A Páscoa dos bem-te-vis de São Luís

O pássaro bem-te-vi é tão significativo em São Luís que deveria ser informalmente declarado patrimônio imaterial da sonoridade na Ilha do Amor

Meu bairro da infância e adolescência, o Apeadouro, é um laboratório para a vida inteira. Sempre que vou lá visitar a minha mãe, na rua Sousândrade, tenho lembranças. Uma delas é o hábito de botar apelido nos outros. Naquela época, o bullying ainda não tinha a visibilidade dos tempos atuais, embora já fosse uma prática muitas vezes grosseira.

No Apeadouro tinha apelido para todos os gostos. Eu era menino magrelo demais, parte da genética e também por queimar muitas calorias jogando bola na rua até escurecer. De tão franzino, ganhei apelido de bem-te-vi, carimbado por um homem grisalho, de voz grave, onde eu sempre levava sapatos para consertar. Ele próprio tinha apelido – Chapolion – e eu nunca soube seu nome de batismo.

Toda vez que eu ia entregar ou receber sapatos e sandálias na oficina de Chapolion, ele me recebia com um sorriso e a característica saudação “fala, bem-te-vi”. Nunca me incomodei com aquele codinome, talvez por isso o apelido não tenha colado.

Fato é que carreguei essa lembrança a vida toda e um carinho especial por esse pássaro, cantado em tantas músicas, narrado na literatura de Josué Montello e nome de um jornal importante na Balaiada – “O Bem-Te-Vi” – porta-voz das forças políticas urbanas que se opunham ao poderio dos comerciantes portugueses e proprietários de terras, na primeira metade do século XIX.

O pássaro bem-te-vi é tão significativo em São Luís que deveria ser informalmente declarado patrimônio imaterial da sonoridade na ilha do amor.

Nesta sexta-feira Santa de 2018, nos primeiros clarões do dia, eles já estavam quebrando o silêncio e nos convidando a refletir sobre a Paixão de Cristo e o significado da cerimônia do lava pés.

Fiquei uns minutos ouvindo o canto deles, aprendendo com os pássaros o sentido da humildade num tempo de tanta arrogância, fundamentalismo, agressões e intolerância.

O canto do bem-te-vi inspira o sentido do diálogo. É sempre responsivo, se proclama no encontro com o outro, em sintonia.

Há sempre uma doação na cantoria deles. Sábado de Aleluia e Domingo de Páscoa são dias bons para ouvir os bem-te-vis e capturar deles o sentido da solidariedade.

Imagem capturada neste site

Rádio de alto-falante e o futebol nas memórias de Itapecuru-Mirim

Publico hoje a crônica do economista Josemar Sousa Lima, que nos presenteia com um saboroso texto sobre a Voz Paroquial São Benedito, uma rádio de alto- falante que anunciava um clássico do futebol em Itapecuru-Mirim. O texto memorável passeia por vários personagens da cidade e conta um importante capítulo da comunicação popular que ainda hoje pulsa no Maranhão. Embora estejamos na era digital, persistem rádios de alto-falante e com caixas de som nos postes – as emissoras a cabo, a exemplo da Rádio Realidade, no bairro Santa Clara, em São Luís.

Veja abaixo o texto integral de Josemar Sousa Lima, publicado inicialmente pelo autor em uma rede social. As imagens foram postadas pelo autor, com créditos para o acervo do jornalista itapecuruense Benedito Buzar.

UM JOGO DE FUTEBOL

Josemar Sousa Lima

A Voz Paroquial São Benedito, que tinha seus estúdios instalados na Igreja Matriz, anunciou em uma de suas edições noturnas, com a voz impostada de seu locutor oficial, Marcelino Nogueira Filho, vulgo “Rim de Égua”, o seguinte reclame, como eram chamadas as propagandas naquele tempo:

“Atenção aficionados do futebol! Não deixem de assistir no próximo domingo, no Campo do Renner, ao grande encontro futebolístico entre a Seleção de Itapecuru Mirim e a Seleção de Ipixuna”.

