São Pedro dos Crentes (parte 1): cidade evangélica tem fiéis ardorosos e irmãos desviados

O Blog do Ed Wilson publica hoje a primeira de uma série de matérias sobre São Pedro dos Crentes, cidade no sul do Maranhão povoada por evangélicos da Assembleia de Deus.

A primeira impressão de quem visita São Pedro dos Crentes é de estranhamento. Logo no acesso à rua principal da cidade, onde ficam as lojas do comércio, um bar reúne muitos homens no famoso campeonato de sinuca, com um boi vivo de premiação para o vencedor. Jogo, bebida, cigarro e música nas alturas destoam da expectativa criada em torno da cidade cuja marca é a expressiva população evangélica e as suas congregações.

Bar na entrada da cidade movimentou torneio de sinuca

Caminhando na praça do templo central da Assembleia de Deus, a primeira moradora convertida em São Pedro dos Crentes retorna de mais uma sessão de oração. Aos 86 anos, Terezinha Carvalho de Sousa ‘aceitou Jesus’ quando tinha sete anos de idade e está cada vez mais firme na fé. “Eu tinha o desejo de ir para o céu. Aí nos instruímos bem como era o céu, mostrado pela bíblia e aí eu entendi e se convertemos (sic), as três irmãs. Fiquemos crentes, graças a Deus. Eu leio a bíblia do começo ao fim, duas a três vezes no ano. Quem não segue ela está perdido”, definiu.

Terezinha Sousa: perseverança a caminho do céu

Origens religiosas

Encravada no sul do Maranhão, a 758 Km da capital São Luís, a cidade tem seus primórdios nos anos 1940, quando o missionário húngaro João Jonas percorreu a região ainda totalmente rural, montado em animais ou a pés, recrutando os primeiros fiéis.

Naquela época a fazenda São Pedro nucleava um povoado que posteriormente se transformaria na cidade São Pedro dos Crentes, recebendo esse registro porque as terras dos herdeiros da propriedade foram distribuídas apenas aos convertidos da Assembleia de Deus. “Os filhos e a viúva fizeram um inventário e doaram uma parte para a igreja e aí começaram a vir os crentes para morar”, explicou Antônio Lopes de Castro, 87 anos, um dos primeiros moradores do então povoado São Pedro, ainda em 1952.

Para Antônio Castro, ser crente é “aceitar Jesus como salvador para ter a certeza da salvação da alma e conviver juntamente aos irmãos com união perfeita e santidade. E esperar então as providências de Deus.”

A enciclopédia da cidade

Uma das referências sobre a história da cidade é o autodidata Pedro Damasceno Pereira Pinto. Ele reuniu em um livreto as memórias sobre a presença dos evangélicos na região, com o título “História da Assembleia de Deus em São Pedro dos Crentes”

Damasceno reúne memórias e registros sobre a cidade

Indagado sobre a fé, ele foi direto ao ponto: “Com toda razão eu lhe explico, porque Deus dá o conhecimento e as pessoas vão pensando e todos eles têm o conhecimento da bíblia. Deus abençoa. Em primeiro lugar nós temos conhecimento da bíblia, que diz ‘feliz é a nação cujo Deus é o senhor’. E também feliz é aquela cidade que tem Deus como seu Senhor que ora”, pregou.

O sentimento dos idosos Terezinha Sousa, Antônio Castro e Pedro Pinto ainda não está formatado no pensamento da pré-adolescente Mariane da Silva Aguiar Sousa. Com apenas 13 anos de idade, manipula um smartfone na porta de casa, tentando fugir do calor escaldante. Ela mudou recentemente da cidade vizinha (Fortaleza dos Nogueiras) para São Pedro e já aderiu à Assembleia de Deus. “É sempre bom ir para a igreja, aprendemos várias coisas lá na escola dominical, ouvir da Palavra, os hinos, cantar também, falar com Deus”, detalhou.

Crente Raimundo

O encontro de gerações na religião é observado com frequência nas famílias. À sombra de um frondoso pé de jambo na porta de casa, perto do templo central da Assembleia de Deus, o lavrador Pedro dos Reis Pinto, 76 anos, está cercado de filhos e netos, todos convertidos. “Tem um ou dois desviados, mas é pouca casa que tem pessoa que não é crente. Desviado é a assim […] a pessoa cresce, o rapaz tá grande, aí dá fé da perversidade, aí se desvia, larga de ser crente para seguir a perversidade”, explicou Pinto.

