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#tbt do artigo “Sem o Colunão, JP desequilibra”

Esse artigo foi publicado em 2005, quando o Colunão, editado por Walter Rodrigues (WR) e encartado aos domingos no Jornal Pequeno (JP), deixou de ser veiculado no diário criado por Ribamar Bogéa.

O episódio passou ao largo do noticiário e da crônica política local. Fui um dos poucos jornalistas a comentá-lo publicamente no artigo (reproduzido abaixo), em solidariedade a Walter Rodrigues. Após deixar o JP, o Colunão partiu para vôo solo. Tive o privilégio de trabalhar nessa fase com o saudoso WR, que nos deixou em 18 de maio de 2010.

O acervo jornalístico de Walter Rodrigues está sendo digitalizado e disponibilizado ao público através de um projeto de pesquisa coordenado pelo professor da UFMA José Ferreira Junior (acesse aqui o repositório e reveja as publicações e depoimentos sobre WR)

Sem o Colunão, JP desequilibra
Ed Wilson Araújo *

As leituras dominicais seguem temporariamente sem o Colunão, uma das últimas reservas de debate e exercício do contraditório no jornalismo maranhense. O semanário editado pelo jornalista Walter Rodrigues, encartado no Jornal Pequeno, deixa de circular no matutino dos Bogéa por uma decisão unilateral do comando do JP.

Em 25 anos de jornalismo no Maranhão Walter Rodrigues acumulou méritos e também desafetos, fruto do trabalho de investigação que denunciou delegados torturadores, esquemas de corrupção, crime organizado, nepotismo no Judiciário e um rol de irregularidades no sarneísmo ou nos diversos espectros da oposição. Recentemente, enfrentou quase solitário uma posição contrária aos interesses da Companhia Vale do Rio Doce na instalação do pólo siderúrgico na ilha de São Luís e, por fim, criticou o projeto expansionista da Alumar em frontal desrespeito aos direitos trabalhistas.

As divergências editoriais entre o Colunão e o JP já vinham ocorrendo. Aos poucos, as manchetes do semanário e até o selo saíram da capa do diário. Mas o maior motivo, segundo Rodrigues, foi a pressão do gerente extraordinário do Médio Mearim, José Vieira, ex-prefeito de Bacabal. Vieira é aliado do diretor-geral do Jornal Pequeno, Lourival Bogéa, na eclética “cruzada” oposicionista que se forma para derrotar o sarneísmo.

Aos 54 anos, o glorioso Jornal Pequeno aproxima-se da maturidade abrindo atalhos no caminho traçado pelo seu fundador, Ribamar Bogéa. Focado no anti-sarneísmo, o jornal aderiu à Frente de Libertação do Maranhão virando pregoeiro do governador José Reinaldo, que vinha combatendo desde a eleição de 2002, acusando-o de abuso de poder econômico na campanha.

Não há como negar que em toda a sua construção simbólica o JP encampou boas causas. Cobriu com objetividade crítica vários episódios da política maranhense, acolheu os opositores da implantação da Alumar na década de 1980, denunciou os desvios de verbas públicas e projetos fantasmas da oligarquia, teve papel destacado na cobertura da CPI do Crime Organizado e em muitas ocasiões foi o único a abrir espaço e repercutir os temas sugeridos pelos movimentos sociais. Em síntese, o diário dos Bogéa tem um papel importantíssimo na resistência ao coronelismo midiático no Maranhão.

Mas a compulsão pela derrota da oligarquia a qualquer custo leva o JP a cometer equívocos, como o desencarte do Colunão. No percurso informativo das manhãs de domingo o semanário de Walter Rodrigues tornou-se leitura obrigatória para balizar opiniões, informações e interpretações veiculadas pelos diários. O Colunão veio a ser a espinha dorsal encartada no JP, dando sobriedade à apaixonada tendência pedetista-reinaldista do jornal. A investigação perspicaz, o texto refinado e o humor sutil de Walter Rodrigues passaram a compor um ponto de referência, um porto seguro no vendaval de manchetes muitas vezes maniqueístas e fantasiosas, filtrando interesses de grupos políticos que se apropriam dos meios de comunicação.

O desencarte do Colunão deixa muitos leitores “órfãos” do jornalismo independente. E deste episódio tiram-se muitas reflexões. Uma delas sobre a forma como atuam jornais e jornalistas reféns de linhas editoriais guiadas por interesses privados. No Maranhão não há empresários no ramo da mídia. Existem políticos que controlam as empresas e tentam submeter os profissionais de comunicação aos interesses dos proprietários dos jornais, rádios e TVs. Mas nem todos aceitam a submissão ou passam a ser coniventes com os interesses dos financiadores. Aqui e acolá, jornalistas experientes e novatos resistem às imposições dos donos dos meios de comunicação.

Breve retorno ao combatente Walter Rodrigues e vida longa ao JP, torcendo para que o diário dos Bogéa não se apequene na luta para derrotar o sarneísmo.

* Ed Wilson Araújo é jornalista

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Jargão ‘comunossocialismo’ é confuso e impreciso

“Nem um, nem outro!” Assim reagiu uma atenta observadora da cena política do Maranhão ao ler uma das manchetes compartilhadas com freqüência por vários blogs locais: “Deputados comunossocialistas tentam cassar prefeito aliado de Brandão em Colinas”.