Eu, sentado na calçada da residência do senhor José Januário, uma quitanda de secos e molhados, localizada da antiga Rua da Boiada, bem do lado de minha casa, ouvia a notícia com grande interesse, pois já tinha visto falar antes nesse grande confronto, onde o time itapecuruense ia tentar vingar-se de uma goleada sofrida recentemente da seleção do atual município de São Luiz Gonzaga, próximo a Bacabal, antes conhecido como Ipixuna.

Tinha eu aproximadamente doze anos e trabalhava como “caixeiro” na quitanda do citado senhor José Januário e Dona Chiquinha, durante todas as manhãs, de segunda a sábado, e já tinha até pedido um vale para pagar o ingresso, muito embora tenha sido aconselhado pelo amigo “Zé Diabo” a “varar”, ou seja, entrar sem pagar, contornando a cerca de madeira e, disfarçadamente, aproveitando o matagal ao fundo, juntar-se aos distraídos espectadores.

Era assim que fazíamos nos circos, onde era muito mais difícil e, ainda, corríamos o risco de sair puxado pelas orelhas sob os gritos de “varou”! “varou”!

Eu não quis correr o risco até porque a menina que eu queria namorar, colega de turma no Grupo Escolar Gomes de Sousa, morava ali pertinho. E se ela visse?

Nessa época existiam na cidade apenas duas praças esportivas, chamadas não de estádios, como atualmente, mas de “campos” – o Campo do Itapemirim, metade grama, metade areia; ali para o lado da Construpan, e o Campo do Renner, assim mesmo com dois “enes”, localizado no caminho grande, um pouco antes de onde é o estádio atual, palco escolhido para a grande batalha programada para o domingo que se avizinhava.

Eu nunca fui um craque, mas já nesse tempo jogava no time da Rua da Boiada que tinha como rival mortal o time da Rua da Bica. Minha posição era a menos disputada – eu era goleiro!

Na cidade existiam dois times grandes – O Náutico Esporte Clube, que ostentava um dos uniformes mais lindos que já vi, nas cores auriazul (um amarelo- ouro, com uma listra larga e horizontal azul-marinho à altura do peito); e o Renner Futebol Clube, este com camisas brancas e uma listra diagonal verde-folha que se estendia do ombro à cintura, que lembrava muito no formato o atual uniforme do Vasco da Gama.

O Náutico Esporte Clube tinha sua sede na casa de Dona Graciete Cassas, talvez porque um de seus craques, o ponta esquerda Leônidas, era seu esposo. A sede do Renner Esporte Clube eu não consigo lembrar agora. Nem sei se tinha, na verdade, sede esportiva, mesmo improvisada.

Ouvindo craques da época cheguei à conclusão que a origem no nome Náutico Esporte Clube advém do clube homônimo do futebol pernambucano que se popularizou aqui graças a grande penetração da Rádio Clube de Pernambuco, cujo sinal chegava por aqui com muita potência e qualidade e era captado à noite, quando tinha energia, pelos poucos aparelhos de rádio AM existentes na cidade.

Já o Renner Futebol Clube tem uma origem mais intelectualizada, pois a palavra tem raiz germânica e significa “Mensageiro a Cavalo” ou “Corredor”, com estreita ligação com a arte guerreira, a exemplo do Arsenal Futbool Club, esquadrão inglês. Deve ter sido encomendada a algum dos vários letrados da cidade.

Chegou, enfim, o grande dia da batalha final. Logo depois do almoço vesti minha camisa branca de farda, que tinha as letras “GS” bordadas em azul-marinho na parte superior do bolso esquerdo, e uma calça curta de mescla azul – minha melhor indumentária – e sai rumo ao campo!

