Deitando e rolando

Eloy Melonio*

Falar, ler e escrever.

Essas são nossas mais básicas habilidades comunicacionais. A primeira é inata, e se desenvolve em casa, logo nos primeiros meses de vida. Para as outras, a gente precisa de ajuda especializada. Mesmo assim, depois de anos e anos na escola, muitos alunos morrem de medo da prova de redação do ENEM. E, entre uma habilidade e outra, elas estão lá, juntas e misturadas, no maior “auê”.

Isso mesmo! Estou falando das palavras. E foi nelas que, aos 52 anos, encontrei minha primeira e inesquecível lição de poesia, guardada num livro que ganhei de minha nora: “Penetra surdamente no reino das palavras…”.

Apesar de já iniciado na ciência das palavras, só agora, com outro livro, pude apreender a mensagem da primeira lição: “(…) gostava das palavras quando elas perturbavam o sentido normal das ideias”.

Carlos Drummond de Andrade e Manoel de Barros, respectivamente. A eles agradeço essas lições inspiradoras. Dois gigantes das letras que imergiram neste fantástico “reino” de fantasia, beleza e loucura. E, mesmo ausentes, levaram-me com eles nessa imersão poética. Depois disso, não havia como não ser tomado por esse inabalável apego às palavras.

Senti-me ainda mais encantado quando descobri esta outra preciosidade: “De todas as artes a mais bela, a mais expressiva, a mais difícil, é, sem dúvida, a arte da palavra” (Latino Coelho, em A Oração da Coroa).

Pois é, as palavras estão por aí desde que Deus tocou seu bombo, dando início à criação do mundo: bing, bang/ bing, bang. E, com elas, a luz. Com a luz, o dia e a noite. Com o dia, o trabalho. Com a noite, o descanso… e o sexo. E toda a humanidade.

Na narrativa bíblica, tudo era apenas um monólogo: Deus falando consigo mesmo. E aí não entendo por que minha mulher pega no meu pé quando percebe que estou falando sozinho. Mas eu lhe perdoo, porque só mesmo quem cria entende certas manias de outros criadores.

Não se sabe exatamente em que língua Deus falava. Mas, falando, Ele criava e criava. Em cada “obra”, uma palavra para nomeá-la, e outras para definir sua razão de ser. Lulu Santos e Nelson Mota têm razão quando nos advertem: “nada do que foi será/ De novo do jeito que já foi um dia”.

Essa é uma verdade absoluta no mundo das palavras. Porque, antes delas, não existia nada. Tudo era caos. Sem elas, nada do que foi criado teria ganhado personalidade. E, subservientes, sempre cumpriam as ordens do Criador. E, nesse momento primordial, a mais usada era o incansável verbo “haver”. Era Deus falar, e suas ideias tornavam-se reais.

Infelizmente, esse exemplo perdeu-se ao longo do tempo, pois, hoje, especialmente na seara política, a criatura de Deus fala, fala… As promessas dos candidatos no horário eleitoral gratuito na TV e no rádio parecem reprise dos filmes da “Sessão da Tarde”, na Rede Globo. E aí pensamos: já ouvi essa história antes!

Segundo a tradição judaico-cristã, Adão foi o primeiro homem a ouvir a voz do Criador. E parece que se entendiam bem. Talvez porque até então a criatura só ouvia. Quando pôde falar, foi para criticar seu interlocutor e acusar sua companheira: “A mulher que me deste por esposa…” (Gn 3.12).

Criado o mundo, os homens logo descobriram o poder da palavra. E achavam que também podiam tudo. Nessa ilusão, resolveram tirar uma onda com Deus. E construíram sua própria destruição. Não demorou muito, e a sua grande obra, a Torre de Babel, desmoronou, e veio tudo por terra abaixo. De solução, as pobres palavras passaram a ser uma grande “confusão”. Quanto mais falavam os homens, menos se entendiam.

Saltemos no tempo: da Babel do Gênesis para a babel das redes sociais, ou seja, para além das palavras, se é que isso é possível.

Nesse novo cenário, a comunicação ganhou “carinhas”, “mãozinhas”, “dedinhos”, “figurinhas” e “letrinhas” (blz, bjs, rs, mt). Só não se sabe exatamente aonde tudo isso vai nos levar. O salto tecnológico é real e a cada dia lança sobre nós um monte de “novidades”. Um amigo me confidenciou que espera ansiosamente o dia em que possa fazer sua habitual “confissão” por um aplicativo, sem ter de “encarar” o padre.

