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RECEITA DE MÃE

Maria, Zilda, Dulce, Chiquinha, Arcângela, Fernanda, Elza.

Esta crônica é uma adaptação de “Receita de Mulher”, ensaio publicado no blog do ED WILSON, em 2020, no qual falo de Vinícius de Moraes e de sua “exigência estética” com relação às mulheres. E acho que mandei bem. Porque, hoje, a mulher é muito mais que um corpo atraente ao sutil olhar masculino.

Nesta nova receita, falo da mulher e da maternidade — sua mais perfeita “tradução”.

Em seu “Receita de Mulher”, de 1959, Vinicius traduz um olhar sensual, típico do boêmio de sua época. Em sua visão estética, “nádegas” e “saboneteiras” sobressaiam aos outros membros do corpo feminino. E ele está perdoado por isso, posto que esse poema é uma estupenda peça literária. É inegável que a mulher sempre ocupou espaço privilegiado na poesia, na música romântica e nas cenas de qualquer lovestory. Um cenário em que ela é geralmente apresentada como musa, sedutora, amada, amante.

Mas nada disso supera sua disposição para carregar em seu ventre, por nove meses, mais um membro da família, e mais “um alguém para a multidão”. Além disso, vale destacar aquase esquecida “companheira”, expressão bíblica para a primeira mulher, que, muitas vezes, mesmo com emprego, é dona de casa em tempo integral.

É notório que a mulher hoje pisa e repisa os estereótipos impostos pela tradição machista. Já destronou o famigerado “sexo frágil” e o cambaleante “Por trás de um grande homem…”. E consolida sua posição em busca de mais direitos, mais oportunidades. Mas ainda tem uma lista considerável de “pedrinhas” para tirar do meio do caminho.

E quanto aos oito nomes da primeira linha desta crônica?

Apesar da escolha aleatória, são mulheres reconhecidas e, algumas delas, homenageadas por sua representatividade no universo político-social. Se adicionarmos a cada nome um título ou sobrenome, serão facilmente reconhecidas. E, assim, temos: Maria “da Penha”, Zilda “Arns”, “Irmã” Dulce, Chiquinha “Gonzaga”, (…), Fernanda “Montenegro”, Elza “Soares”.

Essa lista não significa que elas sejam as mais representativas. São apenas exemplos, pois o que importa aqui é a sua atitude diante dos desafios da vida e do mundo.

Uma delas você certamente não conseguiu identificar (…). E por que está nessa lista?

Porque, mesmo anônima, foi, para a sua família, exemplo de força, caráter, dignidade. E, hoje, nesta data tão significativa (Dia das Mães), sua receita pode ser copiada com todos os seus ingredientes.

Essa mulher — física e socialmente — está longe do perfil idealizado pelo poetinha. Mas era uma “guerreira”. Analfabeta, acordava cedo para preparar os filhos para a escola. Fazia “de tudo” em casa. Criou cinco dos nove filhos de sua prole. Suas “nádegas” não eram bonitas, pois se sentava ao chão para quebrar coco babaçu e ajudar na renda da família. Em vez de “saboneteiras”, braços e os ombros fortes. E as mãos calejadas de lavar roupa com sabão em barra.

Para mim, de todas as suas qualidades, uma era — e sempre será — inefável: ser Mãe.

Natural de São Vicente de Férrer-MA, Arcângela Melonio era uma modesta dona de casa, e — acima de tudo — trabalhadora, honrada, abnegada. A eterna companheira de vida e túmulo de Seu Manoel Rodrigues, meu pai. E qualificada a entrar em qualquer lista de mulheres virtuosas de hoje e de todos os tempos.

Crônica de Eloy Melonio, adaptada do ensaio RECEITA DE MULHER, publicado no blog do Ed Wilson, em 2020

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