Big não são os “brothers”. Big são as “sisters”

Eloy Melonio *

Que tal tirar uns minutinhos de nosso precioso tempo pra falar do Big Brother Brasil, o famoso BBB da Rede Globo? Por quê? Porque tá todo mundo falando sobre isso. Especialmente depois da final apoteótica da 20ª edição do mais popular reality show do país, nessa segunda-feira, 27, que consagrou uma mulher negra como a grande vencedora.

Esse estrondoso sucesso me faz lembrar o início do BBB, quando uma suposta elite intelectual vigiava e condenava quem assistia ao programa, então acusado de “vulgar”, sem conteúdo, e com excessivo apelo sexual. E era assim mesmo! Pelo menos para muita gente. Mas havia algo mais subliminar, só apreendido por olhos e ouvidos mais atentos. Gente que tentava entender o que cada participante tinha a dizer, a ousar, a realizar. Que via nas cenas e nas pessoas um reflexo de sua casa, de seu condomínio, do escritório, dos amigos.

Eu era um desses desajustados.

Nessa loucura toda, quanto mais se fala em liberdade, mais se tenta reprimi-la. E os repressores são justamente seus pretensos defensores. Quanta incoerência, não? Hoje muita gente receia expor suas idéias, suas escolhas, suas concepções. Porque uma “milícia” parece andar atrás de quem pensa diferente dela. Na verdade, nesse velho Brasil de hoje, são “duas”. Que não apenas caçam, mas acusam e julgam. E ainda usam apelidos ofensivos com o nítido intuito de depreciar o outro. E aí eu me pergunto: para onde foi a educação, o respeito, a convivência pacífica?

Uma parte de que sempre gostei no BBB ¬― e que ainda me emociona ― é a música-tema do programa. Paulo Ricardo não podia estar mais inspirado quando compôs Vida Real, música que é a cara do programa. E que tem tudo a ver com a vida: a dos participantes e a nossa vidinha de cada dia. Na contramão do programa, a música não promove o embate de idéias ou atitudes agressivas entre os oponentes. É mais uma conversa de amigo, de brother, de gente que se interessa pelo outro. Do início ao fim, o ex-RPM revela esse interesse em conhecer e entender o outro: Se você pudesse (soubesse)…, o que faria?

É ou não é apaixonante?

Nunca assisti ao BBB sob a mesma ótica de um telespectador comum. Enquanto alguns queriam apenas ver participantes atraentes, seminus, exibindo-se na piscina e nas festas, ou fazendo sexo debaixo do edredom, eu buscava aspectos mais psicológicos. Suas idéias e motivações, seus sonhos e suas estratégias, suas histórias, indo um pouco além para conhecer a pessoa por trás do participante.

No show, um participante pode até fingir, dissimular, enganar os outros. E aqui, um parêntese para uma explicação do padre Manuel Bernardes (Nova Floresta, IV, p. 5.): “Simular é fingir o que não é; dissimular é encobrir o que é.” Alguns até tentam, mas “Encobrir o que se (verdadeiramente) é” para milhões e milhões de olhos é uma tarefa hercúlea.

Dessa forma, the Big boss, ou seja, aquele que assiste a tudo da poltrona de sua casa e tem o poder de decidir, raramente é enganado. E é aí que, para mim, reside a genialidade do programa-laboratório, hoje estudado por comunicadores, psicólogos, críticos de arte. E curtido pelos comuns, pelos “invisíveis”, e (pasmem!) até pela antiga opositora elite intelectual.

Acho que Paulo Ricardo não imaginava quão fortes e verdadeiras eram suas palavras. E que a verdade ― tão avacalhada em nossos dias ― confirma-se como único caminho das pessoas sérias e honestas. Seus versos hoje soam ainda mais atuais e significativos do que em 2002: “O mundo é perigoso/ E cheio de armadilhas/ Um dia estéril e gozo/ Verdades e mentiras”.

O tempo passou e o show ganhou status de “jogo”, competição que exige mais que aparência física, simpatia ou loquacidade do participante. Jogo é a palavra que melhor traduz o espírito do programa, desbancando a idéia de que é apenas um showzinho qualquer, cheia de gente bonita. Jogo tem foco, estratégia, esquema…, e um vencedor.

Sob tanta inspiração, Paulo Ricardo já antecipava: “Viver é quase um jogo/ Um mergulho no infinito/ Se souber brincar com fogo/ Não há nada mais bonito”.

Da inspiração musical para o mundo dos brothers, o programa capitaneado por Tiago Leifert é bem diferente do BBB da era Pedro Bial. É mais conceitual, mais estratégico e mais envolvente. E nesse contexto, o apresentador é tão interativo quanto os concorrentes. Equilibrado, e dono de invejável expressividade, Leifert rege o programa com a batuta da fina autoridade, da simpatia e da elegância.

A edição 2020 do BBB foi realmente espetacular. Reuniu gente comum (os inscritos) e celebridades do mundo digital (os convidados) num mesmo palco. Provocou discussões acirradas e oportunas, como o debate racial, protagonizado por dois participantes negros: a médica Thelma Assis, 35 anos, e o ator Babu Santana, 40 anos.

Thelma, a única das três finalistas que se inscreveu no programa, sabia quem ela era, pagou para ver o futuro, deslumbrou-se com o brilho das estrelas, driblou armadilhas, mergulhou no infinito. Fez de tudo um pouco, seguindo a trilha sonora de Vida Real. E, acima de tudo, “brincou com fogo”, quando, estrategicamente, teve de votar em Babu, amigo e parceiro de lutas.

Finalmente, depois de mais de 90 dias de confinamento, Tiago Leifert, com a voz embargada pela emoção, anunciou: Thelma Assis, a grande vencedora do BBB 2020.

E o nosso amado Brasil viverá, até janeiro de 2021, merecidamente, sob o reinado de uma Big Sister.

  • Eloy Melonio é professor de inglês, compositor, escritor e poeta.

4 comentários em “Big não são os “brothers”. Big são as “sisters””

  1. O professor Eloy Melônio é um ótimo escritor.
    Esperamos o Big Brother Brasil 2021 na expectativa de saber quem será o próximo vencedor.

  2. Não vejo continuamente o BBB, mas entre alguns acompanhamentos dia ou outro, fórmula uma auto percepção de mais interesse nessa edição 2020. Menos apelos sexuais, mais pessoas comuns e o grande jeito e sabedoria feminina de ser. Sem perder os conflitos que instigam e garantem audiência, naturalmente somado às festas, a beleza das pessoas, aos cardápios e, ao simpático e inteligente comando do Thiago Leifert, estão versão apresentou um nível mais correlato (digamos assim), com a boa conduta humana. O professor Eloy, fez observações bem procedentes, inclusive na utilização comparativa da música tema.

  3. Professor Eloy e uma daquelas pessoas que dá muito prazer em ler seus texto, sempre ricos de informações, visão diferenciada como ele mesmo fala.

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