Apesar de tanta inovação, o homem não evoluiu tanto assim, e está “velhinho em folha”. Quando reflito sobre isso, tenho a mesma indignação de Belchior: “Ainda somos os mesmos/ E vivemos como os nossos pais”.

Não dá para disfarçar que somos muito parecidos com a galera da torre de Babel, porque “em toda a terra havia apenas uma linguagem” (Gn 11.1). Milhões de pessoas nos quatro cantos do planeta já amanhecem conectadas numa rede de “interação” jamais imaginada pelos nossos pais.

Felizmente, não mexo com tudo o que a tecnologia digital oferece. Sou um tanto technophobe (termo inglês para “pessoa que não gosta ou evita nova tecnologia”). Não dou conta de tanta informação e interação. Sou mais admirado e respeitado numa mesa de bar ( rsrsrs). Com isso, tento evitar aquela reclamação que a mulher faz ao marido, que soa igual à música dos “Paralamas do Sucesso”: Por que você não olha pra mim? E, assim, sobrevivo (e bem!) entre o WhatsApp, o Facebook e o Instagram. E só aí já são muitas carinhas e letrinhas para a minha sopa comunicativa.

Nunca vi nada no Tweeter. E tal qual o Zeca Pagodinho em relação ao caviar, eu também só “ouço falar”. Tenho cada vez menos intenção de abrir uma conta nessa rede de intrigas. Porque, segundo alguns amigos, é lá que as “tretas” e os “mimimis” deitam e rolam. E nesse bate-rebate, não há arma mais poderosa que a palavra. E também nunca houve tempo em que ela, como uma prostituta, fosse tão acessível e disponível. É, por assim dizer, uma “influencer” de alto padrão democrático.

E é assim que, de tanto digitar, as pessoas estão se ajustando a esse novo jeito de deitar e rolar em sua comunicação. Parece até que, como digo numa canção, antes de “ir dormir” já estão é “querendo acordar”. E o grande palco para isso, no Brasil, parece que fica mesmo nos gabinetes de Brasília. Dizem que por lá, assim como o “dinheiro” cabem em malas e cuecas, as “palavras” se dão muito bem num habeas corpus. Grande parte do conteúdo digital (blogs, podcasts) se nutre das migalhas dos homens de terno e gravata.

Ao longo da história da comunicação inteligente, homem e mulher vão deitando aqui e rolando ali. Da fofoca para o fuxico, do fuxico para os boatos, dos boatos para as “fake news”.

Quanto a mim, só em “Sapiens, uma breve história da humanidade”, de Yuval Noah Harari (Ed. LP&M), entendi melhor essa coisa de “fake news”. Harari revela: “Nossa linguagem evoluiu como uma forma de fofoca”. E acrescenta que o homo sapiens queria mesmo era saber “quem em seu bando odeia quem, quem está dormindo com quem, quem é honesto e quem é trapaceiro”. Um estilo de vida bem moderno, não acha?

Pois eu acho que nunca fomos tão sapiens como hoje. Parece que o jeito é mesmo se ajustar a este novo padrão de interação em que as pessoas (em lados opostos da conexão on-line) se afagam, se insultam e se lisonjeiam com elogios fáceis.

Imitando o sambista, deixo aos sapiens mais novos minha indagação final: e se as palavras nos deixarem sem voz e resolverem deitar e rolar em outra galáxia?

*Eloy Melonio é professor, escritor, poeta e compositor

Livro reúne artistas e pesquisadores para debater a Contracultura no Brasil

Transas da Contracultura Brasileira, organizado por Isis Rost e Patrícia Marcondes de Barros, reúne artigos, poemas, entrevistas, depoimentos e ensaios. Traz nomes como Chacal, Jards Macalé, Luiz Carlos Maciel e os maranhenses Murilo Santos e César Teixeira, além de pesquisadores de diferentes locais do país.

Transas da Contracultura Brasileira resulta do encontro de duas pesquisadoras ligadas na efervescência cultural dos anos 1960 e 1970, Isis Rost, gaúcha radicada em São Luís, e Patrícia Marcondes de Barros, paulistana que vive atualmente em Londrina. Elas reuniram vasto material, que alinha entrevistas e depoimentos de personagens expressivas daqueles anos – tempos de explosão criativa, transformações comportamentais profundas e também de muita repressão política – com textos de pesquisa.