Pedro e o filho Joades: perseverança é o caminho para a salvação

No jargão evangélico há uma expressão jocosa para caracterizar o fiel que se afasta dos princípios rigorosos do Evangelho. Trata-se do “crente Raimundo”, definido pelo bordão “aquele tem um pé na igreja e outro no mundo”, denominado também de “crente desviado”.

Nesta situação encontra-se Joades de Sousa Pinto, um dos filhos de Pedro dos Reis Pinto. Ele tem 40 anos de idade e segue a religião desde criança. “Sou cristão, só estou um pouco afastado da igreja, um pouco desviado. Eu acho assim, devido alguns problemas pessoais de família, tipo a gente se separa, começa a conhecer outras pessoas também aí vai indo e a pessoa cai no mundo, mas não afastado de vez da igreja”, considerou.

O pai de Joades ajuda a qualificar o desvio de certos fiéis. “Eu acredito que seja desse tipo que estou lhe dizendo. Eles se desviam assim porque são novinho, foram criado no evangelho, não viram nada, aí quando vê o movimento do mundo, quando pensam que não estão lá”, enumerou.

O cabeleireiro Hudson: fé e fidelidade ao Evangelho

Próximo ao templo central da Assembleia de Deus, dois jovens conversam em pé, ao lado de uma motocicleta. Um deles fuma cigarro. Joelson Castro de Sousa, 30 anos, foi evangélico desde criança até completar 19 anos de idade, depois ficou desviado. O pai dele está na mesma situação, mas a mãe segue firme na igreja. Ele atribui o desvio aos “problemas que tem na vida da gente, a gente é falho mesmo, mas breve também estou voltando. A gente sabe que tá aqui fora, tá no erro, já errando mais, mas temos que voltar. O caminho certo é voltar para a casa do Senhor, contornou.

Mas, os desviados estão em menor quantidade. Durante reportagem ficou visível a frequência dos irmãos nas igrejas, desde crianças até idosos, engajados em todas as dimensões da fé, nas orações e nos sofisticados instrumentos musicais que animam os cultos.

O jovem casal Hudson da Silva Fontes Aguiar (21 anos) e Eldeni de Oliveira Aguiar (20 anos) é exemplo de geração focada no Evangelho. “O meio evangélico é bom. A partir do momento que eu aceitei mesmo entrar na religião, através disso vem mudando meu aspecto de viver porque até então certos atos a gente não faz, né, devido as doutrinas da igreja. Tá sendo uma maravilha, graças a Deus. “A vida de evangélica é muito boa […] aceitar Jesus. Na igreja a  gente aprende a palavra, os hinos, é muito bom”, completou Eldeni Aguiar.

Na próxima reportagem vamos abordar as relações entre política e religião em São Pedro dos Crentes

Imagem destacada: Centro de São Pedro dos Crentes / Magna Regina Santana.

Eleições & religião: Procuradoria Regional Eleitoral tem razão, em parte

A recomendação da Procuradoria Regional Eleitoral (PRE) no Maranhão sobre a participação de religiosos nas atividades de cunho eleitoral está correta quando vigia a drenagem de recursos dos templos para financiar eleições.

Com grande capacidade de arrecadação, as igrejas, principalmente evangélicas, podem tornar a disputa eleitoral desigual se financiarem determinadas candidaturas.

Neste aspecto – a fiscalização sobre o despejo de dinheiro dos templos em campanhas – a PRE está coberta de razão.

Mas, a PRE comete um deslize ao censurar membros e lideranças de entidades religiosas em eventos de campanha.

Pais, filhos e mães de santo, padres, pastores, capelães e fieis de qualquer religião são livres para optar por candidaturas e participar de atos políticos até mesmo nos templos.

Não existe pregação religiosa neutra. A bíblia e a vida de Jesus são obra e testemunho político-ideológico.

O Estado é laico, mas os religiosos devem ser livres para escolher as candidaturas que lhes convier.

Cercear a participação de religiosos em atos de campanha provoca desigualdade e até discriminação no conjunto de organizações que atuam direta ou indiretamente nas eleições.

Afinal, sindicatos, associações, organizações filantrópicas, esportivas, culturais e entidades dos mais diversos naipes têm ampla liberdade para participar dos processos eleitorais.

Por que as igrejas não podem?

Quanto ao emprego de recursos das igrejas nas eleições, que pode caracterizar financiamento de campanha, a PRE acerta se vigiar com rigor as organizações religiosas que drenarem o dízimo dos fiéis aos candidatos.

Aí sim, é uma boa ação da PRE.