Comunicação popular e pandemia

Claudia Santiago
Jornalista e Coordenadora do Núcleo Piratininga de Comunicação

A pandemia desencadeada pelo novo coronavírus no ano de 2019 nos fez pensar em muitas coisas. Coisas que já sabíamos, como é o caso da tremenda desigualdade social no nosso país. Para quem vive em becos nas favelas não dá para não aglomerar. Não há distância de dois metros entre as janelas sempre abertas das casas. O espirro forte atravessa a viela enquanto se assiste à TV.

Mas tudo isso foi relevado por duas palavras mágicas:

. Auxílio emergencial. Segurou a onda dos 14 milhões de desempregados e dos que, mesmo fazendo bico, precisaram do auxílio do Estado para se manterem minimamente

. SUS (Sistema Único de Saúde). Um sistema sem preconceito. Atende gente de qualquer país, de qualquer idade, cor, sexo. O SUS é mulher. O SUS é mãe.

Uso esses dois exemplos para dizer que não dá mais para negar a importância do Estado, como fazem todos os dias os meios de comunicação. Apenas o Estado é capaz de enfrentar uma pandemia, porque que isto custa caro. E quando se fala em custo, patrão não gosta.

A nossa comunicação

Só temos uma maneira de conversar com os trabalhadores e trabalhadoras sobre pandemia, pobreza, papel do Estado, lucros altíssimos dos mais ricos. Unirmos a ligação honesta, amorosa, solidária com o povo à comunicação popular. Feita de baixo para cima, ouvindo os reclames dos despossuídos, com a participação de crianças, jovens e adultos.

É ela, através da rádio ou o podcast, do celular, do jornal de papel, das redes sociais que vão nos formar e nos informar dos assuntos que interessam à nossa classe. Ela é muito importante para a organização das pessoas em luta por seus direitos. Sem comunicação não há organização popular. E sem organização, também não há comunicação popular. Elas precisam andar juntas.

Para encarar esses desafios, temos que usar todos os meios. Nosso povo gosta de telefone celular, vídeo, de música, de novela. Se é assim, assim façamos. Sem nos esquecermos do jornal impresso que, por mais que alguns o olhem com desdém, é feito em favelas cariocas por ser considerado a melhor forma de estar em contato direto e físico com os moradores, muitos com fraco acesso à internet e dados móveis.

A organização da nossa classe no século XXI passa pelo local de moradia. 50% da PEA (População Economicamente Ativa) não está representada por um sindicato formal de trabalhadores. A atuação dos sindicatos nas periferias é urgente e necessária. Vamos investir na comunicação popular assim como o Brasil de Fato vem fazendo no Paraná?

Texto publicado na edição comemorativa do número 200 do Brasil de Fato-Paraná, em 25 de fevereiro de 2020.