Eloy Melonio
“Tamo chegando/Tchan tchan tchan”
“Tamo chegando/Tchan tchan tchan”
Esses versinhos animados eram cantados pelas minhas filhas de seis e sete anos quando estávamos perto do nosso destino. Adivinhe aonde estávamos chegando!
Quarenta anos depois, na última quinta-feira de abril (2026), eu e minha esposa estávamos numa situação idêntica: no carro, tentando cantar alguma coisa para distrair o cansaço. Nesse dia, chegamos em casa às 12h50, depois de uma manhã que invadiu a nossa tarde. Esperávamos estar de volta às 10h30, mas… Depois de concluídos seus exames médicos, ela estava, enfim, liberada. A caminho de casa, o sol do início da tarde tinia, o trânsito daquele jeito, quase parando. Antes de casa, uma paradinha na feira do bairro, e só.
Em casa, era como se tivéssemos chegado a uma recepção. O Léo e a Fany (papagaio e cadela) esperavam por nós como quem espera um visitante ilustre. Com essa acolhida, a certeza de que estar em casa nos bastava. Mesmo se nada tivéssemos para comer, o pão de ontem seria caviar no almoço de hoje.
Existe melhor lugar que a nossa casa? “Não e não” — minha resposta para mim mesmo e para o mundo. E aí comecei a tecer esta crônica. Já escrevera sobre muitas coisas, mas nem uma palavra sobre o nosso “ninho” era inaceitável.
E logo me veio à cabeça “Lar, Doce Lar”, quadro do programa “Domingão com Huck” (REDE GLOBO) em que uma pessoa é sorteada para ter a sua casa reformada. O verbo “agradecer” entra em cena e dá um show de felicidade. A alegria dos sortudos quase não cabe na tela da tevê. Mas a felicidade cabe no coração de cada uma dessas pessoas.
Um estímulo me incita a parafrasear estes versos do poeta português Antônio Nobre (1867-1900): “Felicidade! Felicidade!/ Ai quem me dera na minha mão!/ Um lar de verdade,/ Com paz e amor no coração” (Só [e-Book]/ 2015).
Do poder público, o “Minha Casa, Minha Vida” já entregou milhares de casas próprias. Imagine uma família que sempre morou de aluguel entrando numa casa que pode chamar de sua. Vivi essa experiência em 1980, quando me mudei para “minha” casa num conjunto da Cohab, saindo de uma porta-e-janela alugada para uma casa com terraço, quintal e demais dependências.
No GLOBO REPÓRTER de 17 de abril deste ano (2026), um tema interessante: “influenciadores digitais”. Chamou a minha atenção o fato de que muitos deles trabalham de casa. Cercados da família, num ambiente aconchegante. Entre eles, o rapaz da Rocinha, favela do Rio de Janeiro, ganhou meus aplausos porque, apesar de jovem, seu foco era a sua família. Moravam de aluguel, mas ele já estava construindo a sua casa no padrão dos seus sonhos. Percebi que, em seu coração, nascia um lar.
Chegar em casa não é apenas chegar ao nosso cantinho, onde estão as pessoas e as coisas de que gostamos. É, na verdade, desfrutar a intimidade das nossas conversas, rir das nossas gargalhadas, pisar no chão onde mora o nosso coração.
Quando uso o termo “lar”, a ideia é uma só, especialmente, se “uma for várias coisas juntas e misturadas”, como descreve Casimiro de Abreu: “Eis meu lar, minha casa, meus amores” (No Lar/1859). Palavras simples, emolduradas de intenso lirismo.
Tenho muitas histórias sobre as casas onde morei depois de casado. Umas por mais tempo que outras. Em todas, um refúgio onde o tempo parecia não querer ir embora. Precisamente seis, e, nesta última, felizmente, reside o descanso de um lar para o resto das nossas vidas.
Essa certeza é quase uma oração, especialmente, quando penso na música “De Volta pro Aconchego”: “Estou de volta pro meu aconchego/ Trazendo na mala bastante saudade” (Elba Ramalho/1985). Nesse abraço com a saudade, divido com a artista esse sentimento de estar no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas.
Pois é! Nessa vibe sentimental, um versinho soa-me inesquecível: “Easy like Sunday morning” (“Tranquilo como um domingo de manhã” [tradução minha]), de Lionel Ritchie/1977). Estar no aconchego do lar, seja qual for o dia ou a hora, sempre é muito bom. Mas, se for num domingo — como dizem os abençoados, — “é uma bênção”.
Voltando ao início desta crônica, você já sabe aonde estávamos chegando?
Ninguém duvida que, para qualquer criança pequena, ir para a escola é pura diversão. Voltar para casa — mesmo cansada e com fome — é o maior barato. E, se quiser seguir o exemplo das crianças, fique à vontade quando estiver chegando do trabalho ou de qualquer compromisso longe de casa: “Tô chegando/ Tchan tchan tchan”.
Eloy Melonio é poeta, escritor e compositor