Copo vazio

Texto do jornalista Benedito Lemos Junior

O ano é de 1974, Gilberto Passos Gil Moreira, ou simplesmente Gilberto Gil, após um jantar, olha para um copo vazio logo ali, após alguns tragos de vinho e eis que brota um de seus belos rebentos, “Copo Vazio”: um poema, uma canção, uma melodia que “embala”, até os dias de hoje, gerações para “lembrar que o ar sombrio de um rosto está cheio de um ar vazio daquilo que no ar do copo ocupa um lugar”.

E, assim, “Copo Vazio” virou uma marca de uma geração, que sempre aos finais de semana e em encontros marcados ou casuais, não podia deixar faltar a lembrança, reviver e celebrar que “o ar no copo ocupa o lugar do vinho, que o vinho busca ocupar o lugar da dor, que a dor ocupa metade da verdade, a verdadeira natureza interior”.

Éramos uma geração de utopias, sonhos, conflitos, intensas paixões, mas também com seus dilemas, seus conflitos, suas metades; “uma metade cheia, uma metade vazia; uma metade tristeza, uma metade alegria, a magia da verdade inteira, todo poderoso amor”.

E, assim, sempre íamos seguindo a vida andando com fé, esperança em dias melhores para todos, carregando em nossas costas a vontade de mudar o mundo, conquistar a “paz” e sermos livres de todos os preconceitos ou ideias pré-concebidas.

E, essa era nossa fé, “num pedaço de pão, na maré, na lâmina de um punhal, na luz e na escuridão”, como dizia Gilberto Gil: “Que a fé não costuma faiá na manhã ou no anoitecer, ou no calor do verão”.

Mas, nem sempre era tão fácil, eram muitas as dificuldades, as lutas diárias, as batalhas que davam vontade de fugir para “outro lugar comum, o outro lugar qualquer, onde haja só meu corpo nu junto ao seu corpo nu”.

A vida foi e vai se transformando como uma antena parabólica camará de Gil que, muitos antes de muitos, já dizia “quando dava, quando muito, ali defronte, o horizonte acabava. Hoje lá trás dos montes, den de casa”, podemos girar, o mundo, num mundo que as voltas dão.

Voltas que dão e retornam ou permanecem no mesmo lugar: a violência, seja ela física ou psicológica, e o desrespeito contra a mulher continuam assustadores e o machismo fazendo eco em nossa sociedade cada vez mais hipócrita, que vai jogando para debaixo do tapete a sujeira da intolerância, da violência e da podridão.

Mas, algum dia há “vingar” o Super-Homem de Gil e nós os homens, em especial, possamos entender que a “minha porção mulher, que até então se resguardara, é porção melhor que trago em mim agora, é que me faz viver”, como sempre ouvia em tom suave da minha mãe em “uma oração singela de respeito e amor” e por você e “sempre por ela ser”.

Extra, extra, extra vendendo sonhos e ilusões, como faziam os jornaleiros, gritando manchetes sensacionalistas, que “rachem os muros da prisão, pois resta uma ilusão, abra-se cadabra, a prisão” e todos nós “pelo nosso amor em Cristo ou Oxalá”, vamos cair na Gandaya “sobre a chuva que cai e ver o sol aparecer”.

Imagem destacada / Gilberto Gil (capturada nesse site)

Alguém que não seja eu

Eloy Melonio*

Não preciso da mesma vibe poética de Erasmo Carlos em “Mesmo Que Seja Eu” para construir esta crônica. Mas vou aproveitar um pouco da “filosofia” com que ele teceu essa belíssima canção.

Tudo isso para falar do “outro”, essa personagem da vida real, tão popular e tão desgastado.

Sabe-se que a maior criação divina foi o homem, e a mais monumental invenção do homem foi o outro. E com ele, a mentira. Tão oportuna que foi logo usada para que seu inventor, passando-se por inocente, imputasse o pecado original à mulher, que, por sua vez, pôs a culpa na serpente. E o mundo idealizado por Deus agora era outro.

De pecado em pecado, chegamos à tenebrosa era das fake news. E nesse vil universo não há quem se intitule dono da mentira, uma pobrezinha órfã de pai e mãe. O fato nu e cru é que ela é sempre uma invenção do outro. E, nessa condição, a coitada vai passando, inescrupulosamente, de mão em mão.

Para os amigos do outro, muitas vezes, o prêmio é o castigo. Um exemplo disso é a tal delação premiada, quando um entrega o outro, que entrega o outro… Daí vem a desconfiança de que o outro nunca pode ser alguém de mãos limpas. Nem mesmo Pilatos, que parece ter se livrado da pecha de delator.

No caso dos filhos do presidente (01, 02 e 03), quando não se sabe quem disse o quê, alguém interfere para nos confundir ainda mais: Não foi esse; foi o outro.

Já na Palestina do primeiro século, João (que batizou Jesus) — antevendo a mazela das fake news — precisava certificar-se de que Jesus não era um falso Cristo. E enviou-lhe emissários a perguntar: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?”(Mt 11:3).

Para existir, o outro precisa de alguém. Mesmo assim, um sempre desconfia do outro. Porque o outro não é uma pessoa com quem a gente possa se abrir, haja vista que a amigos outros ele também sorri.

Dizem até que o outro nunca é amigo. Porque o amigo é nominável, visível, confiável. E esse é apenas um vulto rodando por aí. Se, por acaso, dele receber “o pão que o diabo amassou”, não tenha dúvida de que com essa maldição não deve ficar, exceto se não houver outro a quem passar.

O outro é um ser que pensa conhecer-se a si mesmo, imaginando-se único e independente. Pode, inclusive, ser “você”, quando se olha numa foto e não se agrada do que vê. Ou quando, num sofisticado evento social, desconfiado, olha para o outro, que olha para o outro... Nada de errado, pois nessas reuniões até as madames soltam “pum”. E esses gases se esvoaçam no ar, e logo todos os outros se esquecem do incidente.

Numa relação extraconjugal, a astúcia de um é querer que o outro seja sempre o outro, porque assim jamais passará de um simples affair. E se você não sabe, o outro é aquele que chega quando o marido não está, e se apressa quando percebe que ele já vai chegar.

Na novela “O outro” (Rede Globo, 1987), Francisco Cuoco vivia dois personagens que eram sósias, sem que um conhecesse o outro. Nesse caso, dois que pareciam um. Ao contrário, Ferreira Gullar fala de “um” que são, possivelmente, dois: “Uma parte de mim/ é todo mundo;/ outra parte é ninguém”.

Num poema do meu próximo livro (Travessia), ouso afirmar uma verdade inconteste: Nosso mundo somos nós: eu, você, os outros.

Entre uma coisa e outra, viu o Criador que sua obra-prima não podia ficar só, e tratou imediatamente de esculpir outra. Desde então, outro não se faz senão de outro já existente. E que este ou aquele pode, a qualquer instante, envolver-se em encrenca.

Preferencialmente com alguém que não seja eu.

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*Eloy Melonio é professor, escritor, poeta e compositor.

Imagem destacada capturada nesse site