Segui pela Rua da Boiada com destino ao Caminho Grande e logo à frente, depois do então Armazém Santo Expedito, maior comercio da cidade, de propriedade do saudoso senhor Raimundo Sousa, local onde hoje fica a Creche Municipal, encontrei a turma do time da Rua da Boiada, que vinha em sentido inverso, e todos seus integrantes com as mãos e os bolsos cheios de chupas de laranja destinadas a recepcionar o caminhão de carroceria aberta que trazia a delegação visitante. Sempre era assim!

Juntei-me a eles e ficamos debaixo das mangueiras, logo no início do Caminho Grande onde, posteriormente foi construída uma praça, preparados o para o ataque que não se demorou para ser iniciado.

Foi só o caminhão aparecer que o bombardeiro implacável se iniciou com uma gritaria ensurdecedora, como um ataque de índios. Seguimos o caminhão até à entrada do campo e lá nos dispersamos. Uma parte entrou pelo portão do campo, pagando sua entrada e outra direcionou-se para um caminho alternativo, rumo à então olaria do senhor Venâncio, para iniciar as estratégias de entrar desapercebida pelo matagal existente na parte posterior campo.

Os expectadores se aglomeravam na parte frontal da praça esportiva, num espaço entre as cercas dos quintais das residências localizadas em frente ao campo e a beira do gramado. Ali existiam algumas amendoeiras que aliviavam do sol escaldante daquele domingo de agosto.

Os jogadores iam chegado isoladamente, sendo que a maioria vinha de bicicleta, alguns já devidamente equipados e outros que se vestiam ali mesmo à beira do gramado. O time adversário já estava devidamente preparado e, por segurança, se postou na parte oposta do campo, logicamente longe da torcida adversária.

O jogo estava prestes a começar e técnico da seleção de Itapecuru Mirim, Seu Emetério Silva, o barbeiro mais conceituado da cidade e pai de dois dos atletas da seleção – Leônidas e Manin, dava as últimas instruções táticas a seus pupilos.

Enquanto isso eu assistia a um desafio feito pelo Gavetão, irmão do Dico Pé de Gia, também jogador da seleção, que apostara com um amigo seu que conseguiria comer cinquenta pasteis de carne sem beber água. Ele já estava no trigésimo e de seus olhos brotavam lágrimas arrependidas, mas ele enfiando mais um pastel na boca, fazia gestos que ia conseguir chegar lá.

Ouvi dois silvos longos do apito do árbitro da partida e corri para posicionar-me melhor pois a partida ia começar.

Lembro de alguns jogadores da seleção de Itapecuru Mirim que, nessa ocasião usava o uniforme amarelo e azul do time do Náutico Esporte Clube.

O goleiro era “Lourival”, irmão do professor João da Cruz Silveira, que morava no Rio de Janeiro e passava férias na sua cidade natal. Fez defesas memoráveis nesse jogo, inclusive defendendo uma bola quase indefensável chutada por um jogador adversário que tinha o sugestivo apelido de “canhão”.

Na defesa lembro do famoso beque central “Belisca”, um zagueiro respeitado em toda região, que mesmo com a sua baixa estatura era uma barreira quase intransponível para os atacantes contrários. “Manin”, pai do nosso amigo José Augusto Silva, atuava na lateral esquerda. Era dotado de uma técnica apurada e realizava quase sempre preciosas assistências para seu irmão Leônidas, pela esquerda. Completava a defesa, o lateral esquerdo “Nogueira”, que não tinha lá muitos dotes técnicos, mas funcionava como um verdadeiro espanador na proteção de sua área e compensava a baixa estatura do seu companheiro Belisca.

No meio campo, um outro irmão do professor João da Cruz da Silveira, o “Zé Baiano”, um homenzarrão de quase dois metros, que não levava desaforo pra casa e quando errava a bola tirava o jogador adversário de campo. Nesse jogo dois saíram nessas condições e tiveram que ser substituídos. Do seu lado direito um jogador magérrimo e muito alto, exímio cabeceador, conhecido como “Seu Vá” e, do lado esquerdo, atuava um jogador de pernas tortas apelidado de “Pé de Gia”, completando o meio de campo.

