O problema da “obviedade”: breve ensaio sobre O Poço

Por Marco Rodrigues, filósofo

“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”. (Friedrich Nietzsche)

A condição humana, em sua tomada de consciência, depara-se em dado momento com as seguintes inquietações, quiçá irrespondíveis: por qual razão e, para que propósito, existimos no fim das contas? Em latência essas perguntas permanecem, durante a vida inteira, mesmo que sob os escombros do frenesi das ocupações, ou ainda, das convicções e crenças, que turvam e emulam o olhar numa direção dispersa e difusa. Por mais que haja diversas narrativas que atribuam sentido à existência, acabam por sucumbir na hora derradeira do caos, quando a incerteza passa a corroer a alma. Tal problemática aparece de forma complexa em “O Poço”, uma intrigante obra cinematográfica, sob a direção de Galder Gaztelu-Urrutia. O que se propõe aqui analisar é apenas um recorte, a maneira ensaística, de uma obra fílmica dotada de diversas variáveis e representações que permitem uma hermenêutica de vicissitudes múltiplas.

A trama se inicia ao som de música erudita, numa requintada cozinha, que funciona com o maior rigor e cuidado o preparo dos mais finos e variados pratos, sob a supervisão de um atencioso Chef de Cuisine. À primeira vista, imagina-se um restaurante de alto padrão. O controle de qualidade demonstra-se impecável, numa precisão mecânica, apresentando de forma satírica as ilusões que são construídas a partir dos ideais sofisticados de cultura e de civilidade. Mas toda essa suntuosa produção tem por objetivo a alimentação dos detentos do Poço, servida com requinte numa plataforma que desce diariamente e para em cada andar, num breve instante para que cada dupla se sirva, ao longo de 333 níveis. Esse apreço com o preparo não objetiva a promoção da dignidade humana e de seus direitos, nisso consiste sua ironia. Pouco interessa o que acontece em seguida, cumpriu-se uma tarefa. Não é difícil supor que os detentos dos níveis mais baixos não terão o que comer, mas não porque a comida seja insuficiente. O modo glutão de Trimagasi (Zorion Eguileor), logo na primeira aparição da plataforma, evidencia essa compreensão frente à perplexidade de Goreng (Ivan Massagué), uma vez que, estando no nível 48, descobre que resta ter que se alimentar de tudo o que sobrou da voraz indiferença de 94 pessoas dos 47 andares acima. Os “de cima” não respondem aos “de baixo”, logo os “de baixo” não têm porque reportarem-se aos “de cima”, o que se reproduz em cadeia ao longo dessa estrutura.

Por outro lado, Goreng faz um questionamento que, por prematuridade, pode acabar passando despercebido, mas que é o fio condutor para as implicações mais importantes do filme. Trimagasi explica que em breve haverá menos pessoas, como se isso fosse uma forma de consolo ou alívio. “Por que haverá menos gente?”, é o que Goreng pergunta. Ao contrário do “óbvio” que se poderia esperar, Trimagasi responde: “não direi que é óbvio, pois não é”.

Essa crise inaugura algo que até então parecia impossível, o diálogo, e consequentemente o despertar de um pensamento crítico que direciona todo o conflito. “Há três tipos de pessoas. As de cima, as de baixo, e as que caem”. Essa definição parece óbvia? “Óbvio!”, diria certamente Trimagasi, o que por ventura é o que responde na maior parte das vezes, como um bordão. Todavia, não há nada de óbvio nisso. Está em cima, ou em baixo, não é a questão. Bem diferente do que se possa supor, O Poço não é um filme óbvio. Essa é a sua sutil provocação, um distrator. Ninguém é de cima ou de baixo; na verdade, ninguém é, fundamentalmente, de lugar algum. Ocupa-se um espaço, um lugar, mas apenas de modo provisório. Não há classes sociais, e a luta não é de classes. Todos os meses os detentos acordam em um novo andar, de cima ou de baixo, sem que se possa escolher quaisquer desses níveis. Não há garantias, enquanto durar a pena, a qualquer detento. Esses três tipos de pessoa não se definem como “produto do meio”, pois o ambiente é exatamente o mesmo, oscilando amiúde os seus graus, pois, quanto mais se desce, pior é a descoberta que cada um realiza e faz, a partir de si mesmo, em contraposição aos outros que operam igualmente em suas descobertas díspares e ambíguas.

