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Literatura

A escrita visceral de Maksim Górki

Acabei hoje a leitura de “Infância”, do escritor russo Maksim Górki, publicado entre 1913-1914.

A obra é um relato autobiográfico do autor, baseado nas suas memórias da infância pobre na Rússia dos czares autocráticos, com poderes divinos, enquanto a maioria da população vivia em meio à fome, desemprego e falta de perspectivas.

As tragédias constantes na infância do escritor atravessam as páginas do livro. No trecho copiado abaixo, ele narra uma passagem do estado de quase inanição do seu irmão recém-nascido (Kólia) e do quadro depressivo da sua mãe, prestes a morrer, castigada verbalmente pelo pai (avô de Górki) amargurado e carrancudo.

“Eu pegava o Kólia, ele gemia e se esticava na direção da mesa. A mãe se levantava, vinha ofegante ao meu encontro, estendia os braços secos e sem carnes, comprida, fina, que nem um pinheiro com os galhos quebrados.

Ela havia emudecido de todo, raramente dizia alguma palavra com a sua voz febril, passava o dia inteiro deitada em silêncio, num canto, para morrer. Que ela ia morrer, isso eu, afinal, senti e compreendi, e o avô, com demasiada frequência e de maneira importuna, falava sobre a morte, sobretudo à noite, quando o pátio ficava escuro e, através da janela, escorria quente, como uma pele de ovelha, um cheiro gordo de podridão.” (Górki, Maksim. Infância. São Paulo: Abril, 2010. p. 290)

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