No ataque da seleção itapecuruense, lembro bem do “Leônidas”, ponta esquerda, que, com as devidas vênias, lembrava muito o Zagalo da seleção brasileira e, pela ponta esquerda atuava “Zé Araújo”, irmão do Belisca, famoso por seus potentes petardos que, em determinado jogo chutou uma bola tão forte que quebrou o travessão de madeira lavrada de uma das traves do campo, resvalou rumo à bandeirinha de corner e, literalmente, dobrou ao meio uma bandeja de flandres que um garoto usava para vender cocada.

Essa proeza é lembrada até hoje pelos desportistas daquela época e/ou seus descendentes. Ressalte-se que naquele tempo ainda não se usavam as “redes de malha” para reter as bolas que ultrapassam a linha fatal. No meio dos dois, como pivô, estava craque do time, um jogador fantástico chamado “Batatinha”, irmão do atual prefeito de Itapecuru Mirim, Miguel Lauande. Batatinha chegou inclusive a ser contratado pelo Maranhão Atlético Clube de São Luís, jogou algumas partidas, mas a saudade de sua terra natal e das peladas sem rigores técnicos não o deixaram seguir carreira.

Batatinha, nesse jogo, fez miséria; com seus dribles desconcertantes à lá Mané Garrincha. Entortava os defensores adversários de forma humilhante. Fez, inclusive, o único gol da partida, cobrando um pênalti que gerou reclamações e uma briga generalizada, onde até sobrou para o árbitro da partida, um senhor que morava na Trizidela e não tirava sua faca peixeira nem na hora de apitar as partidas. Era conhecido por não deixar os times de fora de Itapecuru Mirim sair com vitórias

Esse foi o jogo de minha vida, elevando-me da categoria de um jogador medíocre (mediano) para um patamar superior de eterno apaixonado pelo esporte bretão, como diriam os narradores e comentaristas esportivos de antigamente.

Passei, então, a acompanhar todos os jogos dos times de Itapecuru Mirim, mesmo quando jogavam fora da cidade e éramos chamados pelas torcidas adversárias de “Comedores de Vinagreira”, uma alusão à opulenta produção de verdura nas vazantes das margens do Rio Itapecuru, até quando tive a oportunidade de ver um jogo do Santos Futebol Clube, realizado no Estádio Nhozinho Santos, em São Luís, em uma noite mágica do dia 05 de novembro de 1967, com a participação do “Rei Pelé” & Companhia e cheguei ao céu do futebol.

Muitos desses artistas da bola, integrantes daquela seleção mágica, já não estão entre nós e eu os saúdo, vivos e mortos, em nome do craque Júlio Araújo, o Belisca, que continua firme e forte entre nós e horando a memória de todos os futebolistas itapecuruenses.

JOSEMAR SOUSA LIMA é economista, com especialização em Planejamento do Desenvolvimento Rural Sustentável e membro da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes – AICLA

Poeta de Barra do Corda lança novo livro em São Luís

Kissyan Castro lança O Estreito do Éden, seu quinto trabalho de poesia, dia 27 de março no projeto Vozes Vinhos e Vinis, livraria Poeme-se

O Estreito de Éden (editora Penalux, 85 páginas) tem 50 poemas divididos em três partes: O Estreito de Éden, que dá título ao livro, Deambulário e Melopeia dos Ossos. É o quinto livro de poesia de Kissyan Castro, que além de escritor é técnico em enfermagem. Lançamento acontece no projeto Vozes, Vinhos e Vinis, que a livraria Poeme-se realiza mensalmente na Praia Grande desde meados de 2017.

