Categorias
Literatura

Testamento de Judas 2026, por Cesar Teixeira

A triste sina do Judas
por muito o povo alegrou
como folclore, vingança
por dedurar o Senhor.
E assim, em noite de Lua,
crianças brincavam na rua
me chamando “traidor”.

Mas na malhação cristã
a história agora muda:
sou eu quem fui o traído
neste meu papel de Judas.
Ninguém me bota no poste
e nem ri, mesmo que goste 
destas rimas cabeludas.

Por esses quarenta anos
que a democracia dura,
lá no Museu da República
deixo o bronze da rasura.
Sarney foi só contrapeso
para um Tancredo indefeso
no balcão da ditadura.

Ele sempre diz ter feito 
a transição democrática,
sem falar de quem lutou
e deu o sangue na prática.
Não esteve nas Diretas,
mas reescreve incompleta
a sua história lunática.

Como ficou preso em casa
depois de uma “gripezinha”,
vou deixar pro Bolsonaro
uma ferramentazinha
de abrir tornozeleira,
mas, se fugir pra fronteira,
vai voltar pra Papudinha.

Deixo ao Antônio Guerreiro
uma propina maneira
pra rachar com Belchior
e Lúcio Penha Ferreira.
Essa venda de sentenças
já tem nome na imprensa:
Tribunal da roubalheira.

Vou deixar Caldo Knorr
para Manoel Galinha,
tempero judicial
não se compra na Feirinha.
Lá dentro do galinheiro
a PF achou dinheiro
e até armas na cozinha.

Deixarei um GPS
pra NASA não pegar multa
se esquecer lá na Lua
peças da ciência inculta.
Trump não faria falta
se fosse um astronauta
perdido na face oculta.

Com a invasão do Irã,
Pato Donald é culpado
pelo aumento do diesel,
cerveja, pão e guisado.
No Xirizal do Oscar Frota
até preço de xoxota
já está adulterado.

Deixo pro Netanyahu
a bacia de Pilatos
pra lavar os seus pecados
e os seus crimes. De fato,
o Mar Vermelho que mina
é o sangue da Palestina
na guerra dos insensatos.

Já deixei uma emenda
de dois milhões na varanda,
mas as cadeiras de rodas
sumiram numa quitanda.
Pro governo proxeneta
do Brandão deixo muletas,
que é pra ver se ele anda.

Meu velho computador,
que virou sucata incerta,
vou deixar na oficina
do Djalma Boca Aberta.
Esse cara é trambiqueiro,
suja as mãos com o dinheiro
daquilo que não conserta.

A trama do Agronegócio
é intoxicar a paz
de quilombolas, indígenas,
crianças e animais.
Utilizando aviões 
envenena as plantações 
só pensando em lucrar mais. 

Minha tese de Mestrado
na Godofredo eu vou ler.
É lá que eu bebo e encontro
um pão-cheio pra comer.
Sei que estou reprovado
nessa Faculdade ao lado,
que detesta MPB.

Porém deixo uma lista
pra boêmio e pra doutor:
tem o Butiquim do Carlos 
e Ao Redor tem o Bistrô;
tem Candinha de Bigode,
Rock’tanda com pagode,
Caipirinha e tambor.

Não há traidor da pátria 
como o Flávio Rachadinha,
que faz selfie nos States
com papos de mentirinha.
Quer rifar as terras raras
e até cartas ignaras
de Pero Vaz de Caminha.

Para o deputado Nikolas
não morrer feito catraio,
em sua cabeça oca
vou deixar um para-raios.
São duas antenas finas
pra proteger sua crina
da linha de papagaio.

Deixarei ao Flávio Dino
o aplauso da orfandade,
contra a farra das emendas 
de secreta identidade.
Fechando a boca do caixa,
o Brasil abriu a faixa:
Transparência é liberdade!

Estas lágrimas que caem
e descem pela sarjeta
são os versos esquecidos
de invisível caneta 
para um boneco de pano,
migalhas do desengano
caídas de uma gaveta.

Meu destino no Inferno
o Capeta encomendou,
porém sei que a brincadeira
lá no Céu não acabou.
Patativa e Nélson Brito
vão tocar fogo infinito 
neste Judas falador.

EnFIM

Compartilhar

Deixe um comentário