A notícia tratava de um suposto racha entre os grupos liderados pelo ministro do SFT e ex-governador Flavio Dino (PCdoB) e o governador Carlos Brandão (PSB).

Para a mencionada observadora, pedagoga e doutoranda, “comunossocialistas” não expressa com o devido cuidado conceitual o legado teórico e prático dos socialistas e comunistas.

A pergunta é: como o Maranhão pode ter um campo político assim designado se a estrutura oligárquica permanece firme e forte, renovada com o velho filhotismo eleitoral?

Outra pergunta: é possível falar em utopias revolucionárias em um dos estados mais pobres do Brasil, vivendo na idade política da pedra lascada, “governado” pelo multideputado Josimar de Maranhãozinho, ministros do naipe de Juscelino Filho e André Fufuca, e vereador do tipo de Paulo Vitor?

É preciso sublinhar ainda que o jargão comumente utilizado por alguns jornalistas e blogueiros não expressa o alinhamento dos grupos partidários mutantes a cada eleição. Eles são de tal modo heterogêneos, contraditórios, líquidos e passíveis de constantes agregações, diásporas e ressignificações que se torna impossível separar o joio do trigo.

Tudo no Maranhão se mistura e separa de acordo com os interesses econômicos e eleitorais que têm uma referência superior, acima de tudo e todos(as), chamado Palácio dos Leões.

No geral, os jornalistas, ao noticiarem o cotidiano, acumulam registros que futuramente serão fonte de consulta dos historiadores, pesquisadores e curiosos.

Fica aqui a sugestão aos jornalistas e blogueiros para refletirem sobre as manchetes e o noticiário que evidenciam um suposto “comunossocialismo” tupiniquim.

Para evitar confusões e imprecisões na História, seria mais apropriado trocar “comunossocialismo” por “dinismo”, fazendo jus ao legado e ao poder do atual ministro do Supremo Tribunal Federal (SFT), Flavio Dino, que segue mais forte, na fila de pré-candidato a presidente do Brasil.

Guardadas as devidas proporções, características e diferenciações, é bem mais pertinente utilizar os jargões alinhados aos seus respectivos significados práticos e históricos, condizentes aos fatos.

Em ordem cronológica, o Maranhão já teve o vitorinismo, em referência ao mandonismo do ex-interventor Vitorino Freire; e o sarneísmo, relativo à longa temporada do oligarca José Sarney.

A era atual é o dinismo e não “comunossocialismo” .

Sem citar Michel Foucault, a astuta pedagoga diz que “comunossocialismo” é uma caótica mistura das palavras com as coisas e as criaturas e, no final, não é uma coisa nem outra.

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PT deve enquadrar Gastão Vieira

Se o partido de Lula quiser, e puder, deve aplicar dois corretivos no deputado federal Gastão Vieira: uma nota de repúdio do Coletivo de Mulheres do PT e o alinhamento de voto na Câmara Federal à bancada progressista, sob pena de expulsão do petismo

Ex-PMDB e Pros, filiado de última hora no PT, Gastão Vieira é um político enraizado na origem das espécies do sarneísmo e foi agregado ao dinismo, quando as duas águas se misturaram.

Mas, o problema não é de onde ele veio, já que quase todos os gatos são pardos no jogo partidário e nos campos de poder.

O foco da crítica é o que ele faz e como vota.

Recentemente, o deputado agrediu verbalmente nas redes sociais a petista e professora universitária Mary Ferreira, só porque ela o criticara pelas sucessivas posições favoráveis à agenda ultraliberal do governo Jair Bolsonaro (PL).

No Encontro de Tática Eleitoral do PT do Maranhão, realizado dias 4 e 5 de junho, o confronto veio novamente à tona e a professora expôs publicamente as contradições do deputado, gerando um tumulto no palco.

O parlamentar vota alinhado à bancada de direita e ultradireita do Maranhão, embora seja base do ex-governador Flávio Dino.

Leia mais e entenda o contexto.

Gastão Vieira foi derrotado para o Senado em 2014 (ainda no campo liderado por José Sarney) e candidatou-se a deputado federal (Pros) em 2018, já convertido ao comunismo maranhense. Ficou na segunda suplência, mas foi efetivado na Câmara Federal graças a um acordo que retirou Rubens Junior (PCdoB) de Brasília para ser candidato a prefeito de São Luís e transformou o primeiro suplente Simplício Araújo (Solidariedade) em titular da Secretaria de Indústria e Comércio.

Bem antes, em 2011, pelas mãos de José Sarney, em aliança com Lula, Gastão Vieira foi ministro do Turismo no governo Dilma Roussef e chefe do então presidente da Embratur, Flavio Dino.

Quando agrediu verbalmente Mary Ferreira, o deputado extravasou a sua superioridade curricular: amigo de Lula, ministro de Dilma e avalizado pela Direção Nacional do PT para ingressar no petismo maranhense pela porta da frente, com direito a agredir uma militante histórica e entrar na lista de pré-candidatos do PT na federação com o PV.

Pelo conjunto da “obra”, cabem duas advertências: uma nota de repúdio do Coletivo de Mulheres do PT e o enquadramento da Direção Nacional. Se continuar votando na pauta bolsonarista, vai ser expulso do partido!