Capa do livro Transas da Contracultura Brasileira


“É um passeio por nomes da literatura, do jornalismo alternativo, da música, das artes cênicas e do audiovisual, quase sempre mais próximos do lado B e da experimentação, numa linguagem direta, sem os excessos teóricos e insossos dos textos acadêmicos”, afirma o professor Flávio Reis, que responde pela coordenação editorial do projeto.

Na primeira parte, temos entrevistas e depoimentos de Luiz Carlos Maciel, Ricardo Chacal, Jards Macalé, Helena Ignez, ao lado dos maranhenses Cesar Teixeira e Murilo Santos, integrantes da primeira turma do Laborarte, e de Edmar Oliveira, participante da cena que se desenvolvia em Teresina, além de uma entrevista realizada por Joca Reiners Terron com Régis Bonvicino sobre Walter Franco.

A segunda parte reúne pesquisadores e colaboradores de diferentes cidades como Teresina, São Luís, Londrina, Rio de Janeiro e São Paulo. Os textos enfocam aspectos diversos da efervescência cultural entre os anos 1960 e 1980, da Tropicália ao movimento Punk, nas áreas de poesia, música, cinema, imprensa alternativa e teatro. Entre os poetas convidados, Celso Borges, Cesar Carvalho e Durvalino Couto Filho.

Um dos ícones da contracultura, Chacal é parte do livro “Transas da Contracultura Brasileira”


“A concepção gráfica do projeto se aproxima do universo das publicações alternativas, ponto em comum entre eu e Patrícia, que conheci em 2018. Desde o ano passado existia a urgência de um projeto que resgatasse, neste período sufocante que atravessamos, os elementos transgressores da contracultura. O livro teve seu pontapé inicial quando nos encontramos pessoalmente pela primeira vez no Rio de Janeiro, em fevereiro, já no dia da entrevista com Chacal”, afirma Isis Rost, que assina o projeto gráfico e a diagramação de Transas da Contracultura Brasileira”. 

O e-book é mais um lançamento da Editora Passagens e estará disponível para download gratuito a partir do dia 26 de julho no blog da Editora Passagens editorapassagens.blogspot.com

O livro abre com um poema de Celso Borges anunciando os ingredientes e o sabor do caldeirão da contracultura.

Olhali Olhalá
Wally alado
No colo de Jorge Salomão
Tresloucado
No caldeirão da contracultura
Meu poema também cabe?
Quem sabe
Deitando e rolando no Gramma
No Drops de Abril de Chacal
Que tal
No coração samurai de Catatau
E coisa e tal
meu poema
Olé olá
No parangolé Tropicália de Oiticica
Que delícia
Meu poema enfim
Nos paletós de Francisco Alvim
Quem sabe
Maio 68 nos muros de Berlim
Meu poema lero lero
Ainda cabe até o fim
Na boca de Cacaso eu quero
Dentro de mim um anjo da contracultura
Que nas asas de Ana C. César
Sobrevoe aquela manhã azul de Ipanema
Queda para o alto
Meu poema
Meu treponema não é pálido nem viscoso
na fumaça de um fino
meu poema
panamérica de Agripino
colírio no olho do sol
quem sabe
nas bancas de revista
Warhol na capa mijando no urinol
de Duchamp
Roda, roda e avisa
Um minuto pros comerciais
Alô, alô, Tristeresina
Vai ver Torquato
Na discoteca do Chacrinha
Vai, Drummond, ser guache
Nas aquarelas da contracultura
Quem sabe!
Quem sabe desfolho a bandeira
Na parte que me cabe
Quem sabe?
Quem sou?
Eu sei
Eu não sei
Por isso
Meu poema vai
e voa
em vão
meu poema nem Seu Sousa
vai e vem e vaia
o caldeirão
da contracultura
não
Me segura que vou dar um traço

SERVIÇO

Transas da Contracultura Brasileira

Organizado por Patrícia Marcondes de Barros e Isis Rost

Editora Passagens – São Luís, 332 páginas

Coordenação editorial – Flávio Reis

Projeto gráfico e diagramação – Isis Rost

Download gratuito a partir do dia 26 de julho no blog da
Editora Passagens: editorapassagens.blogspot.com

Imagem destacada / divulgação / Poeta Ana Cristina Cesar é uma das referências do livro