursos transformados em novos negócios rendosos? Quantos altos dignitários das igrejas não se enriqueceram às custas dos fiéis e outros meios? 

E, por fim, pelas suas palavras e ações, Jesus foi condenado por dois poderes: o clerical e o imperial. Assim, ele foi o mais famoso preso político da história da humanidade, torturado e executado barbaramente na Cruz, forma mais degradante de morte entre os romanos. Morreu ao lado de dois ladrões e a um deles perdoou e disse que se encontrariam no reino do Céu. Jesus e os primeiros cristãos, decerto, não aceitariam frases bolsonaristas: como “bandido bom é bandido morto”. Tomemos cuidado com esses novos Messias que agora defendem os ricos, disseminam o ódio aos diferentes, a tortura, o armamento geral e até o genocídio.  

*Augusto C. Buonicore é historiador e diretor de publicações da Fundação Maurício Grabois. Autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira: encontros e desencontros; Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas; e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução. Todos publicados pela Fundação Maurício Grabois e Editora Anita Garibaldi.

Bibliografia

BEER, Max. História do socialismo e das lutas sociais, Centro do livro brasileiro, Lisboa, s/d

BETTO, Frei. Cristianismo & marxismo, Ed. Vozes, Petrópolis, 1986.

ENGELS, Friedrich. O cristianismo primitivo, Ed. Laemmert, s/d

KAUTSKY, Karl. A origem do cristianismo, Ed. Civilização Brasileira, RJ. 2010

LENIN, V. I. Lenin e a religião, Assírio&Alvim, Lisboa, 1974

LENTSMAN, Iakov. A origem do cristianismo, Ed. Caminho, Lisboa, 1988

LOWY, Michael. Marxismo e teologia da libertação, Ed. Cortez, SP, 1991

LUXEMBURGO, Rosa. O socialismo e as igrejas: o comunismo dos primeiros cristãos, Ed. Achiamé, RJ, 1981.  

MARX, Karl & ENGELS. Sobre a religião, Ed. 70, Lisboa, 1972

RENAN, Ernest. A vida de Jesus, Ed. Martin Claret, SP, 1995

WALTER, Gérard. A origens do comunismo: judaicas-cristãs-gregas-latinas, edições 70, Lisboa, 1976

Novo Testamento

Movimentos sociais repudiam a ditadura com outdoors em São Luís

Para denunciar os 57 anos do golpe civil-militar no Brasil, deflagrado em 31 de março de 1964, diversas organizações dos movimentos sociais (veja abaixo) realizam ações por memória, justiça e verdade.

Material de divulgação da campanha unificada mostra painel de outdoors

Uma das iniciativas é a distribuição de outdoors em São Luís com os motes “Fora Bolsonaro” e “Ditadura Nunca Mais”, “vacina já” e “auxílio emergencial de R$ 600,00”. As placas começaram a ser visualizadas desde terça-feira (30/03) como parte da campanha unificada de sindicatos, entidades de direitos humanos e pela cidadania.

O objetivo dos outdoors é dar visibilidade e denunciar a interrupção do processo democrático no Brasil nos anos 1960, bem como alertar para a conjuntura atual, no governo Jair Bolsonaro, apologista de ditaduras, da tortura e da violação de direitos humanos.

Além das peças publicitárias estão sendo realizados eventos remotos, palestras e debates sobre os impactos do golpe civil-militar de 1964 e os efeitos da ditadura no Brasil.

Ao longo de toda a semana o tema “ditadura nunca mais” será pautado com entrevistas diárias na Agência Tambor.

Entidades parceiras: ABJD, APRUMA, Agência Tambor, DCE-UFMA, MST, Sindicato dos Bancários, SINDEDUCAÇÃO, SINASEFE, SINDUEMA, SINTECT-MA, SITIU-MA, SINTRAJUFE.