Sobre amigos e princesas

Eloy Melonio é professor, escritor, poeta e compositor

Se o dengoso sambista Martinho da Vila cantou as suas musas (“Já tive mulheres de todas as cores”), eu também quero cantar os nossos melhores amigos. Porque com eles, — como dizia o pernambucano Gilberto (participante do BBB-2021) — nosso dia a dia se transformou numa verdadeira “cachorrada”. E, nesse caso, o termo em destaque pode ser tomado em sua acepção literal.

Há muito ouço dizer que “o cão é o melhor amigo do homem”. E, ao longo do caminho, pude comprovar que essa máxima faz todo o sentido.

Hoje, esses amigos são mais chegados do que nunca. Também são mais cuidados, mais valorizados. Ganharam nome internacional e já dispõem de um sem-número de facilidades (clínicas, hospitais, hotéis). E não vai demorar muito, estarão cheios de direitos. Em deveres, por enquanto, não se fala…

Revivendo uma situação que já me foi peculiar, eis que de repente — “nossos amigos” surgiram como uma onda gigante que quebra na praia. E aí, achamo-nos cercados de “pets” por todos os lados. Digo “nós” porque falo da minha família e parentes mais próximos. Esses novos amiguinhos chegaram quase ao mesmo tempo em nossas vidas. Daí em diante, só festa, só alegria.

Nossas princesas são, por ordem de idade, a Hope, a Nina, a Fany e a Zoey. Quatro cadelinhas que valem por uma boiada. E, quando se encontram, a festa vira mesmo é uma “cachorrada”.

Tudo começou em plena pandemia, no segundo semestre de 2020, quase simultaneamente. As “figurinhas” aportaram em quatro lares (duas casas e dois apartamentos). Cada uma com sua carinha de sapeca, com sua raça, com sua graça e nobreza. E, principalmente, com suas manias e traquinagens.

Sempre tive animais em casa. Inicialmente, de guarda. Só mais recentemente concebi-os como pets, no sentido estrito desse charmoso termo. Dos primeiros, guardo as melhores recordações. Porque marcaram seu território com coragem e — sem nenhum exagero — com muito barulho e peraltice.

Dos pioneiros, seus nomes podem dar uma ideia de suas características: Buck Rogers, Capeto, Lassie, Penélope. Mais tarde, — cada um a seu tempo — Foguinho, Capitão, Cindy, Barão, Kika e Minie. E, agora, a super charmosa Fany.

O mundo dos pets é um mundo de afetos e cuidados. Mundo de alegrias. E o mais importante: de amizade sincera. Um mundo que cabe dentro das nossas casas, dos nossos corações. E que, às vezes, dói um pouquinho no bolso.

É tanto encanto que já cheguei a sonhar com um show dos Pet Shop Boys só para eles e seus donos. Nesse caso, eu, minha família e meus parentes (hehehe).

Do mundo dos sonhos para a realidade: existem eventos especialmente pensados para os pets. Não exclusivos, é óbvio, porque os bichinhos precisam de acompanhantes. Entre eles, a Cãominhada, um desfile de moda e beleza, organizado por uma pet shop de nossa cidade. O mais interessante é que, enquanto seus donos ou condutores (dog walkers) se esforçam para “chamar a atenção”, eles não estão nem aí para essa coisa de “roupinhas e pelos estilizados”. O que querem mesmo é “curtir” essa tão inusitada pet-loucura.

Nos grupos de conversa na Internet, eles são os protagonistas. Quando voltam da tosa e do banho, sessão de fotos para as redes sociais. Alguns pets têm até Instagram, com milhares (e até milhões!) de seguidores. Mas do que gostam mesmo é das brincadeiras e das provocações. A Fany, por exemplo, sente-se uma verdadeira Brooke Shields em sua lagoa azul quando se apodera da minha almofada sobre o sofá. Exatamente na hora em que quero assistir ao JN. E ai de quem tentar tirá-la de lá.

Não há limite para tanta reciprocidade de carinho e amizade. Mesmo assim insisto em citar algumas do meu povo: “É uma companheira”; “Nosso pacotinho de amor”; “Mudou a rotina de todos nós”; “Mesmo que vc brigue com ela, basta um sinal e ela já se derrete toda”.

Nesse cenário festivo, vez por outra, a dor também se manifesta. Recentemente um amigo me ligou para dar uma notícia triste, apesar de já esperada. Com voz embargada, quase não conseguia dizer: “Petrucci não resistiu”.

Verdade seja dita: vida de dono de pet não é só alegria e diversão. Também há “o cão que o diabo enganou” (fuga, doença, morte).

Não sei se já existe, mas (em caso negativo) não vai tardar para criarem o Dia do Pet ou PET DAY (em inglês, para ficar mais chamativo). Se minha previsão se concretizar, nosso país — que já parou para ver o desfile militar de 7 de setembro — então vai parar para ver o desfile dos pets.

E aí, nossas cadelinhas serão, verdadeiramente, nossas mais preciosas princesas.

Imagem destacada / Mensário das quatro cadelinhas de minha família. Da esquerda para a direita: Maureen, com sua Zoey; Stephanie, com sua Hope; Alicia, com sua Fany; e Maria Beatriz, com sua Nina