Porém, o que se descobre não é a revelação de alguma natureza mais própria, mas de possíveis de suas condições, que se constroem a cada diferente nível. São muitos os limites humanos que se deslocam, numa lógica perpendicular. “O homem é o homem e a sua circunstância”, bem como compreende Ortega y Gasset, filósofo espanhol, uma vez que as circunstâncias não são o meio, mas um conjunto de variáveis que se interpõem. Brutalidade, violência, canibalismo, estupro, indiferença, egoísmo, são potências à disposição de qualquer um, e mesmo aquele que jamais imaginou ser capaz de realizar tais coisas, vê-se abruptamente cair nessas vilezas, de uma forma ou de outra, por diferentes razões. Goreng, por exemplo, pratica de violência e experimenta carne humana, apesar do asco e do absurdo que isso possa representar. Basta lembrar, também, que evitara comer no início e, ao tentar guardar um fruto para outro momento, é penalizado, descobrindo que resistir à tentação de se alimentar poderia ser um erro… Seu pecado original de modo reverso, onde se precisa experimentar da árvore do conhecimento?

Outrossim, a existência humana não é um discurso, muito menos ainda o que se pode ter em mente enquanto crenças e ideologias, mas também não é apenas o que se faz dela eventualmente. A ausência de interlocução entre os “de baixo” com os “de cima”, e vice-versa, intensifica a barbárie e retroalimenta as idiossincrasias que, atingindo um estado solipsista, garante intacta a conservação da estrutura vertical sem hierarquia do Poço. Tanto o senso de coletividade, quanto a intensificação do narcisismo, podem legitimar um determinado sistema. É igualmente provável que se possa sucumbir em ambos os casos, exatamente quando a dimensão política desaparece. Não há mais uma política ali, embora haja um arquétipo de Estado e algum poder exercido, o que significa dizer que a ética se torna muito pouco provável, pois a moral que se engendra não resulta de uma atividade relacional, mas de sua recusa. Não é por ventura que as luzes verdes e vermelhas expõem a automação que inviabiliza a atitude reflexiva. Apenas atende-se a comandos regulares de condicionamento, nada parece mais mediar as condutas. A coerção é dada pelo ensimesmamento de cada um, o que condena suas próprias consciências à escravidão autoinduzida. Por isso, essa prisão é chamada de Centro Vertical de Autogestão (CVA), podendo-se inclusive adentrá-la voluntariamente. É uma edificante soberania consumada por idiotas, na semântica grega da expressão, ἰδιώτης (idiṓtēs), cujo sentido é plural embora não tenha conotação coletiva. Trata-se, trocando em miúdos, do que popularmente se diz: “cada um por si”. Certamente essa pretensão de individualidade firma um tipo de pacto da mediocridade espontâneo e não declarado, tal como se realiza nessas atividades ridículas de coaching, cujo método psicológico barato estimula a positividade maléfica do acreditar em si mesmo.

Diferente do que considerara Sartre, em “Entre quatro paredes”, em O Poço o inferno não são os outros. Ora, são 333 andares, sendo 2 pessoas em cada um, multiplicando-se esses dois números temos o seguinte resultado: 666. Isto faria o inferno de Dante até razoável, para alguma redenção. Sendo assim considerado, é o número da besta o que, amiúde, metaforicamente ilustra a composição de um outro tipo de inferno, que se evidencia e se estabelece nas próprias consciências e não por intermédio das relações interpessoais. “O inferno sou eu”, poderiam dizer, todavia assumir a própria decadência poderia ser letal, por insuportabilidade, o que demonstra a perspectiva daqueles que caem. Olhar para si e descobrir a própria insignificância, não é tarefa fácil.

