Finados! Mortes e violências no campo refletem a velha estrutura agrária no Maranhão

Veneno do agronegócio, grilagem, efeitos nocivos da mineração e pistolagem contra trabalhadores(as) rurais, povos e comunidades tradicionais ainda terão controle?

Na noite de 29 de outubro de 2021 (sexta-feira), por voltas das 19h, dois pistoleiros mataram o camponês João de Deus Moreira Rodrigues, conhecido como “Cozinhado”, de 51 anos de idade. O crime ocorreu em frente à sua residência, no povoado Santo Antônio, zona rural de Arari, na Baixada Maranhense.

A vítima estava marcada para morrer, assim como outros casos de trabalhadores(as) rurais, líderes comunitários, sindicalistas e agentes de pastoral executados no Maranhão ao longo dos últimos anos. Trata-se de um cenário de violência típico da velha estrutura oligárquica que persevera no campo.

Os fazendeiros tradicionais, grileiros, a mineração e o agronegócio agem de diversas formas violentas. O veneno despejado pelos aviões sobre as lavouras de soja alcança as grandes fazendas de monocultura e, “por tabela”, os vizinhos agricultores familiares acuados nas margens dos latifúndios.

Pode-se interpretar a pulverização venenosa como acidente de percurso ou intimidação propositada para coagir os camponeses a saírem dos seus territórios.

Os tratores avançam sobre o cerrado maranhense na expansão da fronteira do agronegócio atropelando as leis ambientais, o direito dos povos aos seus territórios e tudo que tiver pela frente, inclusive as pessoas!

Tratores também são utilizados para ameaçar, intimidar e destruir os bens dos povos e comunidades tradicionais.

Se o veneno e os tratores não são suficientes para alcançar os objetivos, entra em cena a pistolagem. Matar, no sentido de eliminar um eventual obstáculo, provoca o efeito direto. É a tática do choque e pavor.

São inegáveis os avanços do governo Flávio Dino ao longo de dois mandatos (a concluir) em diversos setores. O Maranhão melhorou nas áreas de educação, saúde, intraestrutura, políticas assistenciais em geral, nas medidas efetivas de combate à pandemia Covid19, na política de encarceramento e na visão de que governo não é meio de enriquecimento pessoal dos gestores do dinheiro público.

Quem não lembra as cabeças decepadas durante as rebeliões do antigo presídio de Pedrinhas?! Hoje, naquele local, os internos do Complexo Penitenciário estão incluídos em programas de recuperação e futura inserção na vida fora da cadeia.

No cenário nacional, a postura do governador enfrentando o golpe de 2016 (impeachment da presidenta Dilma Roussef), a denúncia da condenação sem provas do ex-presidente Lula e o combate ao bolsonarismo evidenciam um político sintonizado no campo da democracia.

No entanto, se avançou nos temas da urbanidade, o Maranhão ainda mantém intocada a antiga estrutura agrária opressora, que se manifesta no avanço da violência contra os(as) camponeses, quilombolas, indígenas, extrativistas e moradores ancestrais.

Para ser justo na análise, parte da violência generalizada é culpa da necropolítica diretamente vinculada ao bolsonarismo e todos os seus efeitos maléficos.

Mas a outra fatia da responsabilidade é dos gestores, da Justiça e dos parlamentares estaduais. Falta mais vontade política para estabelecer critérios sustentáveis na concessão das licenças ambientais, fiscalizar o uso racional dos recursos públicos, atuar rigorosamente contra as quadrilhas de assassinos do campo, agir acelerado nas investigações para apurar os crimes e punir os responsáveis, criar e cumprir leis eficazes sobre delitos ambientais e violência no campo, entre outras medidas.

É preciso criar uma força tarefa dos três poderes do Maranhão para combater a tragédia no campo. Alguém precisa conter essa barbárie.

Imagem destacada / Vitor Flynn / BBC BRASIL

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