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É Lisboa que parece com São Luís?

Agenda Maranhão – Esta escadaria, com azulejos na parede, integra o ambiente interno de um casarão localizado na Travessa Marcelino Almeida (Rua da Alfândega), 180-A, na Praia Grande, em São Luís, capital do Maranhão.

A fotografia, de janeiro de 2025, de autoria de José Reinaldo Martins, mostra azulejaria antiga sendo usada em um ambiente interno.

Povos árabes, os portugueses, entre outros, aplicavam azulejos somente em ambientes internos, como os silhares – que eram recobrimentos de meia parede em locais do imóvel onde havia maior circulação de pessoas ou possibilidade de sujar com mais facilidade. Espaços como paredes das escadarias, cozinhas e pátios.

Paulo César Alves de Carvalho (imagem abaixo), professor do curso de Artes da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em seus trabalhos acadêmicos, levanta a suspeita de ter sido no Brasil Colonial que os chamados azulejos de tapete ou padrão começaram a ser usados no revestimento de fachadas dos imóveis, com possibilidade de ter começado em São Luís ou em Salvador.

Isso para manter as paredes conservadas por mais tempo, resguardando os imóveis da ação das chuvas e para amenizar o calor.

Com o terremoto que atingiu Lisboa, na segunda metade do século XVIII, o Marquês de Pombal (1699-1782) proíbe a produção de painéis figurativos e incentiva a produção de azulejos do tipo tapete e padrão.

Em Portugal, o revestimento de fachadas com azulejos só teve início na segunda metade do século XIX, bem depois dos casarões azulejados de São Luís terem começado a serem erguidos.

A hipótese de Paulo César é de que a aplicação de azulejos de tapete e padrão no revestimento de fachadas de imóveis seja uma invenção que surgiu no Brasil Colonial e, mais tarde, passou a ser usado também em Portugal.

A ideia revisa olhares como a propalada semelhança de São Luís com Lisboa, proposta costumeiramente por turistas e suas imagens fotográficas, abrindo à possibilidade de Lisboa ter traços parecidos com os de São Luís.

É evidente que há semelhanças entre trechos de São Luís e Lisboa por causa, entre outros elementos, dos casarões azulejados. Mas a proposição colocada por Paulo César cogita quem inspirou quem.

Metrópole e as colônias

É certo que Portugal, a partir em sua ode por mares e terras da América do Sul, África, Ásia e Oceania – uma das mais ousadas empreendida pelo homem em todos os tempos – determinou estruturas sociais e econômicas em suas colônias. Mas, as colônias portuguesas, também, influenciaram a metrópole.

Trajetória dos azulejos

A trajetória dos azulejos, desde a sua origem entre povos árabes até a sua fixação nas fachadas dos prédios coloniais de São Luís pelas mãos dos afrodescendentes, abre um leque de controvérsias e inserções.

Historiadores, artistas, geógrafos, jornalistas, arquitetos, entre outros, estão colocando outras argamassas nesta história.

Foi um longo caminho, com “fraturas históricas” que, se desvendadas, podem revelar possibilidades diversas, não só em termos de novas utilidades, mas de como esses artefatos interviram nas relações sociais dos maranhenses desde o século XVIII.

Origem dos azulejos

Muitas tipologias de padrões de azulejos que chegaram a São Luís, majoritariamente, eram fabricadas em Portugal, mas um número menor veio, também, de outros países europeus, como Inglaterra e Holanda.

A força de povos escravizados

No Maranhão, a fixação dos azulejos nas fachadas e ambientes internos ganharam cheiro do suor da força escravizada que ergueu os casarões.

Do mundo árabe a São Luís

O azulejo é uma invenção árabe que chegou a Portugal com a invasão da Península Ibérica, a partir de 711, quando tropas islâmicas do Norte de África ocuparam parte da Europa.

As primeiras importações para o Maranhão vieram de Portugal em 1778. Foi o tempo do Ciclo do Algodão, iniciado no Maranhão em meados do século XVIII, a partir da criação da Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão, em 1755, pelo Marquês de Pombal.

São Luís que, do século XVII até a primeira metade do XVIII, era apenas um pequeno núcleo urbano perdido nas encostas da entrada da Amazônia, passou a vivenciar grandes transformações com o comércio agroexportador, que teve no algodão seu principal produto.

Investigação do historiador Caio Prado Júnior (1907/1990) aponta que, no início do século XIX, existiam somente quatro núcleos urbanos no Brasil: Rio de Janeiro, Salvador, Recife e São Luís. Neste período, intensificou-se a chegada de povos africanos ao Maranhão, que já era morada de grupos de cristãos novos fugidos da Inquisição.

Azulejos em ambiente internos

Existiam várias formas de uso dos azulejos em ambientes internos. Em São Luís, os de tapete ou padrão foram usados nas fachadas externas e em alguns ambientes internos, como o recobrimento conhecido como silhares, que é uma meia parede revestida de azulejos.

Há exemplos dentro da Catedral da Sé e um, recentemente restaurado, na Igreja de Nossa do Rosário dos Pretos (Igreja de São Benedito), na Rua dos Egito. Há exemplos, também, na Igreja de Santana e na do Carmo, na cidade histórica de Alcântara (estado do Maranhão – Brasil).

Painéis figurativos

Outra forma da presença de azulejos internos em São Luís é a dos painéis figurativos.

São Luís abrigou, tardiamente, painéis figurativos como os hagiográficos, que são composições com cenas religiosas.

Um dos mais belos conjuntos com as estações da “Via Crucis” ficava na Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Mulatos, que foi demolida. Ficava onde está, hoje, o Edifício Caiçara, com lateral para a Rua Grande e de frente para uma pequena praça que ficava, mais ou menos, na esquina da Rua Grande com a Rua Cândido Ribeiro (Rua das Crioulas).

