“Península”, o Plano Diretor e a privatização de São Luís

Uma agente imobiliária com trânsito em várias capitais brasileiras passou boa temporada em São Luís e ficou assustada com duas coisas: o preço exorbitante dos apartamentos na área nobre da Ponta d’Areia e a invasão de caminhonetes de luxo na cidade.

Ela costumava indagar se São Luís é uma cidade histórica ou um garimpo, lugar de muito dinheiro onde os mineradores geralmente exibem sua pujança nas famosas “toyotas”.

No garimpo ou nas regiões do agronegócio o desfile de pick-ups é até normal, mas esse visual não parece adequado para uma cidade Patrimônio Cultural da Humanidade, com um Centro Histórico aprazível, de ruas estreitas e caminhonetes trepadas nas calçadas.

Espantada com a ostentação provinciana e o valor dos imóveis, ela chegou até a comparar os preços daqui com outras praças, dizendo que com R$ 1 milhão compra-se um bom apartamento em Goiânia sem esgoto transbordando nas ruas nem carro pipa na porta dos prédios.

Carros pipa são vistos com frequência abastecendo os prédios de luxo

Antes da invasão dos castelos luxuosos no lugar rebatizado equivocadamente como “península”, a Ponta d’Areia era habitada e frequentada pela elite de São Luís nas suas casas de veraneio, mas também havia gente das classes médias e populares morando no lugar. Alguns resistiram à avalanche dos condomínios e os mais pobres foram empurrados para a periferia.

Houve assim uma segregação, em vários sentidos, tornando essa parte “nobre” da Ponta d’Areia um lugar de distinção econômica e dos discursos próprios do racismo estrutural, a exemplo do ódio aos pobres declarado pelo deputado federal Edilázio Junior quando foi cogitada a construção de um porto nas proximidades dos condomínios para ligar São Luís à Baixada Maranhense.

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A fala do parlamentar inspirou falatórios e práticas semelhantes como este último da espetaria que mobilizou a cidade inteira.

Veja bem: não são apenas palavras soltas. É uma narrativa organizada contra os pobres e os diferentes.

O processo de isolamento social dos novos ricos de São Luís aos poucos retirou da “península” e adjacências vários equipamentos outrora compartilhados por outras classes sociais. Os clubes de reggae e espaços alternativos foram execrados: Coqueiro Bar, Toque de Amor, Bar do Barroso (depois Chama Maré), Trapiche e, mais perto da praça de Iemanjá, os famosos clubes Toca da Praia, Tropical Beach e Praia Reggae Clube.

Outro grande atentado cultural na “península” foi a destruição do Memorial Bandeira Tribuzi, em total desprezo pela pulsação literária da cidade, considerando que o poeta é o autor do hino “Louvação a São Luís”.

No lugar do acervo de Bandeira Tribuzzi foram instalados
o Centro de Atendimento ao Turista e uma igreja católica

Todos esses fatos não ocorrem isoladamente. Eles integram um ordenamento espacial da cidade feito à base da grilagem e da privatização dos espaços públicos, atropelando a legislação urbanística no geral.

Para além desses aspectos, há uma mentalidade que justifica as posturas de segregação e de ódio.

O reggae e a literatura, duas marcas simbólicas de São Luís, foram expulsas da “península” para dar lugar ao pagode do Tiaguinho. Detalhe: a “leblon” daqui não tem uma livraria, mas os carros pipa estão sempre abastecendo os prédios de luxo.

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Até hoje pairam dúvidas sobre as causas do incêndio nas palafitas do Goiabal, onde moravam centenas de pobres, quando da construção do Anel Viário. Daí originou o primeiro grande adensamento populacional na área Itaqui-Bacanga, nos primórdios da formação do Anjo da Guarda.

Em resumo: São Luís foi erguida através de sucessivas pilhagens dos colonizadores e das elites que controlam a gestão da cidade, feita a ferro e fogo, à base de muita violência, atingindo principalmente a população pobre.

Nos últimos 30 anos o mesmo grupo político domina a Prefeitura e manobra o Plano Diretor para lotear a cidade e entregar as áreas privilegiadas às empreiteiras e ao setor industrial predatórios.

Algumas instâncias do poder público atuam como lobistas do mercado de terras não só nas áreas urbanas “nobres”. A zona rural de São Luís e vários territórios na região metropolitana da ilha vêm sendo cobiçados pela prática da grilagem.

A cidade, no geral, está privatizada, entregue aos empreendedores de vários naipes.

Já se passaram três décadas e a velha política segue mandando e desmandando na cidade, a ponto de tratar na surdina, sem ampla divulgação, um tema tão relevante como a revisão do Plano Diretor.

Parte da gestão funciona como lobista do capital interessado no mercado de terras de São Luís.