Segundo o escritor, o novo trabalho é um desdobramento do livro anterior, Bodas de Pedra, que ele considera sua estréia de fato. “O livro traz alguns poemas em que predominam as indagações metafísicas sobre a efemeridade da vida, o estar no mundo, a ânsia de durar, que são temas que me perturbam desde a infância, além de alguma iconoclastia do legado das religiões. O mais é a tentativa de construir um objeto, uma coisa, ‘um artefato’, como diria Ferreira Gullar, que fique, antes que o punho trema, a palavra caduque e o presente não seja mais que um batuque”.

Atualmente, Kissyan Castro (foto) está trabalhando numa biografia de Maranhão Sobrinho, “O Poeta Maldito de Atenas”, como ele mesmo se autointitulava. O projeto nasceu de uma pedido do escritor Jomar Moraes, ele mesmo autor de uma biografia sobre o poeta simbolista.  Sobrinho é um dos escritores preferidos de Kissyan Castro, que tem ainda no seu cânone literário, Ferreira Gullar, Nauro Machado, Drummond, Pessoa, Murilo Mendes, Rilke, Sofia de Mello Breyner Andresen, João Cabral, Orides Fontela, Hilda Hilst, Kaváfis, Rimbaud, além dos prosadores Graciliano Ramos, Machado de Assis, Hermann Hesse, Dostoiévski e Tólstoi, entre muitos outros.

Perfil

Poeta e pesquisador maranhense (Barra do Corda/MA, 1979). Autor dos livros Vau do Jaboque (2005), Bodas de Pedra (2013), Maranhão Sobrinho – Poesia Esparsa (2015) e Rio Conjugal (2016). Tem poemas publicados em vários sites e revistas, entre as quais Germina e Portal de Poesia Ibero-Americana, de Antonio Miranda. Atualmente colabora no site www.barradocorda.com. Formado em Teologia, servidor público, membro efetivo da Academia Barra-Cordense de Letras e, nas horas vagas, professor de grego clássico.

O ESTREITO DO ÉDEN

Livro de poesia de Kissyan Castro

Lançamento dia 27 de março, às 19h

Projeto Vozes, Vinhos e Vinis

Livraria Poeme-se – Praia Grande, Centro

Preço do livro: R$ 35,00

Três poemas do novo livro

Inventário

Não tive ouro ou gado que me valha
neste pasto-imposto
cobrado à sanha de metralha.

(em vez de dólar, dolo,
o duplo das vezes, fezes)

Não tive ouro ou gado que me valha
neste pasto feito excremento.

O silêncio atroz que me navalha

é tudo o que hoje ostento.

Ala obstétrica

Sem centro ou cohab onde habite,
vivo a guitarrear teu sexo
como um pássaro hemorrágico.

Palavra de um só cadáver
para a selfie que é de dois
no céu inverso do umbigo.

Eternidade – este biombo
da garganta até o Hades
do vocábulo por dentro.

Eternidade – esta maca
no vazio a ser dos ossos
um deus nascendo da cloaca.

Poda à maneira de Herodias

Perfilado a pregos no esquecimento,

o instante supremo do último ato.

A terra já não nos pertence. Ó Vida –

inacabada contagem de estrelas –,

ninguém que me apanhe a espada caída

ou sequer diminua o passo esquivo.

Removido o traje, a cabeça dos ombros,

o olho o tronco as tripas o umbigo extinto,

restará de mim o apetite assíduo

entregue ao Nada numa bandeja.

Livro conta as origens do bairro Anjo da Guarda, nome presente na obra “O mulato”, de Aluísio Azevedo

O jornalista e escritor Herbert de Jesus Santos vai fazer o relançamento da obra “Um Terço de Memória, Entre Anjo da Guarda e Capela de Onça, e os Heróis do Boi de Ouro (A História de Fato e de Direito do Bairro Anjo da Guarda)”, dia 28 (quarta-feira), 18 horas, no teatro Itapicuraíba.