Com a demolição dessa igreja, um dos painéis que retrata a cena da descida da cruz, onde o Cristo morto é amparado no colo de sua mãe dolorosa. Esse painel foi reinstalado na sacristia da Igreja de Santana, onde se mantém até hoje.

No Palacete Gentil Braga (Rua Grande, esquina com a Rua do Passeio) existia um painel figurativo em forma de silhar ao estilo neoclássico (ou dona Maria I) com cenas conhecidas como chinesismo, mas que foi retirado e praticamente todo transportado para o Museu Chácara do Céu, no Rio de Janeiro. Uma parte desse painel está no acervo do Museu de Artes Visual do Maranhão.

Figuras de convite

Outra forma estrutural de aplicação interna, ou em pátios e jardins, são os conjuntos de azulejos chamados “figuras-de-convite’, que apresentam imagens, à escala natural, de figuras humanas, como as de soldados e de ‘damas de corte’.

Eram colocados nas entradas das casas e nas escadarias. Representavam um convite para os visitantes entrarem no imóvel. Tem alguns exemplos em exposição no Museu de Artes Visuais (Rua Portugal, na Praia Grande).

Alguns pesquisadores afirmam que vários painéis figurativos de São Luís foram perdidos e roubados por ‘colecionadores’ ou para servirem de decorações em residências mais modernas.

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Em Icatu, TV franco-alemã vai produzir reportagem sobre a Batalha de Guaxenduba

A celebração dos 405 anos da Batalha de Guaxenduba, travada no Maranhão em 1614, terá evento acadêmico e cobertura jornalística estrangeira. Uma equipe de TV franco-alemã está produzindo um filme sobre a presença francesa em São Luís e vai abordar também o confronto no litoral maranhense, em Icatu.

Os produtores do programa denominado “Invitation au Voyage”, da rede TV Arte, já entraram em contato com historiadores do Maranhão para produzir a reportagem.

Haverá locações na praia de Santa Maria de Guaxenduba, em Icatu, onde foi travado o combate entre as forças portuguesas lideradas por Jerônimo de Albuquerque e os franceses sob o comando de Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière.

O confronto foi um dos embates mais importantes no contexto geopolítico do início do século XVII.

A Batalha de Guaxenduba é um dos temas abordado em vídeo produzido pelo site Agenda Maranhão, especializado em fotografia, história, literatura e turismo (veja abaixo).

Mesa Redonda

O evento também será abordado na mesa redonda “405 anos da Batalha de Guaxenduba (1614/2019): uma guerra brasílica”, dia 19 de novembro, às 16 horas, no auditório da Livraria da Amei, no São Luís Shopping.

A mesa redonda é uma realização da Academia Icatuense de Letras, Ciências e Artes (AILCA) e terá a participação do professor, historiador e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM), Euges Lima; o professor, historiador e presidente da AILCA, José Almeida (autor do livro: Icatu, Terra de Guaxenduba); o pesquisador e presidente da Casa dos Açores do Maranhão, Paulo Matos; e o professor e pesquisador belga Frans Gistelinck, autor do livro: “1612, A França Equinocial: encontro de dois mundos na Ilha do Maragnan,” que será lançado na oportunidade.

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Icatu: cidade palco da Batalha de Guaxenduba completa 405 anos

Uma vasta programação está preparada para comemorar os 405 anos do município de Icatu, localizado no vale do rio Munim, a 109 Km de São Luís.

Palestras, eventos cívicos, variadas atividades esportivas, celebrações religiosas e shows musicais serão realizados dias 25 e 26 (sexta-feira e sábado) de outubro para celebrar a fundação da cidade (veja ao final a programação completa).

Também conhecido em dialeto indígena como “Águas Boas”, Icatu é marcado por um dos mais importantes conflitos entre portugueses e franceses pelo controle do Brasil – a Batalha de Guaxenduba.

Na praia de Santa Maria foi deflagrado o confronto entre as forças lideradas pelo português Jerônimo de Albuquerque e o francês Daniel de La Touche.

Em menor contingente, as tropas portuguesas conseguiram vencer os adversários franceses. Conta a lenda que no calor da batalha a intervenção de Nossa Senhora da Vitória transformou areia em pólvora, fato decisivo para dar a vitória a Albuquerque.

O historiador José Almeida, entrevistado pelo site Agenda Maranhão, explica o contexto da batalha.

Historiador José Almeida conta como Icatu se posicionava na geopolítica

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Icatu tem as seguintes referências históricas:

Em novembro de 1614, em lugar denominado Águas Boas, após a vitória dos portugueses sobre os franceses, foi realizada uma procissão em ação de graças a Nossa Senhora da Ajuda e iniciada a construção de sua Igreja.

Em 1688, fundou-se a Vila, posteriormente transferida para outro local, na margem direita do rio Munim, de acordo com solicitação do Congresso aprovada pela Corte Portuguesa através da Provisão Régia de 1758.

Vila de Icatu, inicialmente, chamou-se Arrayal de Santa Maria de Guaxenduba, denominação dada pelo seu fundador Jerônimo d’ Albuquerque Maranhão. Adquiriu categoria de Cidade em 1924. Segundo Varnhagen, o topônimo Icatu ou Hycatu significa Pontes Boas. Já Ayres Casal a traduz por Águas Boas.

Para saber mais sobre a Batalha de Guaxenduba veja também a entrevista com o historiador Euges Lima.

Historiador Euges Lima explica a conjuntura da Batalha de Guaxenduba

Veja abaixo a programação completa do aniversário de Icatu

Fotos e vídeos: Marizélia Ribeiro