As invasões bárbaras na “península” são apenas detalhe de uma estrutura muito mais complexa que envolve a situação fundiária, o uso e a ocupação do espaço urbano e a utilização dos equipamentos coletivos de São Luís: os territórios, os recursos naturais, os serviços públicos e o ambiente na sua totalidade.

Em uma perspectiva civilizatória, não faz qualquer sentido transformar em condomínio fechado uma área pública que deve ser usufruída por todos os moradores da cidade, independente da classe social e da cor da pele.

No mais, o suposto argumento de que na “península” morariam os cidadãos de bem, pertencentes aos níveis mais altos da pirâmide social, carece de pesquisa comprobatória.

Recentemente uma operação policial alcançou o famoso médico Abdon Murad Junior, que estaria encabeçando outro tipo de pirâmide, a financeira, capturando o dinheiro dos outros para investir no mercado de capitais, segundo a investigação da Polícia Civil.

Como se vê, na “península” tem gente boa e gente investigada, alguns até envergonhando os vizinhos dos bairros pobres que vivem do salário e não enganam os amigos.

Imagem destacada / Vista aérea da Ponta d’Areia (capturada nesse site)

As PMs maranhenses, o tik tok e os machistas que não se tocam!

Por Flávia Regina Melo e Emilio Azevedo

Fonte: Agência Tambor

No Maranhão de Maria Aragão e Maria Firmina dos Reis, homens de poder ainda usam “esporas” e “chicotes”, em pleno século XXI, para promover a violência. O caso que envolveu, no mês de julho, mulheres integrantes da Policia Militar do Estado, ameaçadas de punição pela postagem de um vídeo produzido por meio do aplicativo Tik Tok, oscila entre o ridículo e o mais abjeto machismo.

O grupo, formado por sete mulheres militares, publicou as imagens no Instagram, no dia 6 de abril, no auge da pandemia de Covid 19, em São Luís. Segundo apurou a Agência Tambor, o objetivo era “mostrar a dupla jornada das mulheres e o orgulho que elas têm da instituição onde trabalham”.Uma das fontes ouvidas afirma que a ideia foi “humanizar a atividade militar”, mostrando que “ela tem um caráter também feminino”, além da legenda estimulando as pessoas a ficarem em casa, devido à pandemia do COVID 19.

Entenda o caso – Aos olhos do Comando Geral da Policia Militar do Maranhão, aparecerem de farda militar e, logo depois, com trajes civis, era motivo suficiente para apurar uma “eventual transgressão disciplinar” das policiais. Diante do ocorrido as policiais ingressaram com um pedido de liminar pra suspender a sindicância. O juiz Nelson Melo de Moraes Rego, da Auditoria Militar, determinou, no dia 8 de julho, a suspensão do processo.

Estranhamente, mesmo após a decisão judicial em favor das militares, o Comando Geral publicou, após a data de 8 de julho, no Boletim Reservado da Polícia Militar, uma resolução abrindo a tal sindicância para “apurar eventuais transgressão”. Mesmo reservado, o documento da PMMA pedindo apuração da conduta das sete militares foi “vazado” para vários setores da imprensa de São Luis. Escancarado, o boletim foi parar em blogs, com holofotes ao comandante-geral da Policia Militar do Maranhão, Pedro Ribeiro, que chegou a dar entrevista tratando do assunto que, por norma interna da PM, deveria ser reservado, além de já estar suspenso por decisão judicial.

A cafajestagem correu solta, com blogueiro chegando a falar em strip-tease ao tratar do assunto, já condenando as policiais em questão. O caso repercutiu até em veículos da imprensa nacional, gerando nota de apoio às militares por parte da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Maranhão (OAB/MA), por intermédio da Comissão de Segurança Pública e Cidadania, da Comissão da Mulher e da Advogada e da Comissão de Direito Militar, que se dispôs a prestar a necessária assistência jurídica a elas. Apesar disso, nem a Secretaria de Segurança do Estado e nem o Comando da PM se retrataram, para tentar reparar os transtornos e a exposição pública das sete militares. Com um mínimo de bom senso e civilidade é possível perceber qual a postura mais desavergonhada: a de exibir um documento reservado, condenar mulheres pelo uso de um simples aplicativo de redes sociais ou a de ter orgulho de uma farda compatível com a força da feminilidade?

Aos ‘dondocas’ de plantão: a Península da Ponta d’Areia não é condomínio fechado!

Por Walkir Marinho

Muito antes de qualquer processo de expansão imobiliária, a área litorânea de São Luís que antes era tratada carinhosamente por “Pontinha” da Ponta d’Areia e hoje é chamado de Península, já era visitada pelos apreciadores de um belo pôr do sol e pelos adeptos das “pedras de responsa” que frequentavam o Coqueiro Bar. Isso sem contar com os assíduos frequentadores do Iate Clube e do glamoroso Restaurante Tia Maria, com suas vistas privilegiadas para o mar e Centro Histórico da cidade.

