Olha o sangue! Diz o bordão dos estivadores, carregando nas costas enormes quartos de gado para os açougues.
Carne viva, bichos mortos, gente em movimento.
Eu sou filho de um feirante, Raimundo Nonato Araújo, o popular “Cabeça Branca”, que criou um feixo e um carrada de gente trabalhando em uma pequena quitanda na Feira do João Paulo – a barraca “Olhe Aqui”.
Sempre que entro em um mercado popular, lembro do meu pai e dos ensinamentos da feira para toda a vida.
Feira é ágora, espaço das discussões sobre a cidade, lugar de encontro e conversação, fluxo dos corpos, palavra falada sobre a vida pública e privada, debate em torno dos preços das mercadorias, pechinchas, perdas e ganhos de uns e outros.
Feira é a grande espiral de papos acerca da vida comum, plenário informal das pautas importantes e dos relaxos, futricas e pilhérias.
É o lugar de gritar para vender e de fuxicar sobre a vida do vizinho, das amizades e das “autoridades” institucionais, do futebol, novela e eleições.
É o palco da política informal, dos debates sobre os fatos do cotidiano, de assuntos relevantes e desprezíveis.
É o rádio ao vivo e em cores. É a roda viva da palavra pulsando nas bocas e gargantas exaltadas para gritar os bordões das mercadorias.
Feira é ambiente para sentir muitas emoções, com as narinas arreganhadas, percebendo o cheiro das ervas, temperos, vísceras, carnes e peixes, fumos diversos, charutos e cachaça.
E os odores de todas as coisas fétidas também.
Feira é Grécia e Roma, bela e fera, terrritório de gente bacana e ruim, além do bem e do mal, porque “nada de humano me é estranho”, como diria o dramaturgo romano Plúbio Terêncio.
Feira é gente, coisas, animais, bichos, peixes e mariscos, secos e molhados, mercadorias, dinheiro indo e vindo, travessia, propaganda e publicidade, tecnologias sociais, bites, capitalismo, tipos, estilos, sabores, muitas cores e mais blá blá blá.