Prestes a completar 49 anos de existência, o bairro do Anjo da Guarda é conhecido notoriamente pelo espetáculo ao ar livre da Via Sacra. Hoje com mais de 300 mil habitantes, e apesar dos percalços de infraestrutura e mobilidade urbana, o bairro é palco de grandes manifestações culturais e religiosas. Mas você sabe como o Anjo da Guarda surgiu? A história envolve, infelizmente, perdas. Mas também muita irmandade.

Casas do início da ocupação do Anjo da Guarda

Origem 

Tudo começou depois de uma grande tragédia. No dia 14 de outubro de 1968, o bairro do Goiabal foi vítima de um incêndio até hoje não elucidado. Uns acreditam que foi provocado por fogos de artificio, outros por uma lamparina – tem até quem diga que foi por causa de um simples pescador que assava peixe na beira do rio. Mas, o que se sabe de fatos concretos e não de suposições, é que houve um grande incêndio no Goiabal, com uma mistura de casas em chamas, corpos queimados, lama de mangue e o desespero das pessoas, tornando o quadro ainda mais dramático. Ao todo, 78 casas ficaram completamente destruídas, deixando cerca de 100 famílias desabrigadas, conforme dados da Comissão Estadual de Transferência de População (Cetrap).

 

Solidariedade

Foi então que se instalou um sentimento de solidariedade e comoção não apenas pelos povoados próximos, mas também por parte do poder público, da igreja, da Companhia de Água e Esgoto do Maranhão (Caema) e até da antiga Telecomunicações do Maranhão (Telma). Os desabrigados foram remanejados para a localidade conhecida por Itapicuraíba, onde receberam roupas, alimento e cobertores. Com o passar do tempo, a localidade, que havia sido rebatizada de Vila Anjo da Guarda, passou a ser conhecida por bairro Anjo da Guarda, devido a seu crescimento repentino.

O escritor Aluísio Azevedo, na obra “O mulato”, que dá início ao Naturalismo na Literatura brasileira, descreve um sítio homônimo denominado “Anjo da Guarda”:

“Fazia preguiça estar ali. A viração do Bacanga refrescava o ar da varanda e dava ao ambiente um tom morno e aprazível. Havia a quietação dos dias inúteis, uma vontade lassa de fechar os olhos e esticar as pernas. Lá defronte, nas margens opostas do rio, a silenciosa vegetação do Anjo da Guarda estava a provocar boas sestas sobre o capim, debaixo das mangueiras; as árvores pareciam abrir de longe os braços, chamando a gente para a calma tepidez das suas sombras.”

SERVIÇO

Texto de Herbert de Jesus Santos, com adaptações do blog.

Imagens enviadas por Herbert de Jesus Santos.

Umanidade

Eloy Melonio

“E o mundo será como se fosse um” (John Lennon, na canção Imagine)

Fechei os olhos por alguns segundos para ter a certeza de que não estava sonhando. E inspirei-me na cena que prendeu o meu olhar de forma inescapável. Foi durante a festinha de formatura dos alunos do ABC (Alfabetização) da escola de minha neta, em dezembro do ano passado.

Refiro-me mais precisamente ao momento quando as crianças, entre 7 e 8 anos, estavam no palco, à vista dos pais, parentes e amigos, trajando a mesma roupa: beca e chapéu vermelhos. Os meninos de calça branca e as meninas com meias-calças brancas. Pareciam irmãos da mesma idade, com pequena diferença na altura, uns mais gordinhos que outros, e detalhes como cabelo, óculos.

O momento áureo, ao menos para mim, foi quando elas puseram uma máscara com a cara de um leão (o tema da festa era O Rei Leão). Aí sim, ficaram ainda mais parecidas umas com as outras. Tanto que, se pedissem a uma das mães para encontrar seu filho, ela teria certa dificuldade em identificá-lo.

Veio-me então o insight. Dei por mim devaneando: por que também não somos assim? Por que não somos iguais, unidos, como se fôssemos crianças? Quando digo “iguais” não quero dizer “fisicamente iguais”, mas iguais naquilo que é coletivo, relativo ao companheirismo, aos direitos e deveres, aos valores éticos e morais, às atitudes.

