Operadores do obscurantismo contra a vacina

A conversa seguia animada. Dois jornalistas durante o almoço dialogavam com o casal proprietário do pequeno restaurante próximo a uma grande faculdade. Falávamos sobre o ano difícil da pandemia e o movimento do comércio atrelado ao calendário escolar interrompido em 2020.

Dois meses por ano, nas férias, aqui é meio parado e com a pandemia ficou pior, registrou o marido.

Quando chegar a vacina as coisas vão melhorar, confortaram os jornalistas.

De rompante, a esposa atravessou a conversa e decretou:

Eu não vou tomar vacina e nunca vacinei meus filhos nem os netos!

A partir desse momento choveram teorias da conspiração e outros relatos obscurantistas contra a Ciência. As crenças iam desde a introdução de doenças pela vacina até a suposta “máfia dos laboratórios”.

Obesa, a proprietária do restaurante disse não tomar nenhum tipo de remédio oriundo da indústria farmacêutica.

– Se eu tiver uma tontura, chego em casa e coloco meus pés em uma bacia de água fria. Aí essa frieza vai para o cérebro e isso daí cura, sacramentou.

O marido, por sua vez, elocubrava outras tantas narrativas, cada qual mais estranha, a exemplo do assassinato de cientistas chineses dentro de uma casa que explodiu. Bum!

Esse tipo de situação enfatiza a poderosa indústria da desinformação, um negócio altamente lucrativo criado por empresários e corporações baseados em teorias da conspiração, obscurantismo e negação das instituições científicas e do Jornalismo.

A máquina de desinformação fundada em crenças e convicções espalha no mundo inteiro uma estratégia definida em vários operadores com maldita eficácia na mente dos incautos.

Vejamos alguns exemplos de como a desinformação cavalga, através das falácias, um “método” baseado em argumentos inconsistentes com o objetivo de confundir o interlocutor ou induzir a pessoa e erro por falta de conhecimento da realidade.

Veja alguns tipos de falácias:

“Eu vi em uma reportagem” é uma frase dita repetidamente sobre algum tipo de teoria conspiratória. Trata-se um tipo de operador baseado em fonte desconhecida ou genérica, sem checagem, que circula facilmente nos aplicativos de mensagens dos aparelhos celulares;

“A verdade sobre as vacinas” geralmente titula vídeos atribuídos a cientistas renomados, só que as supostas autoridades acadêmicas são às vezes pessoas comuns sem qualquer mérito em instituições de pesquisa. O operador desse tipo é a autoridade falsa;

“A mídia é mentirosa” traduz um bordão usado para desacreditar a instituição Jornalismo e, dessa forma, negar os relatos objetivos construídos pelo trabalho profissional dos meios de comunicação. Eis aí o operador clichê, usado para refutar qualquer tipo de argumento baseado em fatos, estatísticas e provas;

“Acidentes matam mais que vacina” é outra frase inconsistente para comparar coisas sem equivalência. Os “advogados” dessa sentença dizem que as mortes no trânsito são mais evidentes e nem por isso tem lockdown. Esse operador chama-se falsa equivalência. É o mesmo que comparar caju com abacaxi, algo absurdo e fácil de refutar: acidentes não são contagiosos como um vírus e; portanto, não podem ser comparados a uma pandemia.

No próximo texto vamos conversar sobre o “dragão invisível”.

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