De onde vem o ideal de superioridade e heroísmo dos Estados Unidos, no momento representado pela personagem Donald Trump?
Nesse artigo, faço um apanhado das ações e campanhas imperialistas do século 19 às atualidades.
Quando escutamos determinadas teses conservadoras de pessoas de meia idade, é possível inferir como a mentalidade retrógrada vem se formando, em grande parte favorecida pela indústria cultural estadunidense.
O cinema, o rádio, o jornalismo, a televisão, as revistas em quadrinhos, as campanhas publicitárias, o advento da Coca Cola, a música; enfim, todo o conjunto de bens simbólicos despejados pelos EUA na América Latina consolidaram os valores dominantes de prosperidade, vitória, poder, força, sucesso e, principalmente, superioridade “americana”.
Em uma ordem cronológica, os EUA desencadearam as seguintes narrativas:
1 – século 19: Destino Manifesto
2 – América para os americanos: 1823
3 – Política da Boa Vizinhança: 1933 a 1945
4 – American way of life (Modo de vida americano): anos 1945…
5 – Aliança para o progresso: anos 1960
6 – Movimento Maga (Make American Great Again = Torne a América Grande Novamente): anos 1980 a 2025
O “Destino Manifesto”, originado no século 19, associava a expansão territorial dos EUA a uma determinada missão divina; ou seja, por um desígnio de Deus, justificava-se a anexação de parte do México e do Canadá, como persiste hoje Donald Trump.
Naquele tempo, o capitalismo já era anunciado como símbolo do progresso e da civilização, justificando o extermínio dos indígenas, considerados selvagens. O cinema que formou mais de uma geração “ensinava” que o herói cara pálida John Wayne tinha a força para destruir os peles vermelhas.
Assistíamos, ainda na TV preto e banco, a um dos maiores genocídios contra os povos originários na História.
A partir de 1823 surgiu o bordão “América para os americanos” ou “Doutrina Monroe”, vigorando no mandato do presidente James Monroe (1817 a 1825). O objetivo era criar uma espécie de “reserva de mercado” para que os EUA tivessem exclusividade nas intervenções em toda a América, deixando a Europa fora do processo de dominação nessa parte do mundo.
Para ficar ainda pior, a Doutrina Monroe teve uma emenda denominada “Corolário Roosevelt”, em alusão ao presidente Theodore Roosevelt (1901 a 1909), justificando o uso da força para os EUA cometerem todos os tipos de atrocidades na já propalada “América para os americanos”.
As intervenções políticas, econômicas e militares dos EUA receberam a pomposa denominação de “Big Stick” ou “Grande Porrete”, autorizando a violência.
Alternando coerção e consenso, o imperialismo estadunidense criou também nomes amenos para disfarçar o uso da violência no processo de dominação, trocando o uso da força pela diplomacia. Foi assim na chamada “Política da Boa Vizinhança”, durante o mandato do presidente Franklin Delano Roosevelt (1933 a 1945), que vinha a ser primo de Theodore Roosevelt.

Esse período foi marcado pelo forte investimento em cinema, música e rádio, visando ainda buscar adesão para os EUAna II Guerra Mundial. Assim, duas gigantescas redes de comunicação – a CBS (Columbia Broadcasting System) e a NBC (National Broadcasting Company) – criaram, respectivamente, a “A Rede das Américas” e a “Cadeia Panamericana”, veiculando programas jornalísticos, de humor, musicais e talk shows com a participação de artistas latino-americanos.
Músicas de cunho ufanista, como “Aquarela do Brasil”, de Ari Barroso, lançada em 1939, exaltavam os valores nacionalistas, chegando a entrar no circuito da Disney no filme “Saludos Amigos”: “Brasil / Meu Brasil brasileiro / Meu mulato inzoneiro / Vou cantar-te nos meus versos / O Brasil, samba que dá / Bamboleio que faz gingar / O Brasil do meu amor / Terra de Nosso Senhor”.
A “Política da Boa Vizinhança” adicionou um forte investimento no radiojornalismo, associando uma multinacional estadunidense do petróleo ao noticiário. As grandes emissoras em 15 países latino-americanos reproduziam diariamente o programa “Repórter Esso”, criado em 1930, sob patrocínio da Standard Oil Company of Brazil (Esso) e produção da agência de notícias UPI (United Press International).
O Repórter Esso foi veiculado no Brasil de 1941 até 1968 (no rádio) e na TV de 1952 até 1970. Aparentemente um radiojornal “neutro” ou “imparcial”, o Repórter Esso era uma das melhores traduções do bom vizinho EUA, utilizando o jornalismo como propaganda de guerra anticomunista.
Uma das etapas de explosão da industria cultural estadunidense ocorreu durante o chamado “American way of life” ou “Modo de vida americano”, demarcado a partir do fim da II Guerra Mundial, em 1945. Foi o tempo da explosão do consumismo, uma forma comportamental do capitalismo. Existir significava comprar, um ideal de estar no mundo associado ao padrão de felicidade. O sonho americano era realizado na aquisição até supérflua de bens materiais.