É um sonhador? Isso não faz o menor sentido?

Já posso até ouvir as objeções dos patrulheiros do politicamente correto e o grito dos reacionários de plantão. Aí, lembro-me de John Lennon: “Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas não sou o único” (Imagine). E do meu lado tenho alguns amigos da mais conceituada estirpe: Jesus, Luther King, Ghandi, Nelson Mandela, John Lennon.

E tudo isso coincidindo com as festas natalinas. Tempo de se ouvir Imagine, And so this is Christmas (ou a versão em português, interpretada por Simone). Tempo em que ficamos mais generosos, mais “chegados que irmãos”. E, no meu caso, coincidentemente, quando estava compondo uma música que fala sobre o sonho de sermos “uma só humanidade”.

Voltando à cena da festinha, tenho certeza de que, naquele momento (e quem sabe, em todos os outros), aquelas crianças viam-se apenas como amiguinhas, com uma só mente e um só coração. Ali não havia crianças negras, brancas, brasileiras, angolanas, gordinhas, católicas, umbandistas, feias, bonitas… havia crianças.

Infelizmente o mesmo não se pode dizer dos que estavam no auditório.

Aqui chamo a sua atenção para este “nosso tempo” em que, em vez de buscarmos união, igualdade, tendemos a nos isolar, formar grupos, segregar uns dos outros. Entendo (e defendo) a luta pelos direitos das minorias, dos injustiçados e marginalizados. Mas o que defendo, num nível bem mais humano e solidário, é que sejamos todos, em primeiro lugar, gente. E que a expressão “gente como a gente” seja mais real, mais significativa.

A nossa sociedade tende para um sistema em que cada vez mais as pessoas estão puxando “a brasa para a sua sardinha”. E cada vez mais novos grupos vão surgindo: o grupo dos que não gostam de música sertaneja (que odeiam os que gostam), o grupo dos que usam cabelos longos (que odeiam os que têm cabelos curtos) e assim por diante. Recentemente um deputado apresentou um projeto de lei para criar “a semana de valorização do heterossexual” (Veja [Conversa], 6-12-2017). Será que ele não sabe que a valorização está no respeito, e não numa data meramente representativa?

Como disse, é preciso garantir os direitos básicos a todos indistintamente: ao pobre, ao deficiente físico, aos homossexuais. Infelizmente, nosso pensamento e nossas atitudes precisam mudar em muitos aspectos.

O passo mais decisivo ― e paradoxalmente o mais difícil ― para atingirmos este patamar é a consciência individual. E como diz o anúncio de uma campanha de combate à intolerância e preconceito de uma rede de TV: “Tudo começo pelo respeito”. Posso não entender, não gostar, ou até mesmo não aceitar por que o “outro” faz ou age de forma diferente. Só não posso desrespeitá-lo por isso.

Em nossas resoluções de início de ano, podíamos todos pedir (“prometer”, seria bem melhor), em uníssono, que a sociedade se torne mais humana, mais respeitosa, mais tolerante e mais generosa. Quem sabe até criar um neologismo: umanidade, uma sociedade em que todos são um.

É tempo de ver e respeitar o outro como queremos ser vistos e respeitados. E assim finalizo com três citações relevantes:

“Todo mundo tem seu valor, suas riquezas e também suas fraquezas. A paz se constrói no corpo das diferenças, porque a unidade sempre implicará a diversidade.” (Papa Francisco [Citações na Veja, 6-12, 2017]).

“Fiquei pensando em como o avião é elemento aglutinador, capaz de igualar os seres, transformando-os num bloco unitário” (Maria Julieta Drummond de Andrade, Um Buquê de Alcachofras, p. 14).

“Enquanto não for bom para todos, não será bom para ninguém” – Mylene Pereira Ramos, juíza do trabalho (Veja [Página Aberta – 24-1-2018])

  • Eloy Melonio é professor, escritor, poeta e compositor