Na maior parte das vezes, são os “de cima” que mais se precipitam, entrando assim em cena o fenômeno do suicídio. Por essa razão, é que Trimagasi afirma que o nível 48 é um bom nível, pois muito acima não se “tem muito o que esperar… e muito o que pensar”. Com efeito, essa espera, que não tem muito o que esperar, denomina-se desespero, ou seja, é a esperança negando-se ser ela mesma uma espera. O que pressente a maioria dos detentos são os efeitos de elpís, o único dos males a permanecer na caixa de Pandora, segundo o mito grego. Mas não era a esperança? Não, essa tradução é imprecisa, precária e tendenciosa. Em grego antigo, elpís é “Antecipação”, isto é, a capacidade de saber o que irá acontecer conosco no futuro, ou ainda, sobre o destino. “Antecipação” não é “esperança”, mesmo que represente uma outra forma de espera. Porém essa habilidade, ao permanecer na caixa, vedado ao conhecimento dos homens, permite que se possa imaginar o que nos espera, e com isso almejar alguma destinação feliz, o que finalmente pode ser chamado de esperança, do latim spes (espera), exercida pelo esforço do acreditar. Todavia, não saber e ter que refletir sobre o que está porvir também nos põe diante da incerteza, o que profundamente intensifica a amargura sobre às expectativas desse pensar, o que em nada tem de óbvio.

O pensamento pode se tornar uma dimensão perigosa, principalmente quando ocorre no encontro inoportuno com a vazio que flui da angústia, na proporção da instabilidade acerca do que guarda o futuro. Imaginar onde se acordará no próximo mês é, certamente, o que põe em crise esperança e antecipação. Portanto, não é o suicídio a consequência de uma causa, não acontece por conta de uma razão – mas quando se carece de quaisquer razões. Relações de causa e efeito são sabotadas, tornando a compreensão lógica ineficiente e ingênua. Comete-se suicídio, provavelmente, na ausência de um motivo, e não quando se possa ter algum. Sem dúvida, trata-se de uma falsa obviedade.

Por outro lado, quando é compreendido algum motivo, a revolta ou a conformidade podem ser fundamentos, a exemplo, respectivamente, de Goreng e Trimagasi. É a partir dessa dubiedade que o livro “Dom Quixote” se torna mais útil que a “samurai plus”. Mesmo aparentemente impossíveis as causas pelas quais se pode lutar, é preciso ainda assim colocar-se diante delas, mesmo que cada nível do CVA não passe de moinhos de vento. Com relativa certeza, não é óbvia nenhuma formulação utópica, o que desperta ampla suspeita sobre as propostas que contrariam a obviedade do real estabelecido, cujo rigor de sua sistemática enfraquece iniciativas de subversão. É por esse motivo que Trimagasi pergunta a Goreng se ele é “comunista”, pejorativamente. Essa inquirição explica o que representa a desilusão que se observa atualmente, pois, quando alguma iniciativa de política social e de solidariedade é proposta, entende-se, na maior parte das vezes, por assistencialismo esquerdista, como se asseverar sobre o bem comum já não fosse uma ideia pensada desde os filósofos gregos. A autogestão destrói a empatia, na mesma medida que cria, inadvertidamente, um sentido meritocrático falso e que se descobre fracassado. Não há resistência quando se executa a autopersuasão, o que estende uma teia de relativismo formado por fios dogmáticos, onde cada um considera o próprio ponto de vista como a única medida de todas as coisas. Exatamente por essa condição, é que a obviedade se estabelece por não reconhecer a diferença fundamental que permitiria a necessária abertura ao outro.

A imagem do inferno se maximiza, não apenas porque Goreng acordara no nível 202, mas porque descobre haver muito mais abaixo, e não apenas 200, diferente do que houvera declarado Imoguiri (Antonia San Juan). A antiga funcionária do CVA pouco sabia do que se tratava o seu trabalho, talvez isso tenha impulsionado, junto ao câncer e a impotência de seus discursos, sintomas de despropósito que terminaram em suicídio, o que garantiu a sobrevivência de Goreng, canibalizando-a. O que é importante nisso, de certo modo, é que outra obviedade é solapada. Não há o que poderia ser óbvio naquilo que não se conhece propriamente, e muito menos ainda naquilo que se acredita conhecer. Muitos equívocos podem ser cometidos em nome de uma certeza, ou até mesmo de uma aposta de fé, pior ainda quando através de achismos. Naturalmente, esse problema permite se pensar que nada garante que não houvesse menores de idade naquelas instalações. Nada também garante que a manutenção intacta da panna cotta resultaria em alguma mudança.

Apesar dessa conjuntura distópica, o errante Goreng, o messias Dom Quixote, e Baharat (Emilio Buale), seu Sancho Pança desventurado, perseveram ao reconhecer a essência trágica do mundo, através de um inconformismo que ignora, de forma demasiado humana, tudo o que parece completamente óbvio.

Imagem destacada retirada no site cineclick

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