Ainda bem antes do surgimento dessas dezenas de espigões verticais com seus 15 pavimentos, muitos deles, dotados de um apartamento por andar, e do próprio Espigão Costeiro, já existia ali, o Forte de Santo Antônio da Barra com sua capelinha. É bom dizer também que, em meados da década de 1980, foi instalado no local o Memorial Bandeira Tribuzzi, uma justa homenagem ao escritor e poeta autor da canção ‘Louvação a São Luís’.

Por outro lado, bem mais recente, nesta mesma região da capital maranhense, o Governo do Estado ensaiou instalar um terminal marítimo de passageiros e cargas para facilitar o serviço de travessia entre a Ilha de São Luís e as regiões da Baixada Maranhense e Litoral Norte. No entanto, após o repúdio de alguns moradores da Península, cujo eco adentrou pelos corredores palacianos, percebeu-se que o governo recuou e não falou mais do projeto. Talvez, pelo fato de o terminal portuário ter grande alcance popular e isso poderia causar efeito colateral, como tirar o sossego e prejudicar a elitização do local, além de “misturar gentes”. Esse assunto teve ampla repercussão nas redes sociais.

Agora, mais precisamente no último fim de semana, a Península da Ponta d’Areia voltou com toda força ao cenário das redes sociais, após uma noitada regada a esporte, pagode, farra, orgia e ‘otras cositas más’. Tudo por causa de uma área de faixa de areia denominada Posto A, onde foi instalado um “recinto fechado”. Uma espécie de cópia malfeita do que já existe na orla marítima do Rio de Janeiro.

Autoridades públicas, seguindo as normas e medidas de segurança sanitárias e ambientais, para evitar aglomerações, “lacraram” o espaço e isso virou motivo de amplo debate entre moradores da Península. Alguns chegaram a dizer, como verdadeiros “donos do pedaço”, que o tal ambiente é direcionado única e exclusivamente para habitantes desta área nobre. Como se essa região da capital de todos os maranhenses fosse reserva particular, de propriedade somente de alguns que moram nos arranha-céus revestidos de pastilhas coloridas e vidraças em fumê, porém, erguidos quase que, sem critério de saneamento básico.

Acontece que a Península da Ponta d’Areia, como qualquer outro aglomerado ou conglomerado urbano de São Luís, é área comum a todos. Independente de padrão social e poder aquisitivo. A Península da Ponta d’Areia não é um “condomínio fechado” e mesmo que fosse, todos têm o direito de ir e vir.

Imagem destacada: Vista aérea da Península da Ponta d’Areia e Espigão Costeiro (Foto: Reprodução)

Rádio Senado precisa ouvir o Brasil profundo

Ouvinte assíduo de AM, FM e das emissoras nativas na web, passei a monitorar a programação da rádio Senado desde que entrou em São Luís, no Nordeste do Brasil.

É muito necessário identificar geograficamente a cidade porque muita gente pensa que a capital do Maranhão é “no norte” ou “lá em cima” e “muito longe”. Toda vez que ouço esse tipo de indelicadeza tento orientar as pessoas sobre no nosso lugar, vizinho do Piauí e do Pará.

Oficialmente, estamos na região Nordeste e no Maranhão de vários biomas há uma região situada na chamada pré-Amazônia. Temos ainda áreas alagadas nos campos da Baixada, parte do cerrado e um vastíssimo litoral cheio de reentrâncias com manguezal e dunas. Estas características permeiam os famosos Lençóis Maranhenses, que muita gente confunde com a Ilha dos Lençóis. Mas, nem vamos estender esse papo.

A conversa aqui é sobre música. Em primeiro lugar, deixo registrado que a rádio Senado tem a melhor programação até onde os ouvidos alcançam aqui no Maranhão.

Porém, cabe uma crítica a alguns programas. “Somtemporâneo”, por exemplo, ainda insiste no agendamento e na visibilidade dos novos cantores e compositores baseados no eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Minas Gerais.

Não estou, de maneira nenhuma, repudiando opção da emissora pelo eixo sudoeste. Mas, sejamos sinceros: certos “ôôô” de algumas bandas prediletas da rádio Senado soam muito ruim aos ouvidos.

Se é para tocar certos “sucessos” do sudoeste sem animação, é melhor logo “arrochar o buriti”, como se diz aqui no “norte” para estimular uma pessoa a ir em frente sem medo de nada, por cima de pau e pedra.

