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Os passarinhos no inverno russo de Maksim Górki

A vida sofrida do escritor russo Maksim Górki, relatada no livro autobiográfico “Infância”, tem passagens encantadoras em meio a tanta pobreza e desesperança. No trecho abaixo, o escritor descreve um raro momento de beleza e descontração no ambiente de tanto sofrimento.

“Certa vez, num sábado, de manhã cedinho, fui à horta de Petrovna caçar piscos-chilreiros; fiquei muito tempo caçando, mas os orgulhosos passarinhos de peito vermelho não caíam na armadilha; provocando-me com a sua beleza, passeavam alegremente pela crosta de neve congelada e cor de prata, alçavam voo para os ramos dos arbustos, revestidos com o agasalho da geada, e ali se balançavam como flores vivas, desprendendo azuladas faíscas de neve. Era tão bonito que o fracasso da caçada não me irritava; eu não era um caçador muito apaixonado, o processo sempre me dava mais prazer do que o resultado; eu gostava de ver como os passarinhos viviam e de pensar sobre eles.

Era bom ficar sentado sozinho na margem do campo nevado, ouvindo como os pássaros chilreavam no silêncio cristalino do dia gélido, enquanto aos longe cantava e voava a sineta de uma troica de passagem, a tristonha cotovia do inverno russo…”