A crônica abaixo foi escrita pelo escritor, poeta e jornalista Olavo Bilac para o primeiro número da revista Kosmos, em 1904. Maravilhado com a dinâmica das mudanças tecnológicas, Bilac antecipa o cenário que levaria ao surgimento da televisão, mas advertindo que os novos inventos poderiam decretar a morte do livro.
Se Bilac estivesse vivo hoje, ele faria um texto semelhante sobre a ameaça da Internet para o velho suporte de papel?
Segue a crônica.
Mais de quatro séculos nos separam do tempo em que os impressores de Moguncia e Strasburgo – espalhando pela Europa algumas folhas volantes, com as notícias da guerra entre gregos e turcos e das victórias do Sultão Mahotmet II – crearam o veículo rápido do pensamento humano, a que se deu depois este curto, mágico, prestigioso e expressivo nome: “jornal”. Aquelles boletins dos discípulos e continuadores de Guttemberg foram, de facto, o núcleo gerador d’esta immensa e dilatada imprensa de informação, que avassalla a terra, dirigindo todo o movimento commercial, político e artístico da humanidade, pondo ao seu próprio serviço, à medida que aparecem, todas as conquistas da civilização, aumentando e firmando de anno em anno o seu domínio – e chegando a ameaçar de morte a indústria do livro, como acabam de confessar a um redactor de ‘La Revue’ todos os grandes editores da capital franceza.
Quem está matando o livro não é pròpriamente o jornal: e, sim, a revista, sua irmã mais moça, cujos progressos, no século passado e neste começo de século, são de uma evidencia maravilhosa. Mas o “jornal” e a “revista” confundem-se, formando juntos a província maior da imprensa, e aperfeiçoando-se juntos, numa evolução contínua, que ninguém pode prever quando nem como alcançará o seu último e summo estadio.
Justamente, agora, nos últimos dias de 1903, dois physicos francezes, Gaumont e Decaux, acabam de achar uma engenhosa combinação do phonographo e do cinematographo – o chronophono -, que talvez ainda venha a revolucionar a indústria da imprensa diária e periódica. Diante do apparelho, uma pessoa pronuncia um discurso: o chronophono recebe e guarda esse discurso, e, d’ahi a pouco, não somente repete todas as suas phrases, como reproduz, sobre uma tela branca, a figura do orador, a sua physionomia, os seus gestos, a expressão de sua face, a mobilidade dos seus olhos e dos seus lábios.
Talvez o jornal futuro seja uma applicação desta descoberta… A atividade humana aumenta, n’uma progressão pasmosa. Já os homens de hoje são forçados a pensar e a executar, em um minuto, o que os seus avós pensavam e executavam em uma hora. A vida moderna é feita de relâmpagos no cérebro, e de rufos de febre no sangue. O livro está morrendo, justamente porque já pouca gente pode consagrar um dia todo, ou ainda uma hora toda, à leitura de cem páginas impressas sobre o mesmo assumpto. Talvez o jornal futuro – para attender à pressa, à ansiedade, à exigência furiosa de informações completas, instantâneas e multiplicadas – seja um jornal fallado, e illustrado com projeções animatographicas, dando, a um só tempo, a impressão auditiva e visual dos acontecimentos, dos desastres, das catastrophes, das festas, de todas as scenas alegres ou tristes, sérias ou fúteis, d’esta interminável e complicada comédia, que vivemos a representar no immenso tablado do planeta…
Por agora – enquanto não chega essa era de supremo progresso -, contentemo-nos com o que temos, que já não é pouco…
[Extraída de Poesias, de Olavo Bilac, organização e prefácio de Ivan Teixeira, Editora Martins Fontes, São Paulo, 1997]
Publicado em 31 de dezembro de 2005
Fonte: Revista Educação Pública