Explicar e entender

Eloy Melonio *

Se perguntar não ofende, o que dizer de explicar?

Tudo, menos silenciar. Pois é, mas nem sempre é fácil falar das coisas da vida, do mundo, do dia a dia. E, assim, decidi contar algumas historinhas bem pessoais para tentar explicar como me sinto neste cipoal de novidades apelidado de “mundo digital”. E, quem sabe, provocar algum tipo de reflexão.

Para começar, precisei do incentivo e inspiração de duas pessoas. Primeiro, do meu filho: “Pai, isso dá uma crônica!”. Em seguida, de Caetano Veloso, com quem disputo o primeiro lugar na parada dos “tecnofóbicos”, raça em extinção formada por aqueles que “têm medo da tecnologia”. Digo “extinção” porque as crianças de hoje já nascem com um smartphone na mão perguntando à mãe se ela já criou sua conta no Instagram.

No meu caso, não é exatamente medo ou aversão. É uma certa dose de resistência ou desinteresse, acomodada na zona de conforto de quem sempre teve ajuda fácil. Acho que esse também é o caso do nosso baiano arretado, autor de tantos sucessos da MPB.

Dito isso, vou começar pelo fim. Ou seja, pela história mais recente.

Dia desses, na fila do caixa do café da manhã num supermercado, vi o jovem à minha frente efetuar seu pagamento com a aproximação do seu relógio à máquina do cartão de crédito. Tudo muito simples, rápido e prático. Chegada a minha vez, imitei a sua ação. Não com um relógio, mas com os meus “óculos”. Minha esposa e o rapaz do caixa acharam graça. Eu, nem tanto. Porque foi um gesto espontâneo, ou seja, uma reação irreverente para revelar certo desgosto com o meu velho cartão de crédito. E de me indignar com meu atraso tecnológico.

À mesa, conversamos sobre o acontecido e esse novo mundo cercado de pix, Apple watch, Uber “e coisa e tal”. Aí, algumas risadinhas para disfarçar a vergonha. E tudo voltou ao velho normal.

O certo é que eu estou “anos-escuridão” da condição ideal quanto ao uso de tudo o que a tecnologia e a Internet oferecem. Cheguei a tomar algumas decisões quanto a isso: vou aprender porque quero me virar sozinho. Não passou disso. Mas ainda resta alguma esperança. E ninguém morre de esperança, morre?

No mesmo dia, tinha de ir a um evento à noite. Como estava chovendo e eu não queria dirigir, fui de Uber. O motorista deixou-me à porta do Teatro João do Vale, no centro histórico de São Luís (MA). Foi a minha segunda viagem nesse serviço de carro sob demanda. E eu não fiz nada, absolutamente nada. Minha neta tomou todas as providências pelo celular: chamada e pagamento antecipado. Que moleza! A mim coube apenas manter a tradicional conversa com o motorista sobre seu trabalho enquanto seguíamos por ruas esburacadas.

Depois desses dois episódios, o enredo das historinhas fica mais linear. E você pode até antecipar o seu final.

Mas não vá pensando que eu sou assim tão avesso à tecnologia! É que um tecnofóbico de classe média não sobrevive sem esse turbilhão de apetrechos e aplicativos do mundo digital. Gosto de usar meu notebook para vasculhar o Facebook. Tenho um smartphone com Whatsapp, Instagram etc. E movimento razoavelmente bem a minha conta pelo aplicativo do meu banco.

Já entendi que os meus problemas com o mundo virtual são reais. Encontrar um endereço com a ajuda de um aplicativo já me deu uma tremenda dor de cabeça. Fiquei mais perdido do que cachorro em dia mudança.

Mas nem tudo são frustrações. Quase morri de felicidade quando, seguindo instruções, consegui transferir o WhatsApp do celular para o notebook, usando o QR Code. Um avanço e tanto, comemorado com gritos e socos no ar. Recentemente fiz um empréstimo consignado sem precisar ir ao banco.

Antes do desfecho, uma cena que já faz parte dos meus anais. Depois de cinco meses de uso, minha esposa descobriu que a mala do nosso carro não travava. Tentamos de tudo, e nada! Preocupado, pensei em pedir ajuda na concessionária. Como estávamos perto de uma oficina de lanternagem, chamei um funcionário e lhe pedi ajuda. Expliquei-lhe o problema e aguardei ansioso a solução. Ele pegou o chaveiro e se afastou uns quinze ou vinte metros do carro e pediu que eu abrisse a mala. Tentei, mas ela não abriu. Isso me deixou mais tranquilo. Depois, aproximou-se do carro e repetiu o pedido. O que você acha que aconteceu?

Foi uma lição e tanto. Por um segundo, aceitei fácil e resignadamente a ideia de que as máquinas estão mais inteligentes do que nós.

Igualzinho a mim, Caetano já confessou que não sabe procurar músicas nas plataformas de streaming, pois não usa o celular e lida muito mal com a internet (Veja, 13-10-2021). Alegrei-me em saber que não estava sozinho nesse cruzamento “da Ipiranga com a avenida São João”. Na verdade, acho até que estou alguns acordes à frente do meu ídolo, pois já consigo “tocar” músicas no Spotify.

Não sei se minhas vaciladas serviram para alguma reflexão. Mas acho que deu para perceber que “alguma coisa acontece” quando se tem alguém para explicar.

Antes de fechar nossa conversa, queria citar um antigo bordão, popularizado por Sócrates, macaco-personagem do humorístico Planeta dos Homens (REDE GLOBO, 1976 e 1982): “Não precisa explicar. Eu só queria entender”.

Nostálgico, vejo que as coisas antigas não funcionam mais. Inclusive os bordões.

* Eloy Melonio é professor, escritor, poeta e compositor

2 comentários em “Explicar e entender”

  1. Meus amigos, por incrível que pareça, não me encontro sozinho neste oceano tenebroso da tecnologia. Mas com muito esforço, conseguirei sobreviver desse naufrágio.

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