Quem escuta a rádio Senado é conduzido(a) a ouvir a sonoridade recortada de uma parte do Brasil, às vezes repercutindo certas bandas e cantores ruins, “proibindo” a audiência de apreciar a imensa diversidade cultural do Brasil sonoro.

A rádio Senado precisa ir à Amazônia. Como é que o marajoara Nilson Chaves não toca na rádio mais famosa de Brasília, já que temos até uma rodovia federal que conecta a capital federal ao Pará? Falta a estrada musical para ligar as duas cidades. Ou não?

Vizinho do Pará, o Maranhão tem uma imensidade rítmica para preencher várias laudas desse artigo. Mas, vamos ficar apenas nos valores percussivos dos festejos carnavalesco e junino. Na boa: a rádio Senado precisa sentir a terra tremer quando um batalhão de bumba-meu-boi de matraca guarnece.

No mais, tenho muita expectativa de ouvir na emissora do Planalto Central muito mais som da América Latina. O CD “Pássaro Poeta”, musicando poemas do cubano Tony Guerrero, é um primor de produção para ouvir uma tarde inteira de sábado!

Se para o cenário latino-americano é assim, imagine o “resto”.

O “resto” do país está confinado ao programa “Brasil Regional”. Faz sentido segmentar a música local em um espaço restrito, quando a produção desse país culturalmente lindo poderia ser melhor distribuída ao longo da grade toda?

Regional, bem feito, é música no mundo inteiro, universal!

No geral, fica a provocação: a rádio Senado precisa ouvir as profundidades sonoras do Brasil.

Faço questão de registrar que na emissora, a começar pelos trabalhos técnicos de Josevaldo Sousa, a equipe inteira de apresentadores e produtores é competente, dedicada, profunda conhecedora da música nas suas devidas especialidades e muito bem intencionada.

Apesar de tudo isso, registro aqui o meu desabafo. O fato de não ser uma emissora comercial dá à rádio Senado um vasto mundo de possibilidades.

Vamos fazer a comparação necessária. Emissoras com pouco ou quase nada se viram como podem. No interior do Maranhão há inúmeros talentos apresentando suas músicas sabe onde? Nas rádios comunitárias e na Agência Tambor/rádio web Tambor. Nessas pequenas emissoras roda o “somtemporâneo” popular que não cabe nas ondas elitizadas da rádio Senado.

Elitizadas mesmo, geograficamente limitadas a um suposto centro produtor de musicalidade. O Brasil não é só “isso”. O “resto” também é muito importante.

Em síntese: a rádio Senado é uma emissora conservadora.

Por mais que eu goste dela, quero muito mais.

Imagem destacada / logomarca da rádio Senado capturada nesse site

Manifesto pede mudanças na Fundação Palmares e a demissão de Sérgio Camargo

Um grupo de intelectuais negros(as) de todo o país deflagrou a coleta de assinaturas para endossar o manifesto que exige a retomada dos objetivos e da missão institucional da Fundação Cultural Palmares, que vem sendo desviada pelo governo Jair Bolsonaro e depreciada na gestão do seu atual presidente Sérgio Camargo.

Em uma de suas agressões verbais, Sérgio Camargo referiu-se ao Movimento Negro como “escória maldita”.

O manifesto vai circular em três idiomas (espanhol, inglês e francês) e servirá de denúncia em redes internacionais de direitos humanos.

Até a publicação desse post, cerca de 1500 assinaturas já estavam computadas na plataforma change.org

Clique aqui para ler o manifesto inteiro e assinar

A iniciativa do manifesto visa destituir Sergio Camargo do cargo, investigação e punição pelos seus atos, bem como o retorno da entidade ao seu eixo original: trabalhar para a promoção da política cultural de igualdade e inclusão que contribui para a valorização da História e a preservação das manifestações culturais, científicas e artísticas da população negra como patrimônio nacional.

Veja abaixo trechos do manifesto:

“Esta carta denuncia os atos ilegais cometidos pela pessoa no comando da Fundação Cultural Palmares e exigimos investigação, bem como punição severa por suas irresponsabilidades. 

[…]

Sérgio Nascimento de Camargo, desqualifica o Movimento Negro brasileiro o tempo todo, caracterizando-o como “escória maldita” e frequentemente expressa seu desejo de revogar a comemoração do Dia da Consciência Negra. 

[…]

Atitudes como as tomadas pelo presidente da Fundação Cultural Palmares são inaceitáveis e criminosas, uma vez que destroem o patrimônio e os valores históricos, sociais, econômicos, científicos, éticos e civilizacionais resultantes das influências africanas na formação da sociedade brasileira. O modus operandi racista do presidente atual da Fundação Cultural Palmares e seu corpo diretivo fere o princípio constitucional de moralidade administrativa.”