O cinema teve um papel fundamental nesse processo, ao projetar o padrão da família estadunidense feliz, dotada de mercadorias, simbolizando liberdade, democracia e individualismo. O componente religioso introduzido pela Teologia da Prosperidade amalgamou o sucesso do modo de vida americano.
A publicidade das mercadorias e a propaganda do consumo eram visualizadas não só na televisão, mas nos cartazes, catálogos, anúncios impressos, no design das lojas, nos modelos dos carros, nos portfólios das casas próprias com jardim, garagem, eletrodomésticos e a família realizada.
Para a felicidade geral interna dos EUA prosperar, outras pessoas mundo afora sofriam violências generalizadas, fruto da cobiça imperialista. O jogo de alternâncias entre a coerção e o consenso trouxe de volta a violência como forma de dominação. Nos anos 1960 entrava em curso a “Aliança para o progresso”, iniciada no rápido mandato do presidente Jonh Fitzgerald Kennedy, continuada pelos seus sucessores. Os EUA colaboravam direta ou indiretamente com os golpes militares na América Latina, sob o pretexto de “afastar o perigo comunista”, especialmente no contexto da Revolução Cubana de 1959.
Já nos anos 1980 o cinema retoma os roteiros sobre as figuras dos heróis patriotas que honram a defesa dos valores estadunidenses. Se no passado Jonh Wayne era o exterminador de índios, a série de filmes Rambo (Sylvester Stallone) e do matador Arnold Schwarzenegger representam as novas máquinas de guerra cinematográficas do imperialismo.

Assim, os dois brutamontes protagonizam massacres contra populações latino-americanas estigmatizadas como terroristas e traficantes, formando gerações de pessoas na cultura da violência armamentista e na superioridade dos heróis estadunidenses.
Quando mandou invadir a Venezuela para sequestrar o presidente Nicolás Maduro, o ditador Donald Trump incorporou o ideal tipo do cawboy Ronald Regan, o ator de cinema que virou presidente dos EUA (1981-1989) e foi protagonista, ainda nos anos 1980, do que hoje se atualiza com a denominação “Movimento Maga (Make American Great Again)”
Hollywood e a Disney produziram uma enxurrada de enlatados que fizeram a cabeça de gerações latino-americanas estereotipadas pela inferioridade e submissão diante da grande nação vitoriosa chamada Estados Unidos.
Não só os adultos foram colonizados por esse lixo cultural. Crianças e adolescentes tiveram a sua formação espiritual lesada pelo egoísmo do Tio Patinhas, um bicho abjeto, megalomaníaco, avarento e capaz de qualquer coisa para se dar bem.

Ao avesso do Tio Patinhas, o cinema na “Política da Boa Vizinhança” criou a personagem Zé Carioca, um papagaio “brasileiro” estereotipado pela preguiça e malandragem.
Em tempos de Movimento Maga, volta à cena a narrativa sobre como fazer a América grande novamente. Agora pilotado por Donald Trump, o novo Tio Patinhas, os EUA buscam culpados para o seu fracasso cultural e econômico.
Mistura de Adolf Hitler e Tio Patinhas, Donald Trump culpa os imigrantes. Eles precisam ser exterminados. Soma-se a essa desumanidade a política de protecionismo econômico e promoção dos valores tradicionais. Deus, pátria, família, homofobia, racismo, supremacia branca etc compõem essa trama bizarra.
A velha indústria cultural está viva e pulsante, desta feita sob o comando das Big Techs, nova versão de Hollywood e da Disney, turbinadas pelas plataformas digitais.
Vivemos o tempo da abundância e da desinformação, sendo esta uma nova arma de destruição em massa dos cérebros. Somada às bombas, drones e mísseis, submarinos e caças, a mentira é a máquina de guerra mais poderosa do mundo contemporâneo.
Atravessando dois séculos, do Destino Manifesto ao Movimento Maga, os Estados Unidos enfrentam uma crise interna (inflação) e externa (a multipolaridade). O todo poderoso império americano exerce o poder diante de um novo gigante – a China.
Em outros tempos, Donald Trump iria destruir a Venezuela sem qualquer tipo de alternativa militar ou econômica. No cenário atual, a Venezuela tem com quem dialogar e negociar. A Rússia e a China repartem o poder no mundo multipolar. O xerife Donald Trump não governa mais o mundo sozinho.